A Série
é uma estrutura? Eco x Levi-Strauss
Por Aldo
de Oliveira Cardoso, Nov. de 2003
O presente
artigo sustentar-se-á de uma antiga discussão entre o estruturalismo como
corrente filosófica e o pensamento serial em música referindo-se principalmente
à poética de Pierre Boulez que deu forma final ao pensamento serial integral.
Utilizarei-me praticamente de dois importantes textos históricos, a saber: A
abertura do Le cruit e le cuit de Levi- Strauss e Pensée structurale
e pensée sérielle de Umberto Eco, e tratar-se-á, então, dos diferentes
pensamentos entre os dois filósofos.
Não é objetivo explicar em pormenores o estruturalismo aqui neste
trabalho, mas sinto a necessidade de algumas páginas introdutórias para a
compreensão do pensamento estrutural na música serial e na primeira fase da
música eletroacústica a chamada música eletrônica.
O estruturalismo não pertence a um ou
outro domínio em particular, tal corrente filosófica foi uma manifestação, um
modo de se pensar em vários domínios do pensamento, tais como; a lingüística, a
antropologia, a psicanálise, a economia, na música e em diversos outros
domínios.
O fervor do pensamento estrutural se
deu principalmente no período que se estendeu do pós-segunda-guerra até
aproximadamente início da década de 80.
A série é uma estrutura: Levi-Strauss x Eco
Se olharmos historicamente para os primórdios do pensamento estrutural,
vemos que Saussure morre em 1913, logo depois, em 1914 alguns de seus alunos
publicam o “Curso de lingüística geral” e que Schoenberg três anos desta
publicação já demonstra em seu tratado de Harmonia o que seria denominado de
dodecafonismo em 1923[1].
A série de doze notas começa a ser a estrutura fundamental para a construção do
material musical e no uso deste para a organização da composição. E logo após,
seus discípulos Berg e Webern utilizam-se da série, cada um ao seu modo, na
composição musical. Ocorre então, nesta música, o que Adorno (Adorno, 2002)
chamou de objetivação estética, ou seja, a música ela mesma tornando-se mais
objetiva e menos subjetiva. E como veremos, esta afirmação adorniana será
observada em pormenores no que tange o pensamento serial e estrutural.
Para Levy-Strauss toda linguagem opera em dois níveis[2],
em deles é o nível estrutural e fundamental, o outro é superficial que seria
resultante fenomenológico da sintaxe do primeiro. Entretanto, na música,
somente o primeiro nível é lingüístico onde há a sintaxe e o modo
organizacional. O outro nível, o que se dá no fenômeno da escuta é
a-lingüístico, mas estes dois níveis podem contrapor-se, entrelaçar-se e estão
em constante tensão. Na música serial, para o autor, pretendeu-se trabalhar
apenas sob o nível lingüístico não tendo como objetivo a necessidade de se preocupar
com segundo nível, o fenomenológico, o “natural”. Já outras formas de
composições contemporâneas optaram pelo segundo nível, onde o fenômeno estava
deveras e demasiado na superfície da escuta e a composição era, muitas vezes,
destituída de estruturação.
Esse nível de organização do qual fala Levi-Strauss está embutido na
organização da composição pela série. No discurso no campo das alturas no
dodecafonismo schoenberguiano, e no discurso dos vários outros parâmetros
musicais no serialismo integral, a saber: ritmo, dinâmica intensidade, formas
de ataque, e até o timbre como no caso do Studie
II de Stokhausen. Tanto no primeiro como no segundo serialismo a sintaxe
emerge da construção musical pelo uso da série que é a estrutura mais
fundamental para este tipo de composição.
Quando Adorno (Adorno, 2002:19) diz das críticas sobre a nova música,
Schoenberg e seu dicípulos, com segue:
Entre as
críticas que eles repetem monotonamente, a mais difundida é a do
intelectualismo: a nova música nasce do cérebro, não do coração ou do ouvido;
não se deve imaginá-la verdadeiramente em sua realidade sonora, mas somente
avaliá-la no papel. A mesquinhez dessas frases é evidente...
Adorno considera esse argumento, implícito nas
críticas ao dodecafonismo, como argumentos infundados, já que, para ele, a
própria tradição musical ocidental desembocou no dodecafonismo e ocorrendo como
um salto qualitativo. E diz que tal argumentação é calcada na ignorância do
ouvinte perante a música dodecafônica.
Mas agora voltando para Levi-Strauss podemos detectar
onde reside tal crítica de Adorno sobre as críticas acerca da música nova,
valendo ressaltar que o texto sobre Schoenberg foi terminado em 1941 e o
restante do livro foi concluído após a segunda guerra. Voltando aos dois níveis
da linguagem de Levi-Strauss observamos que a sintaxe serial, suas estruturas
primordiais, não emergem fenomenologicamente na escuta, todavia as estruturas
seriais geram uma escuta outra e sem a necessidade de identificação auditiva de
como a série foi espalhada em suas 48 possibilidades de aparições e em suas
diversas formas de espalhamento; melódica, harmônica, contrapontística etc.
Seria ingenuidade Adorno argumentar que se pode identificar na audição o
primeiro nível lingüístico do que propõe Levi-Strauss, pois nesse sentido é
necessária a partitura, uma análise pormenorizada e fora do tempo musical para
identificar os espalhamentos seriais em todas suas possíveis aparições.
Portanto nesse sentido, no primeiro nível de Strauss, a crítica à música nova tem
fundamento.
Tal pensamento que remete a este binarismo
linguístico, mas direcionado pode ser visto em outras obras de Levi-Strauss
(doravante, L-S) como no primeiro capítulo do
La pensée Sauvage e na Introdution à l’oeuvre de Marcel Mauss
(Melquior, 1975), e na caso da música será mais detalhado na abertura do Le cru et le cruit. O Significante
flutuante[3]
é o termo que permeia tais obras de L-S, esta idéia está ligada a de função
simbólica que por sua vez está ligada ao conceito de comunicação sendo que as
estruturas sociais de comunicação, entre elas, a arte, tornam-se sistemas
simbólicos, a arte estaria então na que L-S chama de Significante Flutuante
situando-se na região intermediária entre a ciência e o pensamento mítico.
A visão de Umberto Eco sobre serialismo e
estruturalismo vai contra o pensamento de L-S, pois Eco diz que os dois
pensamentos não podem ser unívocos, já que a maneira de se usar a série, é de
modo polivalente com disse Boulez num texto histórico:
La série
est devenue um mode de pensée polyvalent... C’est donc une réaction totale
contre le pensée classique, qui veut
que la forme soit, pratiquement, une chose pré-existante, ainsi que la
morphologie générale.[4]
E a partir deste raciocínio, Eco vai desenvolvendo em
seu texto a diferença entre os dois tipos de pensar, o serial e o estrutural,
apontando os problemas no texto de L-S. Os probelmas principais podem ser
resumidos desta forma:
Os conceitos mais importantes do pensamento
estrutural seriam;
1)
Que a relação entre código e mensagem é consumada pela
decodificação da mensagem entre remetente e destinatário;
2)
Uma idéia de dupla articulação da língua, pelos eixos
saussurianos; sintagmático e paradigmático, onde uma primeira articulação gera
uma segunda;
3)
“A hipótese de que todo código repouse sobre a existência
de códigos menores”; (Eco, 1962, p. 47)
Já o
pensamento serial toma outro rumo, a saber:
1) “toda
mensagem põe em discussão o código” (idem, p. 48)
2) A
polivalência na construção da música serial integral põe em crise os eixos
saussurianos;
3) Não há
regressão para um “Ur-código”, ou seja, o pensamento serial procura produzir
e o estrutural[5],
descobrir.
À guisa de
conclusão podemos observar que na concepção lingüística de Eco, os dois tipos
de pensamentos não podem co-existir; o método de composição e ferramenta de
análise, pois como visto acima nos três itens, há disparidades entre código e
mensagem na construção serial, há uma quebra na dupla articulação da linguagem
e há ainda a impossibilidade de redução a um código mais fundamental no
pensamento serial, do qual Eco chama de Ur-código, e que para L-S poderia haver
uma dupla articulação, mas que a segunda poderia ser simbólica e subjetiva, o
que é sustentado pelo pensamento mítico de L-S, onde a música estaria entre a ciência
e o mito.
L-S
mostrou, mesmo com as lacunas apontadas por Eco, que há ao menos uma atitude
estrutural no serialismo musical, como houve em muitas áreas do conhecimento.
Mas Eco verificou que tal pensamento não poderia ser tão pormenorizado de modo
tal que os dois pensamentos pudessem ter exatas equivalências, desse modo ambos
os textos possuem importância para a relação entre série e estrutura.
[1] Harmonia, último capítulo.
[2] É importante ressaltar aqui que o pensamento estrutural de Levy-Strauss é binário, mostrando oposições tais como: sujeito e objeto, significante e significado e assim por diante.
[3] Para uma explanação detalhada de Significante flutuante, ver capítulo B de Melquior, 1975.
[4] Pierre Boulez (apud, Eco op. Cit) Relevés d’apprenti, Paris, Seuil, p. 297.
[5] Grifos do autor.