Tutorial sobre dB: O decibel

Logo que os sistemas de comunicação utilizando sinais elétricos começaram a desenvolver-se, surgiu a necessidade de se calcular e expressar a atenuação introduzida pelo meio de transmissão. Otimizar a transferência de potência para as cargas, identificar a potência mínima de sinal capaz de vencer o ruído presente no receptor e quantificar a perda de potência entre o transmissor e o receptor eram pontos cruciais no projeto dos sistemas.

Amplificação era algo difícil e caro, daí a preocupação com o fluxo de potência através das redes que trabalhavam sempre com a impedância da carga casada com a do amplificador para máxima transferência de potência.

Trabalhando desta forma, era fácil relacionar os níveis de tensão medidos com os de potência:

W = V2/R

Caso os níveis de tensão fossem medidos em pontos com impedâncias diferentes, seria necessário introduzir um fator de correção igual à relação entre as impedâncias para comparar as potências:

W1/W2 = (V12 /V22 ) . ( R2/R1)

Como há uma enorme variação nos níveis de potência, tensão, corrente e pressão sonora encontrados nos sistemas de comunicação e de áudio e nossos sentidos comportam-se de forma aproximadamente logarítmica, isto é, nossa percepção da variação da intensidade de um estímulo é proporcional ao estímulo já existente, definiu-se uma unidade logarítmica para formar-se uma escala de níveis de sinal, aplicada a níveis de potência ou grandezas cujo quadrado seja proporcional à potência. Esta unidade foi denominada bel (B), cujo plural é bels, em homenagem a Alexander Graham Bell (o inventor do telefone, 1847-1922), e apareceu por volta de 1920[1][2][4].

bel = log(W1/W0) , aqui log é o logaritmo na base 10

Como cada variação de 1 bel em nossa escala eqüivale a uma multiplicação por 10 do valor da potência, logo ficou claro que precisaríamos de um submúltiplo para mostrar com clareza variações menores. Foi definido então o decibel (dB), cujo plural pode ser decibéis ou decibels (segundo o dicionário Aurélio), de tal forma que teríamos uma variação de 10 dB para cada variação de 1 bel no nível de potência:

x decibéis = 10.log(W1/W0)

1 dB => 10.log (W/W0) = 1

log (W/W0) = 0,1 ou seja 0,1 Bel = 1 dB

W/W0 = 100,1 = 1,26

Esta também era aproximadamente a perda observada em uma milha de comprimento do cabo padrão usado em telefonia e coincidia com a chamada Unidade de transmissão (TU) definida em 1923 por W. H. Martin, dos laboratórios Bell, para unificar a menor variação acústica de sinal percebida nos receptores telefônicos, determinada por Harvey Fletcher e chamada de Unidade de Sensação (SU), com a perda elétrica medida em uma milha de cabo padrão. O nome decibel foi sacramentado com a publicação, em 1929, do artigo "Decibel, The Name for the Transmission Unit", pelo mesmo W.H. Martin, no Bell System Technical Journal [1].

É interessante notar que o argumento da função log é adimensional e o dB é uma unidade relativa, o que torna necessário especificar sempre a grandeza de referência.

Posteriormente, a escala em decibéis foi aplicada a diversas grandezas associadas à acústica e ao movimento vibratório, mas sempre mantendo sua ligação com a potência e energia dos sinais e sistemas, sendo o bel abandonado [2][3].

 

SISTEMA

Grandezas

Impedância / Admitância

Potência

Mecânico

Força f (Newtons)/ Velocidade v (m/s)

Z = f/v Y = v/f (mobilidade)

W = f.v = f2.Y=v2.Z

Elétrico

Tensão V (volts)/ Corrente i (ampères)

Z= V/i Y= i/V

W = V.i = V2/Z = V2.Y= i2/Y = i2.Z (para Z resistiva Z = R, ohms)

Acústico

Pressão p ( N/m2) / Velocidade Volumétrica U ( m3/s)

Z = p/U Y = U/p

W = p.U = p2/Z

 

 

Resumindo:

dB - usado para comparação entre potências. Eqüivale a 10.log (W / W0), onde W0 é a potência de referência especificada. Quando W = W0, temos o nível 0 dB.

Alguns níveis de referencia muito usados:

dBm - nível de potência de sinal elétrico : 10.log (W / W0), 0dBm = W0 =1mW ou 0,775V em 600 ohms

dBW - nível de potência de sinal elétrico : 10.log (W / W0), 0dBW = W0 = 1W

dB PWL ou Lw - nível de potência acústica: 10.log (W / W0), 0 dB PWL = W0 =10-12 W

dB IL ou LI - nível de intensidade acústica: 10.log (I / I0), 0 dB IL = I0 = 10-12 W/m2 (ANSI S1.8)

LD - nível de densidade de energia: 10.log (D / D0), 0 dB = D0 = 10-12 J/m3 (ANSI S1.8)

LE - nível de energia: 10.log (E / E0), 0 dB = E0 = 10-12 J (ANSI S1.8)

 

Para grandezas cujo quadrado seja proporcional à potência (tensão e corrente elétrica, pressão sonora e força ou velocidade ):

 

x dB = 20.log (V/V0), 20.log (i/i0), ou 20.log (p/p0).

 

Por exemplo:

dB SPL = Sound Pressure Level (Lp) = 20.log (p/p0), p0 = 20 µN/m² = 20 x 10-6 N/m2 = 2 x 10-5 N/m2 = 0,00002 N/m2 (ANSI S1.8)

dB(A) ou (LA) nível de pressão sonora (SPL), ponderada pela curva A, que simula a resposta do ouvido humano a 40dB-SPL

Nível de aceleração vibratória: La = 20.log (a/a0), a0 = 10-5 m/s2 (ANSI S1.8)

Nível de velocidade vibratória: Lv = 20.log (v/v0), v0 = 10-8 m/s (ANSI S1.8)

Nível de deslocamento vibratório: La = 20.log (d/d0), d0 = 10-11 m (ANSI S1.8)

Nível de força: La = 20.log (F/F0), F0 = 10-6 N (ANSI S1.8)

dBu - nível de tensão de sinal: 0dBu = 0,775V em qualquer impedância. Eqüivale a

20.log (V/0,775V).

dBV - nível de tensão de sinal. 0dBV = 1 V em qualquer impedância. Eqüivale a 20.log (V/1V).

 

Observações:

1 - Se uma massa mecânica m está realizando um movimento vibratório harmônico simples

X(t) = A . sen (w.t)

A velocidade será: v(t) = dX(t)/dt = wA . cos(w.t)

A aceleração será: a(t)= d2X(t)/dt2 = - w2 . A . sen(w.t)

A força atuando sobre a massa será: f(t) = m.a(t) = - m.w2 . A . sen(w.t)

Se multiplicarmos f por v para achar a potência, obteremos:

W(t) = - m.w3 . A2 . sen(w.t) .cos(w.t)

Cujo valor médio é zero, o que é coerente com a situação apresentada, já que a massa mecânica apenas armazena energia sob forma cinética (Ec = mv2/2 ).

O importante aqui é observar a relação da potência mecânica com o quadrado da amplitude de deslocamento A , o que justifica o uso para níveis de amplitude de deslocamento de sistemas vibrantes através da relação 20.log(d/d0), onde d0 é uma amplitude de referência ( ver quadro acima).

Num sistema real, a existência de perdas mecânicas (resistência) levará ao aparecimento de uma defasagem entre força e velocidade, a qual tornará a potência média diferente de zero e levará ao aparecimento de um fator de potência multiplicando o termo (- m.w3 . A2).

 

2 - O uso do multiplicador 20 na fórmula para achar o nível em dB de tensões, correntes e pressão sonora esta ligado ao fato da potência elétrica ou a intensidade acústica (potência/área) serem proporcionais ao quadrado das tensões, correntes ou pressão sonora, e a propriedade dos logaritmos que diz: log(x2) = 2log(x).

De fato, quando calculamos o valor em dB de uma razão de tensões estamos transformando esta razão em uma razão de potências.

Isto nos permite dizer, sem nos preocuparmos com a impedância em cada ponto, que quando aumentamos em 6 dB a pressão sonora aplicada a um microfone, sua tensão de saída aumentara de 6 dB, a tensão e a potência do amplificador também terão uma variação de 6 dB e a pressão sonora gerada pelo falante terá os mesmos 6 dB de acréscimo, se todos estiverem funcionando linearmente.

Outro motivo para esta transformação é que normalmente será mais fácil medir tensão, corrente ou pressão sonora que potência diretamente.

Combinando dB

A combinação de sinais em dB se forma sempre com base em sua potência ou
energia. Se você tem uma caixa cuja sensibilidade é de 103 dB SPL e outra
com sensibilidade de 100 dB SPL isto significa que a primeira é capaz de
gerar 3 dB a mais de potência acústica, ou o dobro, que a segunda, já que a
potência elétrica aplicada a ambas foi a mesma: 1 W e medimos o SPL à mesma distância: 1m.

Para somarmos os sinais de duas fontes devemos considerar suas relações de fase.

Para sinais sem nenhuma correlação, tais como fontes de ruído independentes,
somam-se as potências de ambos os sinais:



Lt = 10.log[ 10(L1/10) + 10(L2/10) ]

Para sinais senoidais com uma relação de fase conhecida teremos:

Lt = 10.log{ 10(L1/10) + 10(L2/10) + 2*[10(L1/20).10(L2/20)]cos(a1-a2)}

Onde

Lt = nível total em dB

L1 = nível em dB do sinal 1

L2 = nível em dB do sinal 2

a1 = fase do sinal 1

a2 = fase do sinal 2

Com os valores mencionados, obteremos cerca de 105 dB no primeiro caso e 108
dB no segundo, se a1=a2.

Para sinais como ruído ou música, o nível total deve se aproximar do
observado para sinais não correlacionados já que conseguir diferença de fase
zero será uma grande coincidência no espaço e tempo.


 Referências:

  1. Davis, Don; Davis, Carolyn;  Sound System Engineering; Howard W. Sams & Co, 2nd ed. 3rd print, 1989
  2. Kinsler, Lawrence E.; Frey, Austin R.; Coppens, Alan B.; Sanders, James V.;Fundamentals of Acoustics; John Wiley & Sons, Inc. 3rd ed.; 1982
  3. Beranek, L.L.;  Noise and Vibration Control, McGraw-Hill, 1971
  4. Crocker, Malcolm J., Price, A. J.; Noise and Noise Control; CRC Press, 1975

Copyright Alvaro C. de A. Neiva (1999-2006)


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