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Rio de Janeiro |
OS "CÃES-DE-GUARDA" DOS CHEFÕES DO
TRANSPORTE COLETIVO Eles parecem busófilos comuns, mas na verdade representam interesses dominantes
Eles aparecem na Internet como se fossem busófilos comuns. São narcisistas quanto aos pontos de vista que defendem, que no entanto são falhos e cheios de contradições. Mesmo assim, se acham "senhores" da objetividade, "donos da verdade" sem assumirem este rótulo, e se irritam quando alguém questiona sua abordagem quase sempre infeliz sobre o sistema de ônibus. Certamente eles usam nomes comuns, não raro apelidos, e na Internet, paraíso astral do anonimato ou do pseudonominato, e certamente não mostram sua origem nem sua classe social, como se eles fossem "tão humildes" e "comuns" quanto qualquer cidadão. Só que, por trás deles, existem interesses empresariais ou políticos em jogo, interesses das elites dominantes, dirigentes e privilegiadas. Eles são os "cães-de-guarda", internautas que se passam por cidadãos comuns para defender idéias absurdas, associadas aos interesses poderosos. Isso se vê em vários setores e atividades humanas. No rádio, por exemplo, há também esses tipos que defendem a Aemização das FMs - quando FMs praticam concorrência desleal usurpando o mesmo tipo de programação do rádio AM, sobretudo noticiário e esportes - e, na economia, é notória a defesa deles aos valores neoliberais, sem que o rótulo "neoliberal" seja levado em conta, no discurso. Eles defendem de tudo: de ídolos popularescos, pastores evangélicos corruptos e até gírias mesquinhas como "balada" (neste caso, por influência de algum empresário de boate ou figurão da TV). Mas esses "cães-de-guarda" são anteriores até à Internet. Desde que o mundo é mundo, eles existem. No passado recente, houve o Comando de Caça aos Comunistas, com universitários - aparentando jovens comuns, e se beneficiando da idéia generalizada de que todo jovem tem idéias avançadas - defendendo idéias direitistas e apoiando a ditadura militar. No ano de 1968, tornou-se histórico o conflito entre estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, de tendência esquerdista, e os estudantes da Faculdade de Direito da Fundação Mackenzie, de tendência direitista e ligada ao CCC. No confronto, ocorrido na Rua Maria Antônia, capital paulista, onde as duas faculdades eram vizinhas, houve alguns mortos. OS CÃES-DE-GUARDA DOS DONOS DO TRANSPORTE COLETIVO No caso do transporte coletivo, eles defendem idéias absurdas como o "sistema de pool", sob o pretexto mais fantasioso de "permitir o passageiro escolher a empresa que quer pegar". Eles também defendem idéias estranhas até ao interesse público, como a redução do número de ônibus circulando pelas ruas de uma cidade, pois a redução só iria agravar ainda mais a já rotineira superlotação dos ônibus. Muitas vezes, esses jovens "comuns" trabalham para empresas de ônibus, ocupam cargos políticos ou têm parentes ocupando, ou então são filhos de empresários de ônibus. Mas, no simulacro da realidade virtual, eles são apenas "pessoas simples", a defender aquilo que eles dizem ser "o interesse público", mas é na verdade interesse estritamente privado. Ora, sabemos que ninguém é pateta para esperar seu ônibus favorito envolvido na linha em pool. Sabe-se que os defensores desse (des)serviço de colocar uma linha de ônibus para ser operada por mais de uma empresa, disfarçando a irresponsabilidade de uma empresa pela irresponsabilidade de outras, ou representam os interesses das empresas envolvidas ou de políticos beneficiados, ou então são pessoas que não andam de ônibus ou, quando andam, pegam justamente o comboio dos ônibus da linha em pool que passam no momento que estão no ponto de ônibus, o mesmo comboio que num momento joga até cinco carros para circularem juntos de uma vez, iludindo certos passageiros, enquanto os retardatários, que perderam o comboio, ficam a esperar muito tempo pelo próximo ônibus. Ninguém escolhe empresa na linha em pool. Ninguém escolhe veículo ou serviço. Pega o que vem primeiro, podendo ser um ônibus sucateado. Infelizmente, o trânsito nas cidades não é essa coisa bonitinha, de contos de fadas, que os defensores dessas idéias absurdas de transporte - sistema de pool, "frotas reguladoras", redução de ônibus nas ruas, faixa exclusiva para ônibus - tanto acreditam. O trânsito é caótico, mesmo. Esses caras vão ficar ouvindo noticinha de FM nos seus carros, para se deleitar com os engarrafamentos dos outros (Av. Paulista, sobretudo), enquanto descansam nos seus engarrafamentos. Não vão pôr culpa nos supérfluos automóveis de dondocas, yuppies e playboys pelo engarrafamento, mas sim naqueles ônibus já escassos e superlotados, que, se depender da vontade desses "especialistas", ficam mais lotados ainda. E aí eles vêm com outras demagogias, tipo baldeação, que é pagar uma única passagem para pegar várias linhas. Coisa para turista ver e passear. Mas como é que, com menos ônibus nas ruas, os turistas vão conseguir um passeio aprazível pela cidade num veículo superlotado? E do jeito que estão os congestionamentos, as pístas exclusivas para ônibus de alguma maneira serão abertas um dia para automóveis e caminhões, ou pelo menos táxis e caminhões de carga a desembarcar nas lojas próximas. E assim o transporte coletivo continua desorganizado, confuso, enquanto os "cães-de-guarda" dos empresários de ônibus e dos políticos conservadores invadem a Internet esbanjando falsa humildade e despejando idéias absurdas e fórmulas mirabolantes que na prática só atrapalham ainda mais a já problemática realidade do transporte coletivo. |