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DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS AGORA ANDAM DE ÔNIBUS

SISTEMA DE POOL É UMA ESPÉCIE DE PROMISCUIDADE


Cartaz do filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), que o diretor Bruno Barreto adaptou da célebre obra de Jorge Amado, que fala da questão do triângulo amoroso.

"ATENÇÃO, BUSÓLOGOS E BUROCRATAS DO TRANSPORTE PÚBLICO: QUEREMOS SUAS ESPOSAS E NAMORADAS. COMPARTILHEM-NAS CONOSCO. DEIXEM-NAS EM NOSSOS BRAÇOS PARA QUE POSSAMOS NAMORÁ-LAS ENQUANTO VOCÊS SE ENCONTRAM BASTANTE OCUPADOS. SECRETÁRIOS DE TRANSPORTE, DÊEM-NOS SUAS ESPOSAS PARA QUE AS NAMOREMOS ENQUANTO VOCÊS TRABALHAM. ASSIM ELAS PODERÃO IR À PRAIA QUANDO VOCÊS NÃO PUDEREM IR."

Frase bombástica, que certamente irá irritar os interlocutores. Ela só é uma suposição, pois não estamos aqui pedindo para que busólogos, burocratas do transporte público e secretários de transporte ofereçam suas esposas para que nós, pessoas comuns, sejamos os namorados delas enquanto seus maridos estejam cumprindo seus compromissos profissionais.

Mas essa frase é bastante ilustrativa para o problema do sistema de pool nos ônibus. Todo mundo quer que uma mesma linha de ônibus seja compartilhada por mais de uma empresa. São feitos manifestos a favor, enquanto os manifestos contra o pool são tidos como "anti-sociais", sendo deixados de lado, ignorados com o mais sádico desdém. 

Mas, se perguntarmos para esses defensores do pool se, quando eles estiverem ocupados em seus compromissos pessoais, eles podem compartilhar suas esposas para nós, pessoas comuns, para assim preenchermos as demandas afetivas que elas não recebem então dos maridos, certamente estes dirão não, com a mesma intransigência com que, contraditoriamente, defendem o sistema de pool.

Lembrando que Salvador é uma das cidades onde o sistema de pool se torna, além de ineficaz, corrupto e abusivo, colocamos a foto do filme "Dona Flor e seus dois maridos", baseado na obra de Jorge Amado. A história em si fala de uma viúva que se casa novamente e não consegue esquecer o outro marido. A obra é uma alegoria à infidelidade conjugal. Na atual burocracia do sistema de ônibus brasileiro, há linhas de ônibus que podem ser tanto o "bebê" da parábola de Salomão quanto a "dona flor" do romance de Jorge Amado. Uma coisa indivisível que várias pessoas querem dividir.

NINGUÉM ESCOLHE O ÔNIBUS QUE IRÁ PEGAR: PEGA O QUE VEM PRIMEIRO, SEJA ELE BOM OU RUIM

O sistema de pool é assim: PROMISCUIDADE. Um serviço feito por dois sem a menor necessidade. Uma (ir)responsabilidade dividida. Uma falsa concorrência, pois NINGUÉM ESCOLHE A EMPRESA QUE VAI PEGAR, porque PEGA O ÔNIBUS QUE CHEGAR PRIMEIRO, seja o luxuoso frescão da empresa A, seja o trambolho caindo aos pedaços da empresa B.

Não é verdade, portanto, o que os defensores do sistema de pool dizem. Gente que não anda de ônibus e que só consegue admirar os ônibus do lado de fora, ou seja, sem utilizar o seu próprio serviço, eles imaginam que sistema de pool é como escolher um produto no supermercado. Mas isso não acontece. As pessoas que vão trabalhar não escolhem o ônibus que pegar. Pegam o que vier primeiro.

Imagine uma pessoa num ponto de ônibus. Ela quer ir imediatamente ao trabalho. Tem hora para chegar. De repente chegam três ônibus de uma linha em pool. Digamos que seja uma linha servida por duas empresas, A e B. A empresa A é a preferida dessa pessoa. Mas desses três ônibus que chegam quase ao mesmo tempo, dois da empresa B chegam primeiro e conseguem parar, enquanto o veículo da empresa A passa ao longe adiantando-se para pegar passageiros no ponto seguinte. A pessoa, por seu "direito" de escolha, além de ter sido "traída", no entanto terá que pegar o ônibus da empresa B ao seu alcance, sob pena de se atrasar para o serviço se esperar o próximo ônibus da empresa B, que virá no mínimo daqui a cinqüenta minutos, graças a esse comboio de três veículos que vieram de uma só vez.

NÃO HÁ MENOR NECESSIDADE DE DEMANDA PARA SERVIÇO EM POOL

Outra idéia discutível dos defensores de pool é a de que as demandas de um determinado bairro "precisam" de duas empresas para uma mesma linha. Isso é uma bobagem. A demanda quer é serviço responsável, e serviço responsável, no sistema de ônibus, se dá com uma só empresa, e aí cabe cobrarmos dela um serviço eficiente e exemplar. Colocando duas empresas, a concorrência desleal é inevitável e as autoridades municipais, por mais que esforcem, não conseguirão dar à linha em pool um serviço ao menos razoável.

Na comparação com a promiscuidade amorosa, esse controle das autoridades equivaleria a dizermos para o amante da mulher casada usar camisinha. "Eu deixo você até 'comer' minha mulher, desde que você use camisinha, da marca X, que não rasga com facilidade. Pode até engravidar, até porque, confesso, de vez em quando fico brocha". Imagine se você, busólogo que é casado, irá admitir uma hipótese dessas. Você com certeza não vai gostar, vai achar um desaforo e tudo o mais. Tudo bem, você é marido daquela mulher e certamente não quer que outro seja amante dela. Mas se você quer que a linha de ônibus seja operada por duas empresas, achando que isso vai compensar o serviço "brocha" de uma delas, então você caiu em contradição. A não ser que você seja daqueles homens que, com o mesmo radicalismo com que rejeitam a infidelidade de suas esposas, defendem a infidelidade deles mesmos.

Uma coisa é certa: linha de ônibus não é casa da mãe Joana para encher de empresa operando. Tem que ser um serviço único de cada empresa. Já existem um monte de linhas de ônibus para serem distribuídas cada uma para cada empresa. Querer uma fatia de uma linha servida por outra é gula. É, acima de tudo, promiscuidade. E isso em nada beneficia o cidadão. Pelo contrário, o sistema de pool, símbolo "busófilo" da Era Collor, só causou problemas, tantos que agora seus defensores agora falam em "vias exclusivas". Vão fazer o quê, destruir casas e transformar as cidades em um montão de avenidas com pistas seletivas? Pelo jeito, há quem quer ver o sistema de ônibus desgovernado, mesmo.

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