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POR MUITO POUCO, A SANTA IZABEL TEVE CONCESSÃO CASSADA

Empresas de Salvador (BA) cometem mais irregularidades e mantém alta reputação


DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS - A empresa Viação Santa Izabel, de São Gonçalo (RJ), teve seus serviços cassados pela Justiça carioca devido a irregularidades. No entanto, a Central Transportes, de Salvador (BA), comete muito mais irregularidades, e no entanto mantém alta reputação e ainda põe um de seus piores carros para aparecer num comercial de tevê. A foto da Santa Izabel é de Roberto Marinho de Souza, da Cia de Ônibus, e a da Central, de Aluízio "Calango" Cunha, do Buzlango.

"O sistema de transporte coletivo do Rio de Janeiro é o pior do país".

Comumente, muitas pessoas falam essa frase, quando lêem os jornais a respeito das queixas a respeito do sistema de ônibus fluminense. No entanto, tal constatação chega a ser exagerada.

Há muito mito em torno do sistema de ônibus no país. A grande imprensa, tão zelosa pela idéia de informar, é o que mais desinforma quando o assunto é sistema de ônibus. Os reais problemas não são diagnosticados, e mesmo irregularidades como o "pool" são vistas como "salvação da pátria" por muitos jornalistas ingênuos. Cria-se um moralismo que transforma o sistema de ônibus numa bagunça: se essa bagunça conseguir levar os trabalhadores da casa para o trabalho e vice-versa em poucos minutos, está perfeito.

O sistema de ônibus do Rio de Janeiro é até um dos melhores do país. É imperfeito e cheio de distorções, mas nada que se compare com outras capitais. O de São Paulo é bem pior e hoje em dia se tem dúvida que o transporte coletivo de Curitiba é realmente a perfeição que tanto falam.

Graças a tantas distorções, criou-se até um projeto ridículo de reformulação do sistema de ônibus carioca, chamado "Rio Bus", desenvolvido em 1998 pela Coppe/UFRJ e que felizmente foi engavetado, não sem provocar reação de seus responsáveis e adeptos que, com ataques de presunção, achavam que o projeto de reduzir a frota de ônibus pela metade e acabar com as linhas de ligação entre zonas iria salvar o transporte coletivo. Mais preocupados em apresentar projetos mirabolantes para seminários europeus sobre transporte, eles não imaginavam que o projeto, se implantado, faria o Rio reviver os momentos caóticos do transporte coletivo do ano de 1960, só que piorados. Até os lotações teriam sua versão contemporânea: as vans.

 
PRESTAÇÃO DE DESSERVIÇO AO PÚBLICO - A Capital abriu mão de sua bela identidade visual para adotar um visual branco sem-graça, como na foto à esquerda. Para piorar, a empresa praticou uma fraude, como visto na foto à direita, transformando um micro-ônibus urbano num falso "executivo", para arrecadar mais dinheiro com tarifa mais cara. As fotos foram extraídas do Buzu.Com.

O sistema de ônibus carioca/fluminense é tão exemplar que, quando há uma irregularidade, elas são devidamente queixadas. Dá a impressão de que está muito ruim, mas a verdade é que, quando está errado, os erros são mostrados devidamente.

Por isso, as constantes reclamações causam problemas para algumas empresas que cometem irregularidades. A Feital, empresa de fretamento surgida nos anos 80 e que, nos 90, arriscou as linhas municipais do Rio de Janeiro e intermunicipais de Itaguaí, fechou suas portas porque usava veículos velhos e sujos, havendo até filhotes de baratas andando pelas paredes.

Mas as reclamações atingiram outra empresa, a tradicional Santa Izabel, de São Gonçalo, cidade vizinha a Niterói. A empresa teve sua concessão de linhas cassada em 2006 por causa de descumprimento de normas como a renovação de frota.

Com isso, linhas intermunicipais como a 549M Santa Isabel / Niterói ficaram com a Fagundes (surgida como uma pequena empresa atuante em Monjolos, outro bairro gonçalense, e hoje ficou com quase todas as linhas gonçalenses da Rio Ita), e linhas municipais gonçalenses como a 01 Santa Isabel / Fórum, ficaram com a Alcântara, empresa surgida em 1968 de uma partilha da ABC e que, adquirida pela Mauá, foi extinta em 1977 e reativada em 1988. A Alcântara fazia linhas intermunicipais (para Niterói e Rio) antes de seu desaparecimento, mas quando reapareceu, se limitou a fazer apenas linhas de São Gonçalo.

A Santa Izabel havia sido adquirida pela empresa carioca Oriental, que chegou a emprestar carros para a empresa gonçalense. A Santa Izabel foi condenada a um ano de suspensão e, se não conseguir arcar com a situação, será extinta, o que é provável. Ironicamente, o nome remete à famosa santa, prima de Maria, mãe de Jesus Cristo, que teve uma vida bem longa.

"PARADISÍACA" SALVADOR TEM SISTEMA DE ÔNIBUS DESASTROSO

Um dos mitos que chegam a ser risíveis de tão ridículos é ver pessoas considerando o sistema de ônibus de Salvador (BA), com seus defeitos graves saltando aos olhos do público, "melhor" do que o sistema de ônibus carioca/fluminense. Aliás, Salvador é uma cidade com complexo de superioridade, usando o mito de "paraíso" para esconder problemas e atrasos que já coloca a capital baiana - apesar de toda a badalação do colunismo social em torno de seu carnaval - , no que diz ao desenvolvimento urbano, abaixo até de cidades tradicionalmente provincianas, mas esforçadas, como Natal e João Pessoa, que não fazem oba-oba na Quem Acontece nem no Band Folia, mas trabalham para ao menos não passarem vergonha diante das maiores potências urbanas nordestinas, Recife e Fortaleza.

De longe, o sistema de ônibus de Salvador chega a ser bem pior do que o fluminense. O grande problema é que a imprensa baiana não fala sequer de metade dos problemas dos ônibus soteropolitanos, apenas cria um simulacro de questionamento que investe sempre nos mesmos clichês: "ônibus superlotados, velhos, que demoram a chegar etc.".

Os ônibus de Salvador são um festival de erros. Os cobradores muitas vezes se recusam (com estarrecedora arrogância) a sentar em seus respectivos bancos, se comportando como se estivessem de folga, indo para seus bancos somente quando os ônibus ficam cheios. Erra-se muito na exibição do número de linha nas "bandeiras". Os assentos da maioria dos ônibus são em sua maioria feitos de fibra de vidro, duros e desconfortáveis. Pior: quando os fabricantes colocam almofadas nos bancos de fibra de vidro, as empresas baianas arrancam as almofadas.

A Central/Ondina - duas empresas que se comportam como irmãs siamesas, de uma forma mais grosseira que as cariocas Rubanil e América - são, de longe, as piores empresas de Salvador, junto à Capital. As três têm ônibus semi-novos sucateados, ônibus velhos sujos e também sucateados, e demoram a comprar ônibus novos, adquiridos com bancos de fibra de vidro que, em certos carros, são até escorregadios para se sentar.

A Capital, que abriu mão de um belo visual para adotar um visual branco apenas com pára-choques azul-claros, chega a fazer uma fraude, colocando micro-ônibus urbanos do modelo Thunder, da Neobus, apenas por terem bancos acolchoados tipo dos ônibus cariocas, como pretensos seletivos, "maquiando" os ônibus com desenho estilizado e cortinas para dificultar a identificação do interior de cada ônibus. O objetivo com isso é arrancar trocados a mais, com versões "ezecutivas" de linhas urbanas da Capital, cuja passagem é mais cara.

A Central/Ondina, por sua vez, criaram outra fraude, que foi a de maquiar como "novos" ônibus com mais de cinco anos de uso, para enganar os passageiros, pois é hábito das duas empresas renovarem suas frotas num prazo variável de dois a três anos de intervalo. Os carros eram repintados, a lataria reparada e os chãos lavados.

A Central/Ondina ficam trocando linhas periodicamente (em março de 2007 foi a troca mais recente), adotam visual idêntico e arrancam as almofadas dos carros que vieram da fábrica com bancos de fibra de vidro cobertos de almofadas. Os bancos ficam com aqueles furinhos que mostram claramente o estrago.

Pior: enquanto a Santa Izabel, que tinha toda a frota usando bancos acolchoados, era proibida de desempenhar suas linhas, a Central, com seus ônibus de cor branca, bancos duros e intervenção oportunista em linhas alheias através do "pool", chega a ser "estrela" até de um comercial de TV do SETPS (sindicato dos empresários de ônibus de Salvador, sigla que tem a pronúncia surreal de "setépis") que anunciava o Salvador Card. Nesse comercial, apareceu um dos carros velhos da Central e seus bancos de fibra de vidro cheios de furinhos (as almofadas foram arrancadas), enquanto os atores que faziam o estudante e o cobrador sorriam feito patetas.

O sistema de Salvador é tão constrangedor que os grupos empresariais nem se disfarçam para se multiplicarem em áreas de bairros. No Rio de Janeiro, por exemplo, se os empresários da Real Auto Ônibus quiserem explorar linhas ligando Bangu a Campo Grande, não era a Real que exploraria as linhas, mas uma nova empresa que os mesmos empresários criariam para tal missão, e a esta colocariam ao menos administradores diferentes e relativa autonomia de operação.

Em Salvador, a BTU, Rio Vermelho e Central, empresas ligadas à orla soteropolitana, passaram a explorar escancaradamente as linhas do Cabula, ao invés de criarem empresas para explorar as áreas. Isso gerou uma distorção tão grande no sistema de ônibus do Cabula que até os tempos de polarização entre a Joevanza e a TSS (esta já extinta), nos anos 80, deixam saudades. Hoje, a Joevanza e a Vitral chegam a colocar dois a três ônibus para correrem atrás da BTU, Rio Vermelho e Central (estas três, também com seus dois a três ônibus saindo de uma só vez) nas linhas com percurso parecido, resultando num desnecessário excesso de ônibus durante uns minutos, "compensado" com a escassez dos mesmos em outros, provocando espera demorada dos passageiros.

Mas em Salvador os próprios empresários de ônibus são anunciantes da imprensa baiana. Esta, que na sua propaganda diz defender incondicionalmente a cidadania, na prática muitas vezes vai contra o interesse público, com seus editores-chefes de mau humor vetando a publicação de visões críticas que contrariem interesses particulares em jogo. De desinformação em desinformação, as empresas de ônibus soteropolitanas pioram o serviço, mas mantém a reputação em alta. Por muito pouco, a Santa Izabel teve sua concessão de serviço lacrada.

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