Apostolado Profano
I

Aos que quiserem descobrir minha causa e a origem do que defendo, olhem-se no espelho e perguntem ao natural, se lá viu coisa igual. Poderão vociferar que desta arte abuso, por fragilidade de espírito, por falta de maturidade ou por caprichos emocionais. Mas se, por menos amor se acreditam em tantas besteiras e se cometem tantas bobagens, que se dê ao menos a tais pretensos adversários, o direito de defesa.

Se vocês podem condenar uma pessoa pelo que fala, vós dizeis-me o erro de minha pronuncia. Mas atenta-vos! Poderei também denunciá-los. Pois falam por vós mesmos, não pelo sagrado que defendem, apenas pela idéia deste e pela conservação de seu poder. Toda vossa organização, um bando de fanáticos, igualmente supersticiosos, vive mais pelos símbolos que pelos ensinamentos deixados. Devo dizer que estão mais próximos de estar a me justificar, que a provar sua certeza.

Tudo foi um erro desde o principio. Como pode condenar o adultério, se mesmo esse mestre foi fruto de um? Não foi sua progenitora amasiada a outro homem, após ter tido com o Rei? Este mesmo Rei, não foi o que enviou o casal até uma região proibida? Podem garantir-me, que não foi ali que teu mestre aprendeu todos os truques que sabia? Que mérito pode haver se, tal sacrifício, já era sabido e constava em contrato? Apenas uma desculpa para nos conduzir ao conformismo.

Agora peço vosso testemunho. Não foi na verdade vossa igreja erigida por um militar romano? Esta é a igreja que defendem. Uma organização criada pelo homem, para substituir o Império Romano, com o apoio de dogmas de fé, mas da mesma forma agressiva. Mas em nenhuma das palavras, das que podemos admitir que vieram do vosso mestre, existe a ordem para tal organização, nem para a conquista armada, nem mesmo orienta para tantos dogmas, nenhuma palavra sobre tanta burocracia religiosa! Acumularam riquezas e poderes, perseguiram, assassinaram, injuriaram, enquanto os homens só queriam crescer! O pecado só existe onde há proibição. Proibição só existe onde há culpa. Culpa só existe onde há ignorância. Ignorância só existe onde há fanatismo.

O homem já está crescido. Está numa fase de pré-puberdade, deve estar livre para ver seus erros, desimpedido para corrigi-los. A tutela de vossa organização está dispensada. Precisamos mais do que esta consciência velha e enferrujada. Vivam por vossas custas, se são tão santos, cultivem vossos próprios víveres. Deixe a riqueza, do homem e desta terra, ao homem! Pois, se estas são tão materiais e conspurcadas de pecado, certamente não as merecem! Vivam em vossas vidas miseráveis, regadas de renúncia e abstinência. Porque nós, queremos e temos o direito de conhecer, experimentar e descobrir todas as sensações e prazeres da vida.

Para este novo tempo, para as novas consciências, uma crença não lhes faltará. Mas virão a descobrir uma, que terá dignidade e sabedoria. Com apoio à razão e à consciência individual, com orientações simples e sem burocracias mirabolantes Com a força e o poder que sempre lhes pertenceram. Pois sempre existiram, bem antes de tantos impérios, mas nunca interfeririam, pelo respeito que sempre merecemos. Estes sim, sempre presentes em nós, em nossos espíritos e corações, como deveria ser um deus, apenas aguardando o dia que despertássemos!

Ao invés de nos fazer aceitar o sofrimento, nos ensinarão a lutar. Ao invés de nos fazer aceitar as fatalidades, nos ensinarão a prevenir. Ao invés de nos fazer aceitar o domínio, nos ensinarão a autonomia. Ao invés de nos fazer aceitar o dogma, nos ensinarão a raciocinar. Ao invés de nos fazer aceitar o pecado, nos ensinarão a experimentar. Ao invés de nos fazer aceitar a culpa, nos ensinarão a responsabilidade. Eles vivem nas trevas, de onde tudo veio. Eles vivem em nós, nós vivemos por eles. Não irão quebrar o vaso, pois conhece bem o conteúdo. Não irão guardá-lo na adega, pois sabem bem como usá-lo. Não irão trocar seu vinho, pois lhes valem muito sua serventia. Não porão pesadas cargas, pois se importam muito com nosso crescimento.

II

Que tal isso para coçar suas barbas e fundir suas cucas: verbo é tudo que vem do verbal, mas também pode ser venial, até mesmo genial de minha parte, pois assim é que sou:
(aversão) Sou aversivo a todo clássico em todos os gêneros, como também em numero e grau.
(conversão) Sou conversivo, não conversível a converter esses clássicos, a melhorar mesmo, sobre uma perspectiva mais sagaz.
(Inversão) Não é simples assim. E? colocar a coisa toda dentro dessa sagacidade, não apenas inverter os significados.
(Perversão) Estamos acertados, bem me dizem se me chamam de pervertido, pois verter é o meu forte, antes mesmo de haver uma versão, é o que é a perversão!
(Reversão) Exatamente assim, sou o reverso de suas medalhas lapidares, pretendo mesmo ser mortalíssimo. Mato-me todos os dias e o que mais se pode dizer quando se trabalha?
(Subversão) Versão das profundezas, versos abissais, é a região que meu monstro verbal habita e eu nado e vocês nada de entender.
(Diversão) Ficamos combinados assim. Não sou subversivo, pois não há sistema ou Estado em literatura. Não sou reversivo, pois não vou reverter meus tempos aos seus, pretérito imperfeito. Não sou pervertido, pois não faço mais do que a inocência do original mereça. Divergência é tudo o que peço. E é isso que pretendo ser: divertido!


Essas estão aqui feitas, quase tão perfeitas de um momento raro dessa minha vida miserável, desse mundo medíocre.

Foi pela ocasião de um noivado de casamento marcado de famílias aparentadas de mim e me vi então intimado de comparecer para que fosse eu o orador da celebração.
Cada qual parente do noivo e da noiva receberam seu quinhão do dote tendo em troca dado essas tais mercadorias que se dão a recém-casados.
Vendo-me tão afundado nesse suborno das consciências, necessário para que se perdoe o excesso de confiança entre os noivos e que por uma instituição, se lhes permitam desfrutar desses direitos matrimoniais, então recém-adquiridos, chego a uma idéia tal que vai encantá-los também.
No que me chegou a parte de receber meu quinhão, reservei-me um instante da noiva em lugar afastado e creio eu que ambos ficamos igualmente satisfeitos com o que nos demos e trocamos pela festa, roubando a dor primeira do noivo, que terá sua pequena e mesquinha vez de devorar estas carnes em precedência a mim. Só espero que minha parte não a tenha feito tão feliz que venha a sentir falta, mesmo em companhia de seu noivo e eu tenha de ensiná-la porque a fiz tão sacra neste momento profano a essas instituições da consciência.
Dessa noite guardo essas máximas que trocamos nos poucos minutos de descanso que nos dispusemos a nos oferecer tanto e tão caro desejo.
No que me resta em observação secundária, só lhes é dado saber que é nesses momentos em que se alcança sabedoria sublime e plena, de mente aberta e fluindo. Não será muito surpreendente se viermos a aprender mais com nossa amante, uma mulher distante em ocasiões normais, por horas afinco, embora tenhamos a pretensão de sermos os mestres de uma ciência tão deliciosa e envolvente.


Por que toda Nação ou Estado tem-se a necessidade da existência de destacamentos de segurança interna e externa? Para proteger aos cidadãos, por suposição. De onde vem o corpo destas tropas? Vêm destes cidadãos, que compõem o povo do País. A quem devem combater essas tropas? Inimigos do Estado e do País. Mas quem faz o Estado também não é o conjunto de cidadãos? Obviamente que sim.
Poderia dizer-me então por que o Estado, agora existente graças aos cidadãos, cria leis e instruem suas tropas para reprimir, prender e até matar a razão primeira da existência da Lei, do Estado e das tropas, os cidadãos?
Em nome dos princípios da Pátria. Por uma divisória e uma institucionalização do assassinato, eis a real verdade dessa ação, contra os próprios cidadãos, à revelia desses, contrariando muitas vezes a própria Lei que pretende defender.
E o que os cidadãos, desarmados e suspeitos, ilegais, podem agora fazer contra o monstro do Estado? Não ria de mim então se te falo que não existe Estado, já que este nega seu senhor. Não existe Lei, já que seu real legislador teve seus direitos cassados. Não existe razão, por mais argumentos que se faça, da formação dos destacamentos de segurança, sejam internos ou externos, pois um supõe o outro, já que em breve cuidarão estes mesmos que já não haja perigo contra a Pátria, pois todo suspeito morrerá ou será banido, sobrando apenas os eleitos, que se fizeram de poderosos e acabarão aos poucos os cidadãos, os que lhes dão e lhes justifica o poder que tem.
Fariam muito melhor se soubessem o quanto se permitem danar por esses mesquinhos a quem deram poderes, aceitando tais abusos, porque lhes escapam a percepção desse fato.
São muito raros os que como nós que, já tendo visto o fato, negam o fenômeno. E aqui estamos, infringindo a Lei, para executar outra tal que não tem existência física nem medida,basta estarmos juntos, é o instinto da Natureza a quem nos entregamos os nossos desejos, sem pudor ou remorso.


Meu querido, meu amado (assim ela me chama) Pode me dizer por que vocês tem precedência sobre nós, quando muito mais seria proveitoso estar em nossas mãos certos deveres?
São poucas, minha querida, que como você podem ver que, o que até então é compreendido por ser mulher, foi definido pelo homem. Você é uma em cem, mas logo serão cem em uma. Neste momento só nos restará pedir aposentadoria, pois sempre pertenceu à mulher a razão perfeita de como saber exercer esses deveres.
Oh, não! Nem pensar (ela dizia me abraçando) Tomo meu lugar no trono, mas é sobre ti que haverei de sentar e de sua parte me dará esse apoio tão deliciosos que me põe entre as pernas e me faz ser tão sábia. Só assim aceito reinar, pois saiba que, mesmo rainha, ainda quero ser tua puta, pois me faz falta esse teu corpo que penetra no meu e me completa, me faz feliz.

Ela folheava um livro sobre animais enquanto que eu lhe tomava a traseira, ambos assim, deitados na cama.
Notaste meu delicioso (ela me oferecia seu rabo, uma visão do livro e um pedaço de sua sabedoria) que cada fêmea animal foi entregue um atributo especial de beleza e sedução?
Ora, meu anjo de luxúria! No que me diz respeito, a mulher é a mais bela dentre qualquer uma delas!
Meu vingador! Como desmereces assim as outras fêmeas?!
Permita-me donzela desfrutada. Umas tem penachos multicoloridos de sobra à amostra e não há nenhum mistério nisso. Ao contrário, tem escondido em uma parte graciosa e única, as mulheres, seu mais belo tufo de pelos que um homem poderia conhecer. Já noutras, seu corpo esguio fomenta o desejo de seus machos. E agora vem a mulher, cujo número de curvas é igual à quantidade de formas harmônicas e esculturais, de tal forma que no princípio, se consultarmos a maldita bíblia, até uma serpente a preferiu para conhecer essa ciência que somos alunos um do outro. E que um deus celerado puniu e condenou desde essa primeira manifestação desta ciência, que ainda vai trazer à tona, a sabedoria que vai destroná-lo. Umas tem peito proeminente ou coroas na cabeça. Agora, minha adorada, o que são teus seios (e os acariciei, fazendo-a gemer) senão tua proteção, alimento a infantes e objetos sagrados do teu altar que se erguem aos céus, trazendo ao delírio este pobre mortal e até os santos celestiais?  E em tua cabeça não tem o mais sedoso e perfumante fio de Ariadne que me encurta a vida, roubando-a aos golfos e me enredam nessa teia que guarda o ovo da sabedoria, que não me deixam mais me separar de ti, pelo contrário, me faz afundar ainda mais e muitas vezes em teu corpo, como se já não o tivesse feito tantas vezes? Quem viveu como eu pode provar que eu digo a verdade.
Então experimentou as carnes das mais variadas para depois ter a minha e ainda quer me convencer de tuas boas intenções e desejo para comigo?
E acabar aos poucos somente em ti, pois o que tomo por prazer , por diversão, das demais fêmeas, o dou por merecimento e veneração somente a ti (e a lambuzei com meu gozo no qual se somou o dela, em intensidade e qualidade, além de nossas possibilidades físicas, pois, isto sim é amor!)


Ela veio por sobre mim lânguida e solicitante do m,eu apoio, com olhos afundados em prazer e visão aberta pela sabedoria que nos consumia pela graça do momento.
Meu cetro encantado, de quem recebo a realeza e a sabedoria para reinar. Pode me dizer por que é tão bom trepar sem cessar com meu amor? (Ela perguntava a mim e a meu membro,que ela tomou e encaixava na porta de seu templo sagrado)
Não o sentes? Diga-me você mesma.
Oh! (Ela parou, pois quase lhe subia demais o prazer, quase a desfalecendo e quase a fazendo gozar abundantemente) Meu cetro, algo em mim pede por ti e devo satisfazê-lo. Mas está tão longe e tão dentro de mim que devo conduzi-lo por meus portões até lá e servir esse senhor de meu corpo e desejo a quem ofereço meu prazer e minha alma, e o meu senhor é tu, meu delicioso vingador!
Chamo-te vingador (Assim ela me falava), mas sabe como te amo. Tanto te quero e tanto me faz feliz que quase o tenho por meu Senhor e Deus. Antes tivesse vindo a descobrir tal fonte de saber compensador e delicioso como esse. Mas estava iludida com as fantasias das beatas por Cristo e seu Pai. Como pude me deixar desmerecer assim? Só agora eu estou completa e satisfeita, só assim contigo pulsando dentro de minhas carnes me sinto possuída da verdadeira felicidade e sabedoria, moradora do mais delicioso paraíso e servida pelo mais delicioso fruto que tomo de ti, assim tão despudoradamente e ilimitadamente, meu vingador!


Diga-me meu degenerado! Meu vingador, meu amado sacerdote do profano, por que se entregam tanto as pessoas a coisas tão estranhas e irreais quanto a Igreja, Deus, Cristo e os santos todos, malditos sejam por ter me oculto de ti e de tua fonte de saber!
Ela arrepiou pela blasfêmia que o prazer a levou e sem pudor ou remorso a esta brindou com um generoso orgasmo.
Meu vingador (ela disse já mais calma, mas ainda cheia de desejo por mim) não fique bravo comigo. Eis que vou a partir de hoje considerar meu senhor, não meu servo sacerdote, como queres. Preciso eu muito mais de ti que tu mesmo a mim, a que fico honrada e lisonjeada, mas só me pude coroar porque tenho teu cetro em minhas entranhas a me dar sabedoria tão fodida e deliciosa.

Meus princípios impedem-me de aceitar tanto, minha dama despudorada, eis que sou somente o escritor do profano, não um ministro ou o próprio senhor deste e são a eles que deve oferecer seu louvor e veneração. Vou lhes apresentar, assim que você souber por que e no quê são melhores e maiores que o Deus da Igreja e o Cristo, que sejam vencidos estes e vitoriosas as Trevas!
Não te estranhes quando te digo, Deus não foi mais divino que tu ou até eu mesmo. Foi tão real e vivo como nós o somos. Aquele, que dizia ser seu filho, foi um bastardo, nascido de uma fecundação ilegítima, por inseminação artificial e não foi sem merecimento que foi julgado. A ele foi dado exatamente o objeto de seu prazer criptomasoquista, que foi a crucificação. Esta que se instituiu, como a religião verdadeira, ganhando por sobre as outras, por métodos nem sempre piedosos e conclamou-se como Igreja Católica Apostólica Romana, não é senão um antro de celerados que, a exemplo de seu mestre, martiriza quem diverge da filosofia que conclamam como divina. Como se, esse ao se tornar mártir, lhe dessem a autorização de martirizar as pessoas. As pobres mulheres, que negam sua condição primeira, servindo a este bastardo e sua Igreja como beatas, freiras ou sórores, o fazem por uma razão muito sublime. Tendo suas funções naturais, espontâneas e legítimas proibidas pela filosofia doentia do catolicismo, não é espantoso que prestem seu amor a ele desta forma, pois veja bem: está esticado em vigas de madeira dura e na imagem nua, quase se pode ver o que deveria ser seu divino membro (embora duvide que tenha tido). A própria imagem é de madeira rija. Ora, pau por pau, na ignorância de conhecer aquele que contém a carne e a carga necessária, para os afazeres divinos e sagrados que somos praticantes, serve-lhes muito bem este, castrado e estéril, indiferente. Quando o desejo já supera os limites do recato, muitas sabem como engolir a hóstia e servirem-se de velas bentas para satisfazerem-se. Por isso é que se sente um perfume quando se acendem tais velas: é o perfume das vias (que faço sagradas em ti) excelentemente preenchidas pelas velas bentas.
Agora tem a conta do porquê somos mais sagrados e santos que a Igreja e seus mártires?


Oh, sim, meu vingador! (Ela estremecia novamente, pois a foda abria ambas as mentes para a sabedoria mais sublime e soberana no Universo, sem contar que lhe abria as carnes, a cada ofensiva de meu aríete em seus portões). Mas tu me disseste que não quer ser meu senhor, pois há muitos maiores que tu nessa deliciosa prática que nos dá tanta sabedoria. Diga-me quem são e de onde vieram?!

Minha deliciosa! Com que orgulho sinto que realmente te interessa vir a saber tanto, pedindo-me que ensines e te mostre aquilo em que já és mestra! Mas te direi, para que melhor desfrute deste momento e possa rir do pouco que sei diante de ti! Ajudarei-a a lembrar do nosso verdadeiro lar antes de me acabar... Que agradável!
Minha doce leoa, eles não gostam, mas não conheço outra forma de defini-los. São os espíritos das Trevas, adversários do Império das Luzes, do Deus da Igreja e seu Cristo, ou de qualquer outro nome pelo qual se conhecem os deuses, que se dizem representantes do Bem. Por conseqüência, na ausência de outra definição, eles são o Mal, mas até hoje não se tem notícias de que tenham influído nos destinos do homem de forma arbitrária, como fazem seus oponentes, não impõem a vontade deles, os que assim fazem são homens que não tem nenhuma representatividade no Reino das Trevas na Terra.

Eles são ministros e amigos meus e dentre eles, tem o Soberano, o Espírito das Trevas, ele é o Leviathan, o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres que irá vencer o Cordeiro e seu Império das Luzes, no décimo tempo do primeiro, após a vitória parcial do Cordeiro, pois as Trevas são mais poderosas que a Luz, que necessita das Trevas para trilhar seu caminho.

Eu a levei pelas escadarias feitas há tanto tempo atrás, que já são mais velhas que a própria humanidade, além do meu templo sagrado que fiz para minha Deusa da Lua Negra, Lilith, conduzi-a por caminhos que até eu mesmo me proíbo de usar. Apresentei-a a todos e a deixei conversar, conhecer e amar a todos, enquanto esperava ao longe, pois ainda não sou digno de tão honrada companhia. Ela já o merece mesmo sem tê-los conhecido antes, pois toda sabedoria vem dela e das mulheres, como bem parece ter reconhecido meus amigos desta verdade. Mas o melhor para ela ainda viria. Após ter amado e desfrutado da capacidade sexual de cada ministro das Trevas, eis que não mais podendo conter-se, vem o próprio Leviathan, que de tão extasiado, vem em sua forma de poder terrível (embora reduzido) do Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Ela não teve medo e estava trepando com o Soberano das Trevas e eu, mesmo de longe tremi, porque ver a glória do poder me fraquejava os sentidos. Além do mais, sou um simples escritor do profano, ver o próprio Soberano Leviathan era mais do que esperava merecer.

Ela desceu e emergiu das Trevas, exultante e iluminada pelo prazer e pela sabedoria que o sexo traz, mais ainda agora que amou o Leviathan, vinha ela cercada pelo prazer dele na forma de labaredas do Fogo Negro em torno de seu corpo exausto, porém completamente satisfeita. A levei de volta e em tempo para o casamento. O tempo que se passou de toda essa aventura correu em tempo paralelo e desvinculado do tempo mortal, de forma que, em meia hora, teve seu tempo de eternidade para desfrutar dos meus amigos e Soberano.


Não notaram nossa falta nem a mudança que se operou em sua beleza e caráter, agora que encontrou sua justa herança como filha das Trevas. Ela casou-se e a senti enojada por isso, pois agora teria que repartir com esse ?esposo legítimo?, segundo a ?Lei? e ?Religião?, seus momentos na vida. Mas ela não se eximirá de me vir visitar, para me consolar ou até me aconselhar, quando ela for de vontade própria, caminho livre e acessível ao Reino das Trevas, em qualquer parte que esteja. Não deixará tão cedo de querer montar em meus amigos, ministros das Trevas e domar a fúria do Soberano Leviathan dentro de suas entranhas, devorando-os através de seus sacros portões, deste divino templo que toda mulher tem, aonde devo prestar culto, louvor e veneração.
De vez em quando ela me permitirá desfrutá-la, em nome dos bons tempos, da amizade e de ser servo tão fiel e eficiente nesses assuntos da prática sagrada do sexo.

III

Eu estava à toa, passeando pela praça central da cidade, junto a tantos outros humanos e pobres diabos, tentando sobreviver. Entretido, em pensar nas soluções dos tantos problemas que nos atingem todo dia. Nesses momentos, o nível de irritabilidade chega a ser neurótico, todos à sua volta parece-se com formas anormais de humanóides. Num estado emocional destes, os poucos momentos que dispomos nos valem muito, não devem ser interrompidos ou perturbados, por qualquer motivo que seja.
Mas foi o que aconteceu, meu precioso tempo foi interrompido por um vulto, que ficava na minha frente a murmurar sons sem nexo. Neste momento, os demais sentidos estão todos anestesiados. Somente após meus nervos se acalmarem, é que eu pude visualizar e ouvir melhor, quem me detinha e com que propósito.
Pelo que falava, não parecia ser mais do que um dos milhares de crentes que povoam o centro da cidade, a querer converter as pessoas para a fé, pregando o evangelho. Mas visualmente era algo muito diferente, era uma magnífica mulher, na flor da beleza madura, morena, alta, esguia, com volumes perfeitos, tudo nos lugares certos e curvas harmônicas Uma mulher, como nunca eu havia visto na minha longa existência, um exemplar único, que mostra bem como tais criaturas são abençoadas pela natureza.
Pensei no desperdício, que a loucura na fé nesse deus retardado fez, ao privar do mundo da convivência com essa beleza. Uma injustiça, usar tais e tao fartos atributos em algo tao estéril e irracional. Logo decidi que devia fazer algo para recupera-la a vida normal, eu tinha esse dever com o mundo e iria converte-la de volta aos prazeres materiais.
Mas eu era um pobre diabo, enfeitiçado pela beleza dessa mulher. Como vergonha e sinceridade não são exatamente minhas qualidades, comecei a fingir de pecador arrependido, caindo de joelhos diante desta, clamando pela misericórdia divina:

-Oh, Senhor! Foi Tu, meu Deus que enviaste este anjo para que eu pudesse me arrepender de meus pecados! Quão grande é Tua misericórdia, Senhor, mostrando sua magnificência para este pobre servo pecador! Amém! Aleluia!

-Calma, bom homem! Não sou um anjo de Deus, apenas uma servidora do Nosso Senhor, Todo Poderoso. Se o cavalheiro quiser, posso receber sua confissão e absolve-lo em nome de Deus Pai Todo Poderoso, pois a misericórdia do Senhor é grande e a piedade, imensa. O seu arrependimento será ouvido por Ele, com certeza.


Abracei suas perfeitas e roliças pernas, encostando o lado do meu rosto no seu colo, sentindo o cheiro suave que seu sexo desprendia, imitando uma pessoa tomada por um grande fervor e arrependimento.

-Não me iluda. Eu sei que Deus Pai a mandou por misteriosos desígnios, para que eu pudesse expurgar todos os meus pecados, pagando penitencia,fazendo oferendas e cultos ao grande e louvável Deus! Permita-me, anjo, quero me arrepender!

-Amigo, irmão, esta muito emocionado! Eu sei que seu arrependimento é grande, mas tente se controlar, por favor!

Meu abraço já lhe causava arrepios e suores, que em sua inocência, não conseguia explica-los e controla-los. Não era o suficiente ainda, ela estar confusa e indecisa se evitava meu abraço, ou se o acolhia como forma de meu arrependimento. Eu queria mais, queria corrompe-la, abracei-a fortemente, levando seu colo de encontro ao meu nariz e minha boca, onde minha língua lasciva já se contorcia, querendo beber desta fonte. Minhas mãos, também inquietas, começaram a lhe entrar pelo tecido de sua saia, percorrendo lentamente a penugem que cobria sua pele, até chegar em suas coxas, bunda e calcinha, que iam sendo apalpados e explorados sofregamente.
A coitada, mais confusa e maravilhada pelas caricias que recebia, não conseguia mais me refutar. Visivelmente sentindo que lhe começava a aparecer o desejo e a excitação, ela pediu-me respeitosamente que parasse.


-Tome esse endereço. Lá eu o esperarei, para que se possa confessar melhor. Aqui na praça existem muitos curiosos e demônios, que fariam você cair em tentação novamente. Lá na igreja, estaremos seguros e mais perto de Deus.


Despediu-se com um sorriso e um aperto de mão. Permaneci alguns momentos, ainda de joelhos, tentando imaginar de que forma eu a envolveria em meus braços, para despertar-lhe o desejo natural e inalienável que todo ser tem.
Não tive sossego no resto do dia e muito menos de noite, tentando planejar cada detalhe da minha confissão, que eu utilizaria para converter esta delicia, ao mundo das perversões.
No belo dia marcado para nosso encontro, era difícil disfarçar o nervosismo e a excitação. Tinha de me controlar ou senão meu disfarce de pecador arrependido cairia, mais o disfarce de gente, imediatamente ela veria, pelos cornos e cauda, que eu sou um demônio.
Entrar numa igreja, para nós não é mais um empecilho, graças ao trabalho de conscientização no Inferno e a decadência no Paraíso. Ela estava no confessionário, esperando-me, com seu habito sagrado e uma bíblia. Nada disso me amedrontavam mais, nem significavam algo para mim. Ela estava mais bela e atraente, naquela túnica sagrada e ar angelical.

-Aqui estou eu, meu anjo, para confessar meus pecados!

-Sente-se aqui perto de mim. Quero ouvir bem seus pecados.

-Minha adorada. O meu pecado é de desejar possuir carnalmente uma servidora de Deus. Quero meter com ela mil vezes, anjo de minha vida. Seu corpo é o motivo do meu pecado, a tentação é grande e não consigo conter-me. Por favor, ajude-me!

-O que dizes, blasfemador, herege? Cometeu o sacrilégio de desejar possuir carnalmente esta serva de Deus, na casa do Senhor, diante do altar? Deveras pagar uma penitencia muito alta! Venha! O altar nos espera para começarmos a rezar pela sua absolvição!


Dito isso, ela me arrastou até perto do altar e sentamos juntos nos bancos centrais da frente. Foi quando ela abriu a toga e deixou claro, ao pegar meu instrumento sagrado, qual era sua intenção e minha penitencia.
Os frescores de seus corpos e seus detalhes íntimos eram tao perfeitos quanto minha imaginação demoníaca adivinhava. Meus cornos se contorciam de prazer, ao pensarem o quanto deveria ser delicioso, descarregar parte do meu ser e energia, num jato, dentro daquela deliciosa gruta.
Iniciei o interlúdio, pondo-me atrás dela, para executar minha posição predileta: enquanto meu cacete penetrava-lhe no rabo, uma de minhas mãos ocupava-se de um de seus seios volumosos, enquanto que a outra lhe excitava a úmida, macia e felpuda xana. Ela tremia de prazer e sua xana já começava a escorrer aquele liquido precioso e perfumado de fêmea. A cadencia aumentava e nossos corpos uniam-se, mais e mais. Até o valioso instante de plena excitação, quando nos derramamos em um orgasmo delicioso e duradouro.
Mal eu tirei meu cacete de seu rabo e ela já se pôs a chupa-lo, oferecendo sua xana para minhas chupadas. Isso nós fizemos até que ela, já excitada, gozou em meu rosto, recebendo o mesmo, naquela garganta gulosa, de minha parte. Ficamos excitados mais ainda, sem deixar-me chances de tomar a iniciativa, ela já se posicionara com suas ancas próximas ao meu ventre, iniciando a penetração do meu cacete naquele portão das delicias, que era sua xana.
A excitação que nos tomava, começou a nos transfigurar, eu pude ver sua aureola e asas de pomba branca e acho que ela pode ver meus chifres, minha cauda espetada e minhas asas de morcego. Mas ela não desengatou, pelo contrario, começou a mover-se mais excitada e lasciva por sobre meu cacete.
As chamas que compõem meu ser não agüentaram tamanha excitação. Comecei a ser consumido, minhas chamas subiram, como uma coluna sólida, em direção a sua xana úmida, que também já gozava sua luz liquida sobre mim. Tivemos o tipo de orgasmo raro e único no universo, que só é possível quando há copula entre os espíritos, este orgasmo é mais completo e recompensador que existe.
Depois que nos separamos, nunca mais a vi. Talvez ela esteja em outra praça, tentando salvar mais uma alma pelos métodos que lhe ensinei.
Gostaria de encontra-la, principalmente quando descobri que a igreja onde fizemos nosso culto profano foi demolida, pois já tinha sido dessacralizada e abandonada já a muito tempo, de forma que, nenhum de nós cometeu um sacrilégio, nem profanado um lugar sagrado com nossos ritos sexuais.
Eu vou, constantemente à praça central da cidade, na esperança de encontra-la, mas só encontro outras mulheres crentes, que também mereceram ter essa lição, mas nenhuma se comparou a esta. Por isso, mulheres, prestem atenção! Se querem sua felicidade, ela esta na plena realização dos desejos. Para tanto, é necessário achar um comedor capaz o suficiente, nem mais, nem menos. Só há um jeito de acharem seu comedor ideal: é desfrutando!

IV

Estava ocupado com estas, forma curta e rápida de expor o ridículo dos conceitos e consciências, até então existentes, quando veio me ver um homem, em meu quarto, o que não permito senão a mulheres, sem ser convidado, sem entrar pela porta ou invadir minha privacidade pela janela.

-A paz esteja contigo.

-A paz esteja na tua casa, para que não apodreça mais pela senilidade!

-Não seja tua língua tua orientação ou acabará mordendo-a e morrendo pelo seu próprio veneno.

-Uma lâmpada é responsável por sua luz ou sua chama? Veja estas mãos. Elas são tão responsáveis quanto minha língua e não são a lâmpada, mas a chama e a luz delas te incomodam. Devo eu te dizer por que ou também conhece o conteúdo da minha lâmpada?

-Eu sou o que moldou a lâmpada, lhe pus o óleo para queimar e a acendi. Por que não me serve esta lâmpada para combater a escuridão?

-Porque a chama que lhe é agradável é muito pequena para mim. Tenho a meus cuidados a lâmpada que diz que formou, troquei o óleo por outro mais fino e raro, apesar disso a entornei e agora por inteiro se incendeia, para o desespero e tormenta das lâmpadas que lhe servem, tão conformadas e acomodadas com a débil luz que lhes permite ter.

-As chamas vão quebrar tua lâmpada, com tanto calor.
-Tanto melhor! Estarei livre de ti e meu óleo irá incendiar toda tua morada e te vencerei!

-Tu, queres me vencer, a mim que sou Senhor de todo o universo e redentor das pessoas que tem sua pequena lâmpada e a mantém agradável a mim?

-Não achas possível? Espere até minha chama ser vista pelos olhos imbecis de tuas pessoas. No mesmo momento turvarão o óleo que destes a elas, trocarão a chama que acendestes pela minha. Então teu poder ficará solto no vazio, sem ter o que comandar. Para teu desespero, tuas pessoas ainda vão ver-te como és, não como lhe descrevem seus oleiros, os que espalhaste pelo mundo para conquistar as consciência, pela manipulação ou pela força. Agora, o que me diz, Nazareno?

-De fato, quer se tornar o cego que vai guiar os cegos ao abismo...

-Chama de abismo o conhecimento pleno? Realmente! Convenceu as pobres mentes disso para que permaneçam ignorantes, pois só assim consegue exercer poder sobre elas!

-Elas vêm a mim porque sou o Redentor e a salvação do Mundo. Pode duvidar e provar o contrário?

-Redimirás a ti, cabe a ti salvar-te pelos teus meios e aos outros, cada qual escolha o seu. Ou não percebeu, apesar de ser o Verbo Encarnado, que teu Pai e você mesmo dependem da existência do material, para justificarem a vossa própria? No que ganharia um espírito formar a carne? Por que ela veio a existir no teu Reino, como se fosse para ser conservada, tratada como animal para exibição ou abate, como a rebanhos, cercados e adestrados? A quem mostrariam este rebanho, se é único teu Pai? Porque não vejo outra razão, senão esta. E não me diga que foi por amor, senão Ele saberia perdoar este gado (homem), quando este começou a conhecer sua condição como ser racional. E como poderia este conhecer, senão pela razão que já lhe era própria, já que o homem veio a existir por outros meios, que não o divino. Como poderia o homem ter falhado com o Pai se, em tua filosofia, um supõem ao outro e ambos são como um na razão, na alma e no corpo? E? esta razão, vinda de mim mesmo, comum ao homem, próprio dele mesmo, originado das evoluções, que não me permite aceitá-lo. Dê a verdadeira compreensão ao gado que lhe resta e observa se não fazem o mesmo!

-Foi então pela misericórdia.

-Oh sim! Eu sei bem que misericórdia tiveste, tu e teu Pai, com todos os cientistas e pensadores que só queriam trazer um pouco da luz deste verdadeiro conhecer: os matastes! E? assim que vós demonstrais a bondade que deveríeis ter?

-Eu sou o responsável pelo conhecimento! Você o recebe de mim.

-Impossível, a menos que concorde com minhas idéias e se assim fosse, teria negado teu Pai e esses massacres, teria feito algo para ajudar-nos e teria feito algo para mostrar a tua Igreja o quanto de absurdos esta cometia pelo poder e em nome de Deus!

-Conheço-te bem Siron. Também me conheces. Embora tua essência tenha vindo me perturbar, antes que tu viesses a existir, quando eu estava em peregrinação pelo deserto, antes de começar minha pregação na Terra. Apesar disso podemos ser amigos.

-Perdeu tua chance e teu tempo! Antes tivesse vindo me ajudar e consolar. Não me avisou sobre a crueldade desse mundo, apesar de católico, não pude combater teus infames jovens, que me relegaram ao esquecimento, porque era diferente, me discriminaram. Na depressão, prestes a acabar com o pouco de sobriedade que me restava, alguém me levantou (e não foi você). Eu me assustei de início, pois normalmente são considerados demônios. Mas eles sim, foram meus amigos. Ainda sofro, ainda me despreza teu mundo cristão. Mas agora estou amadurecendo, porque soube descobrir a verdadeira sabedoria e reconhecer o Reino das Trevas, aonde vim eu a saber onde está meu mundo real, meus familiares reais. Você veio a se concretizar, sabe o quanto o mundo de teu Pai foi ingrato e ainda o é aos pensadores. Eu também estou aqui, mas não vou reforçar esse sistema de dominação! Farei ruir esse mundo baseado nessa filosofia superficial do Império das Luzes que teu Pai fundou e faz as pessoas julgarem pela aparência tudo que lhes oferece aos olhos! Farei com que as pessoas venham logo a descobrirem estupefatas, da verdade dessas coisas sobre teu mundo cristão e teu Império. Mesmo que tenha o seu tempo de júbilo e vitória, você sabe e não preciso dizer, que as Trevas irão prevalecer, já que o poder e sabedoria destas são superiores em intensidade e qualidade aos teus!

-Então por que não me mostras teu poder, Siron?

-Não posso. Sou um mero escritor, não um dos ministros das Trevas.

-Então me permita!

Era a minha vizinha, que já vinha mostrando grande afeição por mim. Escutou nossa discussão, viu que eu falava com sinceridade e tomou minha defesa. O que é muito surpreendente, pois eu a conhecia bem, como uma católica de um fervor que nem eu mesmo poderia supor! E lá estava ela a desafiar seu Cristo por mim! Ela apontava seu dedo acusador a Cristo e parece que, toda a culpa dos assassinatos cometidos em seu nome, caiu sobre ele, que desapareceu. Ela tremeu, gritou e chorou, porque não conseguia entender o que aconteceu e o que tinha feito! Eu a abracei, tentando acalmá-la, aos poucos foi se tranqüilizando e algo de dentro dela, próprio dela, parecia despertar de anos de agonia e pesadelo, abafado pelos preceitos cristãos de moral, virtude e pureza.

Já calma, foi embora e fez questão de me mostrar: ela quebrou toda a coleção de imagens de santos que tinha, rasgou todos os livros e encíclicas papais, incinerou a bíblia junto com os inúmeros crucifixos e rosários que tinha.

-Nesse momento todo, o senhor morava ao meu lado e só agora o entendo! Devo ter sido um tormento para você, querendo trazê-lo a essa infâmia em que estava presa e convencida de ser a religião verdadeira, do Deus verdadeiro! Quantas vezes me trouxe alegria e satisfação de explicar muito melhor que os padres das paróquias, certos trechos desse livro maldito, a bíblia, nesses momentos de cristianismo, desse meu passado turbulento e terrível! Ainda assim o afastava de mim, pois ofendi ao senhor!

Beijei-lhe com desejo, na boca murmurante e a levei para o templo aonde eu iria iniciá-la na prática do verdadeiro culto e lhe mostrar quem é o Soberano, de quem sou apenas o escritor. E ela aprendeu rápida, fácil e gratamente a lição.

V

Sabe porque tem tantas pessoas que rezam e pensam em Deus? Estão todas preocupadas com a salvação da alma. Sem dúvida, dedicar um dia de cada semana ou mesmo de um mês e ir a missa ou coisas do gênero são capazes, pela ingenuidade do sujeito, de deixar aliviada até as consciências mais culpadas. Até mesmo os sacerdotes e santos das religiões não escapam. Somos os ?eternum pecatorum?, estamos compulsoriamente condenados por uma instrução dogmática.

A razão existencial de uma religião poderia estar baseada na premissa primeira da existência justamente do que querem combater e evitar? Sem o pecado não há culpa nem condenação, conseqüentemente não haveria tanta necessidade que a humanidade tem em afundar-se em religiões e cultos que expiem esse pecado que nem se tem mais conta ou memória (diria até mesmo culpabilidade).

Podemos até mesmo admitir que tenha existido esse tal deus, de qualquer que seja a religião, que fez em seguida o homem. Mas todo processo da existência da própria humanidade e até das instituições religiosas só se tornou possível graças a esse tal pecado. Tendo partido dele mesmo, resta-nos adivinhar por que esta criatura divina a cometeu, não outra e o que a levou a tal à revelia e desconhecimento de deus (tanto que o castigo é dado depois que se tomou conhecimento do fato, o que demonstra que este deus não é tanto assim onisciente e onipresente). E? como se o Criador e a criatura fossem seres completamente distintos e distantes, o que não é muito racional ou lógico, quando encaramos a relação de deus com o homem, que dogmaticamente é tida como integradora, ambicompensadora e ambireferencial. Pelo que poderíamos admitir então, já que este deus não era tão poderosos e que o homem não era tão dependente e integrado a este deus, é que não só eram seres distintos, distantes e independentes entre si, eram completos estranhos numa relação onírica entre um ser de dotes supremos, se comparados aos do homem que era considerado o primeiro, e este homem dominado por este, por formas outras que não as sobrenaturais atribuíveis a este deus (o que se provou não o ser).

Como este pecado foi assim definido pelo julgamento deste deus contra um erro do homem, só percebido ao ter sido verificado o fato (como já foi considerado) como pode este homem tê-lo cometido sem ter noção de tal justiça e da pena que incorria em cometê-lo? Ele já tinha noção, sem dúvida e o que o levou a cometê-lo é porque sua noção pessoal assim decidiu, porque em sua própria consciência isso não era pecado, a princípio! Só assim pode ser compreendido tal fato, este deus não era tão poderoso nem tão senhor do homem. Este, apesar de ter sido criado pelo primeiro, já tinha uma consciência própria e anterior ao fato o que estranhamente é a negação do princípio dogmático que o homem conheceu a consciência após o fato, de que o homem era criatura deste deus e dele recebera as primeiras noções e a este deus deveria servir e seguir estas noções, assim como a consciência deste deus (ou sua justiça, a seu gosto). E que o princípio do pecado só se tornou real quando este deus puniu-o por julgamento deste, um ato que para o homem era natural e instintivo, causado e assumido por sua consciência pessoal e individual, distinta e desvinculada do seu Criador (o que, pela lógica, é impossível ou improvável, sem que levemos a considerar as causas e conseqüências necessárias a tal, como já o descrevemos). Este deus, sem dúvida, deve ter sido um ser e Senhor do homem, dono de uma consciência e de uma justiça que, por elas, condenou o homem. O homem, sem dúvida, acreditou ser este deus seu Criador porque assim lhe ensinaram mas apesar disso já tinha noções e consciências próprias e desvinculadas do seu Senhor que o era então, apenas fisicamente, não espiritualmente como querem os dogmas e as religiões. Não existe qualquer outra consideração a ser feita a respeito que possa ter mais razão e lógica que esta, embora sendo antidogmática e contrária a idéia que se subtende numa relação entre deus e homem, que por hora se requereu tão necessária ao passar dos anos e da evolução dessa mesma humanidade sem a qual teríamos sérios problemas existenciais.

Mas creio que já amadurecemos bastante e já está na hora de renegar este passado e consciência estranha à nossa condição e realidade. Pois, retomando a questão, não somos culpados de pecado algum nem somos tanto assim servos deste ser que se nomeou deus e que pela ideologia dele (não a nossa) nos culpamos e cumprimos uma pena por uma justiça baseada nessa ideologia alienígena, estranha e imposta ao homem.
Tomamos o fruto e erramos para ele mas para nós não foi erro senão nem teríamos feito. Foi um ato natural e até consciente de nossa parte, não existe outra explicação, sendo assim, dessas considerações só resta mesmo as conclusões já alinhadas, mais nenhuma outra. Só como última consideração devemos por conseqüência a essas conclusões, não mais dever satisfações aos sacerdotes, representantes desta estranha justiça e ser megalômano assim como desprezar seus cultos, conselhos e moralismos já que estão baseados em falsos dogmas de um falso deus, de uma falsa religião.

E? lógico, por tanto que não me incomodo, com o que as pessoas iludidas por esta fantasia de salvação da alma fazem ou dizem, preocupo-me mais com o que diretamente me diz respeito, que me atinge e pode prejudicar minha vida e meu futuro. Vencer os obstáculos que colocam para o avanço pessoal, que são inúmeros e multiplicam-se na mesma ordem e potência de nossas capacidades de raciocinar com lógica, porque num mundo construído sobre uma base tão irreal, a razão pesa e corrói com sua criticidade.E logo todo o castelo cai, pois se pode, com a mesma facilidade que aqui desmascaramos este deus, elucidar demais questões e fatos (fenômenos) que ocorrem na sociedade que, ao olhar e pensar críticos, não são mais sólidos que este deus. E de fato, podemos dizer que isso é possível por ser tudo isso parte de um todo de referências, valores e normas que podemos chamar de Império das Luzes, pois nossa sociedade baseia-se na religião, na idéia de deus e na idéia de Luz como uma coisa só, uma idéia básica e simplista, superficial e aparente que, justamente por ser apenas uma frágil película de conceitos absurdos, não suportariam o pensar crítico, cujo olhar penetrante revolve os argumentos e os testa à exaustão e logo os vence. Para todo o sistema sobreviver é preciso evitar a reflexão, a meditação, o discernimento e a crítica mais profunda, são esses que realmente destoem sem piedade esse sistema de aparências, não a rebeldia tola e descabida, que só fortalece o sistema e o alimenta de um ar de modernidade e mudança falsos, pois as condições básicas e revoltantes de sua existência permanecem e permanecerão sempre, enquanto os reais críticos puderem estar sob vigilância e isolados dos demais, sem possibilidades de divulgar seu pensamento ou participar, com a capacidade e poderes reais que deveriam ter, se esse sistema fosse realmente uma sociedade (sistema da união de pessoas com acordos mútuos e participação aberta a todos os associados).O que não é difícil ver que na realidade o sentido que se encontra na sociedade que se pratica é outro e revoltante: um grupo de poucos determinando as ações, comportamentos e até as consciências de bilhões.

E? dessa forma que a religião pode ajudar na sociedade. Ambas tem seus princípios e razões de existência baseadas no domínio do individual e do geral, do particular ao público, tudo se encontra dessa forma e com base nesses princípios e razões, determinados e controlados.
Posso ir muito mais longe e ser muito mais abrangente se o quiser, por hora, me deixa muito alegre, com essa pequena semente nas consciências, que será desenvolvida e tomará forma conforme os gostos dos senhores, por enquanto leitores, mas participantes no futuro.

VI

Nunca vou me esquecer do dia em que tudo foi ficando nebuloso aos poucos para mim. Estava até então muito contente e instalado na frágil balsa de náufrago que nos equipam antes de nos soltar pelo oceano imenso da vida. Meus portos, meus pais, deram-me as primeiras orientações, pude contar com eles em várias situações antes de tomar em mãos os remos e remar por mim, me fazer navegar ao gosto dos ventos da minha mente distorcida.

Mas não era assim no princípio. Era realmente um náufrago entre muitos, diria realmente esforçado em participar da imensa corrente em que me encontrava, seguindo as ondas que eram produzidas para mim de algum lugar, ignorava a origem e serventia, mas me ajudaram durante algum tempo, neste meu princípio. Até este momento, nosso oriente em comum era apontado para a direção de uma cruz, que tomei também como referencia para mim porque não conhecia outra referência, outro farol que este que aquela corrente apontava, mesmo sem entender direito o porquê, aceitei e compreendi o que a cruz significava e porque toda aquela corrente de náufragos dirigia-se para ela. Eu concordei por enquanto, na minha inocência desse princípio de vida e acreditei que só existia essa direção, pois a corrente de tão imensa, não se via os limites e encontrava-me bem no meio dela, um tanto perdido e inocente, devo me perdoar por um princípio de vida tão crente e confiante na corrente que me cercava e na cruz, distante e calada, para a qual me ensinaram a me dirigir, na promessa do porto tão esperado e desejado, tranqüilo, seco e seguro, que havia onde a cruz estava cravada e para onde toda essa corrente, na qual eu nasci, se dirigia. Eu apenas seguia para não ser um náufrago da corrente de náufragos. Achava que dessa forma estava correto e estava no mínimo encaminhado para a salvação. Salvar-me de ser náufrago e solitário, nesse imenso oceano da vida.

Mas não estava seguro! Certamente que não! Haviam náufragos de balsas, náufragos com bóias ou até sem nada e náufragos com botes, barcos, iates, alguns tinham até transatlânticos! Meus pais, meu porto, numa certa data, jogaram minha balsa em meio a lanchas. Estes náufragos com lanchas ignoraram completamente minha condição, ignoraram até minha presença e sem piedade, passaram sobre minha balsa com suas lanchas, inúmeras e repetidas vezes. Lutei para me manter na balsa e dentro da corrente, lutei para que os náufragos com lanchas me notassem, lancei vários sinais, mas eles não queriam me compreender! Eu era apenas um mísero náufrago de balsa, inocente e desinformado. Eles trituraram minha pobre balsa com as hélices do desprezo, da discriminação, da ridicularização, da chacota, da marginalização, do isolamento, sem motivo, apenas porque eu tinha por balsa minha base para navegar pelo oceano imenso da vida.

Machucado, retalhado, abandonado, humilhado, sem saber nadar ou navegar sem minha balsa, deixei a superfície e comecei a afundar nas profundezas, a corrente e a superfície respirável foi ficando mais distante e mais impossível de se retornar. E por que iria? Não fui traído em minha confiança e crença na corrente e no fato de que todos pareciam seguir a cruz? Por que então me vitimaram, por que estou agora afogando na repulsa e na revolta? Minha dignidade foi seriamente dilacerada, junto com a crença e a confiança na corrente e na cruz. Eu afundava e ia observando como, apesar dos esforços, não se deslocavam do lugar, não mudavam as técnicas de navegação, não avançavam, não progrediam, continuavam os mesmos, apesar de seus esforços, que eram inúteis. Quanto mais afundava, mais eu percebia o quão miserável e mesquinha era essa corrente, o quão miserável eram sua crença e orientação e muito provavelmente, a mentira que era a cruz. Das profundezas não se vê a cruz. Se fosse tão importante seria vista. Se fosse tão forte, teria me salvo e punido os miseráveis que me condenaram a morrer afogado.

Mas a cruz, que já na superfície, era distante e calada, agora nem visível se fazia, passei a duvidar e criticar a cruz e a corrente que a seguia, assim como os estúpidos náufragos que se fazem de líderes da corrente, bem como seus filhos cretinos, que me assassinaram a lucidez. Mais rapidamente comecei a afundar, a pressão das águas começaram a se fazer presentes e sentidas. Rompi com meu porto, com a educação, com a crença, com tudo aquilo que eu fora na superfície e comecei a me reestruturar. A pressão das águas começou a me triturar e desfacelar, já não me reconhecia, eu tinha certeza porém de que seria capaz de me adaptar conforme a profundeza que estivesse.
Mesmo aqui nas profundezas, encontrei muita coisa cheia de gás, o que fatalmente iria me levar de volta à superfície. Soube evitá-las e aprendi a me deslocar na profundidade, em busca das coisas nutritivas. De vez em quando, voltava a olhar para a superfície e via que continuavam no mesmo lugar. Às vezes eu estava adiante deles, às vezes atrás deles e às vezes logo abaixo deles. Aos poucos, nutrido com as coisas certas, fui me adaptando e me transformando até que as profundezas se tornaram meu lar. ainda respondia, por uma questão de honra a meu porto, meus pais, embora fosse mais raro e mais distante a troca de sinais. Eles se preocupavam comigo e quase não me entendem mais e nem eu a eles.

Foi há pouco tempo, muitos outros já estiveram como eu na profundidade, hoje mesmo existem muitos aqui, embora estejam um pouco distantes de onde estou. Tomei conhecimento deles pelo produto que fabricam, muitos nutritivos, outros nem tanto, outros muito gasosos. Graças a este contato, não fico muito deprimido, nem me considerando o único da espécie. Graças a essa nutrição, tornou-se suportável minha situação, nas profundas águas da razão e do pensamento crítico, foi com a ajuda deles que vária vezes pude juntar aos poucos meus cacos e retomar a lucidez, agora uma lucidez de profundidade.
Minha vida nessas regiões abissais da reflexão tornou-se agradável e deliciosa. Realmente gostaria de agradecê-los e por isso também tento produzir coisas nutritivas para que um dia, alguém possa deliciar-se com elas. Foi quando descobri que não é tão bom alimentar-se desses suculentos produtos. E? muito mais saboroso produzi-los e será o meu maior deleite quando alguém se aproveitar dos meus e satisfazer sua fome por esses refinados pratos.

Agora o que me agradou mesmo foi a minha mais recente descoberta. Estava em busca de mais alimento e a produzir minhas guloseimas quando uma sereia encontrou-me. Ou melhor, eu li sobre ela, que soube como me convencer, por métodos sutis, vir a conhecê-la, por isso digo que ela que me encontrou, não o inverso. Fascinado com a idéia de sua beleza e sabedoria, quis encontrá-la, para deixar minha vida nas profundezas ainda mais deliciosa. De tanto procurá-la, acabei achando também nereidas, tritões, serpentes marinhas, dragões abissais e demais criaturas das mais profundas profundezas. Não existe, a meu ver, um porto único para o qual se possa se dirigir, mas creio que posso encontrar ao menos um epicentro e de lá procurar a moradia dessa sereia e dizer o quanto a admiro e a amo.

Tão ocupado na busca, que nem me dei conta mais de quanto prazer tinha em comer e fazer coisas nutritivas, passou a ser algo natural e inerente à minha pessoa. Nem notei sobretudo, uma terceira e grande mutação durante a busca, fruto das novas produções e nutrições que fazia e consumia. Tanto, que me espantei quando uma belíssima nereida me chamou, interessada por mim, eu ignorava o porquê, afinal eu era (ou pensava ser) um náufrago.

-Como é teu nome, belo e jovem tritão?
-Não sou tritão, bela mulher-serpente-marinha, sou um náufrago, esses seres da superfície.
-Nessa profundeza, com essa aparência? Não estou entendendo tua piada, tritão.
-Eu não estou dizendo piada alguma...
-Veja, confuso tritão, tua imagem em meu espelho e diga-me se eu não digo a verdade...

Olhei e vi minhas orelhas como barbatanas de peixe. A braba que deixei crescer de tão ocupado na busca, mais parecia com algas pretas a balançar nas águas. Minhas mãos e pés mais pareciam com a de um anfíbio e não podia negar. Tinha uma bela, forte e longa cauda, desenvolvida aos poucos e certamente fundamental para me deslocar na profundidade. Não era mais um náufrago, era um tritão e nem percebi. Estava procurando o reino dos tritões e demais criaturas abissais para viver,tornar-me uma delas no futuro e já havia me tornado uma delas, sem que percebesse. A nereida, notando minha surpresa e desconhecimento sobre a minha condição sorriu, deu uma discreta risada, mas sem a intenção de magoar, mas pela comédia da situação, acreditou que eu dissera a verdade, quanto à de eu ter sido um náufrago.

Vi seus olhos brilharem com compaixão por mim, por ter me atrapalhado todo com meu novo aparato, como se nunca o tivesse usado, só por ter tomado conhecimento agora, como uma criança que de repente vê seus braços longos ao alcançar a puberdade. Perde-se toda a coordenação motora. Muito prestimosa, propôs-se a me ensinar a controlar conscientemente essa minha forma nova. Na companhia dela eu flui por vários recifes, escarpas, cavernas, planícies, montanhas, planaltos, depressões e abismos. A vida no oceano profundo é tão imensa senão maior que a da superfície, mais rico, mais agradável. Trocamos muitas idéias, conversamos muito sobre tudo, sobre todas a s coisas. Sentia que ela começava a demonstrar certo orgulho e admiração por mim, e eu comecei a me apaixonar por ela.

Chegou um dia então, que ela teria de me apresentar ao restante do seu povo, aos seus pais e ao Soberano de toda a imensa profundeza desse oceano que é a vida. Receberam-me muito bem, eu já praticamente era parte deste povo admirável das profundezas abissais, tive tanta aceitação e amizade como nunca havia sonhado, mais do que recebi na superfície... Para facilitar minha vida e adaptação nessa nova família, rompi com meu próprio passado, a última coisa que me ligava à superfície, mudei meu nome e me apresentei como Siron, mais adequado para a transformação que se operou, transformando meu nome anterior. Minha amiga nereida fez então a minha apresentação ao Soberano desse incrível abismo, um dragão terrível, de sete cabeças e dez chifres, mais conhecido na superfície por Leviathan e à sua bela esposa, Nahema. Tomei coragem e lhe perguntei:

-Soberano Leviathan, pode dizer-me onde está tua bela e divina filha Lilith, Deusa da Lua Negra?


A nereida olhou-me apavorada e temerosa. O próprio Sobrerano olhou-me com surpresa e riu uma sonora gargalhada, junto com sua esposa.

-Deusa do quê? Ah, minha filha, que bom comediante trouxeste a nosso lar! Que mais sabe fazer esse jovem tritão?

Quem ficou chocado e embaraçado depois disso fui eu, mas não tenho muita culpa se estava mal informado.

-Como sabe sobre mim? Sobre meu nome? Com os diabos, quem és tu?

-Minha filha! Já nos disse. E? Siron. Falamos muito e comentamos muito sobre ele e suas obras deliciosas. Ele é o escritor Siron. O próprio.

Agora sim  havia ficado completamente confuso, abobalhado e perdido.

-Mas claro! Ele... é Siron Kabet! Como pude me esquecer!

-Vós... Conhecem-me antes mesmo de me ter encontrado?

-Lemos suas obras. Simplesmente o melhor prato que pudemos nos deliciar, uma obra simplesmente suculenta.

-Oh, puxa! Nem sei o que dizer... Hã... Lilith...


-Por favor! Sem Deusa da Lua Negra, sim?
-De qualquer forma. Já sabe o quanto a amo, suponho...?

-Bem... Deixemos isso para depois...

Nem tinha ciência, mas tornei-me um mito na terra dos meus mitos, amigos, deuses-demônios, que nessa profundeza só nos resta tê-los como companheiros e orientadores. E eu era um mito a eles!

Mesmo que Lilith esteja casada com Samael, ela me dá muita atenção e carinhos especiais. Talvez essa informação de que Lilith é esposa de Samael esteja errada também. Não que a quero desposar, mas sim amar em toda a capacidade e conseqüência que todo amor leva (a cópula), sem a necessidade de um compromisso. Quando  você estiver meio à deriva e achar que viu um monstro marinho revirar as ondas e derrubar navios imensos, pode ter certeza que sou eu, me divertindo às custas da imbecilidade dos náufragos da superfície, a quem odeio e me devem muitas explicações, desculpas e justiça. Eles escolheram a pior forma de reconhecerem o erro. Eu os ajudo a submergir na própria culpa, como merecem.

Agora que tenho minhas convicções e certezas, firmados em sólidas bases e me tornei um tritão, com uma vaga possibilidade de ser amado por Lilith, posso me dar ao luxo de fazer essas incursões à superfície, com toda a potência das minhas mandíbulas críticas e estraçalhar aos pouquinhos esse mundo besta dos náufragos da superfície.
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