| Crônicas de Caim | ||||
| Meu passado é totalmente incerto, uma nebulosa cercada de mitos e mistérios. O que posso contar é que além de meus pais Adão e Eva, fui levado a acreditar de que éramos, junto com meu irmão Abel, os únicos e primeiros seres humanos na Terra. Tal é que não conseguia entender como me contavam as origens de todas as coisas por Deus em sete dias. Que por um pecado cometido contra Ele, meus pais foram expulsos do E?den, o jardim do Senhor. O pecado foi o de comer o fruto do conhecimento. Ao que parece Deus não gostava muito de que o conhecimento viesse a cair em mãos humanas e eu me perguntava o porquê disso. Sem o conhecimento, como haveríamos de crer em Deus e servi-lo condignamente? Foi-me dado na idade da responsabilidade dos doze anos o cuidado da plantação no terreno arenoso e estéril onde nos estabelecêramos, após a expulsão de meus pais de tal E?den. Tirava bem pouco dela e meu pai ainda me obrigava a dar do melhor em oferenda ao Senhor. Depois de nos ter deserdado e expulso, meu pai tem uma grande consideração, importando-se em oferecer sacrifícios a este Senhor. Quanto ao meu irmão Abel, foi-lhe entregue o rebanho de ovelhas e outros gados que criávamos, que como todo rebanho, cresce fácil e fartamente enquanto se tem forragem. O que era difícil tornou-se pior já que este rebanho servia-se displicentemente das minhas plantações, ao olhar aprovador de Abel. -Não se importa se meus carneiros ficam gordos para agradarmos ao Senhor, importa-se, Caim? Perguntava descaradamente. Eu não sabia que um dia isso causaria a mudança nos rumos de nossas vidas. Cheguei a reclamar com minha mãe acerca disso, que não era justo Abel estar sendo tão favorecido por nosso pai e o Senhor, que nunca ficavam contentes com minhas ofertas. Será que eles lEvam em conta que o sacrifício de Abel só está sendo agradável a Ele às minhas custas? Foi a primeira vez que ouvia minha mãe avisar que minha inveja poderia causar minha desgraça. Inveja? Querer justiça ante aos olhos de quem é onipotente e criador de tudo? Não devia ser o primeiro a reconhecer meu esforço no solo árido e que meu irmão ainda se aproveita do pouco para alimentar seu rebanho e deixar seu sacrifício agradável a Deus? Isso me empertigava e minha mãe achava natural. O fruto que havia comido nos deixou a todos sem inocência, impuros e raivosos, condenados a pagar por um erro tão fatal. Pois muito bem, então. Se o conhecimento é a nossa sina que me mostre então onde está Deus e onde fica tal jardim do Senhor. Quero comprovar por mim mesmo toda essa lenda e exigi isso de minha mãe. Era o mínimo que ela poderia fazer por mim. Minha mãe lEvantou-se resignada e um pouco magoada com minha atitude. Dizia algo com eu estar mostrando ser eu fruto de semente ruim. Afastamo-nos da choupana sob a observação de meu pai e senti que Abel também nos observava, do alto de uma das colinas, junto ao seu rebanho. Atravessamos todo aquele terreno arenoso no qual estávamos fixados, chegamos ao curso de um rio. Minha mãe parou. -Não podemos prosseguir além daqui, Caim, mas este é um dos rios que aflui pelo jardim do E?den, poderemos avistá-lo um pouco daqui. O que vi eram pequenas ilhotas de verdes ao horizonte, um pouco acima do curso do rio, além das estepes, mas não via nem um pouco da soberbidade que tanto meus pais contavam a respeito deste jardim. -O que nos impede de ir até lá, mãe? -Gabriel e sua espada flamejante que guardam a entrada do E?den, a mando de Deus, para evitar que voltássemos. -Nada vejo mais que pequenos oásis verdes em meio à estepe. Nada nos impede de prosseguir. -Você não entende, Caim. Irá percorrer toda a extensão da Terra que nunca irá encontrá-lo, pois Deus saberá mantê-lo a salvo. Além do mais, o jardim não pertence a este mundo, mas a outro, muito mais sutil e melhor que este. -Outra Terra? Que criaturas habitam lá? Acaso outros homens feitos para nos substituir? Não éramos os únicos criados por Deus? Que os torna melhor que nós e o que garante que não haverão também de pecar contra Deus? Por que nosso Deus, se é tão único, teria necessidade de criar dois mundos e criaturas para habitá-los? Qual o propósito de Deus criar algo material se é tão espiritual? Começo a duvidar do que nosso pai nos contou, minha mãe. Como posso acreditar em vocês se não pude ver e conhecer Deus e seu jardim, saber por que os deixou cair em tentação se Ele é onisciente e por que criou outros homens para outro mundo, nos fazendo acreditar sendo únicos? -Caim, Caim! Controle sua língua antes que a morda! Não nos é dado o direito a perguntar tais coisas ou duvidar de Deus, não cuidemos para tornar ainda pior nossa situação. Deus sempre existiu e não haveria de habitar este mundo material miserável. Como regente do universo deve ter seu castelo e seus criados. Não há outros homens no mundo material e é deste que teremos de nos importar. Junto a Deus em seu maravilhoso mundo estão não homens, mas sim anjos, como Gabriel. Deus quis por uns instantes que suas criaturas partilhassem de seu jardim e por nossa traição, nos é negado agora tal privilégio. Deus nos criou com nós criamos os animais e as plantas, eles nos completam e nos fortalecem. Deus nos criou para que lhe déssemos o retorno do amor que recebíamos e fomos tolos caindo na tentação pela conversa da Serpente e agora estamos sofrendo um castigo justo. Rogo a você que para o bem do seu futuro não continue com tanta descrença, antes que se abata nova tragédia sobre nós. Mas a sensação de vazio predominou em mim. Já que não podia competir com meu irmão em espécie, que pelo menos me diferenciasse pela qualidade. Além do meu pai, eu era o único que sabia ler e escrever, eu tive muita facilidade em aprender, ao contrário do meu irmão. Mas por que se incomodaria ele em aprender algo se era o predileto? Então eu faria da inteligência minha qualidade, mesmo não sendo muito apreciada por Deus.Não se pode comer conhecimento mas isto ajuda a plantar e cuidar melhor das nossas criações. Estranho como algo imaterial ajuda no material e como desagrada justamente a quem é tão averso ao mundo material. Na qualidade de ser quem iria continuar a tradição de meu pai de relatar a história do povo de Deus, constantemente recorria à leitura da criação tal qual meu pai a descrevia, uma certa parte por revelação de Deus. Procurava por algo que me parecesse estranho e contraditório a fim de invalidar essa narração e talvez estender a descrença aos itens contidos nela. Mas na falta de outra explicação competente, pouco conseguia acrescentar ou refutar, meu pai escreveu de tal forma a deixar propositalmente essa tarefa difícil. Em uma certa data depois de tanto reclamar , meu pai concedeu que eu tratasse também de rebanho, mas das cabras, que já eram consideradas por nossa crença, animais impuros. Em troca, tive de ceder os pomares a Abel, que eram justamente os que produziam melhor e mais frutos agradáveis a Deus. Fiquei com o que sobrou, ou seja, as ervas e os arbustos que eu não conseguia tirar muito e meu pai vivia usando isso para me acusar de negligência, à medida que aumentava seu orgulho por Abel. Isso me motivava mais a buscar respostas às minhas dúvidas ao mesmo tempo em que aumentava a minha descrença em Deus e sua justiça. Ocorreu-me que, então, de posse do rebanho de cabras, tinha a liberdade de andar pelas colinas além do nosso acampamento em busca de bons pastos. Quando alcancei a idade da responsabilidade dos vinte e um anos, não tinha mais a constante inspetoração de meus passos, seja por meu pai ou por minha mãe. Algo faria com que, a partir deste dia, meu destino mudaria, assim como o resto do destino de minha família e foi a partir desta que considerei estas anotações, qual diário, do que me passou. Meu pai já havia percebido, eu sempre voltava muito tarde para o almoço e a janta, quase nunca observava o sétimo dia dedicado ao Senhor, de tão longe que chegava em meus passeios. Isso só veio a piorar o julgamento que meus pais tinham de mim e seus avisos sobre a reprovação de Deus ao meu comportamento. Já Abel, justamente ao contrário, seguia cegamente as ordens de meus pais e servia igualmente ao Nosso Senhor. Já chegavam ao ponto de mais não se importarem, ao verem que não surtia efeito, então cuidavam para que pelo menos meu irmão Abel não perdesse sua pureza e santidade aos olhos de Deus, que não caísse ele nas minhas tolices e desprezo aos costumes dos justos. Eu tinha meus motivos e já planejava uma longa viagem, se necessário de dias seguidos, já me preparava para isso com a escolha das ervas e das cabras que lEvaria esperando chegar em algum lugar, ainda muito incerto para mim, procurando por algumas respostas. Creio que já tinha comentado meus motivos com minha mãe que, preocupada e esperançosa de que mudaria os hábitos pela minha salvação, perguntou-me a razão de tal indisciplina. -Estou preocupado com a continuidade da nossa família, mãe. Acaso com quem faria conceber seus netos se não há outra mulher com quem eu possa me unir. -Deus me formou da costela de seu pai, Ele saberá fazer a sua também se se mostrar digno desse prêmio. -Não posso crer nisso. Sei muito bem que nasci saindo de teu ventre e vi bem, quando Abel nasceu, que ele também nascia deste. Mas tu me afirmas que nasceu da costela de meu pai, não do ventre de outra mulher? Não tenho como acreditar por mais que se trate de minha mãe. Por que Deus não cuidou para que nascesse de outra parte do corpo ou do barro, com foi meu pai, ou até mesmo das árvores ou das pedras? Como podem me convencer de que pelo poder de Deus, meu pai veio da lama e minha mãe veio do osso da lama encarnada? -Caim,Caim! Não leu no Gênesis que meu castigo, por ter induzido o homem ao pecado, foi o de gerar meus filhos com as dores do parto? E também que teríamos que lutar para conseguir nosso próprio sustento nesse terreno onde fomos exilados após a expulsão? Já lhe avisei outrora, para ter cuidado com tua língua antes que a morda e ela caia por terra, com perguntas demais sobre as razões divinas, quando não lhe foi dado o direito de tanto. Cuide pelo menos para que não nos suceda outra tragédia meu filho, se não consegue reprimir essa raiva e inveja, ao menos as controle, para não cair na reprovação e ira de Deus. Saiba tirar frutos bons de tua inteligência que Deus lhe dará parte, assim como seu pai e seu irmão recebem, com graças de Deus, pela crença deles. Não gostava da forma com as respostas sempre fugiam para Deus e permaneciam em torno dEle, a explicar todas as coisas de uma maneira tão simples e fácil que me faziam achar difícil de aceitá-las. E como as poderia, se ainda não me foi dado a capacidade de saber quem é Deus para que, somente assim, possa vir a acreditar nEle. E? muito mais fácil acreditar em algo quando se o conhece e reconhece com tal é dito. De uma forma ou de outra, achava que talvez em algum lugar e em algum dia poderei vir a conhecer outras coisas quaisquer, que me viessem a esclarecer tais dúvidas, viessem a ser estas o que fossem. Tal decisão tomei e fui. Já estava bem longe e achava pouco provável que sentissem minha ausência. Fui muito além das estepes, além das colinas que demarcavam nosso território. Pude me considerar em território estrangeiro somente no dia seguinte, ao amanhecer, tendo descansado de um dia de marcha. A ansiedade de achar logo uma prova para desafiar a crença de meus pais tirava todo o meu apetite, de forma que fiz pela primeira vez jejum, considerado pelos meus pais uma forma de demonstrar a Deus resignação e respeito. Apenas comi algumas ervas, mas minhas cabras ainda viviam. Um balido de uma cabra perdida acabou por me acordar e decidi me lEvantar. Segui logo o chamado, sendo seguido pelo meu rebanho. De certo que era uma cabrita, mas não era das minhas nem tão pouco uma selvagem. Estava tosquiada e com sinais de um bom cuidado. Era pouco mas o suficiente para me alegrar. Se não era eu o criador outro o era. E como era eu para ser o único, era uma boa prova de que não éramos os únicos seres humanos em tão extensa terra. Fiquei tão animado que esqueci de meu próprio rebanho e comecei a ajudar a cabrita a achar o caminho de volta ao curral. Segui as marcas que deixara pelo terreno, enquanto foi possível. Quando o rastro terminou pareceu que a cabrita já reconhecia o terreno pois balia alegremente e sacudia a cauda saltitando em disparada sendo seguida com dificuldade por mim mas com facilidade pelo meu rebanho. Logo o meu e o outro se misturavam e pareciam conferenciar uns com os outros como se fizessem parte do mesmo rebanho mas certamente não era o meu curral nem era este o acampamento de meu pai. Como o estardalhaço das cabras era por demais ruidoso era evidente que em breve o morador deste acampamento logo apareceria. Apareceu de dentro uma bela mulher, bem diferente de minha mãe ou dos meus outros familiares. -Olá estranho. Não pretende roubar minhas cabras, espero. Pensei que fosse um lobo, por pouco não o atinjo. -E? uma mulher? -Espero que sim ou então minha mãe enganou-me muito bem. -Tem mãe? -Sim,claro e um pai. E cada um deles os seus pais também. Como qualquer um tem. De onde vem, estranho? Parece meio abobado para fazer perguntas tão tolas!! -Desculpe! Devo-lhe explicações. Espero que tenha um pouco de paciência e ouça minha historia. Disse-lhe meu nome. Do meu irmão e de meus pais. Do que me fizeram acreditar até poucos dias e da razão de me encontrar tão longe de casa. De como o barulho era causado pelo encontro entre o meu rebanho e o dela. Finalmente de como ficava alegre e aliviado de encontrá-la, outra mulher, outro ser humano, provavelmente me faria conhecer tantos outros e outras crenças. Olhava pedinte e ansioso por isso. Mas apesar disso, gostava de ser cortês, como me ensinaram a ser. -Desculpe. Não lhe perguntei o nome. Pode me dizê-lo, por favor? -Jesebel. Tu és mesmo um carpirão! Nunca vi tais modos tão comedidos e formais! Venha e entre um instante. Depois de ter andado tanto deve estar faminto e cansado. Comi pela primeira vez depois de tantas horas somente me alimentando de ervas. Não conhecia os pratos que me servia mas os achava tão bons quanto os que comia, feitos por minha mãe. A seguir me levou à casa dos pais e dos avós e de muitos outros homens e mulheres. Chamavam aquilo de vila. Maior que a vila são as cidades que no conjunto formam um estado que juntos formam um país. Por ora, ficarei nesta vila até conhecê-la bem. E conhecer melhor também Jesebel por quem me apaixonei. foi bom ver como o conhecimento deles era farto e variado, um pouco mais flexível que as crenças de meus pais, que careciam de fundamentos. Realmente era uma sensação reconfortante ter outros conhecimentos, saber de outras teorias, na verdade um alívio. tão contente que quis usar destes conhecimentos para contradizer meus pais e reparti-los com meu irmão. Foi duro dizer adeus a Jesebel mas prometi retornar. Não sei se isso significava muita coisa para ela, mas eu a amava. Quando cheguei ao acampamento de meus pais apenas encontrei Abel que não se mostrava muito alegre ao me ver, não querendo me dizer aonde se encontravam nossos pais. Devia tê-lo deixado sossegado e procurado eu mesmo por eles, mas senti que talvez devesse começar a lhe dizer as verdades que encontrei, sobre outros homens e povos diferentes de nos ou nossos pais, com seus próprios saberes e crenças diferentes dos nossos. Obviamente duvidou de mim, o que era um espanto vê-lo negar, quase raramente duvidava de algo que mais velhos o dissessem. Por isso senti-me inclinado a levá-lo até lá e fazer vê-lo e admiti-lo por si mesmo. Durante toda a caminhada ele só soube reclamar dizendo que meu esforço era inútil, não haviam outras pessoas que não nós ou outras crenças que não em Deus, era totalmente impossível. Valeu a pena, sim, levá-lo até a vila e ver sua reação e a expressão de seu rosto, aturdido. Apresentei-o à minha querida Jesebel e a todos outros tantos amigos e amigas que fiz lá. O coitado não dizia nada, estava realmente chocado com o fato de que não éramos os únicos homens nem tão pouco havia um Deus somente. Era mesmo engraçado observar como tremia e balbuciava palavras a esmo, sem nexo. Nada indicava que iria acabar tendo essa decisão alucinada. Como já havia dito, meu irmão Abel não era muito esperto, era bem pouco provável que conseguiria entender essa novidade que tentava lhe mostrar. Ele deve ter se lembrado de que eu era considerado uma semente ruim pelos nossos pais e por Deus e que cedo ou tarde iria tentar corrompê-lo. Era mais ou menos o que pude entender do seu ataque furioso. Realmente ele parecia estar convencido de que eu para corrompê-lo o levara ao Inferno e o apresentava como sendo outra gente de outros Deuses. Nosso pai já soube lhe ensinar que o que não foi criado por Deus só pode ser obra do Diabo. Foi horrível quando, a pretexto de manter sua pureza, meu irmão Abel atirou-se contra as pontas de um arado que estava sendo consertado por isso tinha suas lâminas voltadas para cima. Senti a mão de Jesebel me consolando. Ela fez questão de me acompanhar até o acampamento de meus pais para que, quando eu lhes apresentasse o corpo de meu pobre irmão, ela pudesse me servir de testemunha do ocorrido. Senti que ela começava a se importar comigo e talvez até goste de mim. Ao chegar meus pais estavam bastante preocupados com a falta de Abel. Não foi o que poderíamos chamar de uma feliz reunião de família. Meus pobres pais, mais que cegos pela crença no meu outrora Deus. Eu, o renegado, carregando o corpo inerte e retalhado de meu irmão, acompanhado de uma mulher que não estava na idéia que meus pais faziam como sendo pertencente à raça humana e justa, restrita à eles e nós, Caim e Abel. -Caim, o que foste fazer! Manchou o solo do senhor com o sangue de teu irmão por inveja! Deus o amava mesmo sendo tão rebelde! Não era preciso matar teu irmão, Caim! -Não fui eu quem o matou! Eu o levei a uma vila e lá ele se jogou contra as lâminas de um arado! Ele matou-se por vontade própria! -mentira! Não há outra vila porque e impossível que haja outros seres humanos que não nos! -Nem tanto assim, pai! Tenho uma testemunha e uma prova do que digo! Eis aqui Jesebel que ira confirmar o que eu disse! -E? verdade senhor Adão e senhora Eva. O pobre Caim não tem culpa. -Conheço-a muito bem! Não vou esquecer teu nome demônio, que encantou nosso já tão perturbado Caim com seu canto para fazer-lhe ver coisas e matar Abel! Deus haverá de cuidar de ti! -Que? Como ousa? -Acalme-se Jesebel. Não irá adiantar nada brigarmos com eles. Estão como ostras fechadas na carapaça dura e rígida da crença em Deus. Melhor irmos. -Irmos? Deixá-los me ofender assim? Só porque tem uma mente estreita não significa que pode ofender as pessoas, senhor Adão! Se existe algum demônio ele está em seus olhos e em você mesmo, que o projeta para mim. Teu medo é teu próprio demônio! O demônio da ignorância! Não resolverá nada, não lhe ajudará transferindo-o à mim porque o que acredita não significa nada, senhor! Terá de volta a mesma ofensa que me dirigiu, pois não me atingiu! -Prostituta! -Vá se foder, pai! Saímos rapidamente e Jesebel olhava-me com surpresa pois ainda não tinha me ouvido xingar daquele jeito que, inclusive nem existia ainda, dirigido justamente ao meu pai! Não sei mas acho que vi seus olhos brilharem de satisfação e orgulho! Nada sei o que meus pais fizeram quando saí mas tive a impressão que não iam contar boa coisa no livro do povo de Deus que seria passado às próximas gerações, se forem ter outras. Ao chegar na vila de Jesebel arrumei minhas coisas, resoluto a achar uma cidade ou até mesmo toda uma civilização diferente, para colocar minha cabeça no lugar depois de tanta tragédia. Jesebel ofereceu-se para me guiar até a civilização que seus amigos já ouviram falar muito, além de um grande mar, depois do deserto. Claro que seu oferecimento foi além de simples amizade, preocupação ou outro motivos para me guiar pelo caminho certo. Senti que ela começava a me amar também. Logo pude confirmar isso pois uma semana após nossa partida ela cedeu a meus carinhos e me aceitou em suas carnes. A aurora do amanhecer seguinte pareceu mais radiante. E não era impressão. E que o sol crescente fazia refletir os portões da grande civilização ao longe, do outro lado do grande mar, além do deserto. Era uma manha seguida de uma noite, ambas memoráveis. Tive o amor de Jesebel e já estávamos perto da tão cobiçada civilização para estabelecermos nossas vidas e todo o nosso futuro juntos. A cidade era exuberante, transbordando vida. As pessoas com aquele ar saudável e feliz que a alegria do saber traz. Transpiravam de conhecimento e sabedoria. Não tinha idéia do que alguém como eu, há tão pouco tempo livre do cabresto da crença em Deus, poderia servir aqui, o que viria a fazer se o que tenho e tão pouco? Estaria realmente desanimado se Jesebel não estivesse a meu lado. Decidi que precisaria de instrução mas para tanto deveria ter algum tipo de ganho para sustentar a mim, Jesebel e os estudos. Eu sabia que Jesebel saberia se estabelecer com muito mais facilidade e rapidez que eu, de forma que não a prendi nem a tomei como posse, oficialmente não éramos esposados. A princípio fiquei a consertar coisas como vasos, panelas, armas e outras coisas mais. Durante os intervalos escrevia estas minhas anotações e outros pensamentos, além de poemas. Até que um dia esqueci uma de minhas obras dentro de um vaso consertado e o dono encontrou-a. Fiquei meio encabulado com tal distração achando que o dono do vaso reclamaria mas foi muito ao contrário. Ele elogiava a precisão e a beleza dos versos, a profundidade e sabedoria de minhas reflexões. Por intermédio dele fui aos poucos sendo reconhecido e vagarosamente as pessoas me pediam uma história ou outra, um poema, uma dedicação. Em breve tinha feito fama e pude largar o serviço anterior para me dedicar a escrever e me senti muito melhor, escrevendo. Não espero que venham a compartilhar do que sinto, seria necessário primeiro que o compreendesse. Quem escreve sente um amadurecimento e uma amplitude de pensamento que se tornam, com o hábito, tremendamente agradável e deliciante praticá-lo, sempre mais e melhor. Foi de Jesebel que recebi a notícia que trazia em mãos em uma carta, uma certa rainha havia lido meus trabalhos e por causa deles gostaria de me conhecer. Ao que parece gostava muito esta rainha de escrever também e queria trocar idéias e reflexões. Não pensei que pudesse chegar a tanto com minhas obras, levando em consideração que não era tão excepcional assim, a ponto de impressionar uma rainha que deve ter sem dúvida muito mais sabedoria que eu. Mas não podia recusar o convite, era por demais tentador, entrar em contato com uma inteligência superior. Jesebel foi comigo, para me encorajar. Pusemo-nos a caminho, montados em cavalos. Geralmente nos cobrariam mas ao saberem os donos dos cavalos das honras que estávamos para receber, deixou que usássemos sem custo algum, um tanto para estender a honra até estes donos, dos cavalos. Ficava louco de paixão vendo Jesebel cavalgar, a combinação da forca selvagem do cavalo com a beleza suave dela faziam um quadro enaltecedor, tiraria ótimas poesias desta imagem, se eu conseguir, se me for possível conter tanta paixão nas linhas dos poemas. Durante a viagem devo ter escrito, reescrito, corrigido e recusado uma centena ou mais deles tentando exprimir tal beleza, sem muito sucesso, não conseguia me contentar, os poemas pareciam meio abestalhados e descontrolados, isso tira a beleza de qualquer poema. Queria realizar este em potencial, para ofertar à minha Jesebel pelo menos antes de chegarmos no reino, no qual a rainha nos estava esperando, para que ela soubesse o quanto a admirava. Cheguei a uma razoável composição, embora ainda não a considerasse boa o suficiente para o que sentia pela Jesebel mas como já estávamos apenas a um dia do reino, quis entregar essa mesma, pedindo-lhe desculpas de ser tão incapaz. Ei-la: Jesebel Minha égua de luz Que me resgataste das trevas, Das garras sombrias de Deus, Da infelicidade de viver sob tal crença De algo tão mesquinho e repressivo, Vindo a me fazer conhecer tal prazer Que foi o de encontrar tão amável criatura. Vendo-a cavalgar tão sublime, Tão soberana por sobre o macho dominado, Fico consumido pelas chamas do amor E cego pelas gotas do ciúme, querendo que fosse eu tua montaria Numa longa e interminável viagem Só para sentir mais perto tua pele da minha. Tu és meu bom anjo da sorte, A tão esperada boa nova, Uma profetiza da beleza, Que me fez despertar Para as flores do saber Nas pétalas do teu olhar E na fragrância do teu ser. Venho abrindo meu ser diariamente a ti E lhe ofertando a melhor parte de mim Como se valesse muita coisa Mas só o é quando o tens em mãos Fazendo-o brilhar ao toque Sob teu olhar de aprovação Com um pouco de paciência para fazê-lo. Não diga a ninguém que sou poeta, tudo que faço não passa de lixo Perto do verdadeiro sentimento, Além do que não sou tão pouco Tão bom quanto me fazem acreditar, Porque sei que tudo que faço de bom, Só o e porque faço por ti. Quem nos vê cavalgando Diria que estou na liderança Quando és tu que decides, Hão de estranhar se o admito, Porque o mais aceitável é o homem dominar E vão te chamar de demônio, Mas se tu és um demônio, eu sou tua chama. Estamos indo visitar um reino Possuidor de rara sabedoria, Regido por uma rainha, por causa de minhas obras, Sempre tomando de ti a luz que me inspira, Mas é teu o trono, a coroa e o manto Entrego-te meu cetro com paixão Para que reines por ele, sobre mim. Como lhes havia dito não é um poema nem um pouco bom. Mas para minha surpresa Jesebel ficou um pouco aturdida e encabulada após lê-lo, sem saber o que iria me dizer, ficou até um pouco distante pois parecia confusa e indecisa sobre o que faria a respeito desta obra tão medíocre. Pensei, sim, que tinha ficado ofendida por tê-la descrito como ?minha égua de luz?. Ao chegar na cidade notei que havia uma grande mistura de raças e povos, dos mais diversos lugares, muitos nem conhecidos desta região, vindo de outras terras e mares. Todos contribuindo para o crescimento da civilização que, de volta, lhes davam grande quantidade de saber. Nem chegamos a despertar a curiosidade, era ignorado que estávamos lá por um convite da rainha deste reino que cultuam. Não foi difícil achar o caminho que levava ao palácio, qualquer um conhecia bem. -E? bem em frente. Agora, se estão pretendendo ter uma audiência, esqueçam. E? completamente impossível com a quantidade de gente que espera sua vez para falar com a rainha. Todos que nos informavam o caminho nos davam este aviso. Ao chegar em um portão dava para ver, por uma fresta, um imenso pátio todo tomado pela multidão, que pareciam ser doutores ou acadêmicos de uma grande universidade, esbanjando e exibindo sua intelectualidade. Ao ver o convite, o vigia do portão nos acompanhou sorrateiramente até outra entrada, de empregados, com portas abertas, por onde entramos. O próprio vigia avisou ao superior da nossa chegada. Este tratou de nos guiar pelos corredores do palácio, forrados de obras de arte. Paramos num saguão e o nosso guia foi avisar o ministro. No instante seguinte já estava nos recebendo. Seu nome era Belial e coube a ele nos orientar pelos estreitos corredores particulares da realeza, até a câmara, aonde a rainha viria nos receber. A sala era bem simples e sem muita decoração, destoando nitidamente do resto do palácio, mas tinha bom gosto nas cores da parede e nos móveis. Uma lareira na nossa frente e um armário com livros, os quais fiquei curioso em lê-los em especial, primeiro, antes de qualquer outro que tenha neste palácio. Belial entrou primeiro para nos fazer levantar e preparar-nos para a entrada da rainha. Uma bela mulher. Um pouco mais velha que minha mãe, eu achei, um pouco mais jovem que meu pai, mas tão bela que quase a comparei com minha Jesebel. -Senhor e senhora, apresento a Rainha de Gamaliel e futura Senhora da Noite, Deusa da Lua Negra, Lilith, a filha de Leviathan, o Espírito das Trevas, neta do Universo, a Grande Sacerdotisa do Fogo Negro. Durante os sonhos tribulados de pesadelos que meu pai tinha periodicamente em certas noites, em que a lua minguante já desaparecera por completo, ouvi várias vezes este nome sendo proferido em meio ao delírio. Era por demais igual para ser mera coincidência, embora a tinham como um demônio poderosíssimo, tanto meu pai como meu irmão e minha mãe. Já devia saber que existiria um certo exagero, mas afinal, não os vi chamar minha doce Jesebel de demônio também? Mais uma vez uma comprovação do absurdo na crença em Deus me aparecia, para aumentar meu alivio e aumentar minha curiosidade de saber qual é a história verdadeira. -Então és tu o poeta que me impressionou. Como é teu nome, jovem? -Caim Adaneu. -Não o filho de Adão que se achava o único homem porque foi criado por Deus? -Infelizmente sou eu mesmo. -Que feliz encontro! Poderá confirmar algumas duvidas que tenho sobre o passado recente de Adão. Conte-me sua historia até hoje. -Foi a partir dos cinco anos que meus pais começaram a me ensinar a crença em Deus, de como tudo foi criado por Ele e de como nos devíamos ser gratos pela bondade dEle de nos ter criado, de como fomos expulsos da presença dEle e de como temos que pedir perdão divino. Mas eu via tamanha extensão do território e queria saber porque Deus teria tanto trabalho para apenas nos criar para vivermos sozinhos nesta terra? Cresci duvidando, mas tendo que, a princípio, aceitar tais ensinamentos, visto que não tinha muitas alternativas. Se não tivesse encontrado Jesebel, meu grande amor, não teria conseguido o firme propósito de continuar duvidando e achar elementos que comprovassem o engano da crença em Deus. Era muito difícil aceitar algo tão contrario ao conhecimento que é fundamental para que fosse reconhecido como Deus, mas não O conhecia, nem O via, como poderia levara sério tanta falta de lógica? Conhece o passado de meus pais um pouco melhor que eu. Pode me satisfazer tal curiosidade, majestade? -Teu pai e eu temos quase a mesma idade, tínhamos origens e pertencíamos a povos completamente diferentes. O meu, estava extremamente preocupado em encontrar mais saber pois acreditávamos que era essa a forca capaz de modificar o mundo e melhorá-lo. Esperamos que um dia tal saber nos faça merecer viver num mundo melhor, depois da morte. Eu via de meu povoado, ao longe, um outro que me preveniram para manter distancia. Era um povo com um rei que acreditava realmente que era Deus e contava com muito auxílio, para realizar suas proezas e fazer seu povo acreditar nele. Quando veio a ter um filho que, segundo me consta, foi por ocasião suspeita, considerou-o como sendo o primeiro homem porque era filho de Deus, enquanto que o resto de seu povo não era mais que meros animais. Entretanto, nos em peregrinação, em busca de tal lugar especial, teríamos de passar pela região deste povo. Este rei, muito sagazmente, percebeu com informes que nos éramos mais fortes, mais bem armados e poderosos, por isso propôs ao meu pai um acordo entre lideranças. O seu Deus propôs para meu pai, Leviathan, que se unisse Adão comigo para evitar conflitos e começar a colaboração entre os dois povos, pelo bem comum. Foi quando tive contato com teu pai, Caim. E como deve saber, ele era extremamente ignorante, prepotente, pretensioso, arrogante, retrogrado, repressivo, imbecil... enfim,alguém que não merecia o mínimo de consideração. Eu mesma, tomada de raiva, liderei um ataque rápido, porem fatal e fulminante, para colocar este Deus no seu devido lugar. Não foram muitas as baixas, mas apenas os colaboradores diretos de Deus, chamados de anjos, sobraram sem muitos ferimentos, com umas poucas e fiéis pessoas a Deus. Então Ele pôs na cabeça de teu pai que eu era um demônio e que com muito custo me expulsara para o bem dele. Ele presenteou teu pai com Eva, tua mãe, de uma das poucas famílias que sobraram antes de serem completamente dizimadas pelo teu Deus. De resto, fiquei sabendo por historias e boatos de outros povos que acompanharam meio de perto este Deus mas não sei se foram verdades. Ao que parece teu pai e tua mãe foram expulsos do jardim de Deus após um pecado gravíssimo, tentados pela serpente demoníaca, sendo condenados a trabalharem para seu próprio sustento. Fiquei sabendo por boatos de tu e Abel, de como foste acusado da morte dele e condenado a vagar sem descanso, segundo consta nas historias que li. -Não é verdade! Abel matou-se, o imbecil, porque começava a ver e a perceber que alguma coisa não estava certa, mas era muito difícil que viesse a duvidar de meu pai e de Deus. Achou que estava no Inferno e que eu tentava corrompe-lo, acabou matando-se para manter sua pureza. -Foi assim mesmo. Eu estava lá, eu vi, posso tranqüilamente testemunhar isso. Jesebel defendia-me, eu ficava grato, mas aqui parecia que as pessoas tinham uma compreensão maior, de forma que fomos meio precipitados em nos defender tão ardorosamente. Lilith ria discretamente com se já soubesse. Lembrei que, se conhecia prováveis outros deuses e teorias da criação, deveria estar nos livros que ela tinha, que com certeza deviam ser estes da câmara em que estávamos, notadamente antigos e volumosos, que pelo que pude ver rapidamente, tratavam justamente em esclarecer duvidas que até eram minhas também. -Majestade, vejo que conheces bem mais sobre o passado do mundo que qualquer um. Tanto que tens estes livros que parecem ser muito interessantes e bem elucidativos. Ë possível permitir que eu os leia? -Isso é um pedido tentador. Mas espero que me entenda, por ora não é muito recomendável que tenha acesso a estes livros em especial. Peço-te um pouco de paciência, estes livros vão precisar de que tu antes venhas a preparar-se com ensinamentos básicos para que melhor possa entendê-los, caso contrario seria inútil que viesse a lê-los. Além do mais que eles não são somente livros de outras origens e teorias, mas muitos são memórias das experiências e sabedorias de meus amigos e amigas que agora são meus ministros e ministras. São livros portanto bem valiosos e tenho muito cuidado com eles. Não posso empresta-los a qualquer um sem correr o risco de que venham a ser destruídos pela fúria religiosa do leitor ou terceiros. Mas se isso lhe serve de consolo, poderá conversar com meus amigos e amigas, tenho certeza que eles ficarão contentes em contar o que sabem, de uma forma mais interessante e divertida que esses livros. Mas terá muito tempo para isso. Por enquanto aceite nossa hospitalidade e permaneça por aqui, aprendendo e escrevendo para que meu povo o leia, com muito gosto e admiração por tua farta e rica imaginação. Agradecemos por tua vinda e de tua Jesebel também. Fiquem à vontade. Belial abriu a porta para que a rainha passasse e pude ver que ela olhou um pouco com pena e desdém. Acho que ela não gosta muito do tratamento real que Belial desperdiça com ela. Se fosse rei, sentiria o mesmo. Tendo uma herança junto ao campo, liberdade e amizade, é difícil aceitar os encargos que a nobreza traz, junto com a burocracia e o protocolo formal. Fomos orientados para nossos quartos e lá nos deram um mapa para que encontrássemos as demais dependências de nossos interesses. Da janela do meu quarto pude ver boa parte daquele imenso pátio fronteiriço do palácio lotado de professores e doutores esperando terem a mínima chance de se consultarem com a rainha que não só deu prioridade máxima para mim como acolheu a mim e a Jesebel em seu lar. Minha pobre adorada cansada da viagem dormia despreocupada e deliciosamente na cama que escolhera, não quis perturba-la, a deixei dormir enquanto explorava o palácio pois não conseguia dormir de tanta felicidade de estar aqui. Para tornar mais interessante o passeio não utilizei nenhum mapa, andava aleatoriamente pelos corredores, entre um salão e outro, admirando os jardins internos, as obras de arte, as pessoas que lá se encontravam, ocupadas em seu trabalho de serviçais.. em certo momento surpreendi numa câmara, além da biblioteca que lá tinha, uma senhora que se esforçava demais para manter os livros em ordem e limpos. Ficou meio surpresa quando me viu a ajuda-la sem fazer cerimônia, pois não me conhecia, nem era provável que fosse um serviçal do palácio. Apesar de minhas vestes ainda serem aquelas que fiz há muito tempo, selvagens e primitivas, ela deve ter suposto que eu era algum convidado da rainha, pedindo com gestos para que não me importasse. No palácio até o mais simples serviçal tem vestimentas próprias muito mais vistosas que as minhas que contrastavam radicalmente da veste desta senhora, toda refinada. Mas quem disse que ligo? Ajudei-a assim mesmo. Agradecida me ofereceu um livro que me foi dado meio de escondido, como se ninguém pudesse saber que ela me tinha emprestado tal livro. Voltei,com um pouco de esforço de memorização do caminho que usei,para meu quarto e a pobre Jesebel dormia os mais pesados sonos. Também comecei a sentir cansaço de forma que adiei a leitura do livro. O deixei escondido, para que mais ninguém o encontrasse e viesse a comprometer aquela agradável senhora. Só então pude dormir sossegado na cama que sobrara, junto à janela que anunciava as altas horas da noite mas ainda o barulho discreto do murmurinho da multidão que se acotovelava no pátio fronteiriço do palácio. Comecei a ler o livro no dia seguinte, logo que acordei e notei porque tanta preocupação da senhora que me emprestou tal livro escondido. Era a historia da criação contada numa versão tal que me parecia muito mais provável de ser verídica, além de contar as origens de meu Deus, meu pai, minha mãe e até sobre eu! Interessei-me sobretudo pelos pensamentos e poesias que lá estavam, simples mas fortes. Tinha também a historia da rainha Lilith e de seu reino que vim a saber ser o das Trevas, oponente ao reino de Deus que vim a saber ser o das Luzes. Fiquei tão entretido na leitura que não parei até acaba-lo no mesmo dia, apenas fazendo intervalos para o almoço, janta e um tempo para namorar Jesebel. Ao termina-lo quis devolver para a senhora, antes que dessem pela falta deste livro e viessem a puni-la por causa disso. Encontrei-a na mesma câmara, que é uma biblioteca, ainda ocupada com a conservação dos livros. Ela ficou alegre ao me ver retornando depois de tão pouco tempo de empréstimo e que eu estava tomando os mesmos cuidados de esconder o livro, visto que me preocupava com o que poderia vir a acontecer com ela se descobrissem essa infração. -Muito grata por devolver-me tão rapidamente este livro, foi muita gentileza sua. -Eu é que devo agradece-la por um livro tão bom e cativante. O trouxe de volta sem que ninguém o visse em minhas mãos. -Muita consideração a tua. Ës um jovem realmente inteligente. Fizeste bem em devolve-lo às escondidas. E? um livro muito precioso para Nossa Majestade. -Eu percebi. Espanta-me que meus poemas tenham conseguido agradar a rainha tendo ela escritor tão formidável. Quem é este tal de Siron? -Fale baixo, por favor. Este livro nem sequer deveria existir, o escritor ainda sequer veio a nascer. -Como isso é possível? -Este livro foi tomado do futuro apesar de ter sido realizado no ano passado. Acontece que esse escritor virá a ser habitado por um forte pensamento. Os seres não são formados apenas de alma e matéria, são formados de um espírito de intenção que ganha forca pelo pensamento que ira formar e fazer crescer a alma e a matéria. O espírito desse escritor ainda não veio a conhecer a condensação em alma nem a concretização em matéria mas o pensamento que possui já é capaz de realizar tais obras que estão no livro que te emprestei. E fico contente de tê-lo feito, agora que sei que é o convidado tão esperado da rainha, o poeta Caim que causou grande tumulto em meio aos doutores que não souberam explicar teus versos e o fenômeno que é um camponês compor tão perfeitamente. -Já que me conhece, pode me dizer quem és? -Eu sou Belphégor a futura Deusa da Palavra. Quando disse isso. Os livros que restavam fora do lugar moveram-se por vontade própria e se puseram nos seus lugares. Eu que tinha saído da crença em Deus, não faz muito tempo, fiquei impressionado. Ao contrario de Deus, que agora odeio, esta futura Deusa já demonstrava seu poder a meus olhos, a única maneira de se reconhecer uma divindade. Lembrei que a rainha era a Deusa da Lua Negra e me perguntei que poderes ela teria. -Existem outros Deuses e Deusas além de ti e da rainha que é chamada de Deusa da Lua Negra? -Sim, todos os nossos amigos e amigas, são ou serão Deuses e Deusas não pela idéia de dominar os homens com uma fé mas sim para torna-los livres, pelo pensamento, saber e ciência. Deixaremos os homens decidirem pelo próprio destino. Apenas os orientaremos para saberem disso, que estão por conta própria neste mundo e que, só através da razão poderão tornar este mundo melhor e sem duvida terem por mérito uma vida agradável na eternidade, em qualquer Reino do Universo que quiserem. -Quem são e de onde são? Como pensam e explicam a origem das coisas e como foi a vida de cada um? A rainha já me disse que são de diversas partes da Terra. -Isso vai ser uma narrativa longa mas como eu tenho a guarda da memória, irei contar até melhor que eles a lenda de cada um, começando por mim, é claro. Historia de Belphégor: Meu povo é o egeu que desde suas origens desenvolviam a arte de pensar e da oratória. Ricos em mitologias e lendas, fazíamos os deuses tão falíveis quanto os homens e ainda os escarnecíamos em nossas comedias, as epopéias em que se metiam. Eu já era filha de um tribuno com uma sacerdotisa, de forma que me tornei hábil em interpretar as leis religiosas que influenciavam o desenvolvimento de nossa filosofia. Mas a minha melhor descoberta eu não revelei a ninguém que foi a de vir a conhecer este Reino e a majestade. Se bem que vim a conhece-la ainda como princesa das Trevas. Nutri um grande respeito e admiração pelo seu pai Leviathan de quem eu quase obtive confissões e memórias pessoais de suas origens e planos. Do pouco que sei, pareceu-me lógico que tenha conseguido realiza-los, sejam eles quais forem. Antes de nos deixar e tornar sua filha rainha , entregou para minha responsabilidade, a guarda da memória deste Reino, por isso vim a ser chamada de Deusa da Palavra, pelo dom da fala e do discurso que tenho. Historia de Samael Ele é o grande amado de Lilith, rainha de Gamaliel. Tem uma interessante lenda a seu respeito, mas a verdade é bem outra. Seu povo é o árabe, filho de um clã cansado da dominação de Alah em suas vidas e no progresso do seu clã. Já tinham uma fama de serem quase infiéis, então a família de Samael tiveram de virar nômades, perseguidos pela incompreensão religiosa. Ele nasceu no meio dessa constante fuga e exílio, acabou aprendendo a duras penas sobreviver e lutar contra possíveis agressores que surgissem. Um certo dia, acuado e prestes a ser morto, seu oponente caiu pálido e rígido com muita rapidez. Samael viu uma cobra do deserto terrível e imensa a olha-lo fixamente. Não o atacou mas lhe deu visões. Decidiu adotar a imagem desta serpente como sua identidade e protetora contra Alah e seus seguidores Mais tarde veio a saber com seus familiares que este ser era bem possível que fosse uma forma do anti-Alah, conhecido por Habal (Al Hab), mas como não eram religiosos não se importaram que Samael lhe rendesse homenagens. Foi com essa viagem interminável, continua reflexões e experiências que se tornou esperto também. Foi essa combinação harmônica de guerreiro e sábio que viria a conquistar o coração de nossa rainha. Não o tenho visto embora nossa majestade afirme que ele se tornou a Serpente do Fogo Negro ou mesmo Samael para as gerações futuras. Historia de Adramaleck Seu povo é o elamita, povo guerreiro e impiedoso. Mas ela apesar de excelente guerreira queria algo mais, que não homens que os dominava quando os queria sexualmente. Seu povo era constantemente contratado pelos acadianos para deter o avanço dos armênios, povo de nossa rainha, que era tão forte quanto sábio desde os seus primórdios. Foi assim que ela encontrou esse algo mais que viria a ser o pensamento como religião se se pode considera-lo assim. Enfim, acabou ajudando nossa rainha a continuar a sua marcha e viria ajuda-la a acabar com o reinado de teu Deus, muito humano e real, do povo hebreu. Mais tarde viria a encontrar ainda mais, com a inclusão no grupo de Baal Chanan o ?Corvo Conspirador?, por quem sentiria pela primeira vez paixão, temor e respeito, que não lhe eram muito peculiares. Historia de Baal Chanan Seu povo é o sudanês, deste imenso território que começamos a construir nosso Reino. Ele foi, por assim dizer, o último a se juntar ao grupo do Conselho das Trevas. Grande tratante, conspirador, espião. Fazia de tudo para os reis do seu povo cair no descrédito ou no desmerecimento deles, estes reis que se diziam escolhidos pelos deuses, contra os quais buscava provas de inexistência. Os achava infantis demais e só prejudicavam, pois deixava seu povo conformado e inerte ante as tragédias, que até poderiam ser resolvidas ou evitadas, se se esforçassem. Ele praticamente chegou sem nenhuma cerimônia até Lilith que já era princesa das Trevas e amada de Samael, para lhe agradar com uma historia sobre o tão odioso adversário dela, teu pai e sobre ti e Abel. Como já disse, era raro escapar informações de seus ouvidos e ele soube lá com seus meios sobre o interesse de nossa rainha pela desgraça que Adão pudesse vir a sofrer. Grande, forte, negro, inteligente e muito ardiloso. A pobre elamita Adramaleck nunca tinha visto homens assim e se apaixonou. Por isso ficou conhecido como ?Corvo Conspirador? e veio a ser o patrono de quem gosta de vasculhar o oculto em busca de respostas. Historia de Astaroth Seu povo vem de origem nórdica que é um dos povos que virão a ser conhecidos pela exploração de novas regiões, por mares, em seus navios. Praticamente foi quem inventou o conceito e o significado de filosofia. Não foi muito fácil para ele, visto que seu povo tinha costumes e deuses sanguinários. Abandonou o povoado ainda jovem porque sabia que não teria condições de enfrentar a luta pela sobrevivência apenas com raciocínio, pelo menos por enquanto. Aprendia mais conforme viajava, sempre para o sul em busca de sol e climas mais saudáveis. Mais ou menos quando visitou a região da Transilvânia, encontrou Leviathan, jovem como ele, com sua esposa Nahema e sua filha Lilith. Fez amizade e acabou se tornando professor de nossa majestade, Lilith, pelo menos até o dia da maturidade, quando ela desposou Samael e estava bastante instruída para ter suas próprias decisões, se bem que Lilith já as tinha. Ainda assim serve como excelente conselheiro de nossa majestade, da mesma forma como a orientou para essa região em particular, pois tinha certos presságios sobre ela. Pelo seu conhecimento e experiências é conhecido pela sua proteção a quem exerce as altas filosofias e que depois vira a ser conhecida como alquimia, que mistura ciência e ocultismo. Podemos chamá-lo de Deus do Esoterismo. Historia de Asmodéia. Ela já é do povo local, egípcio. Ela é uma sacerdotisa de Ísis e excelente dançarina. Sua beleza e jovialidade são tocantes, é a mais nova do grupo e por isso tem tanta energia. Foi associada a tudo que é quente e alegre, é como uma Deusa da Vida, ou do Dia ou do Sol. Sua despreocupação com o futuro de sua vida em vidas possíveis além desta a faz irreverente e debochada aos pensamentos, no entanto é capaz de fazer raciocínios e dizer coisas desconcertantes a estes filósofos e profetas. Tem e sabe que nutre um apreço de Astaroth, ambos se mama e se gostam mutuamente. E? a mistura do fogo com o gelo. Historia de Satan e Molock Ele é do povo mongol, um povo conquistador e sedento por descobertas. Não tem deuses ou mitos apenas vivem, plantando ou conquistando terrenos para morar e plantar. Ele não tinha muitos motivos para sair de seu território, pelo menos até ter invadido o território de uma família hindu e lá ter entrado em contato com as primeiras idéias religiosas. Foi ali onde encontrou Molock, a mulher que iria mudar toda sua vida. Ela estava prometida a um de seus muitos deuses, portanto devia ser preparada para isso. Mas Satan ao conhece-la desafiou as leis daquele povo e do seu próprio, enfrentou o deus a quem Molock estava prometida. O deus Mahakuli aceitou o desafio, este deus era o deus guerreiro deste povo hindu, mas mesmo assim perdeu para Satan. Estava revelado que ele então seria um poderoso comandante das forcas infernais. Não aceitou enquanto não ordenassem Molock no mesmo posto que o dele, o que foi feito. Por isso confundem-se ambos e os consideram como sendo um único ser. Do jeito como se amam, é difícil separá-los e distingui-los, se bem que nós, seus amigos e amigas, tivemos várias oportunidades de vê-los separados, desengatados, dando um intervalo na cópula. Historia de Lucifábia Seu povo é o assírio, povo de tradição jurídica extremada, eles interpretam suas leis com rigor e pesos únicos, sem exceções nem abrandamentos. Ao se punir um criminoso deve ser com a punição de regra, exatamente definida para o tipo de delito, nem mais nem menos. Ela era uma advogada notória e seus casos freqüentemente acabavam na execução dos réus que eram seus adversários mas em absolvição plena quando os defendia. Extremamente pragmática e metódica, fria e calculista, a chamavam de Carrasco. Na ocasião que teu Deus quis nos culpar de todo Mal ela se apresentou para defender-nos e acusar teu Deus de ter causado este Mal. Foi tão bem sucedida que teria condenado teu Deus se este não tivesse fugido. Pudemos ficar aqui e estabelecermos este Reino e que Deus, onde estiver agora, aceite e agüente nossa existência que será dedicada a fazer cumprir a decisão do Universo quanto aos destinos dos Reinos. A ela foi entregue essa missão de vasculhar a vida dos homens e separar os que são nossos de verdade daqueles que só se esforçam para parecer. E destes, já são muitos os que sofreram penas severas. Ela é a Deusa da Execução,sem misericórdia, a mesma carrasca tão temida. Historia de Belzebu Seu povo é o britânico, uma tribo celta com costumes bem estranhos. Um inventor nato, inventa os mais diversos engenhos, um grande percursor da engenharia das próximas gerações. Sua maior invenção, um engenho voador. Chegou aqui através dele e nos ajudou a construir tudo isso, foi ele quem desenhou este palácio e todos os outros, para falar a verdade, desenhou cada casa de cada cidade do reino e faz questão de construí-las, usar seus engenhos para isso além de torna-las tão habitáveis quanto confortáveis. Tudo que vê aqui foi idealizado por ele inclusive o represamento e a canalização da água, as estradas e as passagens de cada palácio do Reino. Mas pelo engenho voador vai ser conhecido como Deus dos Ares, mas também será das construções, engenhos e inventos mecânicos que virão a surgir. Ah, sim! Ele e Lucifábia têm um caso embora não o confessem. Ambos gostam de ver as coisas organizadas, funcionais e metodotizadas. Só conseguem amar-se com o mesmo cuidado que fazem seus serviços. Historia de Belial Ele também é do povo egípcio, de uma casta de nobres ricos de uma outra região. Entediado com a vida que levava abandonou a casa dos familiares em busca de novas emoções. Como todo jovem rico é temperamental, explosivo, mimado, querendo que tudo seja como deseja. E?, do grupo, o que menos se inclui nas características gerais, ainda não sabemos o que ele pode vir a ser mas conhece bem investimentos, lucros, economia. O manteremos enquanto for necessário, enquanto estivermos nesta existência material. Assim que Belphégor terminou de contar as historias de meus amigos e amigas voltei rapidamente para meu quarto, pois era a hora do jantar e eu queria levar Jesebel até lá, seria o jantar de lançamento da publicação de meus poemas. Fui encontra-la já pronta, perto de uma sacada que dá para o pátio de treinamento dos soldados, esperando-me com paciência e admirando as habilidades deles. -Queria que eu fosse como eles, Jesebel? Meio surpreendida, assustou-se levemente e me disse: -Não. Tu tens aquilo que exatamente espero e quero de um homem. Não precisa ter ciúmes, eu realmente gosto e te quero demais. Agradou-me saber disso e olhei os soldados e eles estavam muito agitados para um simples treino. Chegamos ao jantar com nossas melhores vestes que não eram, evidentemente, tão refinadas quanto às dos demais convidados, mesmo assim nos receberam com honras e elogios, visivelmente falsos e hipócritas. A rainha recebeu-nos com seu belo sorriso mas ela não parecia bem. Mas a celebração continuava e os poetas, doutores e professores espantavam-se com cada linha de cada poema que eu escrevi, de como era possível isso, não estava nas suas teorias e ciências tal possibilidade. A celebração interrompeu-se bruscamente pois o estado da rainha piorava e seus assessores correram para ajuda-la e medica-la. Eu me aproximei também querendo ajudar de alguma forma. Belphégor estava lá. Como não conhecia aos outros tão bem quanto a ela, sem falar que era minha amiga e ,digamos, protetora, conversei com ela. -A rainha esta doente, Belphégor? E? grave? -Não, não esta ?doente?, esta para se metamorfosear. -Ela vai morrer?! -Impossível. Ela é a Morte. Está para se cumprir a promessa de seu pai Leviathan e a profecia do escritor Siron. Ela está para se tornar plenamente a Deusa da Lua Negra. Seu pai e seu esposo a estão esperando no Reino das Trevas. Astaroth pediu para que levassem a rainha até um local mais apropriado para sua transmutação e eu ajudei a carregar o trono da pobre rainha em convulsão. Deixamos a todos os outros convidados assustados com seus choros, lamúrias e estarrecimento diante de algo tão simples. Mas se eu já não disse, eles são todos falsos e hipócritas, deviam estar fingindo como tantos outros que dizem gostar deste Reino e o apoiavam. Bem se vê, na primeira oportunidade de se fazer algo efetivamente de concreto e comprobatório, que não são nada dedicados. Mais falam que fazem. Nós a colocamos numa espécie de coluna grande, grossa e alta, estava piorando mas parecia sentir uma euforia extrema. Foi quando ela abriu seus olhos e me olhou, pude ver que algo estava para aflorar de dentro dela. Seu corpo ganhou um brilho estranho, que foi avermelhando até que as chamas começassem a irromper. Mesmo tendo seu corpo consumido desta forma, permanecia sentada, insensível e de olhos bem abertos. E? como se não pertencesse mais a ela seu corpo. Mas o mais espantoso e tenebroso veio depois, quando ela fechou os olhos, parecia se concentrar, estremeceu e gemeu. Uma coluna de umas chamas enegrecidas elevou a rainha e começou a tomar-lhe a forma. Toda sua casca material desintegrou e pudemos ver que ela era inteira formada desse fogo negro, como se fossem naturais e partes de um só ser. A estranha energia que emanava alterava o recinto e os presentes que tomaram uma parcela do fogo negro, também se transformando, cada um respectivamente no deus ou deusa do trono a que estavam destinados. Vi minha amiga Belphégor tendo seu instante de glória, sendo coroada como Deusa da Palavra, sendo dotada de duas vozes para que pudesse dizer tanto um lado quanto o outro dos fatos. Fiquei desesperado quando escutei Jesebel me chamar aflita. Ela também foi escolhida para fazer parte do Reino das Trevas e já estava quase toda transformada em fantasma com a chama negra saindo de sua testa a indicar sua condição. Ela não queria partir sem mim, eu sentia isso, ela queria partilhar essa incrível e deliciosa eternidade no Reino das Trevas ao meu lado! Mesmo sabendo que não poderia segurá-la, eu tentei, com minhas mãos segurar as dela quando ela começou a subir e sumir mais. Eu consegui tocá-la e ela me segurou e levou-me consigo! Não percebi mas já tinha a minha chama negra, sem sentir que estava mudado! Jesebel quem me disse e eu ainda não sabia como isso é possível, eu vi todos os outros sofrendo mudanças, porque não eu, que nem era do Conselho e nem sequer tenho para merecer tanto? -Caim, já nasceste sob meu signo. por ter sabido dar lugar a esta natureza é que pôde desenvolve-la e deixa-la ajuda-lo a encontrar uma resposta para tuas duvidas e fico feliz que a tenha encontrado conosco. Tal como em mim, o fogo negro era tua natureza, diria até um pouco mais que eu, uma privilegiada. Eu já nasci das Trevas mas não tu, nasceste das Luzes e percebeste que ela é estranha à natureza de todo ser humano que preze sua real função racional, não foi sem motivo que o Livro das Luzes disse que serás marcado e andarás sem descanso pela Terra. Não será dessa forma, nem por vontade de teu Deus, que soubeste negar com razão. Terá teu lar no nosso Reino das Trevas e terá tua felicidade ao lado de Jesebel, ambos são malditos para as Luzes mas são nossos amigos,amigos de quem se preza a encontrar a verdade e desmascarar a hipocrisia desse Império fascista. Tem agora nada menos do que sempre mereceste, aceita-o e desfrute-o com teu amor, Jesebel! Com dificuldade, escrevo-lhe estas últimas linhas antes de os deixar por completo. Eu me permiti aprender coisas que até então, no principio, eram estranhas ao meu meio familiar e religioso. Aos poucos as informações foram processadas e aceitas quando tinham lógica ou argumentos fortes. E uma das coisas que aprendi, a fazer e a perceber, é justamente isso que nos faz a todos, homens e mulheres, tão distintos dos animais que é o raciocínio antes da ação. Espero sinceramente que o Homem nunca inverta esta relação no desespero de construir seu reinado, porque este reinado não durara. Agora mesmo eu sei quantos deuses e deusas existem na Terra, cada um com uma espécie de controle religioso a essa capacidade humana. Espero que isso não se torne, com o passar do tempo, um adversário da liberdade de pensar, caso contrário, coisas horríveis poderão acontecer em nome desse deus ou dessa fé, coisas tais que contradirão a razão de ser desse deus e dessa religião, a razão de ser do Homem e essa condição que é de valorizar a vida para que a humanidade não acabe desvalorizada. Eu verei isso bem mais tarde e sem poder lhes falar mais, por tanto, cautela, respeito e raciocínio devem estar com todos que agora deixo. |
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