Heterogênese
No principio era o sujeito e dele veio o verbo, pois verbo algum faz sentido se não há quem o profira.

Já havia o Universo que, como único, habitavam nele milhares de partículas. Destas, nasceram o Espírito das Luzes e o Espírito das Trevas. Do choque entre eles, explodiu a vida no Universo que, para que continuasse o equilíbrio, separou-os em dimensões diferentes, que não aquela onde nasciam as galáxias.

Das partículas que originaram as galáxias, vieram os seres, cada qual ao seu planeta, todos formados por este planeta de sua essência particular. Todos, ao seu tempo, tiveram seu momento de glória.

Ora, ocorreu ao Universo que a extensão de planetas e de seres era tão grande que muitos lhe escapavam ao equilíbrio e se extinguiram, sendo portanto, necessário pedir ajuda aos seus filhos, o Espírito das Luzes e o Espírito das Trevas. Mas, por causa de que cada ser, fora formado pelas partículas do Universo, era-lhes dado uma consciência, cabia então, a cada Espírito, conquistar de pleno acordo o apoio dos seres

Das conquistas que cada um fez, merece o destaque a conquista do terceiro planeta, de um sistema solar, da galáxia que se chama Via Láctea, por ser como leite ao Universo: cheio de vitalidade e energia. Por menor que fosse das outras galáxias, se distinguia pelas riquezas e pelos seres que até então existiram. Dentre os planetas que havia em torno de seus sóis, este era como uma pérola encontrada entre dunas marítimas.Então, não foi sem mérito que lhe foi reservado a importância de ser a fronteira final entre as Luzes e as Trevas: dele partiria e a ele retornaria o domínio de cada um dos Espíritos, visto que o duplo círculo é o símbolo do Universo.

No entanto, os seres mais evoluídos resistiam ante a compreensão. Ocorreu ao Espírito das Luzes que deveria então formar um igual a estes, só que formado de uma parte de sua essência. Usou o barro, misturando a água e a terra do planeta, deu-lhe forma, secou-o no fogo do planeta, mas o sopro a dar vida à criatura veio do Espírito.

Isso era satisfatório, pois o domínio do Espírito das Luzes neste planeta estava vivo e encarnado, melhor marca de território não há do que a vida e a palavra dita por esta vida, sobre sua origem. Foi-lhe dado o nome de Adão e foi considerado como sendo o primeiro homem, embora já houvessem tantos semelhantes a ele, que eram considerados pelo Espírito das Luzes como simples animais inferiores. Havendo esquecido de sua origem e da origem igual, tanto de Adão quanto dos outros animais semelhantes, o Espírito das Luzes pôs esta criatura acima das outras, gerando a desigualdade. Como Adão não podia deixar de ser diferente de seu pai, gerou discórdia entre os animais semelhantes. O Espírito das Luzes, para mantê-lo longe deles e não acabassem fazendo ruir o marco vivo do Espírito das Luzes, este utilizava seus poderes, criando a repressão.

Isso era completamente inaceitável para as partículas, que ficaram agitadas, vendo seus seres criados igualmente, disputarem a realeza da superioridade sobre seus iguais. Quando as partículas ficam agitadas, o Universo fica atormentado, como um lago ondula pela simples queda de uma gota na superfície. Sentindo a insatisfação do Universo, o Espírito das Trevas pôs-se então a criar algo, que seria mais perfeito que o homem, porém feito da essência das Trevas e das essências antagônicas do homem. Enquanto este foi formado pelo sopro das Luzes, cuja sabedoria não vai além do obstáculo, esta viria das Trevas, cuja sabedoria vai além das Luzes, ultrapassa o obstáculo e trespassa, chegando ao mais profundo. Enquanto o homem foi modelado do barro, esta foi esculpida em pedra, talhada pelo relâmpago, enquanto foi do fogo que o homem se formou. Porque a pedra é superior ao barro, tanto que está acima e ao redor para contê-lo, porque o relâmpago é superior à água e ao fogo, pois não pode ser apagado nem detido, a não ser com esforço tremendo. Foi lhe dado o nome de Lilith, pois seu primeiro passo em vida foi numa noite de lua nova, durante o sono mais longo dos seres incautos e do tolo homem, Adão. Como mulher, ficou conhecida sua essência, por reconhecer de antemão, que não era a única, tão pouco superior às demais fêmeas dos demais seres. Na verdade, seu Pai, o Espírito das Trevas, avisou-a logo que o brilho de seus olhos flamejou:

-Tu és melhor que o homem, mas mesmo assim igual a ele, com talentos e falhas. Teu dever é deter o homem em sua loucura, como a pedra detém o barro, repreender as paixões e fraquezas do homem, como o relâmpago diante do fogo e da água. Sobretudo, como filha das Trevas, deve lançar a duvida e a critica contra a sabedoria superficial do homem e das Luzes, enquanto tiverem a ousadia, a petulância e a pretensão de porem-se acima de tudo e todos os seus iguais.

Encolhendo-se perto de uma tosca fogueira, estava Adão, que não conseguia dormir e entender porque uma noite pode estender-se tanto. Achava que o fogo o manteria a salvo das Trevas e manteria sua voz próxima de seu Pai, o Espírito das Luzes. Como toda criatura arrogante, que se contenta com a felicidade superficial da luz, por esta fornecer-lhe calor e visão, tremia de impotência ante ao frio e densidade das Trevas, que não cessa de requisitar a argüição dos seres inteligentes.

Mais ainda nesta noite, que tinha agora um ser vivo para representá-las e melhor ainda, pois além de ser mulher, era filha do Espírito das Trevas, nascida no signo da lua nova, Lilith, a dúvida em forma carnal tentadora, a crítica em olhos flamejantes sensuais. Adão ao enfrentar a simples presença de Lilith frente aos seus olhos, aproximando-se dele, altiva e magistral, com passos flutuantes, vinda das Trevas da noite, tomou-a como sendo um demônio, como muitos dentre aqueles que seu Pai, o Espírito das Luzes, lhe advertiu cautela. Ora, instruído por seu Pai, Adão quis combater esse demônio com suas próprias armas: fogo para combater fogo. Porem Lilith, que foi talhada na pedra pelo relâmpago, não iria temer as chamas de uma mera tocha. Visto que sua arma não fazia efeito, Adão achou prudente tentar uma aliança com ela por enquanto, até que numa distração, pudesse submete-la a seu julgo.

Quando Lilith estava ao seu lado, Adão percebeu que era uma mulher perfeita, um corpo mais evoluído e melhor que as fêmeas dos seres semelhantes a Adão. Foi somente então que passou por sua cabeça a idéia de que ela poderia ser a tão prometida companheira, presente de seu Pai, o Espírito das Luzes.
Lilith porem não pôde suportar a idéia de deixar Adão se deliciar da maneira opressiva de amar dele. Nem sequer passou por sua cabeça a idéia de deixá-lo usufruir suas carnes tão precocemente. O vento noturno fez sentir ainda mais sua fúria ao repreender Adão:

-Longe de mim, besta humana. Por que me toma, para querer me possuir como se fosse um fruto de árvore, a se oferecer à primeira mão que se lança? Não vês como sou tua igual, como tantas outras e mereço o mesmo respeito que nutres por ti? Pois bem, animal infeliz! Que fique sabendo que sou Lilith, filha do Espírito das Trevas e não será de ti que farei gerar os meus, por causa de tua ignorância. Não é o único ser que possui cabeça, nem tão pouco és o primeiro homem. Lançarei minha geração longe da tua, com outro qualquer que saiba reconhecer o Universo, o equilíbrio entre as Luzes e as Trevas, assim como a igualdade de todos os seres. Da nossa geração virá aquela que porá abaixo teu Império das Luzes, tuas crenças superficiais e o coloque no plano que lhe é devido. Estarei presente em teu meio, a partir desta noite, como em toda noite de lua nova. Mais ainda quando a terra opor-se no caminho do sol, escurecendo a lua, para acoitar tua consciência e de tua geração, diante das Trevas da noite prolongada. Assim será até que seus filhos te julguem e se envergonhem ao descobrir que tipo de casa tu construíste para os herdeiros do Império das Luzes!

O Espírito das Trevas, vendo que isso foi dito pelos lábios de sua filha, sem ajuda, ficou orgulhoso e permitiu que a sabedoria dela lhe desse asas, a fim de buscar seus iguais, entre os seres. Ao chegar nas margens de um grande lago, a oeste do Éden de Adão, chamado de Mar Morto, Lilith ganiu sua mágoa para as montanhas, o deserto e o lago. Cantava e dançava amargurada de uma dor tão tocante, que logo muitos seres apareceram para consolá-la. Mas Lilith prosseguia, cantando:

Do amor entre o relâmpago e a pedra,
Fui formada e por ordem das Trevas,
Nasci mulher tão bela e perfeita,
Mas para que homem aos olhos apareceria?
Da lua nova, signo noturno,
Minha alma ganhei e da chama dos meus olhos
Na noite, minha sabedoria, faz as Trevas sorrirem,
Mas para que homem aos ouvidos ensinaria?
Homens são tão altivos e superiores,
Mas não conseguem enxergar além dos olhos,
Nem poupa de sacrifício a vida do semelhante.
Antes movesse o pé para mudar a opinião,
Rugisse como igual para o leão,
Olhar antes mesmo da visão,
Viver tendo o semelhante como irmão,
Mas por ser um animal da Luz,
Assim lhe parece cômodo e fácil:
Ver o que, aos olhos, a Luz deseja,
Temer o que a inteligência ignora,
Estar como num trono inexistente,
Limpar do seu mundo o que condena.
Mil vezes sou mais feliz,
Se entre estes seres
Faço meu leito
E junto deles lançar as sementes
Das gerações que ruirão
Com o Império de Adão e das Luzes.

Notando que muitos seres compartilhavam de sua dor, deixou que eles falassem. Estes, com a ajuda do espírito das Trevas, disseram em uma única língua, uníssonos:

Formosa senhorita,
Filha do Espírito das Trevas,
Nascida na noite sob o signo da lua nova,
Forjada pelo relâmpago na pedra.
Teu choro nos enche de dor e repúdio.
Conhecemos também o petulante Adão,
Que diz ser filho do Espírito das Luzes
E que é o primeiro homem,
O ser superior entre todos os seres.
Perdoamos tua ingenuidade,
Pois tens diante de ti seres
Que não somente são iguais
Mas muito semelhantes também
Ao arrogante homem Adão.
Se foi pela estupidez deste,
Não nos culpe a todos.
Sabe muito bem que não é,
Nem foi ou será o único
E último homem dentre os seres.
Mesmo tendo a paternidade
Vinda de um Espírito do Universo,
Este homem é tão besta, se não mais,
Que seus semelhantes aqui presentes.
Nossas mentes são abertas,
Nossos olhos aguçados,
Nossa vida, em dar o que desejamos obter.
Se foi tamanha sua mágoa,
Deixa-nos então te consolar.
Temos vontade e paciência de aprender,
Ainda assim teremos pouco conhecimento.
Façamo-nos colegas, amigos e irmãos verdadeiros,
Que ensinam um ao outro sem censura,
Nem educam pelo artifício do adestramento.

Lilith juntou-se a esses seres e junto com eles iniciou um povoado de grande sabedoria e riqueza, cultivada no espírito crítico.

Novamente, o solitário Adão chamou por seu Pai no dia seguinte, pois não podia esquecer Lilith. Pedia ao seu Pai que ela voltasse, pois a desejava muito. O Espírito das Luzes sabia que não conseguiria, mesmo que tentasse, ordenar para que Lilith voltasse, sem o consentimento dela ou do Pai dela, o Espírito das Trevas, pois a Luz não pode andar em seus próprios passos, necessita da sombra, para caminhar e permitir o descanso dos seres.

Por isso, fez seu filho dormir e tirando uma parte da costela, fez uma outra mulher, que por vir do ventre do homem, seria submissa a este, já que a cabeça ergue-se acima do ventre e lhe ordena, cabendo ao ventre, alimentar e servir de apoio à cabeça. Por estas características, o Espírito das Luzes a chamou de Eva e a apresentou a Adão como sua posse, a mulher que lhe geraria filhos e obedeceria humildemente seu marido, como também daria conta sozinha da evolução e maturidade dos filhos de Adão. Isso era agradável para ele, mais ainda que estar com Lilith, podia fazer de Eva tudo aquilo que Lilith não era e ter igual satisfação ao ter com Eva no leito. Tanto, que Lilith não seria mais que uma sombra de Eva na cabeça de Adão, algo que seria amargamente lembrado, a falsidade deste conceito, nas noites longas de lua nova e nos momentos em que, o sol ou a lua, for oculto pelo manto da terra.

Chegado o momento em que todos têm seu amadurecimento pleno e suas conseqüentes mudanças, Eva nos desvarios que uma grávida é cometida, andou pelo Éden de Adão, até um fruto lhe despertar o desejo. Sem dar conta que o fruto era feito de Luz, comeu um pedaço e levou outro a Adão, que ocupado demais para dar atenção a sua esposa, instintivamente levou o fruto até a boca e comeu-o, sentindo um gosto familiar. Foi então que percebeu ter comido do fruto de Luz, da árvore que o Espírito das Luzes proibira a ambos de comer. Colérico, disse à sua mulher:

-Não sabes o que fez, Eva? Fez-me comer da carne de meu próprio Pai! Acaso somos deuses para comer a Luz como fruto e alimentarmo-nos dela? Escondemo-nos rapidamente, para que não acabemos sendo devorados por ela!

Mas como uma aranha sente na mais fina teia a passagem do vento, o Espírito das Luzes sentiu e já viu tudo. Fez um soldado seu expulsar Adão e Eva do Éden e que agora tirassem da terra, o sustento das frágeis vidas deles. Passariam muitos anos em gerações, até que seus herdeiros pudessem corrigir o fardo do erro ao qual Adão e Eva condenaram seus filhos.

Já que o Império de Adão estava fadado ao engano, ao erro, muito opostamente seriam os herdeiros que viriam de Lilith e das Trevas.
Ao chegar o dia da sua maturidade plena, seu Pai o Espírito das Trevas, foi conversar com sua filha, Lilith. Encontrou-a cercada de amigos, mas nenhum deles tomou a mão ainda da bela Lilith, não houve ainda um que transpassasse seus umbrais. Como todo pai preocupado com uma filha sem pretendente, o Espírito das Trevas adensou-se em um formato e, sentado, dirigiu estas palavras a Lilith:

Hoje devia ser o dia da sua glorificação, mas nem alegre parece estar. Ainda não sabe que, como mulher, por mais perfeita, ainda tem falhas e lacunas que só podem ser preenchidas por um homem? Como espera amadurecer, sem que te cedas por uma noite inteira, a partilha do teu leito ao companheiro? Vá, que seus convidados a esperam e que tua sabedoria possa lhe habilitar encontrar, aquele que tanto precisa seu corpo e alma, entre eles.

Ao sair de sua gruta, a festa animou-se mais, os seres todos começaram a lhe render homenagens. Não faltou ter aqueles que, cometidos excessos, postavam-lhe à frente, como galos adiante de uma galinha, a se exibir. Tal comportamento jamais prova a maturidade de ser algum, faniquitos e ataques de masculinidade deste tipo só são aceitáveis entre crianças. Dispensava os dotados de grande força, pois eram burros demais para lerem  seus olhos. Desprezava os que se fazem de sábios, pois nada tinham a lhe acrescentar. Pouco lhe valia os formosos que perturbam o coração das fúteis, pois como as flores, fenecem pela fragilidade.

Por causa de sua natureza, Lilith não se contentava facilmente, logo o tempo esgotaria e sua maturidade ficaria incompleta. O Espírito das Trevas, seu Pai, pôs a mão no fogo, enquanto a outra tomava uma serpente do deserto para que, juntando os elementos, nascesse Samael, a serpente do fogo negro, que devora o dia. Fê-lo humano e vestiu-o com as areias do deserto. Pois a areia resiste ao tempo sem perder talentos, mesmo não tendo a beleza das flores; o fogo de uma festa para que nunca haja a sombras das rugas de um rabugento; uma serpente para ter o sangue frio ante o perigo. Conduziu-o para a clareira e o fez misturar-se entre os convidados. Ninguém o conhecia ou de onde vinha. Mesmo não dizendo nada, pois como serpente detestava tagarelices, despertou grande fascínio das outras mulheres, pelo seu olhar e riso, de quem guarda muitos segredos. Não há nada mais lascivo que um mistério guardado nos olhos e mais maliciosos que um segredo seguro em lábios sorridentes.

Um dos convidados, dentre os exibidos, não gostou quando percebeu que perdia o domínio da festa para um estranho, que nada tinha de especial, não era alto, forte, belo ou sábio. Cheio de inveja, avançou para expulsá-lo da festa, se possível da região. Com a graça sinuosa da serpente que tinha, fez com que a própria força do oponente o derrotasse. Samael então era um guerreiro que vencia o inimigo de mãos desarmadas, técnica assombrosa que ainda não se vira igual.
Mas um dentre os convidados que se faziam de sábios debochou:

-Lutar só serve para aparentar valentia e incitar violência irracional entre bárbaros.

Sibilando sua língua bifurcada, qual faca de dois gumes aguçada, Samael pôs-se a responder:

-Tal é assim como tagarelar é para frouxos e covardes que querem cercar o mundo inteiro dentro da sua linguagem.

Palavras que não pretendiam a verdade ou o controle do pensamento alheio, que fazem então cada um raciocinar e entender com acharem melhor, coisa que aos ouvidos vem como o sussurro dos ventos, cantando pelas frestas das rochas.

Logo seguiu a chacota dos seres que tinham muita beleza, por terem visto sua língua bifurcada, chamando-o de lagarto grande e linguarudo. Samael dobrou-se e pegou um escudo grande, derrubando as frutas que ali estavam, poliu sua superfície embaçada e colocou diante dos seres dotados de beleza. Vendo o próprio reflexo, apaixonaram-se, qual Narciso, por si mesmos, mas como não podiam ter e dominar o objeto amado, logo a desilusão desfigurou alguns e o desespero lançou ao fogo, outros. Tal como flores que, apesar de multicores, logo murcham quando uma sombra as cobre, já que estão ocupadas demais com sua beleza, para moverem-se e resistir aos contratempos, para melhorar sua vida.

Venceu a forca bruta com a forca inteligente, a sabedoria mascarada com a sinceridade critica, a beleza ofuscante com o reflexo da realidade.
Não sabendo porque, Lilith admirou este homem, algo incrível lhe acontecia, mas sua cabeça hesitava ante a necessidade de uma explicação. Por que não conseguia deter os pés, que teimavam em aproximá-la dele? Por que seu coração não estava mais em seu corpo, mas pulsando em sua volta, como um animalzinho de estimação? Por que seus olhos quase lacrimejavam, enquanto uma trovoada atacava sua coluna? Antes mesmo de conhecer Samael, este já era seu marido; antes de tocá-lo, já o sentia em si; antes de deitar-se, já o leito lhe era familiar. Lilith tomou Samael, que ultrapassou pelos umbrais da carne dela, por toda a noite.

A união não foi honrada somente com a consumação carnal entre eles. Em cada enlace de Samael em torno de Lilith, não era a dor da posse que a invadia, algo em si vibrava de êxtase na alma, que sentia a alma de Samael em cópula com a alma dela. De tanto prazer, uma energia emanava em chamas, que eram diferentes do fogo comum vermelho que consome a matéria; estas eram negras, mais poderosas que as vermelhas, pois além de consumir a matéria, consumiam o espírito. Muito que ainda festejavam, fugiram de medo, eram de um tipo miserável que se faz passar por adorador das Trevas, mas ao primeiro sinal de revelação delas, caem de joelhos e se escandalizam.

Os poucos seres inteligentes e animais que permaneceram, logo sentiram como é doloroso e amargo o fogo negro, qual brasa ardendo em todo o corpo e como vinho tinto ácido e venenoso, fluindo nas veias.

Ao sair de sua caverna, junto de Samael para conhecer seus ministros, amigos verdadeiros e leais, chegou do leste um corvo, grande como uma coruja, forte como águia, inteligente como só um corvo poderia ser. Pousou no ombro de Lilith que; por obra de seu Pai, o Espírito das Trevas; de sua língua desenrolou-se um papiro, que continha a noticia da perdição de seu rival, Adão e da sua desgraça, por causa dos filhos que teve com Eva, a serviçal dele, já fora do Éden, nestas palavras testemunhadas pelo corvo:

-O Deus de Adão formou de uma de suas costelas outra mulher de nome Eva, para fazer-lhe companhia. Eva, já grávida, comeu o fruto da Luz, comendo assim da carne deste Deus e fez com que Adão também cometesse o mesmo erro.
Deus sentindo o erro e a culpa em suas crianças, com sua carne em seus ventres clamando por justiça, expulsou-os do Éden, deixando-os à própria sorte. Por ter sido alimentado pela Luz, como também por estar fora do Éden, o feto de Eva desenvolveu-se muito rapidamente, dois meses antes da expulsão e sete depois, sendo portanto considerados carnais os sete últimos.
Foi assim que, na noite do sétimo dia do sétimo mês, que veio a nascer o primogênito que foi chamado de Caim, cujo significado é: aquele que veio do pecado original.
Depois deste, somente sete anos depois, no nono dia do nono mês, nasceu Abel que significa: o preferido da Luz. Assim Caim logo teve que partilhar o rebanho e a colheita com Abel, a quem cabia a melhor parte, já que era o preferido. Abel tratava dos carneiros e das árvores frutíferas, Caim tratava dos bodes e das ervas rasteiras. Como não podia competir materialmente com Abel, Caim se esmerou em ter uma mente privilegiada com raciocínio e reflexão. Em suas considerações, começaram a surgir duvidas, a respeito da unicidade como homem de seu pai, a respeito da existência do Deus dele, perguntava-se para quem esse Deus mostraria a importância da sua obra em detração a outras atribuídas ao demônio.
Entre seus bodes e cabras, perambulando entre as montanhas, como se perguntasse a elas, com os olhos, qual a razão de tanto mistério. Por causa de uma cabra desgarrada, desceu ate um vale, ate então proibido por ser considerada morada de demônios, lá ficou conhecendo outras tribos,outros povos e homens que, evidentemente, eram como ele.
Satisfeito, com uma serie de questões resolvidas provisoriamente, quis partilhar com seu irmão a descoberta. Este porem, preferiu matar-se, diante do simples fato de haver outros homens que não seu pai ou outros deuses que não o seu. Adão em loucura igual à de Abel, atribuiu a culpa a Caim, que foi banido e amaldiçoado. Caim, por mais que estivesse magoado, logo esqueceu da injustiça paterna, pois foi morar junto aos povos que descobrira e criara forte amizade.

Finda as noticias, Lilith disse então aos ventos:

-Rejeitou-se a herança da estupidez de Adão, porque Caim foi conduzido pelas Trevas e com a vontade que possui, pelo uso do intelecto, concordou com o que via, o que revela que Caim, apesar da progenitura, é um dos nossos.
Será bem vindo sempre entre nós, quando necessitar de morada, por ter feito na geração de Adão, o que não poderíamos fazer senão indiretamente. Ainda esta noite, ele já tem lugar garantido no Reino de meu Pai. Tu, corvo, mais ainda, será como um dos reis, será o mestre da espionagem e da intriga, por quem àqueles que buscam desvendar as verdades mais obscuras e secretas será um protetor, colaborador e incentivador.

A partir de então, iniciou um embate mais forte entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, por causa da inveja que o Espírito das Luzes teve, ao ver que o Conselho das Trevas foi formado de seres que tinham se elevado até uma existência em espírito, antes que os seus. Mais ainda quando outros seres de outros planetas, semelhantes a Terra, foram se juntando, ao descobrirem a chave que permite entrar nos reinos dos corpos astrais. Tratou então, o Espírito das Luzes, de começar a criar seus homens santos, profetas e messias, tanto para converter os demais seres da terra a seu favor, quanto para elevar estes escolhidos às esferas de existência superior.

Para que toda a terra seguisse a estes escolhidos não seria, certamente, pelas ações benevolentes que tais acreditavam praticar. Pior seria que, os malefícios seriam atribuídos aos homens, aos espíritos e ao Conselho das Trevas, quando o mais razoável seria a própria conseqüência das ações humanas, incentivadas ou não pela loucura dos profetas iluminados. Estes, tão confusos entre si, que mal reconheceriam aos seus colegas. Cada qual,chamaria por um nome a seu modo, o Espírito das Luzes, de Deus único e verdadeiro, perseguindo tantos outros pela mesma ousadia, guerreariam entre eles mesmos pela confusão e loucura que acomete o fervor dos homens das Luzes, tal como mariposas em torno da chama.

Causaria então uma grande admiração os lobos, os gatos, os mochos, os ratos e os morcegos e tantos outros seres, que uma fogueira não mereça mais atenção do que a noite que os cercam. Com a liberdade que lhes é peculiar, vão quando precisam, quantas vezes forem necessárias, perto do fogo, para secarem-se e no mesmo instante, voltarem ao seu lar na noite, sem tropeçar ou errar o caminho.

Pobre do tolo homem que, uma vez iluminado pela luz, voltar seus pés para a noite. Sua mente esclarecida não aceita a profundidade e a extensão da noite, mesmo diante da luz. Cega seus olhos, desconsidera ser possuidor de uma mente, de uma vontade e de liberdade, uma vez que animal também é.

Com a mesma tolice, com que trata sua luz, traça tratados e regras para legislar as trevas, achando que o oculto pode ser facilmente cercado por leis humanas mesquinhas, quando as Trevas eram anteriores a tudo, mais extensas que a luz, mais profundas que os olhos. De tabua em punho, volta cambaleante como exausta mariposa para seu lugar, a fonte de energia que necessita, volta para a luz e para a fogueira, trazendo seu traçado do oculto e das Trevas. Tantas são as coisas que lhe caem na cabeça, que tenho que dize-las uma por vez, mas são, muitas vezes, somadas e recaídas de uma só vez sobre este incauto e prepotente homem.

Primeiro: ao ver a chama do fogo, a verá mais brilhante do que se lembra, por um mero fenômeno fisiológico animal, porem tomando este fenômeno como advertência e ira divinas, se prostrara ao chão e se arrependera (se não se matar), esquecendo ou negando ou destruindo sua obra oculta, seu tratado das Trevas.

Segundo: desacostumado a viver e andar sem o auxilio de lanternas, seus pés o traem, podendo faze-lo cair e morrer aos pés da fogueira, ou dentro dela, o que será tomado por seus companheiros como um sinal da misericórdia divina que castiga os impuros e preserva os justos do mal que estes carregam.

Terceiro: diante de uma narrativa tão fantástica sobre o oculto e as Trevas, os companheiros do pobre homem sentem-se ofendidos, ou seu deus negado, armam-se de tochas ou de tições como armas divinas e executam o infiel impiedosamente, sadicamente, tantas vezes quantas as neuroses primitivas assim achar necessárias.

Quarto: os companheiros deste, tão tolos quanto ele, acham que a obra do oculto e o traçado das Trevas operado por ele, tem um certo de verdade. Sob as orientações dele, iniciam brincadeiras com o oculto, acreditando nessas fantasias, que mudarão suas vidas, suas riquezas ou seu destino depois da morte. Na qual descobrirão, tarde demais, de se tratarem tão somente de brincadeiras infantis sem efeito algum.
Quinto: aceitando e operando com o que acreditam ser as leis das Trevas, cometerão despropósitos, que falam alto na moral humana, logo serão saqueados e destruídos por cruzados, provindos de outras fogueiras. Como fiéis da Luz, ficam próximos um dos outros, para espantar as Trevas e o mal, como um exército de facção, reacionária e irracional.

Sexto: aceitando, porem operando longe das vistas dos seus familiares e cometendo abusos em nome das Trevas, pelas leis que os homens traçaram, os espíritos das Trevas envergonhados com a tolice dos homens, revelam-se aos seus olhos primitivos. Com espanto e horror, reagem, já que não correspondia nem um pouco com que suas tolas leis apregoavam. Logo fogem para a fogueira mais próxima, para arrepender-se e negar as Trevas. Não obstante, nunca pertencesse às Trevas ou às Luzes, apenas que, como animais mamíferos e pretensamente racionais, preferem a felicidade quente, iluminada e superficial das Luzes.

Sétimo: tendo, ainda assim, continuado com suas ignomínias em nome de algo que estão muito longe de conhecer, pouca atenção dando aos avisos dos espíritos das Trevas, como se fossem donos dos espíritos e do destino, sobre o qual recairá a conseqüência dos próprios atos. Eliminar-se-ão uns aos outros, pelas próprias mãos, movidas por sua loucura de controlar as Trevas. Deste fato tomarão conhecimento, ainda que tardio, seus antigos familiares, que se regojizarão em nome de deus, que fez cair sua divina justiça sobre os pecadores infiéis.

Oitavo: este serve para aquele que, resistindo a tudo isso e ainda continuar seus crimes, em nome do que não pode controlar. Eis que os espíritos das Trevas farão uma audiência, para julgar a este e sentenciar. Não o espírito, uma vez que ainda é pequeno, porem precioso para seu Pai. Ele o fará cair no julgo dos que sofreram, pela loucura cometida em nome do oculto. Saberá então com a existência de uma vida é tão preciosa e cara demais para ser privada. Mesmo os seres inferiores, ao seu grau de evolução, onde os homens gostam de se colocar acima, para esquecer que são tão animais e bestas, quanto outro animal qualquer, sujeito a virtudes e estupidezas da mesma grandeza.

Nono: movidos pelo ódio, por terem sido afastados do seio dos seus familiares, pelas doutrinas que acreditavam poder comandar as coisas ocultas e os seres das Trevas, começam as mesmas cruzadas e o mesmo terror, característicos do fanatismo dos profetas iluminados, coisa que em nada ajuda a humanidade e aumenta a infâmia contra as Trevas.

Décimo: abençoado seja por sua prudência e lembrança de não ser mais que um simples homem, tomara suas toscas leis das Trevas e as comparara com as leis das Luzes, dentre as já existentes, reveladas aos profetas iluminados. Constatará, surpreso que não são diferentes, uma vez que ambas foram feitas pelo homem. Disso percebera,embora confuso,não se abatera, guardara a derrota da sabedoria humana diante do oculto, tanto das Trevas quanto das Luzes, pois Verdade alguma pode ser escrita impunemente, por qualquer autor que seja.

Este décimo merecera atenção, pois não se abatera diante das adversidades, permanecendo com grande interesse em saber então no que acreditar, a que seguir. Culpando-se por causa da ignorância de respostas que poderia dar ou arriscar, sentindo-se muito árido, ira ao único lugar aonde alguém iria, quando precisa meditar. Longe, o máximo possível de tudo, andando enquanto suportasse, acabando por chegar em meio ao deserto que precedia um grande lago, bem próximo a um monte escarpado. Um lugar que, em outras eras foi o local onde Lilith, junto ao seu Conselho das Trevas, elevou-se pelo poder do fogo negro, o que tornou este lugar tal qual é. Logo a noite chega e com ela o frio, manda o bom senso que se procure abrigo, para proteger-se e dormir ate o inicio do dia. Quis a coincidência que escolhesse justamente aquela caverna, onde Lilith e Samael passaram sua noite de gloria.

Nas paredes da caverna, Lilith escreveu suas memórias, para nunca deixar que o fato fosse esquecido, para que sempre que ali passasse, pudesse alegrar-se em recordações gratificantes. Este homem citado, o décimo, vendo as inscrições, poe-se a tentar traduzi-las e compreende-las, pois estavam na língua familiar de Lilith, uma língua original da qual muitas outras surgiram, como a deste homem. Muito do que havia lá foram transferidas aos seus herdeiros, memórias estas, uma parte encontra-se neste livro. Muita coisa foi esquecida e ate escondida, por que algumas eram muito intimas, não poderiam ser citadas a qualquer um, outras eram melhores para o gênero humano que fossem esquecidas, ou a sede de destruição que o homem tem, as subverteria para seus interesses escusos.

Uma vez traduzidos os escritos, suas mensagens trariam grande alegria e satisfação, não por responder a todas as questões, nem se pretendia tal presunção. Eram apenas opiniões de grande sabedoria que, como tais, podem ser de grande auxilio. Como um ensinamento básico do qual, cada um, segundo as possibilidades e necessidades que a razão tenha, pode ser melhorado e aperfeiçoado. Uma obra é isso, não é de forma alguma sagrada ou um dogma a ser conservado hermético à passagem do tempo, das gerações e das descobertas. Mesmo o mais privilegiado visionário jamais poderia supor ate que grau evoluiria as gerações vindouras. Tais escritos, por tantas condições exigidas para seu entendimento, pediam um trato delicado, ensinando o recomendável e guardando o indizível pelos motivos já ditos anteriormente.

Naquela noite, a lua estava oculta, era noite de lua nova. Mesmo nosso décimo homem não pretendendo ser um sacerdote das Trevas, uma vez que só as Luzes precisam deles, foi-lhe concedido paz, nessa paz pode afogar suas neuroses primitivas e, somente então, foi visitado por Lilith.
Envolta por seu fogo negro, tal qual veste cerimonial, trouxe uma solução muito interessante para o homem:

-Inquietação, tormenta e insatisfação diante das regras. Não é castigo, tão pouco vergonha, é um privilegio saber duvidar e criticar, apontar as falhas e os erros, procurando uma solução melhor e mais justa. Muitos dentre os homens fizeram isso, transformando e inovando o jeito de ser, estar, ver e agir no mundo de tantas formas sutis ou explicitas. Isso tem lógica e é venerável, visto que tudo foi feito do Verbo dos deuses, estes o torcem, invertem, pintam, modelam ou esculpem, refazendo o Verbo, refazendo todo um mundo a ser visto. Isto se chama Arte, são os feiticeiros  do verbo e da forma, são poetas, pintores, saltimbancos, escultores e modeladores do barro que dão forma, como deuses, a criaturas. Mas os autores a deixam livre, para viver na cabeça dos admiradores de sua obra, de acordo com a compreensão individual.
Ao invés de responder e repreender o ceticismo, pergunte, questione e faca sua questão transformar-se em arte, que caiba a cada um que a vir, dar a resposta à sua dúvida. Quanto melhor for sua duvida, sua arte, mais próximo de nós estará, sem precisar de leis, proteções ou sabedorias fajutas acerca de nós, do oculto, das Trevas.

Tal é como deve ser, o homem aberto às experiências e a experimentos, para ser distinto dos animais, para ser engrandecido por sua arte, para evoluir e realmente poder afirmar sua superioridade sobre os seres. Não pela forca, pela loucura, pelo fanatismo, pela ganância. Ate que compreenda isso, enquanto o Homem fica confuso diante de sua real função, caiará na desgraça causada por suas mãos. Crie quantas leis quiser, faça-se rei de seus semelhantes, extraia quantas riquezas quiser, sacrifique a terra e a vida, quantas vezes achar-se no direito. Depois não adiantara pedir a um poder divino superior para aliviar o castigo, pois tem a capacidade de ver e raciocinar, sabe que a ruína é conseqüência dos seus atos. Acha, sentado em seu opulento e portentoso trono, que esta isento, mas qual carrasco escapa de cortar-se com o próprio machado? Sê digno de sua inteligência e capacidade de visão, não se deixe enganar mais por palavras bonitas e falseadas, não siga mais os profetas, não se submeta a reis. Tudo que aqui se encontra na terra, à terra pertence, sem divindade ou hierarquia, isso só existe enquanto se continuar cego e tolo, achando que isto o tornara forte e protegido das adversidades. Cabe à Arte e aos artistas, evitarem isso.

Esses foram os ensinamentos que o décimo passou aos seus herdeiros, que mais do que antes, valorizaram toda a forma de arte. Vieram bem a tempo para equilibrar o lado nefando do Homem.


A influencia da Arte no gênero humano fez-se sentir. Os sacerdotes iluminados, tomando isso como uma ameaça contra seu Deus, o seu poder e o seu templo de culto, começaram uma investida de infâmia, terror e assassinatos. Pela execução dos considerados infiéis, por julgamentos sumários e arbitrários, seja por confinamento ou por torturas atrozes. Em defesa dos seus atos e da sua Santa Cruzada, alegariam que se tratava de limpar o mundo das imundícies e do mal, algo aparente apenas aos olhos de censura destes. Chamavam, aos que praticavam a forma de duvidar e questionar dogmas de fé como arte, de bruxos. Estranhamente as mulheres foram as mais martirizadas, pois os sacerdotes, além de quererem satisfazer suas neuroses primitivas, queriam satisfação sexual. Mas como não podiam, por causa do celibato, então projetavam ao fogo, como consumação carnal dessas mulheres. Estes sacerdotes atingiam o clímax, diante de tanto poder fatal. Isso se repetiria, em outros tempos, com tantas outras religiões, que acham pregar o verdadeiro e único deus e que estão fazendo um favor à humanidade, exterminando esses pecadores. Estes sacerdotes fariam favor maior, se exterminassem a si mesmos.

Se um deus é tão fraco que necessita da crença dos homens e da forca deles para vencer seus inimigos, então não é um deus verdadeiro. Se um homem utiliza um deus como desculpa aos seus assassinatos, então não é homem mas um animal da mais baixa forma de vida.

Não é para menos que as Trevas não tenha representantes, nem profetas, nem sacerdotes para falar em nome delas, muito menos obrigar o Homem a acreditar nelas. Os únicos com direito a cooperar, já foram eleitos e ocupam o Conselho das Trevas, o Maximo que um homem pode fazer é seguir suas certezas, se estas forem razoáveis, se assim for seu desejo, terá seu lugar nas Trevas.

Os homens cercam-se de divindades e leis, ou para justificarem tudo que ocorre em sua volta, ou seus atos contra o mundo e seu semelhante. Quando, na verdade, isso é produzido pela sua cabeça. Deus não existe a não ser pelo Homem, o Homem é deus de si próprio, idealizado em virtudes e condutas que, para o homem comum, seriam difíceis de serem realizadas todo dia. Portanto fica mais fácil e cômodo atribuir ao seu ente divino, tais características e então, omitir-se de tais condutas e virtudes.

O mesmo ocorre nos pesadelos, malefícios e seres demoníacos, os homens os fazem de acordo com as coisas que assustam ou são condenáveis, são formados dos vícios e dos pecados. Estes são os demônios do Homem, que no fundo é ele mesmo. E' o seu desejo interior intimo que não apaga, que desacata leis, que nega as virtudes e as condutas exemplares, que contradiz a deus. Ou seja, se um homem tem certas condutas e pratica certas virtudes, é um homem santo e justo, por graça divina. Se, pelo contrario, comete crimes, abusos e destruição, é um homem possesso e maléfico, por obra demoníaca. O homem não é responsável, nem possui vontade própria, senão por desejos dos deuses ou demônios, estes criados por sua própria projeção. Como se o homem fosse um simples fantoche vazio, a espera de uma mão para mover seu corpo e uma cabeça externa para pensar por ele.

Portanto não é estranho então o Homem construir sociedades, leis, autoridades e governos aos milhares, visto que não tem vontade própria ou direcionamento, delega aos outros o poder, a responsabilidade e a paternidade. Conseqüentemente, fica submisso e conformado às vontades dos governantes, suportando a carestia e a repressão institucionalizada por estes.

Embora o que faz a Nação é seu povo e este é composto de cada um e de tudo homem, o povo ou parte dele é o primeiro a sofrer em nome da Nação ou do governo dela, já que estão intimamente ligados. Ser do Governo significa ser a Nação, ser todo o Pais, eles são os pais do povo, amantes e esposos da Nação. Cada vez mais o homem é castrado da vontade e da consciência, que são deixadas aos cuidados de instituições reacionárias, que são as melhores em castração e em servir de consciência alheia. Ainda bem que um dia o Homem se libertará ao perceber o ridículo da situação.

Não cabe a ninguém, senão à própria pessoa, descobrir o certo e o errado, baseado nas suas vivencias, experiências e conclusões dela mesma. Esses são conselhos e considerações minhas, que cada um as avalie e de justiça a elas, visto que não sou conselheiro, nem sequer de mim mesmo.

Este é o Livro da Compreensão, melhor que o Livro do Esplendor, por que não ofusca a ninguém. Melhor que o Livro da Criação, porque o criador é o Homem. Melhor que a Sagrada Bíblia, este Livro da Compreensão é a alma da Sagrada Critica. Como o nome diz, o sagrado encontra-se em criticar, inclusive este texto e os dogmas de fé de toda religião. Por valorizar o Homem, sua mente, sua vontade, venerar sua alma, capaz de criar deuses, este livro deve encontrar uma boa receptividade e benção do raciocínio e da criatividade humana. Não determina os fins, oferece os meios. Continue cada leitor, em sua vida, a acrescentar e melhorar essa sabedoria, acrescentando algo mais em si, por si, em seu nome, honra e gloria, caro leitor.

Eu louvo o Universo e todas as formas de vida, da mais simples a mais complexa. Soube por bem o Universo fazer suas partículas construírem os seres e faze-los evoluir. Quanto maior era seu grau de evolução, mais distintos eram, como a segunda obra de um artista que supera a anterior. Usando outras combinações, formando outros órgãos, acrescentando elementos aos poucos nas criaturas, a partir da mais elementar.enquanto mais distintos eram, mais frágil e arriscada era a vida dos seres, que logo precisavam unir-se os pares diferentes, para tornarem-se fortes e darem continuidade à espécie.

Os seres que, começavam a organizar grupos, também demonstravam um acréscimo de inteligência, para saberem como e de que forma poderiam sobreviver. Então, de tão distintos, logo seriam separados em macho e fêmea, seriam tão inteligentes, que sabiam que eram iguais e indispensáveis para unirem-se e gerar filhotes.

Então, os seres mais evoluídos iniciaram sua colonização pela terra, resultados das melhores obras do Universo, mais inteligentes e completamente distintos, a ponto que era impossível confundir o macho com a fêmea. Tão inteligentes, que pelo menos um dominaria a terra, pela inteligência e engenhosidade, não pela forca. Todos os felinos, os répteis, os pássaros, os peixes, os símios, contavam com tribos formadas pelos seus descendentes mais evoluídos, capazes de raciocinar, produzir, armar-se e construir suas cidades.

Das tribos símias, originou-se a raça humana, que veio a dominar a terra sobre as outras. Embora não fossem os mais inteligentes e fortes, foram os únicos a sobreviver dentre as raças inteligentes, poucas outras sobreviveram. As raças que houve, o Homem as aniquilou, mas é provável que ainda existam escondidas, em algum local do planeta. Isso foi há tanto tempo, que nem temos conta. Só são achados os restos mortais de homens pré-históricos, nenhum outro de outra raça evoluída. Ou os homens antigos, propositalmente, ocultaram a existência dessas raças, cujos sinais estão presentes nas imagens divinas; ou estas outras raças inteligentes souberam como ocultarem os seus mortos e as suas existências.

Eu louvo toda forma feminina dos seres, mais ainda a mulher, a fêmea humana, por ser esta a mais bela,perfeita e sensual forma feminina existente. Feitas pelas essências mais refinadas do Universo, abençoadas com charme e elegância. Ser sagrado pelo seu sexo, pois o Universo criou a distinção de sexo para que haja evolução da vida e da inteligência. Por isso foi dado à mulher um templo, donde novas gerações terão origem e fará a humanidade uma raça inteligente, merecedora da preferência dada pelo Universo. Templo ao qual devemos sacramentar com a inebriante copula e sacrificar, numa explosão, parte de nossa carne e energia. A mesma explosão que cria planetas, ocorre dentro do templo da mulher, escuro e profundo como a noite, poderoso e sagrado como o Universo.

Enquanto o homem é a loucura pelo poder e dominação, a mulher é a razão, a sabedoria do Reino e da soberania merecida. Por isso, é dada à mulher a propriedade, de gerar vida e de representar a morte. Sendo dado ao homem, a incumbência de causa-la, com suas guerras. Ao homem, as armas, para garantir sua liderança acima dos outros e da mulher. Ela, que lhe atribuem como portadora da morte, pelo pecado de Eva que, desarmada, vence milhões, pelos seus olhos e suas palavras. Mulher é motivo de matar, como também de exceder os limites do possível para ofertar algo a ela. Muitos ofertam sua fé, outros riquezas, alguns mais extremados, a vida. Ela, que ergue impérios, fortalece heróis, desafia igrejas, segue seus caminhos, um passo de cada vez, como um felino caminha na noite.

Apesar de seus dotes, o Homem não será mais do que uma besta inteligente.
Terá muitas conquistas com sua ciência, mas sua sede por poder e riqueza terá prioridade, isto subvertera a ciência, para seus mesquinhos negócios. Conseqüentemente, grande parte do Homem permanecera bestial e destrutivo, um ódio irracional, pior até que os animais. Pois matara e ameaçará a própria espécie. Esta é a maldição que há sobre a humanidade, fruto das suas mãos: o quanto mais a ciência avançar, maior será a bestialidade reinante na raça humana. Tudo em nome das paixões: poder e riqueza, que lhe dão enorme prazer. Esse é o triptico pelo qual o Homem reza: poder, posse e prazer.

Essa é a crença do Homem: quanto mais posses, mais poder. O poder capacita, ao Homem, decidir e comandar milhões à miséria e à ruína, o que é necessário para manter sua riqueza. Que rico poderoso não sente prazer em ver de que forma, seres humanos, conformados e esforçados, dão parte de sua vida para trabalhar por eles, dando cada gota de sangue e suor de seu corpo?

Obviamente, é o trabalho alheio que traz a riqueza aos reis, então também dá o poder a eles. Contam com um amplo apoio do Império das Luzes, visto que precisam dos homens acreditando nesse Império de aparências, de filosofias superficiais; conformados com a vida que levam, como fosse natural e merecida. E’ desta forma que, o Estado em união com a Igreja, mantêm o Homem encarcerado em deveres e tributos, limitando seus sonhos com mesquinharias, afundando sua condição de raça superior pensante no triptico elementar: sobreviver, ser feliz e bem sucedido. Essa é a promessa da sociedade dominada pelo Estado, a felicidade pelo tamanho das posses, o sucesso pelo poder de influenciar os outros. A troca do Império das Luzes é, para aqueles que tendo a riqueza e o poder, tenha compaixão e piedade dos infortunados e dêem algo de vez em quando, para aliviar as chagas destes, mas nunca algo de concreto para dar uma vida digna aos miseráveis ou acabar com a situação em que estão. Alimentam um dia, mas deixam esfomeados por um ano de gerações que, não tendo alternativa, irão começar a atentar contra a vida dos de sua espécie. O Estado, pressionado por estes eminentes senhores, começa a caçada, a praticar o assassinato institucionalizado.

As pessoas matam-se umas as outras, por justificativas mil, a serviço do Estado, da Igreja ou da Família. Não é mais do que a deflagração de uma guerra civil escamoteada pelo sistema das aparências, que devem ser mantidas. De outra forma a mascara caiará e será a ruína do Homem tal como se conhece usualmente, conhecimento idealizado e difundido pelo Estado, com a garantia dogmática do Império das Luzes. Infelizmente, isso perdurara enquanto o Homem se desconhecer e ignorar o que já repeti tantas vezes: tudo que nos recai é conseqüência direta dos nossos atos.

Por melhor companheira do homem que seja a mulher, esta também segue um caminho medíocre. Influenciada pelo sucesso do homem, a mulher lutara por igualdade, não apenas de possibilidades de realizar o triptico elementar do homem, mas muitas quererão passar por homens, imitando-lhe em todas as características.
Para não parecerem fracas, para resistirem diante da dominação do homem, para negar sua condição feminina. Por causa da castração, que a loucura do homem manda reprimir essa condição feminina, elas irão travestir-se e exigirão serem consideradas como homens, muitas matarão com a mesma estupidez do homem, para se garantir no poder. Não percebem que desta forma não são iguais aos homens, mas pior que eles.

A mulher já é igual ao homem, desde o dia do seu nascimento, mas que, por graça, é feminina. Deve ter seus próprios e sutis métodos de controle. Imita-se muito mal a nós, homens, essas mulheres. Pois odiando, primeiro por ser mulher, terá a tendência à autodestruição. Segundo, por odiar o homem enquanto gênero, como competidor,como gladiadores, onde só com a morte do adversário haverá vitória. Todos perdem nesse conflito, principalmente a mulher masculinizada, porque ela não estará se realizado, mas sim o homem e sua estrutura repressiva, contra a qual estaria lutando. Principalmente ela, porque não poderá voltar a ser mulher,ou vira sua queda, pois os homens mesquinhos só aceitam homens como eles no poder, só sendo como homem que poderá permanecer no trono.

Principalmente todos nós, homens das Trevas, que somos compreensivos e amistosos, que serviríamos à mulher com gosto, se ela conquistasse com seus métodos femininos, o poder. Nós teríamos nossas vidas ameaçadas, pela mulher masculinizada e pela feminista, que atacam a todo homem sem distinção, acabando por sacrificar pessoas humanas como elas, com direito a viver. Pessoas que, se escaparem da repressão dos homens mesquinhos no poder, certamente cairão na ridicularização e desprezo destas. Estas, por pensarem como homens mesquinhos, não aceitarão nada que seja diferente do que se decretou arbitrariamente, como sendo normal e aconselhável que todos tenham, para pertencer à sociedade. Principalmente se levarmos em conta que, tal sociedade, deveria ser formada por todos e cada um. Deveria estar, a sociedade, desta forma definida, quando na verdade é a imposição de um grupo para milhões poder tentar subsistir.

Deixem essa imitação fajuta de lado, mulheres, que nossos hábitos são muito baixo para vossa dignidade e nobreza. Considerem que existem muitos tipos de homens, ate merecedores de vossa misericórdia. Tenham também seus tipos variados, não é vetado, mas que mantenham sua condição primeira. Não esqueçam que é da mulher o alimento que nutre a ciência, o poder e a existência do homem. Portanto, ate o pior deles haverá de prestar contas ao principio divino e sensacional donde provem toda a existência. Principio divino, para quem toda a vida serve, ate a morte. Seja mulher, como nunca poderia ter sido imaginado, por que assim será dada ao homem sua consciência e vergonha dos seus abusos contra a vida e seus semelhantes. De quem mais, senão da mulher, que o homem renovado, se nutrira a fim de prosseguir?

O homem deve vir a saber, o mais rápido possível, de que é um animal, como outro ser qualquer, bestial ou genial, na medida ou necessidade e de que a ruína que lhe cerca, é produto do seu esforço em possuir tudo sob seu controle.
Que isso seja feito não pela violência, método masculino, que só cresce enquanto houver cumplicidade. Mas pela sabedoria, realeza merecida e dignidade que, somente a mulher possui em si. Como brasa, esperando ser exposta, para acender a cabeça do homem onde, em algum lugar, aguarda o fogo negro da consciência, para reformular toda a humanidade, desta vez nutrida pela sabedoria divina da mulher.

Deles vira a nova geração, o filho é a união do homem e da mulher, não pode esquecer sua origem nem negar gratidão.
Crescera, aprendendo e sendo apoiado por seus pais, consultando-os, para resolver os problemas que encontrar ao enfrentar o mundo. Não deve ser nem mais nem menos que isso. De nada adianta tomar outros comportamentos alheios e costumes fúteis, pois isto não lhe dará o respeito e a dignidade que deseja obter. Tudo vira em seu tempo, pela capacidade de responder aos atos e pela lógica de como usa-los corretamente. Divergir disto, não os tornara diferentes, não os tornara adultos, não trará temor ou respeito dos pais ou dos seus amigos. Tenham tanta riqueza quanto quiserem, sejam tão bonitos quanto acharem necessário para impressionar seus pares fúteis, ajam violentamente, irresponsavelmente, infantilmente, achem quantas vezes quiserem que são muito importantes e muito poderosos. Logo a ilusão cairá, beleza não dura sempre e a vida é árdua; riqueza não se mantém diante do ócio; cedo ou tarde cairão vitimas da violência que distribuem; cairão do pedestal, ao descobrirem o quanto dependem dos pais e dos seus amigos, para que consiga suportar o fardo da vida. Terão que carrega-lo sozinhos, se não melhorarem seus hábitos, falecerão rapidamente, pois não terão preparo nem resistência para tanto. Quem quiser evitar isso, que aprenda de uma vez por todas: só se pode obter aquilo que se da, não se pode cobrar por algo que não se tem. De respeito e o terão de volta, de amor e serão amados.

Quem não faz isto, pode ate escapar impunemente, pode ate não perceber que, no futuro, recebera de volta a conseqüência dos seus atos impensados, mas estarão condenando toda uma geração que será herdeira desta, a uma vida mais infeliz, mesquinha e medíocre que esta. Ora, se não é contra isso que os jovens lutam, então porque agem desta forma? Por que querem tão mal à vida dos outros, só porque não se encaixam no estilo de vida que impuseram como sendo jovem? Por que querem condenar seus filhos a viverem de uma forma tão baixa e miserável, pior que a dos jovens de hoje, inaceitável para os pais de hoje? Vivam intensamente, vivam futilmente e furtivamente, não haverá futuro, por sua causa.

Estão ocupados em admirar e aperfeiçoar a sua vaidade, fascinados demais por sua beleza e nada é mais importante que seu valoroso eu. Pensam, se ainda há cérebro, que estão, com comportamentos mais irascíveis que irreverentes, negando a antiga sociedade.
Mas não há cérebro, tanto na forca bruta quanto na beleza fútil, é uma tolice achar que a sociedade jovem difere da sociedade adulta. Não são mais do que sociedades, com regras impostas, absurdas, repressivas, censoras. Recusam a pensar ou perceber de outra forma, que não a estipulada. Desprezam, humilham, marginalizam todo aquele que apenas quer seguir um caminho autônomo, todo aquele que possui uma mente, que tenha seus pensamentos, que vive experimentando com erros e acertos, que vive aprendendo sem nunca querer ensinar. Tal é o desperdício da vida de pessoas, que em muito poderiam ajudar a humanidade a compreender-se e a cair em si. Eles são, tão pensadores quanto artistas, de todo um mundo de sabedoria, que nunca virá a ser conhecido.

Homem, mulher ou filho não devem lutar entre si, mas sim cooperarem entre si. Tudo vira em seu tempo, segundo o mérito, nada do que for conquistado com violência permanece, pois terá que ser mantido à forca. O uso indiscriminado de violência e forca só conduz a destruição e ruína. Nenhuma raça que se preza como inteligente pode desejar a autodestruição. A não ser que a humanidade tenha tomado como sendo essa sua meta maior e definitiva, que terminara em si, não sobrara vestígios, nem tão pouco a existência de tal raça mesquinha no futuro. E’ fácil perceber isso vendo que o que perdura é a arte e a ciência, com o passar dos séculos. Da violência, apenas o registro histórico, que só é possível por causa da existência de uma linguagem, de documentos de pessoas que usaram a mente, nunca as mãos. Sem o uso da mente, o uso das mãos é vazio.

Mas o homem prefere o uso das mãos, da forca. Prefere, como animal, à superficialidade da Luz, da beleza, do poder e da riqueza. Para a Luz, seu fervor, embora tenha sido criado para raciocinar. Para a beleza, sua veneração, embora seu intimo apodreça. Para o poder, sua obstinação, embora seus iguais morram. Para a riqueza, sua ilusão, embora o tempo ceifa igualmente ao pobre e ao rico.

Estes são apenas alguns pequenos conselhos e considerações que, infelizmente, só terão lógica num tempo muito tardio para se recuperar alguma coisa. Que fiquem então estas palavras esquecidas no tempo, escondidas no deserto. Incompreendidas pelas cabeças esclarecidas dos homens que se fazem de sábios, mas acabam querendo ser tão donos da razão quanto os homens mesquinhos. Que riam de mim quanto quiser, todas as juventudes que vem e vão, pois seu riso é perene como sua frágil e tola vida atrás de emoções. Pois seu escárnio é mais contra sua própria pobreza de percepção que contra mim. Suas regras de beleza, riqueza, poder e forca, são exatamente isso: produto de mentes perturbadas. Não adianta nada por mascaras diante de si. Só poderão matar-me uma vez, mas o tempo pertence àquele que pensa, cedo ou tarde o que escrevi vira à tona e seu Império de Luzes ruirá.

Ao contrario de muitos colegas meus, não pretendo ser profeta ou sacerdote das minhas crenças, ou de crenças ocultas, ou das Trevas. Pretendo, antes de tudo, plantar a duvida e a critica que qualquer um pode ter e são as únicas coisas sagradas, quando consideramos o gênero humano. Melhor que falar com parábolas sacras, falo então por sonhos profanos, já que nestes estão minha morada, já que nas Trevas cresço em inteligência e sabedoria. Que caiba a cada culpado reconhecer seu papel nas aventuras e caiba o julgo ao leitor esperto.

Terminarei minhas visagens, tendo que avisar mais a mim mesmo. Como os personagens para a consciência, serei esquecido por muitos, meus avisos ecoarão no vazio desértico de suas cabeças.

Não é sem propósito que minhas palavras e a consciência, estarão sendo continuamente sepultadas pelos senhores da sociedade. Já que o poder destes se garante pela repressão e pelos comodismos. Já que estão apoiados pelo Império das Luzes, contra quem a critica e a duvida perturbam sua superfície plana, sua película frágil de religiosidade pelo bem, sua casca de austeridade social, sua escama de fé hipócrita e podre num deus martirizado. O que escrevo pode não ser verdade, mas fere a filosofia fácil e nebulosa do Império das Luzes e alquebra o poder mesquinho e absurdo dos senhores da sociedade. Continuarão a esmagar seus semelhantes em nome de interesses obscuros, que não são do interesse de milhões, mas assim se faz em nome da Nação e do Estado. Coisas que, supostamente, deveriam ser do povo, mas que na verdade, não são mais do que os senhores da sociedade como as idealiza, a serviço de seus propósitos.

O mundo não faz sentido, já devia saber muito bem. Compreende-lo, por mais que tente explica-lo, muitas questões ainda surgirão insolúveis. Só tenho a certeza de que estou fora deste jogo. Dificilmente poderei entrar, qualquer que seja o método ou o meio, de romper as fronteiras e atravessar suas portas. Uma vez fora, melhor posso observa-lo; uma vez fora, dirão que tenho alucinações, ou que criei de mim mesmo este mundo. Escolhido de vontade, uma vida e um pensamento, nada me esta reservado, que não a mendicância ou o asilo de loucos. Nada mais anormal que saber pensar e escolher independentemente, que mercado, acostumado a ordens e ideais aguados, iria querer roer os ossos da duvida e beber o vinagre da critica? Os motivos dados serão muito variados, mas isso não comuta minha pena, cuja condenação é morte por esquecimento e fome.

Cabe a cada um decidir seu rumo, ainda que contra um deus ou toda uma sociedade, contra toda historia, que é escrita por regras preestabelecidas.

Uma vez que escrevo, estou assumindo a responsabilidade destes pensamentos como meus, como os riscos que trarão. Não devera, de forma alguma, caso haja um futuro mais racional, as futuras gerações, regenerarem-me, cultuarem ou fazerem monumentos ou efígies meritórias a mim. Primeiro que não sou memória nem pretendo estar em museus de qualquer ordem. Depois que não sou mais que uma casca com um vácuo por alma. Alem do mais, o mérito deve ser feito, não lembrado, em cultos ao intelecto, do qual quero ficar bem longe. Devem ter somente o que escrevi neste livro e o que foi lido pelos olhos, à parte, farão cada leitor, seus apontamentos, nada mais do que uma referencia ou base, deve ser meu livro e minhas obras.

Desanimado de minhas capacidades, entristecido com a sina para a qual dirige-se toda a humanidade, embrutecida pela acao conjunta dos senhores da sociedade e do Império das Luzes, entrego meu cargo e preparo minha morte. Meus patrões, mais sim amigos, os espíritos das Trevas, tentam muitas vezes revitalizar minhas forcas, resgatar-me ao trabalho de pensar e escrever nesta vida por eles, para todos, na promessa de mudança.

Não sou o primeiro nem tão pouco o melhor, disse tudo o que poderia e já duvido de minhas próprias convicções, mesmo sabendo ser tarde para mudar. Reconheço a derrota, já estão muito bem adestrados a pensar de forma elementar e superficial. Já em juventude era difícil suportar a vida, os totalitarismos da moda e da sociedade jovem. Agora que velho e esfarrapado, acometido de um instante de lucidez e uma decisão derradeira, preparo meu réquiem ainda que não tenha autoridade pra conversar ou operar com o oculto ou a sorte da minha alma neste.

Movido por uma confiança imensa, contra ate os avisos de meus amigos, inicio minhas despedidas e a demanda de minha alma aos cuidados de minha Deusa Lilith, a Lua Negra, rainha da Noite, senhora da Morte, filha do Espírito das Trevas. Esposa de Samael, o Deus do Fogo Negro que consome o dia e traz a noite. Ela, que é a mãe de todos os filhos das Trevas.

Retorno ao lar para, diante de Ti,
Doce senhora minha e amarga,
Lei do encerramento do tempo,
Apresentar minha mortal pessoa,
Seu mero animal pensante e arrogante.

Estendido e deitado, eu estou de fronte,
Quase desafiando conjurar Tua presença,
Ofertando fogo e sangue por um punhal,
De uma alma forjada por engano, condenada
A ter seus dias de vida em tal época.

Posta a mesa, sirvo farta ceia,
Do dinheiro poupado com meu jejum,
Com delicias sacras e profanas, que rejeitas,
Evitando que eu lhe cobre a conta devida
Deste jantar pela minha reciclagem.

Dou-Te meu corpo para apodrecer,
Minha alma à disposição da forja,
Meu ser, refeito e melhorado pela tempera
Do Fogo Negro, tornando-me merecedor
De pertencer ao Teu reino, como demônio.

Para tanto, cozi um barro com Tua imagem,
Untei um punhal de prata com vinho de uvas negras,
Risquei linhas traçadas de encruzilhadas veladas,
Palavras escritas na pele nua em Tua consagração,
Preparando o peito para descerrar o golpe final.

Tais foram meus preparativos
Para apresentar-me a Teus olhos
Que, estarrecidos, acompanham o cortejo.
Não pode deter-me sem manifestar-Te
Que, prontamente estaria materializada.

Manifestando-te, terei uma parte de Ti,
Ainda que fugisse sem levar-me,
Não terias sossego até encontrar-me
E recobrar a parte Tua de mim,
Estar contigo é o que quero.

De minha ajuda precisaria ao perturbar o equilíbrio,
Movendo dois mundos para deter-me,
Com gosto desafiaria o Universo,
Assumindo Tua causa, minha senhora,
Não teria outra solução que não fosse a que desejo.

Pois daria meu sangue em profusão
Em Teu nome, para o Universo perdoar-Te.
O Universo perceberia minha paixão
E Tua natural preocupação amorosa.
Por Ele mesmo, eu seria refeito em Teu reino.

Não podendo deter-me, por não poder
Materializar-Te, sem que isso aconteça,
Realizando meu intento,
Não lhe restaria muitas alternativas
E ainda assim servir-me-iam muito bem.

Concluindo os ritos iniciais, começaria
A cantar-lhe o feitiço e já não poderia
Calar-me, pela forca dessas palavras,
As quais foram-me confiadas
Pelos espíritos das Trevas.

Não os puna, pois como escritor
Sou bom ouvinte e orador,
Envoltos com perguntas e amizade,
Suas línguas os traiam, aos poucos
Roubei-lhes segredos irreveláveis.

Por estas palavras,
Colocaria meu rito em julgamento,
Não teria como não realizar,
Ou então me sacrificaria, o que,
Mesmo que apenas morra, é bom.

Parto de ser homem e limitado,
Abandonado, pisado por outros,
Nada mais quero coma vida,
Por causa disso que, simplesmente,
Peco que me aceite em Teu reino.

Morto, estou livre de sofrer mais,
Ainda que sem morada.
Uma vez no alem não terá sossego.
Refeito, estou vingado e realizado,
Pois me tornei um dos teus.

Deixe então que teu Fogo Negro
Envolva-me e reconstrua-me,
Só assim considerarei digno
De ser teu servo, como demônio,
Ainda que deva permanecer neste mundo.

Para melhor amar-Te, servir-Te,
Permita ser reforjado, minha alma
Sofrer pela Tempera do Fogo Negro
E meu pobre corpo acrescido, embora oculto,
Dos acessórios necessários a um demônio.

Bem que gostaria que houvesse
Outro meio de realizar-me,
Mas o único realmente funcional
Não é outro que este arriscado,
Que chega a ser uma ofensa.

Bem sei que Teu poder é imenso,
Poderia fulminar-me num instante,
Poderia fazer com que nunca nascesse,
Poderia ter escolhido outro qualquer,
Ate mesmo um imbecil mais submisso.

Mas Tua memória não seria mais a mesma,
Não teria o prazer de ver acabar-me,
Tentando descrever, como um cego, o que não vejo,
Não terias como te deliciar das minhas carnes,
Que por viver pensando, tornam-se uma delicia.

Pensar não só transforma aos poucos
A matéria em energia que move a pena,
Cerrando a energia dentro de palavras,
Como também recupera o soro
Extraído de outras palavras feitas.

Quanto mais reflito, mais escrevo,
O que necessariamente requer leitura.
Mais ainda meu pensar sorve o soro
Que, fluindo na matéria, a torna suculenta,
Mais ainda minha energia torna-se carnuda.

Nenhum outro poderia ser assim,
O soro é o vinagre amargo da critica,
A matéria é o osso duro da duvida,
Quantos suportariam tanta carga,
Que não quem já os praticava?

Eu sou Teu melhor escritor,
Sou a grande ceia servida a Ti,
Uma boa mesa não se abandona,
Um bom prato é consumido lentamente,
Para que melhor se possa sentir seu sabor.

Estou dispondo-me a Teus olhos
E ameaço a Ti de estar privada de mim,
De não permitir mais que me devore,
De que aprecies aos poucos meu sabor,
De que delicie com o orgulho que Te dou.

Vês como meu amor por Ti
Leva-me a cometer tais loucuras,
Justo contra minha senhora,
A quem ofereci meus serviços
E dispus meu destino nas mãos?

Queria tanto poder cantar Tuas maravilhas,
Mas não me permite vê-La,
Escreveria Tuas glórias e vitórias,
Mas não marcho junto a Ti,
Apenas por minha mente posso supô-La.

Quantas vezes mais preferia estar contigo,
Tanto que peco nesse ritual profano,
Dirigindo-me a Ti em tais termos,
Que antes de proveitosos são ofensivos,
Provocando forcas incontroláveis e instáveis.

Tanta perturbação, para um pedido tão simples,
Como de uma criança mimada,
Fazendo teima para ganhar um presente,
Tanto desperdício do Teu tempo,
Para meu desejo mesquinho.

Rasgo minhas carnes,
Com o primeiro centímetro
Desse punhal de prata ungido,
Por um vinho de uvas negras,
Meu primeiro passo para a perdição.

Pareço ouvir Teu murmúrio,
Que reclama por paz,
Meus ouvidos ressoam doidos,
Ao eco sinóico da Tua voz,
Que fragmenta minha alma.

Refeito do choque, recomeço,
Repetindo as palavras certas,
Que Te comova e opere meu intento,
Trazendo-Te mais próximo,
Para melhor corromper-Te.

Mais um gole do raro vinho
E descerro mais um pouco
Do punhal dentro do meu peito,
Donde já brota fresco rio sangrento,
Que lhe ofereço para brindar.

Torno a provocar Tua memória,
Com palavras dadas em confiança,
Para ter Tua obra escrita,
Enquanto tenta dissuadir-me,
Com miragens monstruosas.

Tais aberrações não são demônios,
Mas a idéia religiosa sobre estes,
Feita para melhor imperar as luzes,
Bebo mais do vinho pela ruína da luz
E logo, mais o punhal adentra em mim.

Finalmente meu corpo lateja,
Minha alma queima
E já quase não posso falar-Te,
O vinho torna-se amargo
E mais iminente se torna o desfecho.

Enquanto a febre ataca-me por inteiro,
Tenho a certeza de ver mais,
Mesmo não tendo mais os olhos,
Devido a uma brincadeira sórdida da morte,
Que torna sábio ate o mais imbecil na hora final.

Profiro tenebrosa risada,
Abafada pelo sangue,
Que invade e toma toda minha boca,
Mesmo sabendo ser eu o alvo do riso,
Que a brincadeira causa pelo ridículo.

Torno a reclamar e beber,
Dando a mim mais um pouco
Da lamina do punhal,
Que já estala na minha costela,
Derrubando-me por terra.

Momento traiçoeiro de cansaço,
Não estou morto ainda,
Nem terminou a encomenda,
Mas minhas forcas fogem
E minha mente tenta arrepender-se.

Calando meu racionalismo,
Com instinto e a vontade,
Ergo-me e disponho-me novamente,
Embora a febre faca meu corpo inteiro tremer
E, já lacrimejo e suo sangue.

Agora só consigo murmurar
E a taca parece pesar como um rochedo,
Descerro mais a lamina, que já acaricia o coração,
Enquanto meu sangue espuma, fazendo pressão,
Como se fosse a água de fonte sulfurosa.

O ar sufoca e perco o fôlego,
Meus músculos retesam e endurecem,
Minhas costas arrepiam e arquejam,
Meus olhos saltam das órbitas
E meus ouvidos zunem.

Já que estou quase imobilizado,
Utilizo o peso do meu corpo,
Por sobre a lamina, contra o chão,
Para dar a estocada final,
Dando termino ao ritual.

O que parecia o fim
Mal deu a um prólogo,
Um trovão parece trespassar-me,
O chão dilui-se e começo a flutuar,
Boiando em águas de densas trevas.

Tive então a impressão
De estar passando pela minha vida,
O peso dos erros, a elevação dos acertos,
Cada um e todos eles premeditados,
Para que eu viesse a ser o que sou agora.

Bruscamente a viagem termina,
Estou no meio de um picadeiro,
Feito com areia fina e branca,
Como não via há muito tempo
Nos litorais de belos mares.

Estou circundado por tronos,
Cada qual com seu rei,
Não que sejam soberanos,
Os tronos sempre existiram,
Mas ficam vazios sem ter quem os mereça.

Cada trono tinha seu brasão,
Todos eles muito familiares a mim,
Não era senão o Conselho das Trevas
Que estavam ali para medir meus atos
E sentenciar-me pelo erro de provoca-Los.

Comemoro 72 anos, a mesma idade que tinha na minha preexistência, na qual pude compartilhar com o Conselho das Trevas, meus melhores amigos e amigas, contra quem falhei e tenho uma divida. Dez existências, por volta de 144 anos entre um renascimento e outro, fico na expectativa de estar perdoado por eles. Conheci tantos estilos de vida que precisaria de um livro exclusivamente para contá-las. Minha vida atual no ano cristão de 2037, embora não seja meu referencial favorito, está bem melhor que muitas outras. Os governantes finalmente perceberam que não adianta nada o poder, o dinheiro e a fama se o povo que governam morre de fome, frio e doença. Embora isto ainda esteja bem pouco adotado, melhorou, sinceramente!

Devo ficar muito grato se, em todas estas existências pude, depois de algum tempo, recuperar parte da minha consciência verdadeira, a despeito das pressões que todos sofremos. Estou certo de que sou um privilegiado, por ter tido tanta capacidade de entender os princípios das Trevas, lá na minha preexistência. Tenho que procurar não ser tão arrogante. Quem sabe tenha sido com isso que me conduzi ao erro de magoar meus únicos e verdadeiros amigos e amigas, minha família,meu reino?

Exulto de felicidade ao saber que estamos vencendo a luta, lentamente. O Império das Luzes está perdendo a credibilidade. Dentro das próprias fileiras está havendo divisões, novas religiões de diferentes tendências surgiram para cultuar o mesmo deus repressor, algumas até aproximando-se das Trevas, mas ainda com muitos enganos. Esta divisão não nos ajuda, apenas multiplicara os adversários que teremos que vencer, mas já aparecem brechas na intransponível barreira de alienação ideológica que o Império das Luzes exerce sobre a humanidade, através de seus métodos de coerção e adestramento.

Temos de nos preocupar entretanto justamente com estas, que se dizem favoráveis ao controle libertário e participativo das Trevas. Primeiro, por se colocarem como demonófilas. Isto já é um erro, já que a idéia de que as Trevas e seus habitantes tenham tais características, vem justamente da infâmia que o Império das Luzes propagou sobre nós. Segundo, que seus métodos estão nos dando justamente a má fama que queremos evitar. Métodos de aniquilação e rituais satanistas, que mais se parecem com os usados pela Inquisição e os nazistas, que não são os nossos grupos, mas os do Império das Luzes. Terceiro, que concentram seus esforços em um dos do Conselho das Trevas por considera-lo o grande chefe, o mais poderoso, o que tem o comando sobre todos os outros espíritos. Outro engano, este tipo de hierarquia e organização agrada somente aos participantes do Império das Luzes que, como todo Império, é centrado na figura de um deus único, onipresente e onipotente. As Trevas se assemelham mais a uma república, que é publica realmente, com ampla e total participação de todos os espíritos. Estes ajudam e apóiam ao Conselho das Trevas que, como ministros legítimos e realmente interessados em servir aos seus amigos, decidem conjuntamente e com sabedoria. Para que isso possa acontecer, existe um orientador e observador, o Espírito das Trevas ou Leviathan, filho do Universo. Mas que, mesmo assim, não exerce poder algum, salvo se houver discórdia ou falsidade nas decisões do Conselho, diferente das exigidas pelo povo das Trevas. Leviathan é como o Primeiro Ministro desta republica. Existe, portanto, uma democracia radical, uma sociedade real em suas intenções e em sua essência, numa anarquia sobre o poder e a hierarquia. Anarcossocialismo democrático simples e puro.
Justamente, por terem os mesmos interesses que os espíritos das Trevas, que são tão unidos e ao mesmo tempo individuais. Justamente assim é que se mantém um Conselho das Trevas, com estes representantes e o Espírito das Trevas, o Leviathan, como líderes, mas não como soberanos, pois a luta é árdua e o inimigo resistente. Pela continuidade e poder maior das Trevas sobre as Luzes, para que sejam profundas e consistentes e não fúteis e superficiais, todos nós lutamos pela vitória.

Sendo assim, aguardo que algum dia eles possam reconsiderar e ajudar-me. Este livro deve ser publicado algum dia, em alguma era, em algum lugar. Só assim descansarei satisfeito e esperar que ele possa trazer a consciência na razão humana e a leve a pensar, ao invés de matar, explorar, dominar, repreender, de ser tão bestial.


Eis que chega o dia do confronto entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, quando o Universo, Pai de ambos e equilíbrio harmônico, julgará qual dos dois filhos foi mais bem sucedido na missão que lhes confiou.

O prazo, que o Universo concedeu a seus dois filhos para que provassem suas capacidades, está preste a se consumir. Foi marcado que ambos deveriam mostrar seus feitos, quando a data de aniversario do surgimento de cada sol e cada planeta do Cosmo, coincidissem em um único instante.

Sabendo que não lhe restava muito tempo, que seus seguidores estavam divididos e que estava bem próxima a vitória do Espírito das Trevas na Terra, o Espírito das Luzes lançou um ataque de grandes proporções em ambos os níveis, tanto o material quanto o espiritual, pela reunificação total do Império das Luzes e a destruição do que consideravam o Mal, que estava representado pelo Espírito das Trevas. Deu a este ataque o nome de Apocalipse.

Entretanto, nunca o Espírito das Luzes foi superior ao Espírito das Trevas, por mais que este acreditasse. Como este ataque estava tomando dimensões assustadoras e estava mesmo com a intenção de aniquilar qualquer oposição, Leviathan, o Espírito das Trevas, convocou prontidão imediata de todos do Conselho das Trevas e dos espíritos das Trevas, pois a guerra estava declarada, embora todos preferissem evitá-la. Mas como o Império das Luzes tomou a iniciativa, cabe ao povo das Trevas o direito de defender-se e manter o Império das Luzes nos seus limites, senão a harmonia necessária para a existência do Universo estaria quebrada.

Embora pelo livro sagrado do Império das Luzes, chamado de Bíblia Sagrada, este Império fosse considerado mais forte e poderoso, portanto vencedor da luta, a verdade aqui se encontra, já que as Trevas não sentem necessidade de enganar ou falsear os fatos, já que esse é um método usado pelo Império das Luzes para garantir sua soberania sobre as mentes fracas dos humanos. Sabemos que as ações têm mais significado do que as palavras e justamente o Império das Luzes tem feito exatamente aquilo que condena.
Este é o livro das Trevas que será chamado de Crítica Sagrada que, como o próprio nome diz, as únicas coisas sagradas são as capacidades de criticar , de pensar e duvidar, capacidades que toda raça superior inteligente e racional deve ter.


Eu estava no exílio que a sociedade me trancafiou, junto com outros loucos por terem a audácia de reconhecer a superficialidade do Império das Luzes e da sociedade regida e controlada por eles. Ainda estava alheio a tudo, pois me concentrava em reescrever mais e melhor o Livro das Trevas.


Era uma bela manhã de domingo, com a rotineira visita de padres para realizarem a missa, a catequização e o recuperamento mental sadio dos internos. Algo mudou neste dia, eu até podia adivinhar porque. Pois os cardeais e um bispo, invadiram com uma centena de padres e freiras armados, o pátio do manicômio, sendo requisitada a presença de todos os internos. Isto foi rapidamente atendido, pois os enfermeiros e dirigentes faziam parte da sociedade normal e integrada ao Espírito das Luzes. Mesmo que não quisessem, teriam de fazê-lo ou serem metralhados friamente. Esta era a intenção daquele bispo gordo e ensebado, sentado num palanque, numa cadeira luxuosa, metralhar a todos nós, já que a loucura era sinal de possessão demoníaca, mas ele preferia dar uma chance aos internos.

Ficou claro para todos, para que tipo de missão esses santos homens representantes da Igreja vieram. Muitos começaram uma fuga desesperada, mas não havia saída. Logo foram cercados e postos a assar em uma imensa fogueira. Pude ver bem que os olhos de nossos executores faiscavam mais que as chamas, maravilhados com o poder que tinham, em prol da purificação do mundo.

Sabendo que, em breve acabaria também nas mãos destes carrascos, lancei um último e pesaroso olhar para meus amigos e enfermeiros. Foi justamente por isso que um deles me apontou, trazendo-me para perto do supremo assassino, nas vestes de um bispo.

Com presteza, armaram um cadafalso improvisado e um nó tosco em torno de meu pescoço. A forma do nó lembrou-me muito do que é usado em gravatas, embora as considere mais parecidas com coleiras humanas.

Veio o próprio canalha, para puxar a alavanca que acionaria a porta do cadafalso, debaixo de uma sombrinha de veludo vermelho, com os emblemas papais em dourado. Tudo por causa de alguns protestos dos internos, para que não se matasse o único com sanidade ali. O tumulto foi controlado pelos enfermeiros, especializados como uma tropa de choque no controle de comoções. Pela lógica, todo aquele que está no asilo, foi por causa de um mau funcionamento mental. Não poderia provar, agora que seria executado, de que fui afastado da sociedade, condenado a tal exílio, por uma conveniência: minhas obras desestruturavam o meio podre de viver da sociedade. E por uma conivência: de meus parentes em me entregar às autoridades, em troca de recompensa e prestigio social.

Meus ossos estavam para ser esticados neste estranho varal, para secar ao sol, quando a tarde feneceu, muito rapidamente. Logo chegando a noite e as sombras, parcialmente afastadas pelos holofotes elétricos, iguais aos que se usam em campos de futebol. Agora sim, minha execução virou um espetáculo circense, como qualquer execução o é.

O chão me falta. A cabeça estala. O corpo treme. Estou morto. Ainda assim posso ver que, não contentes, perfuram meu corpo inerte com suas baionetas e bebem meu sangue, atirando o resto ao fogo.

Essa é a vantagem de se ter um espírito alimentado por uma mente desenvolvida: consegue-se viver ainda mais, pela forca e pela vontade. Desimpedido da casca mortal, pode-se ver melhor ainda. Como, por exemplo, ver os espíritos que rondam os mortais e os influenciam, por conselhos e orientações. Inclusive pode-se ver claramente o caminho que leva ao Império das Luzes e ao Reino das Trevas. Como bom filho sabe o caminho do lar, segui a trilha das Trevas. Dirigi-me ao primeiro comando que encontrei, para saber como estava indo a guerra. Reconheceram-me de imediato e acharam melhor pôr-me a salvo da área do front, levando-me aos comandos centrais.
A cidade fortaleza para onde me levaram era magnífica, sombria e tão receptiva quanto uma cripta, toda em granito negro. Tinha algo nela que me parecia ser familiar, como se já estivesse estado ali, como já pertencesse há muito tempo a este lugar.
Disseram-me que o nome era Ogiel, capital do reino de Gamaliel, cuja reinante não era outra que a minha adorada deusa da Lua Negra, Lilith. E’ óbvio que devia me sentir à vontade, pois estava bem próximo de minha venerada rainha. Quantas coisas que passaram na minha cabeça para agradá-la e impressioná-la! Eu desejei inclusive lutar, mesmo sem treino, contra o Império das Luzes, pela bandeira dela. Mas me reservaram, infelizmente, a escrever o que foi omitido no Apocalipse.


Tendo o Cordeiro terminado sua obra, foi descansar um instante no trono que lhe custou tanto conquistar. Lamentou durante alguns instantes, os extremos a que teve de chegar, mas era necessário, para que finalmente o Reino de Deus prevalecesse sobre as forças das Trevas malignas, para salvar a Terra.

O falso profeta balançava feito pingente na ponta de uma corda. A Besta foi lançada aos Infernos, onde ficaria encarcerada junto com o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Tudo estava finalmente tranqüilo e a construção da Nova Jerusalém terminada, estava instalado o Paraíso na Terra, sinal da vitória de Deus Pai Todo Poderoso, conhecido aqui como o Espírito das Luzes. Agora a Terra pertencia aos eleitos de Deus, os justos e os santos, junto com os humildes.

Foi quando lhe ocorreu um raciocínio assustador. Como havia utilizado todos os recursos de que dispunha, estaria vulnerável aos contra-ataques das forças malignas, pelo menos durante algum tempo. Tranqüilizou-se, ao pensar que seus súditos acudiriam ao primeiro sinal de invasão. Neste momento, a massa dos eleitos era um imenso exército, mais que necessário para se garantir a segurança.

Foi dada então, ao que foi denominado de falso profeta, uma tarefa, já que se mostrava tão ansioso a ajudar sua rainha de alguma forma. Levaram-no até próximo dos portões da Nova Jerusalém, vestido de camponês, querendo terras para plantar.

O camponês entrou na Nova Jerusalém com a semente da verdade, mas a verdade que é trazida pela iluminação da mente pelo Fogo Negro. E’ como se costuma dizer: o melhor método de ruir um Império é fazendo-o de dentro para fora.

Dirigindo-se a uma praça pública, começou a gentilmente plantar as sementes. Ninguém o parou ou protestou, pois sua aparência era inocente, assim como suas ações. Da mesma forma que entrou, saiu, dizendo que ia trazer água potável, de fonte conhecida por ter trazido grandes revelações, porém jamais retornou.

O Cordeiro, um certo dia, após ter acabado todos os seus afazeres, que foram tomadas todas as decisões que precisava, foi passear pela sua bela cidade. Foi quando notou o crescimento de uma bela árvore, já com flores abundando, prestes a se transformarem em frutos. As flores pareciam-se com orquídeas, só que tinham mais pétalas, de bordas recortadas em dentes, com um tom de cores, variando do azul, ao violeta, ao negro. O perfume que exalavam era sensacional, faziam com que, quem cheirasse, sentisse se elevar, o pensamento funcionar mais intensamente. Até mesmo o Cordeiro não pode resistir aos efeitos, dos quais, num momento, pôde vislumbrar os primeiros momentos da criação. Pôde lembrar que, foi por uma arvore e seu fruto tentador, que todo pecado começou. Neste exato instante, o Cordeiro, esquecendo-se de sua condição, começou a atacar e depredar a árvore indefesa. Todos que ali estavam olhavam abismados, mas nada comentavam, com medo do que lhes podia acontecer.

Porém, como era uma árvore do fruto do Fogo Negro, cresceu mais forte e resistente,no dia seguinte. O Cordeiro temendo o que poderia acontecer, cercou a árvore com grades e guardas, para que ninguém dela se aproximasse. O Cordeiro logo perdia aquela tranqüilidade e serenidade que devia caracterizá-lo.
Tomado de pânico, que ainda assim poderia haver quem comesse do fruto proibido, decretou lei marcial, ninguém podia ficar nas ruas depois das 19 horas. Além de serem proibidas quaisquer reuniões, públicas ou privadas, para evitar que houvesse tramas contra o Cordeiro.

Mesmo sem o fruto, todos os justos perceberam que seu redentor, o Cordeiro, não era exatamente a pessoa que dizia ser. Descontentamento geral leva a protestos e seus respectivos choques com os anjos. O povo todo já estava disposto a rebelar-se por completo, contra o Cordeiro, de qualquer forma.
Quando tudo parecia desfavorável aos revoltosos, surge avançando, em direção das muralhas da Nova Jerusalém, o exército das Trevas, que foi recebido pelo povo nas portas que estes abriram. Foi ai que o Império das Luzes sentiu a forca real das Trevas, apanhou feio e não tinha mais nada a fazer, senão render-se. O Cordeiro sofreu o escárnio publico, depois que todos viram sua verdadeira face, antes de ser abandonado, sem condenação, pois não era preciso.

Todos os arcanjos não puderam conter os arquidemônios. Não sem o apoio dos que foram o povo eleito, agora somados às legiões das Trevas. O Espírito das Luzes, para que seus colaboradores não sofressem, capitulou, baixou a bandeira nos pés do Espírito das Trevas. Todo o Império das Luzes deixou de existir, junto com a renúncia do Espírito das Luzes.

Tomando a administração de todos os planetas, sóis e galáxias, o Espírito das Trevas permitiu que seu irmão lhe auxiliasse, fornecendo luz e energia necessária para alguns tipos de vida de certos planetas., como a Terra, que não podiam viver sem luz.
Tornou o Espírito das Trevas a falar com seu Pai, o Universo. Pois cometera, de certa forma, os mesmos erros que seu irmão, o Espírito das Luzes, esperando um perdão de seu Pai.
O Universo sorriu e suas partículas coroaram o Espírito das Trevas. A euforia tomou conta das criaturas, de qualquer nível existencial, sem se importarem se eram notívagas ou diurnas.


Tenha isto nas mãos, como um guia básico para que aprenda definitivamente que deve tomar cuidado com as aparências superficiais, evitar ser dominado pela força e pela estupidez religiosa. Nunca se pode, efetivamente, falar contra algo que não se conhece ou se experimentou.

A tarefa é longa e árdua. Porém, compensadora. Devemos usar a faculdade da razão que somos dotados, só assim perceberemos a que fim trágico nos deixamos levar. Pode ser que realmente não haja um mundo futuro, nem sequer um Deus, para nos redimir dos erros e nos ressuscitar da morte. Tudo pode ter sido um imenso engano, pregado pela nossa mente doentia. Devemos nos curar então, exercitando a mente, ao invés do lucro fácil, da posição social, da beleza ou do poder. Pois todos fenecem e logo são quebrados por modelos novos. A mente não quebra, molda-se; a mente não cresce, desenvolve-se; a mente não morre, prolifera-se. A civilização humana passa, mas seu produto mental, concretizado, permanece, desafiando os séculos.

E’ por isso que sou tão tendencioso para as Trevas. E’ por isso que amo a Deusa da Lua Negra, Lilith, minha rainha adorada. Não me importo se ainda acredita em Jesus e no Deus Único Todo Poderoso, que o resto seja maligno e demoníaco. Haverá o tempo que tudo isso cairá diante da própria fragilidade e falta de lógica profunda.
Cabe a cada um, sem duvida, fazer uso de seu cérebro e criar dentro dele seu universo. Ou então se acomodar, conformar-se, com as idéias prontas, servidas a granel, por pessoas que nem sabem quem você é, nem se importam, desde que esteja pensando e agindo como querem.

Dou-me por satisfeito e já estou recompensado. Fiz as memórias das Trevas com espírito livre e voluntário, sendo o mais sincero que pude. Acho que cumpri com as metas a que me propus e que agradam a meus amigos, minhas amigas e minha rainha.
Que o Fogo Negro envolva-me e recicle-me, para merecer estar nesta República sob o olhar profundo e intenso do respeitável soberano Espírito das Trevas. Que este, pelo meu trabalho, possa olhar por mim e orientar-me.
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