| Mortuário | ||||
| A todos vocês que estão mortos e a todos estes outros que ignoram, pois nós fazemos parte deles, ignoramos que uma vez vivos, um dia a mais é um dia a menos. Nós os incomodamos, mais por nosso ressentimento do que propriamente pelo pesar da perda, que dela, nenhum de vocês precisam. Estes ossos sejam testemunhas, destes ossos, que pedem a prova, da majestade da morte e da presença do teu reino, nesta noite, entre nós. Estes ossos abram a tumba aos nossos ossos, para a celebração desta noite. Aos nossos ossos, esteja aberta a via calcinada de crânios, até a praça das costelas. O corso pavoroso seguirá, pelas vielas dos úmeros, as ruas dos rádios e cúbitos, as avenidas dos fêmures. Cada estrada desolada percorrida até os castelos da senhoria, castelos firmados por muralhas de tarsos e metatarsos e por torres de falangetas. Diante do umbral final, do portal de imensas arcadas dentárias carbonizadas, no clamor dos redivivos, nós viemos pedir moradas e abrigo, pois já vem o dia, arrastando a vida consigo. Nós recusamos, renunciamos ao mundo dos Homens, amaldiçoamos toda a civilidade, toda a propriedade, toda a sociedade, toda a moralidade e toda a religiosidade. Nós descartamos toda a ciência, toda identidade, todos os sentidos e toda a carne ou peso inútil. Primeira Estação: Inconsciência Nossos ossos entram agora na sala do silencio, a antecâmara de nossa primeira estada. Nesta estalagem, nós teremos a serviço o frio, o silencio, o torpor, o isolamento, a corrupção de todos os nossos restos mortais, lenta inexorável e dolorosamente. Aos que tem ataque de remorsos, apenas o grito mudo e o peso das correntes, para que não retornem. Aos que ainda pretendiam guardar objetos pessoais, a dor de não pode-los segura-los, vendo-os desmanchar lentamente. Para todos tem início o Sono Infernal, donde reina absoluto Ahriman, que faz do tempo e do espaço uma jaula, aonde apenas o completo esquecimento pode preparar e proteger da loucura. Não se têm pensamentos, sonhos ilusões, sentimentos, sensibilidades. O único contato é com o próprio vazio de cada uma das almas nelas mesmas. A terrível espera, como um som oco, ressoa até tirar toda a forma todo traço de vida ou sinal da nossa origem, até nos esmigalhar por completo. A dor só se revela ao romper das cadeias. O caprichoso Ahriman revolve os fragmentos, como um carvoeiro empilhando cinzas, até elas formarem novamente um carvão para ser jogado de volta a tempera do Sono Infernal. Apenas quando o carvão tornar-se um diamante é que ele devolverá o valor, conduzindo-o então para a trilha que deve seguir, afora e ao próximo castelo. Segunda Estação: Subconsciência Rompido o silencio, estamos ignorantes, a segunda estadia abre-se, a escola nos recebe. Começa a ascensão, o retorno à consciência, recobra-se a razão. Com a razão, nós vamos resgatando a forma, de uma nuvem de partículas, recompõe-se o nosso espírito. Muito estudo e muito preparo, constante, massivo, ininterrupto. Pode-se agora sonhar, com a vida que deixamos e com a que iremos ter. Nós fazemos planos, projetos, é o momento da inocência e ingenuidade. Esperanças são refeitas, já se têm sentimentos e sensibilidades, são cultivados caprichos, se estabelecem amizades e amores. Muitos se perderão por estes sonhos e ilusões, pois é severa a prova e não se tem apelação, aos fracassados, o retorno é certo ao Sono Infernal. Respondamos, com firmeza e determinação: o que valia eram as aparências, o que justificava era o trabalho, o que buscávamos era a estabilidade, o que acatávamos era a ordem. Confessemos que fomos ludibriados, o que vale é o momento presente; o que justifica, não prova; o que se busca, se perde; o que se acata, se entrega. Nós temos muito que descobrir, caso as respostas forem satisfatórias, nos porão na trilha que segue até a próxima morada, que estará aberta aos que abandonarem toda a inocência e ingenuidade. Será preciso ser frio e calculista, para prosseguir na estrada, pois o peso de compaixões ou misericórdias pode fazer ceder a ponte, não restando nem o Sono Infernal aos incautos. Terceira Estação: Consciência Na hora da maturidade, nós ficaremos totalmente cônscios da nossa situação e estado. Está no momento de tomarmos o rumo, cuidarmos de como e para onde seguiremos, por nossa conta e risco. Cada um deverá calcular e mapear as rotas que se desenrolam por todo esse imenso campanário. Nesta arte, os caminhos serão a acolhida e a amplidão. Uma escarpada mandíbula, um abismo no desfiladeiro sem fundo, onde a queda continua apenas demonstra a vertigem que atacará aos desorientados. Aqui se porá em pratica e se fará a mais difícil prova de que se aprendeu, cresceu e está apto para fazer parte efetiva do Reino. Ao largo, dispostos, aguardamos a vinda de uma charrete, onde servos a mando da senhoria, recolhem os melhores frutos que foram curtidos pelas estepes intermináveis. Nós somos acolhidos pelo transporte, um de cada vez. Durante o trânsito, aprende-se pequenas e úteis dicas, que nos preparara para o destino seguinte, ou até um ligeiro amor, a quem a fortuna sorrir. Ainda há muito a refinar de nossa rudeza, nós não podemos pretender muito, haveremos de aprender a lutar sem precisar do uso da força, ossos ou músculos. Nós teremos que saber quais são as armadilhas dos vivos, que no mundo material, tentam operar forças mágicas, ditam regras do oculto e como devemos proceder para curá-los de tal engenho manco. Quarta Estação: Superconsciência Estamos dentro da universidade da morte, aqui teremos um ensino mais refinado que irá nos preparar profissionalmente para sermos membros ativos e produtivos do Reino da Morte. Mas não terá apenas teoria, mas também muita prática e laboratórios, onde brincaremos com médiuns e as demais espiritualidades e ocultismos em que os pobres imbecis acreditem, como se fossem ciências exatas. Nós não passamos por provas terríveis para facilitarmos a passagem dos próximos calouros. Como espectros veteranos, daremos trotes nos vivos, não escapando nem parentes nem amigos, quanto mais parecer sério, mais divertido se torna. Estando plenamente senhores de nossa situação, já estamos livres dessas cretinices pelas quais em vida se nomeia por ocultismo, estaremos mexendo com as verdadeiras normas do mundo desolado da morte. As profissões que regiremos são muitas e diversas, podemos tripudiar dos médiuns e nos tornarmos mensageiros; podemos tripudiar dos vivos e darmos em fantasmas pavorosos; podemos abusar da vida e provocarmos fenômenos inexplicáveis; podemos abusar das religiões e nos fazer passar por deuses ou demônios; podemos exceder os limites e arranjar uma reencarnação. Existem muitas variantes, especialidades em algum setor, ramos de atividades lucrativas, cansativas ou com promoção e hierarquia. De todas, preferi servir de relator, para lhes contar tudo isso. Eu denunciarei as irregularidades, destes que se apresentam como esotéricos, publicando a fraude do que se toma por religião e do engano de dividir o destino das almas para Paraísos, Infernos ou Purgatórios. Eu direi exatamente o que cada um é. Quinta Estação: Hiperconsciência Uma vez empregados e colocados em serviço, começamos o trabalho de progredir a nós mesmos e colaborar com a evolução da morte. A tarefa é árdua e ingrata, não há pagamento, pois aqui se almeja conquistas mais estáveis que riqueza e poder. Quer se aumentar nosso próprio grau de fatalidade, para merecer enfim, uma colocação no Grande Mausoléu. Não se mede tal grau em relação individual, nem mesmo coletivo, mas o que e em que o trabalho executado realmente acrescente ou melhore nos processos da morte. O que se quer atingir não pode ser medido em quantidade, nem se pode exprimir em qualidade. Pretende-se refinar tudo que se refere à morte. Estranhamente, isto se verifica quando pomos em prática por sobre os vivos. A vida é o laboratório da morte. Como pesquisador, coube-me dissecá-la. Como não existe material, teoria ou professores, cada um se torna doutor de alguma parte deste processo. Uma vez que se dá em processos, coube-me tomá-la como advogado, jurista e legislador. O código processual da morte a cada emenda e a cada decreto virei a comentar e criticar. Eu irei com meus colegas de estágio, discutir e definir a teoria, para que conste aos altos encargos, como andam em labor os mensageiros e executores da morte, os operários de produção desta indústria bem sucedida. A vida é a matéria prima; os defuntos, o produto final; a renovação, o valor de troca ao mercado. Mas, no que nos cabe, nós não dependemos da matéria para haver produção ou sustentar nossa sociedade, já que existimos sem precisar da existência. Se esta não houvesse, inventariamos uma qualquer, esta que se chama de vida, é apenas um de nossos protótipos, mas não o mais feliz nem o mais arrojado. Sexta Estação: Alterconsciência Nós chegamos a um nível tal, que já nos ocupamos pela sorte de terceiros, nesta trilha desolada, pela qual empregamos nosso sofrimento. Para esquecer e reviver, nós ajudamos aos calouros recém chegados deste purgatório, que usualmente chamávamos de vida. Suportamos por eles, dores que nos despedaçam, por estar além de nossas capacidades, mais antes por prazer do que pena, pois o ofício da morte só se realiza plenamente pela dor que se toma e é alheia. O grau de coragem não é para lançar-nos mais rapidamente ao Grande Mausoléu, mas tanto para adiar quanto para abandoná-los, no momento em que mais seríamos necessários. Pois aí está a auto-gestão da morte: ao perecer o que já se encontrava falecido. Assim, aos poucos, juntam-se mais ossos e acrescentam-se degraus nesta jornada, pequenos cacos de almas que, ao serem dilaceradas por nós, levam um pouco de nós para o processo, acrescentando nossas leis e aumentando os obstáculos, com nossa crueldade. Por quanto mais nos espalharmos pelo terreno, mais ainda nos realizamos e evitamos a última estação, pois aqui é que se sente o prazer de trabalhar, só pelo trabalhar e pelo de dar trabalho. Mas é por nossa própria influencia maléfica e fatal, que somo mais arrastados, com tanta mais velocidade quanto nos apegamos. Quando cremos estar firmemente arraigados, enraizados, nossas próprias raízes volatilizam e a explosão nos projeta. Sétima Estação: Transconciência Elevados pelo que nos devia manter firmes no lugar, nós vemos toda a planície qual visão de um trapezista a todo o circo, sendo que a nós, nos vem a visão deste circo que se tornou a vida. Nós vemos em completo que a Morte é a mãe da vida, que como criança pequena arrisca pequenos passos, mas logo regressa ao que protege e provê. Que a morte é ainda pequena e irmã mais velha da vida, mas já sabe andar e falar. A morte será herdeira da Morte, pois são autogeradas e auto-suficientes no talento que tem de se perpetuarem ao se extinguirem, a morte se mata para permanecer morta para não morrer. A Morte é a morte que morreu quando não se matar. Entre elas, a vida vai sem ir, como um brinquedo entre a mãe e a filha, que nesse movimento ilude-se de que está viva e prevalece sobre a morte. A vida só é viva porque não sabe que não vive, não sabe que é natimorta e todo seu vigor vem desta ignorância. Tal como um pequeno cometa irriquieto em órbita, entre uma estrela gigante vermelha e uma estrela anã branca. Todo seu movimento é criado pela força gravitacional que existe entre as estrelas. O Grande Mausoléu Eis a antecâmara do próprio corpo da Morte, onde já se sente a emanação de uma energia forte e primordial de onde os espíritos de todas as coisas tiveram origem. Uma ternura filial e uma excitação sexual conturba nossa pequena alma em meio a tal imensidão e potência. Cada fresta exala sabedoria, a cada metro acumulam-se enciclopédias, cada ossada alinhada, linha de forças cósmicas que fazem brilhar as órbitas vazias dos crânios com um fogo fátuo, mapeando esse cosmos da Morte. Nós tínhamos apenas começado a sair da pequena órbita da morte, estamos iniciando na escalada final até os limites desse cosmo. Nós temos que encontrar a passagem até as cinco salas, onde teremos que galgar os doze degraus de cada uma, até tocar enfim o coração da Morte que se encontra na mente e na fronteira da elipse mais impossível e absurda. Este é um jogo que requer habilidade, inteligência e probabilidade, onde a combinação correta de ossos e medulas, vão abrir pequenas escotilhas nas quais, combinadas em uma ordem, vão originar um portal à próxima dimensão, um outro nível energético maior e mais amplo, dentro deste incrível átomo da Morte. Na diferença de uma costela há uma curva de aceleração, que vai rachar o crânio no parietal, nos levando à caixa do próximo crânio. Primeira Sala: A Cópula Aqui a promiscuidade é uma criança ingênua, daqui é gerado todo o espírito da sacanagem, bem porque a morte é a maior realização sexual, todo ponto de penetração corresponde a uma decomposição, todo fruto deste ventre é seu pai. O mais perfeito incesto e estupro, matricídio e filicídio. Toda carne e sangue, quando existente, em sua função, esta não é outra que não a contemplação do prazer de tornar carne e sangue uma perpetuação do prazer. Aqui o prazer é carne e o gozo é sangue, o que era resultado, é a causa; o que era a causa, um resultado surrealista, a vida é uma conseqüência desta orgia da morte. Todo o amante da senhoria, é uma oferenda em imolação, trucidando-se para os pedaços tornarem-se o esperma que vai purificar o ventre e enraizará como feto, um incrível feto natimorto que irá parir-se, como um esporo que vive do seu fungo como parasita. Mais ainda com a ajuda de Belchanan, a expulsar do ninho os pequenos e gorando os ovos frescos, num fratricídio e genocídio que só multiplica a prole. Adquirindo a película protetora, como um vírus infecto pronto a aumentar as chagas, nós saímos do colo, arrastando conosco uma trilha de hemorragia, deixando a lembrança na forma de uma gangrena. Com nossas presas e mandíbulas, forçamos nossa passagem, uma nova sevicia para deliciar nossa senhoria, que aperta em nossa volta seu doce ânus, um longo túnel pulsante, por onde evadiremos, provocando nossa defecação. Segunda Sala: A Digestão O capricho da senhoria faz com que a fuga acabe nos tragando mais para seu intimo, nos emulsionando no suco gástrico, até formar um bolo digestivo, como penas de aves no estômago do crocodilo, prontos para serem regurgitadas. Com grande repulsa, vemo-nos sendo repostas as carnes e os ossos, tornando nossa forma nessa miserável humana. Mas isto é feito apenas para decantar ainda mais nossa essência, de forma que constantes reformas e demolições seguem-se, até que se triture toda sobra ou consciência humana. Desta vez, nós estamos à mercê das contrações estomacais e das marés enzimáticas, sofrendo os mais diversos processos em cada parte desta parede viva viscosa, repicando de um canto a outro, sendo esticados, picados, amassados, estirados, assados, estuporados e demais formas de se preparar uma refeição. Finalmente, depois de nós ermos coalhados e coados, começamos a ser assimilados pelas artérias, que mais se parecem com um labirinto, formado por corais cortantes, nem aqui há tréguas. Ainda iremos ser atacados por anticorpos e demais mecanismos de proteção orgânica, mas sempre numa versão adequada ao Mausoléu. Então, as veias são como catacumbas, os anticorpos são seus habitantes; a sala de digestão é uma sala de necrópsia liderada por açougueiros, mas ao todo, uma boa câmara de tortura de um calabouço frio e cruel. Tudo para nos aperfeiçoar, tal como o ferro é laborado até obter aço temperado, resistente e afiado. Terceira Sala: O Eflúvio Tragados através dessas cavernas intrincadas, nós somos arremessados para a forja do Fogo Negro, que consome toda alma, todo o espírito de qualquer coisa existente. Na medida que dilui, também reconstrói, com faíscas de sua própria essência. Da mesma forma que num tonel de vinho, onde nós seriamos os bagos de uva, subimos e descemos, somos esmagados e rasgados, batidos e cozidos e postos a fermentar. Nós passamos de estado sólido a gasoso e de gasoso a sólido, em intervalos de tempo extremamente curtos, a fim de atingirmos o grau de excelência que só um vinho tinto consegue. Imensas pás continuam a revolver, enquanto nosso plasma flutua pelo tonel, adquirindo cor e volume, ou cristalizando ao agarrar-se aos pequenos postes ou paredes da tina, enquanto a fermentação não nos arrancar pela evaporação. Nós estamos prontos para ser engarrafados, sendo as garrafas formadas pelos cristais que produzimos, até criar uma pele lisa e sem defeitos, como uma perola de jade cobrindo um diamante bruto. Por nossa cromografia, nós seremos catalogados, alguns ainda terão que ir a busca de cascas melhores, outro serão quebrados imediatamente por terem ultrapassado a camada que lhe cabia. Lentamente, as bolas de gude vão sendo empilhadas à esquerda, à direita, ao fundo, à frente, à cima e a baixo, até completar todo um grado. Cada grade e espaço, nas posições e direções certas, como a ordenação atômica de uma folha, onde aos bocados são formadas camadas, para cada camada formar um tecido, que no conjunto resulta em um organismo. Quarta Sala: A Moagem Implacavelmente, as engrenagens fecham-se sobre nós, os dentes dela pressionam-nos, nos dilaceram com suas brocas, somos triturados pelos rotores até pulverizar a mínima poeira, só restando uma poeira tão fina que nem mesmo um coador reteria. Ainda seremos centrifugados, para que todo peso possa ser processado, apenas o que for uma fração, mas sem peso, ainda que sólido, será retido por uma grade felpuda de penas, com mais fiapos que galhos em uma floresta. O látex graxoso da grade nos escorre de volta a engrenagem e a centrifugação, para que o óleo resultante de nossa moagem possa lubrificar o engenho. O segundo óleo, obtido da terceira moagem, será usado como comburente desta máquina, esta que gera toda a força que move a morte. Pois a morte é sustentada pela Morte, através da moagem da Morte sobre a morte. A morte pode ser a cabeça, mas a Morte é a máquina que gira a cabeça. O que ceifam, é o produto delas, mais para experiências cientificas que propriamente para alimentação ou necessidade. Elas são capazes de se parirem e manterem-se, sem precisar de vida ou de qualquer outro protótipo ou substituto. A vida, ou qualquer coisa semelhante, só cabe em si, enquanto as senhorias são cósmicas. Através da válvula de escape deste motor de extrusora, nós saímos, um pouco fuliginosos, mas nós estamos aptos a seguirmos a subida. Quinta Sala: A Coroa Do alto da Morte, nós vemos com doçura como a morte brinca com a vida, adormecida em sua própria ilusão de que a morte é uma função da vida, quando na verdade a morte se basta, visto que não é nascida e já está falecida, é sua própria negação e justificativa. Já a vida depende do movimento dinâmico do jogo que a morte lhe impõe e de pobres objetos e de pequenos atos, para se satisfazer de si e exclamar a si: estou viva! Uma miserável tentativa, procurando mais se convencer que se provar. Já a Morte é o pátio, o palco da morte e sua pantomima, trazendo a vida como uma marionete, para um pequeno espetáculo de ventriloquismo. O que parece se mover, se acha vivo, mas não é esperto; o que parece se expressar, se acha eloqüente, mas não é legível; o que parece dominar, se acha reinante, mas não é poderoso. Quando a morte se cansar do brinquedo, simplesmente começará outro, tirado de sua imaginação e o próximo boneco se sentira tão cheio de vida quanto o anterior e elegera a si como exemplo de realidade, esquecendo que a coroa do real lhe é confiada pela morte, coberta de realeza com um pedaço do manto da senhoria, a Morte. De sua varanda, nós vemos o que ela vê e consente, deste planalto abrem-se mais outros caminhos, que se estendem por todo o Reino das Trevas. Os Doze Pontos da Antecâmara: 1. Todo principio está no fim de algo. 2. O que promove a vida é a dádiva da morte. 3. Todo saber consiste em ignorar. 4. Ao que escandaliza, que pertença ao escandalizado. 5. Um círculo é um falso quadrado. 6. Um ponto é uma falsa referencia. 7. As diretrizes são insuficientes aos vetores. 8. Condutas foram feitas para serem conduzidas, não condutoras. 9. Toda lei é o absurdo da Justiça, que só se mantém pela força. 10. A democracia é o regime de coerção pela maioria. 11. Uma pessoa tem mais faces que uma moeda, mas não vale tanto. 12. O que salva não alivia, mais vale o prazer do alivio perpetuo. As Doze Pedras da Copula: 1. A felicidade de uma flor é ser ceifada. 2. Toda flor deve campear seu ceifador. 3. Não se entregue ao que não conseguir lhe tomar. 4. Não se pede ao que se quer, se rouba. 5. Deve se fincar firme o mourão no vale, para o rio fluir. 6. Apenas o que se ganha, deve ser pago. 7. Dobre o vinco e vinque o dobrão. 8. Um passeio da agulha em torno do disco só rodeia seu alvo. 9. O maior obstáculo está em não se aceitar em outro. 10. Deve ser resgatado o pouco algo do tudo que existir no todo. 11. Não se ganha o premio por velocidade ou pela realização, mas no que se recuperar de si. 12. A tentação só existe enquanto houver segredo. As Doze Farpas da Digestão 1. O que completa, se esvai; o que alimenta, se aproveita. 2. Mais que necessidade, quer se preencher uma ausência. 3. O que conta é a presença e o fazer presente. 4. Seu peso é o que o torna sublime. 5. A abstenção é um homicídio suicida. 6. E? o exagero que faz o melhor recheio no peru. 7. O digesto ignora o palato. 8. Não é a gordura que incomoda, mas a magreza que inibe. 9. O prato é redondo e ninguém reclama. 10. Um gordo economiza em dobro o que um magro gasta em quádruplo. 11. Uma pedra tem mais chances de sobrevier do que um galho, num vendaval. 12. Se o caso é estética e boa forma, o que é mais perfeito que o círculo? Os Doze Pregos do Eflúvio 1. Nem tudo que paira no vácuo é éter. 2. Oxigênio também é alucinógeno. 3. O coração é o maior traficante desta droga. 4. O cérebro é seu principal dependente. 5. Os poros são nossas panelas de pressão. 6. Os músculos são brutos, os nervos são nervosos. 7. A coluna vertebral é uma central de telex. 8. Os olhos vêem tudo, menos o que devia ser visto. 9. Os ouvidos estão desquitados, dormem em lados separados. 10. E?a boca que fala ou é a língua que dá nos dentes? 11. O nariz é o que sobrou da boca, ouvidos e olhos. 12. O cérebro, apesar da inteligência, não superou seu complexo de apêndice. As Doze Alavancas da Moagem 1. Nem tudo que vai aos dentes é para ser mordido. 2. A língua é o mestre de cerimônias deste salão. 3. Castanholas são tocadas, por causa de uma castanha. 4. Todo creme é um vinho para a língua. 5. Sorver sopas e outros caldos quentes. 6. A satisfação está em encontrar o tempero e o recheio, onde não há. 7. Que se de algum sangue aos nossos fieis caninos. 8. Um fosso aguarda a entrada dos convidados em ceia. 9. Um céu é guardado por uma arcada, mas é na adega o paraíso. 10. Se ao que deseja, se morde, ao que se ama, se devore. 11. Todo vermelho e verde se acabam no marrom. 12. Algo de dentro pede algo de fora, uma vez integrados, se desassociam. As Doze Pérolas da Coroa 1. Duas cabeças podem ser coroadas, o ouro faz a festa no céu, o couro faz a festa na terra. 2. Nem todo couro se dá por ouro. 3. Coroa de ouro é larga, coroa de couro é estreita. 4. Coroa de ouro dá poder, coroa de couro dá prazer. 5. Por ouro se senta, ao couro também. 6. No trono de ouro cabe a realeza, no trono de couro cabe o cetro. 7. Tem que se dar muito no couro para se chegar ao ouro. 8. Muito ouro faz a riqueza, pouco couro faz a tristeza. 9. Um anel de couro no dedo certo é melhor que um anel de ouro no dedo errado. 10. O couro alheio sempre é mais dourado. 11. Há ouro que se utiliza para o couro e couro para se curtir o ouro. 12. Na bolsa cabe muito ouro, mas é a de couro que mais se deseja abrir. Paramentos para a realização do Mortuário 1. Será necessário um local, que seja próximo de cemitério ou terrenos relacionados com a morte, ou que já tenha sido um espaço utilizado para tal fim. O local deve ser aprontado de tal forma que seja possível a sensação física de cada uma das etapas, começando pela entrada de serviço e terminando na entrada social. O proprietário ou responsável deve ser o guia e nada mais que isso. 2. Além do guia, dois convidados, de sexos opostos, entrarão e passarão pelas treze etapas. Encontrarão em cada etapa, dois provadores, de sexos opostos, que irão representar a especialidade da etapa, até que os convidados cheguem á senhoria, cujo par é o guia. A senhoria será nomeada pelos treze pares e será a representante da Morte e tomara apenas o guia como seu par. Ao guia cabe a entrada de serviço, à senhoria cabe a entrada social e mais a nenhum outro. Tais cargos só poderão ser trocados nas reuniões entre os componentes, a serem realizadas em noite de lua nova, que deve acontecer em local separado ao dedicado aos processos normais. Que seja em um porão, ou na falta, no sótão e vice-versa. 3. Em absoluto devem existir hierarquias ou comandos entre os componentes, visto que suas competências só consistem enquanto representantes em suas respectivas etapas, ou seja, não são a pessoa que representam ou a etapa. Manter-se no que lhe foi confiado é essencial ao sucesso de todo o processo. Portanto, vestes que diferenciem ou ressaltem o grau e a importância, estão fora de questão, devem ser descartadas estas ou outras formas de graduação e posição. 4. Em havendo tais condições e entendidas as disposições, seguem-se os materiais que devem constar no local, a fim de celebrar o Mortuário: uma ânfora de vinho tinto, uma ânfora de sangue (animal,humano ou artificial), treze manuscritos (cartas dos provadores) e as salas devem ter apenas um piso acolchoado, para executar as tarefas que cada etapa exige. Será da competência dos provadores o que irá constar em seus manuscritos, apenas devem ser respeitados os princípios das Trevas. Aos que desejarem, siga-se a literatura profana aqui contida ou em outros trechos de outros cadernos existentes no livro, mas adaptações e aperfeiçoamentos serão preferíveis. 5. Os candidatos devem responder, caso sejam perguntas; comentar, caso sejam frases; executar, caso sejam serviços. Ao que, se for satisfatório, receberão sua paga em vinho, sangue e carne, abrindo a próxima etapa. Em caso contrario, o guia os retirará do local pela porta lateral, os conduzindo de volta ao meio dos vivos, ao meio social donde provieram. Aos que concluírem o curso, completado o processo, a senhoria lhes entregará o livro de sua provação, onde consta o que aprenderam e suas respostas diante da morte. Os candidatos serão confiados, um ao outro, pela morte, até que a danação os corrompam para sempre. Agora, como parte da Morte, acrescentarão a cada noite, um pensamento ao seu livro pessoal, que será aberto nas reuniões do Mortuário, momento no qual participarão das eleições, modificações e melhorias do processo. 6. Para a consagração do grupo original e de outros tantos que deste forem sendo formados, há que ser providenciado todos estes materiais e que o conjunto se ponha em exame, na primeira noite de lua nova em que pretendem, a partir desta, darem prosseguimento ao empenho de celebrar o Mortuário. 7. Estes procedimentos não devem seguir como um ritual rotineiro e estéril, não deve ser tomado como forma de crença ou religião, não deve ser encarado como obrigação ou dever. Todo processo visa não a salvação, mas a perdição; não a divinização do Homem, mas a sua degradação; não a integração em uma entidade absurda, mas a diversificação dentre opções de destino, no Reino das Trevas. 8. Que a intenção dos celebrantes seja a de trilhar pelos corredores da morte, através do cemitério, para se conhecer suas linhas e se tirar o melhor proveito do saber que a morte pode nos brindar. Que a intenção dos celebrantes seja a de acabar com as ilusões ou fantasias, desmascarar a face dos que se aproveitam da vulnerabilidade e ingenuidade humanas, que tentam manipular a humanidade em beneficio de seus propósitos políticos, sociais ou religiosos. Que a intenção dos celebrantes seja a de devolver o gênero humano ao seu lugar merecido, sua função primordial, da qual vem sendo afastado por interesses de duvidosa bondade. 9. Este e outros livros que irão registrar a história de todos os grupos de celebrantes do Mortuário não são uma regra, nem deve se constituir como exemplo aos futuros grupos. As linhas existem, cabem aos grupos o que se deve escrever nelas, de como estes espaços serão preenchidos dependera apenas dos atos que tomarem diante da constante questão que a Morte oferece aos que se dedicam a conhece-la. 10. Das anotações de cada grupo, se fizer necessário, serão elaborados regras, mas o grupo deve sempre prevalecer e um grupo não pode delimitar os campos dos outros grupos. As regras nascem, vivem e morrem pelo grupo e só subsistem por ele. Feliz do grupo que melhor se aproximar dos princípios das Trevas ou da Morte, mas a que ponto se aproximou que fique ciente pelo grupo, aos outros, que se esforcem para se aproximarem da sabedoria da Morte. 11. Os grupos, que quiserem trocar experiências em prol do processo, devem proceder a seus apontamentos deste congresso separadamente, para evitar influências, semelhanças, repetições ou sínteses. Isso prejudica a evolução do processo e dos grupos, que começarão a ficarem estáticos, acomodados e preguiçosos, pondo a perder todo o trabalho acumulado. 12. Todo grupo deve ser autônomo e deve responder pelo que for necessário, uma vez que estamos nos instalando numa sociedade que aprova apenas o otimismo, o comodismo, o conformismo, o positivismo, a felicidade, a alegria, a vida e o Império das Luzes em suas diversas faces. 13. Uma vez que tomamos a morte como uma dádiva e a maior experiência sexual, em seu maior ápice de êxtase, nada que nos possam fazer nos redimirá aos propósitos escusos do Império das Luzes. Pois, se este se construiu sobre um mártir, para se permitir martirizar seus adversários, pelo peso dos cadáveres de suas vitimas ele virá a ruir, dando vitória às Trevas, nosso maior desejo, objetivo e vingança. Anotações do autor Existem muitos deuses únicos e muitas verdades absolutas, a cada religião cabe um absurdo, levado pela ilusão de seu líder. Uma pessoa se torna líder apenas depois de ter tido algum contato com a morte, a cada toque, pela pessoa, conduz a uma experiência e a um saber. Mas parece que não aprenderam a lição, pois até agora todos têm tentado negar a fonte de sua inspiração e se deixado levar pela ilusão de grandeza e de proximidade aos deuses, que são mais seus próprios pesadelos paternais, inflados. Por este temor, pela culpa diante de seu próprio tribunal, inaugura regras de conduta a todos quantos conseguir tragar a este engodo, a fim de promover e divulgar estes caminhos a salvação, estas verdades que interessam para esta religião e este deus, a fim de que estes mesmos subsistam. Então, é muito mais os deuses que dependem dos homens, que estes deles. Uma regra só existe se houver força para que seja observada e embora sejam os homens que fabriquem diariamente seu futuro, estas regras são constituídas para que os homens saibam o que devem fabricar para alcançar tal futuro linear, ao invés de um provável, dinâmico e mais produtivo. São os homens que fazem as leis, estas devem existir em beneficio de todos e cada um, não deveria ser um instrumento de condicionamento, são os homens que devem projetar, decidir os rumos e edificar este futuro. Os homens não deveriam aguardar este futuro incerto, sem garantias, que é usado como uma ameaça ao presente. São os homens que se fazem à imagem dos seus deuses, porque estes são eles mesmos, na forma da perfeição que imaginaram ser a mais absoluta, não são estas entidades que se conformaram em gente para se expandir. Que necessidade teria um ser absoluto e perfeito de se degradar a tal ponto, se não se bastasse em si e se não fosse tão prefeito? O que viria a realizar que não fosse o seu próprio si e com que propósito, se não haveria admiradores? Por que se diminuiria a uma forma carnal e tão imperfeita se não necessitasse dela para que se enxergasse e se entenderia como criador e deus? Se tal criatura é seu próprio corpo, como poderia cometer alguma culpa, se sta não tivesse antes sido desejada e cometida pelo criador? Por que se daria o trabalho de formar sexos diferenciados, só para depois proibir o coito, por ser imoral? Por que se daria o trabalho de criar tantas coisas, para que nem todas pudessem ser desfrutadas? Como poderia aumentar o numero de adeptos, se proibiu a fornicação? Como, de uma só semente, poderia vir toda uma floresta diversificada? Se foi pela criatura que a morte veio ao mundo, então tal criatura é divina ou será que a morte já existia, contemporaneamente a este deus? Então, seja qual for nossa origem, ela tem um momento único: o de fugir da morte, acreditando em algo supremo e imortal, proibindo-se de fazer certas coisas que acredita ser uma ofensa ao seu deus, fazendo outras que acredita colocar-se próximo dele e portanto, mais longe da morte. Inventam-se oráculos, energias, círculos existenciais, fórmulas de magias, tudo mais que o sonho e a fantasia puder dispor, para satisfazer essa ilusória fuga do que é verdadeiramente imortal, por não ter sequer nascido e merecidamente divinal, por ter sido a razão de ser da existência das religiões e sua fonte de inspiração. Eis que estas são as verdadeiras cascas que nos envolvem e nos sufocam: são todas as religiões, as crendices, as ilusões e as fantasias criadas pela nossa mente infantil, mas que dá uma seriedade quase cientifica a tais absurdos, chamados de esoterismo e ocultismo. Se estiver oculto, é porque tem vergonha de aparecer; se for externo, não nos pertence nem nos diz respeito, que naveguemos nossa barca, então. Se há uma função ao Homem, esta é a razão; se há uma religião, esta é o labor; se devermos realizar um culto, que este seja o do sexo. Devemos nos colocar, fazer e tomar o que nos cabe, sem procurar coisas estrangeiras nem ocultar nada. Todo movimento tem sua lógica, todo fazer tem uma razão, cabe aos mestres e artesãos indicarem como, mas não o que fazer. Eis toda a necessidade humana: esta só vê real e ativa quando se expande em um objeto perceptível aos sentimentos, é das sensações e necessidades que nasce a realidade e também o desejo, a idéia e a fantasia. Nós somos uma maquina orgânica, movida a sensação, necessidade e desejo, nós não seremos felizes em nada mais, se não formos satisfeitos de alguma forma e nisso toda religião falha, pois o alivio é ilusório e a salvação, apenas uma promessa sem fiador. A confiança deve residir em nós e no que fazemos, qualquer outra tentativa é fugaz e em vão. Não celebramos a morte para negá-la, mas para torná-la bem vinda. Não a consideramos uma casualidade ou tristeza, embora inconvenientemente todas as religiões comemorem a morte, mas a considerando uma fase, uma redenção, uma entrada a outro mundo. Nós consideramos a morte todo este sistema complexo que ocorre ao fenecer um ser vivente. Se considerarmos como vida o que somos, o que fazemos e todas as provações que passamos, não podemos aceitar então haver uma vida após a morte, já que os relatos (se forem confiáveis) falam de um lugar sem sofrimentos ou esforços. Na verdade, a morte é o espaço no qual a vida se desloca, a vida é movimento, que se conduz pelos princípios da inércia, ação e reação, derivando ou causando outros movimentos ou vidas, mas sempre o movimento das coisas, não o seu estado. O estado das coisas é a relação em que o movimento está para o espaço: se o ignora, se o sente ou se o aceita. Enquanto o ignora, o movimento é continuo; quando o sente, já se retarda e quando o aceita, se estagna. Analogicamente semelhantes aos estados físicos: sólido, líquido ou gasoso. Em havendo energia, volta-se ao gasoso, em se deixando inalterado, tende-se ao sólido. A única energia que fornece tal diferencial é a energia vital contida no próprio ser e em mais lugar nenhum. Esta energia não depende de sorte, magias de qualquer tipo, apenas da vontade interior do individuo, toda pessoa só depende de si, para tentar alcançar algo mais de seu momento dinâmico. Entretanto, todo esforço só permanece na dinamicidade, fora disto está condenado ao fracasso e ao esquecimento, mesmo o maior realizador não tem valor para a morte e é por isso que apostamos na morte e no seu processo: para obter o perpétuo. Não estamos, com isso, querendo estimular ou apoiar o suicídio e o homicídio, considerando as conotações prejudiciais que tais palavras têm na função jurídica, social e religiosa. Nós queremos apenas nos colocar diante de um fato mais real que a realidade, mais tangente que a vida, que é a morte. Não se torna a morte mais branda ignorando-a, mas podemos transformá-la numa amiga e companheira, se tentarmos entendê-la, escutá-la. Ao invés de encará-la como problema, a entendemos como solução, como fonte de toda a sabedoria e o ápice do êxtase da maior experiência que se poderia sentir. Ela foi a noiva de todo missionário que se fez líder religioso, sendo enganada e usada, roubada de sua sabedoria, cujo poder foi mal utilizado por todos esses profetas, para o beneficio e ascensão destes como redentores. Ela foi utilizada, para fundar as crenças que esses missionários representam, para arrastar os crédulos, por essa pseudo-autoridade divina. Não queremos liderar, salvar ou aliviar as pessoas de seus tormentos, iremos vivencia-los e saudar a perdição. Celebrando o Mortuário, aprendemos que cabe apenas à dona da sabedoria toda a divindade e cabe à senhoria todo poder que tais divindades alegam ter. E? entendendo a morte e seus processos, que tudo fica mais claro e simples, sendo até mais fácil descobrir as respostas que ainda não tenham solução. Por estes e outros tantos motivos que nos esforçaremos para que seja escrito a Ceticese, comentários do ceticismo para as outras crenças. Na ingenuidade que merecerem, a mesma quantidade de sátira, até a desmoralização total dessas monstruosidades. Nenhuma crença resiste ante o questionamento sério e profundo, visto que são feitas de ilusões, de frágeis filosofias e verdades superficiais. Se fizer necessário, tal critica deve existir dentro dos grupos, já que almejamos o aperfeiçoamento pela pratica e correções nas diretrizes. Não é uma diretriz que nos faria merecedores da perfeição, mas este esmero nós juntamos aos pedaços, através de tentativas e erros, para juntar a seqüência correta que pode nos elucidar todos os mistérios que se pretenda desencantar. O que se celebra, visa antes experimentar toda a dádiva da morte que cultuá-la, deixando tal experiência aberta aos que desejarem ter contato com a fonte de toda a sabedoria. Ao grupo, seu motor de evolução será o constante questionamento, que sejam levantadas toda espécie de dúvida e que se achem respostas adequadas, vindas da própria experiência do grupo junto à morte. Nós somos como universitários, numa imensa e interminável faculdade, onde a morte é a reitora e principal matéria de ensino. Nessa academia, está prevista a participação ativa do corpo de alunos, na melhoria do currículo geral. No que me cabe como escritor do profano, tento deixar, na medida do possível, tantos textos quantos se fizerem necessários, para auxiliar aos que ousarem entrar nesta rota. As linhas estão aí, mas as palavras estão soltas em meio ao campo, como sinais de um mapa cartográfico. Os sinais estão muito sutis ou muito evidentes, ao que me coube evidenciar enquanto minha capacidade permitiu. No entanto, está longe da discussão ter terminado e o compêndio de meus cadernos não pode constituir na mensagem definitiva das Trevas aos seres inteligentes deste planeta, pois isso o suporia sagrado ou verdadeiro. O que estas obras são, em qualquer caso, verdadeiramente sacrílegas. Eu quero, antes de tudo, instaurar a dúvida e o questionamento, porque sei que é através da busca que se chega a conclusões e, das conclusões, se conquista a evolução. Ainda somos muito infantis, apesar da inteligência. Tudo o que nos faz tão especiais estamos usando de forma a nos ofender. Com a maturidade e a conquista da razão, passaremos a mudar tal quadro e já não será tão fácil nos iludir com crendices ou nos enganar com promessas. Ai sim, eu acreditarei num futuro durado para a humanidade, um paraíso que será construído em terra por nossas mãos, sem depender de nada ou ninguém. |
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