Rio de Janeiro, sexta-feira, 30 de julho de 2004
 
Argemiro Ferreira*
 
Fahrenheit 11 de 09
 
Boston consagra Michael Moore mas a campanha de Kerry foge dele
 
NOVA YORK (EUA) - A alta hierarquia do Partido Democrata acha incômoda a presença dele: preferia vê-lo o mais longe possível de Boston e da festa colorida da coroação de John Kerry como candidato presidencial. Mas Michael Moore, garantido pelo sucesso devastador de "Fahrenheit 9/11", que só em ingressos vendidos nos EUA já faturou mais de US$ 100 milhões, já é parte da convenção - e mesmo uma de suas atrações maiores.
 
Paralelamente, o filme dele estava sendo exibido ontem em Crawford, no Texas, perto do rancho do presidente George W. Bush, com uma cobertura nacional graciosa, cortesia da mídia. O local, segundo a CNN, poderia receber cerca de 1.000 pessoas. E uma pessoa ouvida nas proximidades declarou-se muito interessada em ver o filme e conhecer verdades que foram escondidas do povo americano.
 
Moore deve ao bloco parlamentar negro, setor mais à esquerda do partido, sua atual condição de convidado especial na convenção de Boston. E como também tem status de celebridade, os americanos agora podem vê-lo todo o tempo, a fazer declarações explosivas a diferentes redes de TV - até mesmo à Fox News, que há meses o apresenta ao país como um vilão comparável ao próprio Osama bin Laden.
 
O'Reilly não arrisca seu filho.
 
 Os apresentadores e entrevistadores da TV não fazem isso com o objetivo de ajudar Moore ou o filme. Só o que querem é ajudar seus próprios índices de audiência - e, obviamente, derrotar as redes concorrentes. Assim, o controvertido cineasta pode ser visto, numa mesma noite, a dar entrevistas a Larry King na CNN, a Ron Reagan na MSNBC e ao rei da audiência na agressiva Fox News, Bill O'Reilly.
 
Pode ter sido surpresa para O'Reilly receber o "sim" de Moore para uma entrevista na mesma noite em que Howard Dean e outros críticos de Bush, vilanizados diariamente na Fox, viravam as costas à rede de Rupert Murdoch. E no programa O'Reilly conseguiu resistir à tentação de cortar o som do microfone - expediente a que recorre quando um convidado ousa dizer o que não quer ouvir. 
 
Resultado: o telespectador pôde ouvir o próprio Moore, momentaneamente no papel de entrevistado (como no filme), perguntar a O'Reilly se aceitava entregar seu filho para morrer por Falluja. 
"Estou pronto a morrer por Falluja", disse a monarca de audiência da Fox. "Não perguntei sobre você. Quero saber se manda seu filho. São apenas crianças os soldados que Bush está mandando para morrer em Falluja".
 
As perguntas que não foram feitas 
 
Só depois O'Reilly pôde amortecer o impacto junto aos telespectadores da Fox, na qual a reputação de Bush é de herói de guerra. O máximo que lhe foi possível veio num replay da entrevista, à qua adicionou comentário ofensivo, feito na ausência confortável do outro. Michael Moore, disse então, apenas demonstrou ser extremista de esquerda, odiador de Bush e adepto de teorias conspiratórias malucas.
 
        O paradoxo é que quanto mais a mídia demoniza o cineasta, mas seu filme faz dinheiro. 12 milhões de americanos disseram numa sondagem de opinião que ainda irão ver "Fahrenheit 9/11", que continua em cartaz. Mais de 40 milhões declararam que pretendem vê-lo tão logo saia a edição em DVD, planejada para antes da eleição. Fontes da Casa Branca já manifestaram sua preocupação com os possíveis efeitos.
 
O próprio Moore tem uma explicação para tal sucesso, sem precedentes na história dos documentários cinematográficos. Os americanos estão perplexos porque nada sabiam sobre os fatos relatados no filme, ocultados deliberadamente pela mídia desde o 9/11. "Era obrigação da imprensa fazer as perguntas. Ela deixou de cumprir sua missão. Eu faço as perguntas que deviam ter sido feitas. E dou minha opinião". 
 
Aquele humorista da Casa Branca
 
O cineasta observa ainda, ao explicar a trajetória extraordinariamente bem sucedida de "Fahrenheit 9/11", que boa parte do sucesso se deve ao humor, também presente em outras obras dele. Nesse sentido rende homenagens àquele que considera a estrela humorística do filme: o próprio Bush. "Devo a ele algumas das coisas mais engraçadas. As melhores frases são ditas por ele".
 
Moore declara-se tão grato a Bush que voltou a fazer sua proposta especial ao presidente para levar o filme ao seu rancho do Texas, junto com as pipocas, para uma exibição privada. E falou até com carinho de Bush, ao lado da foto dele de corpo inteiro, em tamanho natural. Foi na entrevista a Ron Reagan, filho do ícone republicano, para a rede MSNBC, concorrente da Fox e CNN. 
 
"Dizem que odeio Bush. Não é verdade. Sou contra o que ele está fazendo no país e no mundo. Pessoalmente, minha impressão é de que na verdade nem queria estar no cargo. Tenho pena". Ao lado, havia fotos iguais de Dick Cheney, John Ashcroft e Donald Rumsfeld. Sobre estes o entrevistador Reagan ouviu palavras mais amargas, às vezes impiedosas, do cineasta de "Fahrenheit 9/11".
 
 
*Colunista da "TRIBUNA DA IMPRENSA"
 
http://www.tribuna.inf.br/coluna.asp?coluna=argemiro

 

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