As elites se arregimentam

Artigo do jornalista Carlos Chagas, jornal Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 02/11/2006

BRASÍLIA - Se pedirem provas, elas não existem. Dirão que o trabalho foi normal, segunda, terça e ontem, nas diretorias dos principais bancos, nas grandes corretoras de títulos, nas multinacionais e nas associações patronais, daquelas ligadas aos sistemas financeiro, industrial e comercial. Acrescentarão que os telefonemas trocados entre eles nas últimas 48 horas e até as visitas feitas entre uns e outros, ao longo da Avenida Paulista, constituíram simples rotina de todo começo de semana.

Só que não foi. As elites estão assustadas. E se o reeleito presidente Lula resolver cumprir as promessas de campanha, mesmo com quatro anos de atraso? Porque nos palanques e nas telinhas, o candidato vitorioso desmentiu retoricamente a prática adotada desde sua posse, de beneficiar os poderosos. Desceu tacape e borduna no lombo das elites e prometeu, mesmo depois de proclamada sua vitória, governar para os pobres.

Vai chover feio

Se isso acontecer mesmo, o primeiro sinal virá na composição do novo ministério, prevista para dezembro. Até lá, imaginam as elites reorganizar-se, se necessário, para enfrentar o que chamam de nova onda de populismo. É claro que a maioria debita as declarações de Lula às necessidades eleitorais, continuando a confiar no presidente que só fez aumentar seus lucros e garantir seus privilégios. Mas, ao contrário de São Tomé, querem ver para descrer, ou seja, aguardar atos e fatos concretos que desmintam a pregação do presidente em sua campanha.

Como são mais desconfiadas do que qualquer outra categoria, as elites começam a preparar-se. Afinal, não gostaram nem um pouco da afirmação do ministro Tarso Genro, de que "terminou a era Palocci". Se terminou, que outro período se aproxima? De uma reforma fiscal capaz de fazer a classe média e os pobres pagarem menos impostos e os privilegiados, mais? Se o presidente Lula promete um segundo governo mais voltado para os necessitados, para quem a conta será enviada?

Da forma como sempre agem, e 1964 está aí para não deixar ninguém mentir, as elites preparam-se para impedir estragos em suas prerrogativas. Mas, se sentirem ameaças reais, é bom comprar guarda-chuvas, capas e galochas, porque vai chover feio...

Males que vêm para bem

A derrota de Roseana Sarney não demonstrou apenas que os institutos fracassaram, porque davam sua vitória como garantida, numa evidência a mais de que pesquisas não ganham eleição, apesar de tentarem, e, mais ainda, que muitas são fajutas. Sofreu a senadora, mais pelo sobrenome do que por suas qualidades de administradora, acima de qualquer suspeita. Tem gente apregoando que acabou a dinastia Sarney, no Maranhão, depois de quarenta anos. Vale deixar essa afirmação para o futuro. A ressaltar com o retorno de Roseana ao Senado por mais quatro anos está o fato de que o PFL passa a ser maioria, com 18 senadores. O PMDB tem 17. A prevalecerem esses números, o partido majoritário disporá da prerrogativa de indicar o próximo presidente.

Mil fatores ainda desconhecidos rondam as eleições para a sucessão de Renan Calheiros. Um deles é de que a maioria da casa, acima e além dos partidos, gostaria de sua continuação. O presidente Lula, também. Mas se o PFL insistir, a briga começa, ainda que nem todos os senadores liberais se inclinem pela derrubada de Renan. A começar por Roseana...

 

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