"Há
alguns dias tive uma visão que muito me consolou. Foi durante
minha ação de graças enquanto fazia algumas reflexões
sobre a bondade de Deus... e como não pensar nela nestes momentos,
nesta bondade infinita, bondade incriada, fonte de todas as bondades!
E sem a qual não haveria bondade alguma nem nos homens, nem
nas outras criaturas.
Estava extremamente comovida com estas reflexões, quando vi
escrito como em letras de ouro esta palavra Bondade, que repetia havia
muito tempo com indizível suavidade. Eu a vi, digo, escrita
sobre todas as criaturas animadas ou inanimadas, racionais ou não,
todas traziam este nome de bondade; vi-o mesmo sobre a cadeira que
me servia de genuflexório.
Compreendi então que tudo aquilo que estas criaturas têm
de bom e todos os serviços e auxílios que recebemos
de cada uma delas é um benefício que devemos à
bondade de nosso Deus, que lhes comunicou algo de sua bondade infinita,
a fim de que a encontremos em tudo e em toda parte."
Quanto
mais a alma se aproxima e Deus, mais fome ela tem de se aproximar
dEle.
Quanto mais ela O saboreia e mais gosto sente em saboreá-Lo,
mais vê sua miséria e sua imperfeição,
e mais aumenta seu desejo de identificação - se tal
fosse possível - com a Santidade infinita, fonte de toda santidade
e de toda perfeição.
Parece então, que a alma não toca a terra senão
para experimentar grande desgosto por tudo o que não é
Deus.
Parece, então, que é com toda a sinceridade que se elevam
a Deus estas palavras da Escritura: "Como a corça suspira
pelas águas da torrente, assim minha alma suspira por Vós,
ó meu Deus!"
Ela, porém, não O encontra tão perfeitamente
quanto deseja, pois a união e o gozo não podem ter lugar
aqui na terra.
Por isso deixei-me levar por esse atrativo do AMOR que é sempre,
em mim, dominante e frequente. Reconhecida por tudo o que o bom Deus
se dignava me dar, deixei-O agir com Sua graça, sabendo bem
que eu nada tinha e que tudo me vinha dEle.
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"O
sentimento de Deus não pode vir senão de Deus"
Estas palavras foram para mim um raio de luz e deixaram-me numa grande
paz e me fazem bem sempre que me lembro delas.
E quanto maior é o desgosto pelas coisas da terra, mais o gosto
de Deus se faz sentir à alma.
- Mas o que é o gosto de Deus?
- É aquilo que se pode experimentar quando Deus quer nos favorecer.
Isto não se explica
Pode-se dizer, no entanto, que é um doce sentimento da presença
de Deus e de seu amor, que faz a alma experimentar uma grande felicidade
e a recolhe toda nele, ao ponto de ter dificuldade em se distrair.
Malgrado meus pecados e minha profunda miséria - que Nosso
Senhor me faz sentir vivamente - experimento frequentemente, na oração,
essas consoladoras suavidades de Seu amor e esse sentimento de união
íntima, que me deixa num recolhimento tão profundo que
preciso me fazer violência para nada deixar transparecer...
fazer como os outros.
Qualquer outro prazer que não seja o de saborear Deus me é
insípido.
Um atrativo irresistível leva-me ao recolhimento, ao silêncio....
ao esquecimento de tudo que não é Deus.
Meu pensamento mais constante se volta para Ele, e o sentimento de
minha alma estando como que ligado, atraído por esse grande
Objeto, é-me difícil não estar ocupada e presa
a Ele...
Há dias em que Ele absorve de tal modo minhas faculdades, que
nenhuma outra coisa me faz impressão e me toca de qualquer
modo.
Parece-me que posso dizer com toda verdade:
Meu
Deus e meu Tudo!
porque
de fato não encontro alegria, nem paz, nem felicidade senão
nEle.
E como poderemos, de fato, encontrar qualquer contentamento fora
dEle e em tudo que não é Ele, pois que Ele é
o único Bem, o soberano Bem de nossas almas?
Por isso não se tem o desejo de procurar consolação
junto das criaturas, quando se experimentou as consolações
do Criador. Do contrário a terra se tornaria uma espécie
de paraíso antecipado.
Só sinto prazer naquilo que pode dar glória a Deus,
torná-Lo conhecido e amado.
Que Ele me dê um coração terno para com Ele
um coração grande e generoso,
um coração que não busque senão a Ele
não se apegue senão a Ele!
Compreende-se cada vez melhor que Deus é o centro de nosso
coração que só Ele pode enchê-lo e torná-lo
feliz.
Parece-me que ele se apoderou do meu coração de tal
modo, que me seria impossível amar senão a Ele, desejar
senão amá-Lo e Lhe ficar cada vez mais unida.
Peço sempre mais a Deus o hábito de sua divina Presença
e a união com Ele, pois ele me parece de tal modo o centro
de nossa alma, que ela não pode encontrar repouso senão
nEle.
Por isso tenho fome de pensar nEle,
de visitá-Lo,
de unir-me a Ele de todas as maneiras possíveis.
Este desejo me é habitual; o resto é pesado e causa-me
desgosto.
Não me prendo a nada, meu coração não
está apegado a coisa alguma que me cerca.
- Toda a eternidade me parecerá curta para agradecer uma
tão grande graça.
- Não invejo aos Santos sua glória, mas o privilégio
de estarem absorvidos em Deus.
Se se pudesse invejar alguma coisa à SS. Virgem, eu lhe invejaria
morrer de amor.
Possamos viver e morrer
no AMOR e por AMOR
daquele que viveu e morreu por nosso amor.
Meu Deus, fazei que eu vos ame como me amastes,
que eu vos ame como o mereceis,
que eu vos ame no tempo e na eternidade.
Senhor Jesus, eu me uno a vosso Sacrifício perpétuo,
incessante, universal.
Eu me ofereço a Vós por todos os dias de minha vida
e por todos os instantes do dia, conforme vossa santíssima
e adorável vontade.
Fostes a vítima de minha salvação, quero ser
a vítima de vosso amor.
Atendei meu desejo, aceitai minha oferta, ouvi minha oração.
Que eu viva de amor, que eu morra de amor, e que o último
pulsar de meu coração seja um ato do mais perfeito
amor.
ASSIM SEJA!
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