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FOLHA DE SÃO PAULO - ESPORTE
São Paulo, quinta-feira, 29 de março de 2001
CBF anuncia acordo com empresa, que estampará
marca de guaraná em espaços
hoje ocupados pela Coca-Cola, a AmBev vai pagar US$ 170 mi à seleção
JOSÉ ALBERTO BOMBIG
ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anunciou em Brasília um contrato
de
US$ 170 milhões da entidade com a empresa brasileira de bebidas AmBev,
que
patrocinará a seleção brasileira no lugar da Coca-Cola.
A AmBev quer utilizar a seleção brasileira principal para divulgar,
principalmente no exterior, o guaraná Antarctica.
O valor do acordo, que deve ser fechado no próximo mês, se equipara
ao do
contrato firmado entre a confederação e a Nike, em 1996, de US$
170 milhões,
alvo de uma CPI na Câmara dos Deputados.
A duração do contrato da CBF com a AmBev está prevista
para 17 anos. Para
cada um deles, a entidade deve receber, no mínimo, US$ 10 milhões.
"Não há o que discutir, é um excelente negócio
para a seleção brasileira",
disse Teixeira.
A AmBev vai estampar a logomarca do guaraná Antarctica, um de seus produtos,
nos uniformes de treino da seleção e em placas publicitárias,
espaços hoje
destinados à Coca-Cola, parceira da CBF há cerca de dez anos.
O contrato da CBF com a Coca-Cola, no valor de R$ 2,5 milhões por ano,
cerca
de R$ 20 milhões no total, só terminaria em 2002, mas a entidade
decidiu
rompê-lo por considerar a proposta da AmBev irrecusável.
A CBF não estava satisfeita com o valor pago pela maior empresa de
refrigerantes do mundo, a Coca Cola. A confederação queria ter
feito um
adendo no último contrato, assinado 1997, ano em que o real mantinha
uma
paridade em relação ao dólar.
Segundo a CBF, a desvalorização do real em relação
ao dólar favoreceu a
Coca-Cola e prejudicou demais seus negócios, pois boa parte das despesas
da
entidade é em moeda norte-americana.
A Coca-Cola, intimidada pelas duas CPIs do Congresso que devassam as contas
da entidade que comanda o futebol no país, demorou para aceitar o pedido
de
reajuste da CBF. Quando o fez, há duas semanas, foi tarde.
"Eu estou trocando uma empresa excelente por outra do mesmo nível
para
beneficiar a seleção brasileira", disse Teixeira, que recebeu
jornalistas
para um jantar anteontem à noite em Brasília.
A CBF poderá enfrentar uma disputa jurídica com a Coca-Cola por
conta do
rompimento. Teixeira já admitiu que uma multa será paga à
multinacional.
O contrato da Nike tem duração de dez anos. Por ele, a CBF recebeu
US$ 170
milhões, mas transferiu US$ 10 milhões à Umbro, antigo
patrocinador daseleção.
A parceria com a Coca-Cola foi uma das primeiras da gestão de Ricardo
Teixeira à frente da CBF, que começou em 1989.
O acordo está sendo investigado pela CPI da CBF/Nike, na Câmara
dos
Deputados. Até agora não foram encontradas irregularidades.
A Folha não conseguiu ouvir a Coca-Cola ontem.
Segundo Teixeira, a AmBev tem pressa para assinar o contrato, que terá
vigência durante pelo menos quatro Copas do Mundo.
Cervejas ficam fora a pedido da confederaçãoDO ENVIADO A BRASÍLIA
Pelo menos por enquanto, as marcas de cerveja da AmBev vão ficar fora
dos
uniformes de treino da seleções.
A AmBev surgiu em 1999 da fusão entre as empresas Brahma e Antarctica.
Ela
tem 73,4% de participação no mercado das marcas de cerveja no
Brasil.
De acordo com Ricardo Teixeira, presidente da CBF, o pedido para que as
marcas de cerveja da AmBev ficassem fora do acordo partiu da confederação,
que não gostaria de ver a imagem do futebol brasileiro associada ao consumo
de álcool."Mas tudo ainda está sendo discutido, devemos concretizar
todos os
pontos embreve", disse Teixeira.
Conforme as regras da Fifa, a entidade máxima do futebol, as seleções
mundiais não podem ostentar a marca de patrocinadores em seus uniformes
durante os jogos, sejam eles oficiais ou não.
Por isso, o patrocínio da AmBev, assim como já acontece com a
Cola-Cola, se
restringirá aos uniformes de treino e às placas publicitárias,
o que, por si
só, já é suficiente para garantir um bom tempo de exposição
na mídiamundial.
Pelas regras da Fifa, apenas a logomarca do fornecedor de materiais
esportivos, no caso do Brasil a Nike, pode aparecer nas camisas durante os
jogos. (JAB)Valor pode subir com royalties
DO ENVIADO A BRASÍLIA
A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) afirma que pretende
receber algum
tipo de royalties com a venda do guaraná Antarctica após a celebração
do
contrato com a AmBev.
Com isso, a remuneração da entidade pode chegar a US$ 15 milhões
por ano,
superando até mesmo o contrato da CBF com a Nike, multinacional de materiais
esportivos parceira da seleção.
Ricardo Teixeira evitou dar mais detalhes sobre o acordo, alegando que as
duas partes, apesar de já terem definido os principais pontos, ainda
estão
em negociação. "Tudo está em andamento."
Teixeira está em Brasília por conta das duas CPIs do Congresso
que
investigam o futebol.
A CPI da CBF/Nike, instalada em outubro do ano passado, tem como objetivo
principal investigar o contrato da entidade com a multinacional.
A suspeita da comissão é de que o acordo pode ser lesivo para
o interesse
nacional no desempenho da seleção. No próximo dia 10, Ricardo
Teixeira será
sabatinado pelos deputados da comissão.