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O belga Jacques Rogge precisa administrar conflitos, ameaças e protestos
que estouraram em Salt Lake City
Está nas mãos de um cirurgião o destino dos anéis
olímpicos. Caberá ao presidente do Comitê Olímpico
Internacional (COI), o belga Jacques Rogge, administrar conflitos que vieram
à tona durante os Jogos de Inverno de Salt Lake City, cujo encerramento
será neste domingo.
A crise política do movimento olímpico está sendo considerada a pior desde o fim da Guerra Fria e ameaça ter conseqüências sobre a Olimpíada de Verão, em Atenas/2004, pois a Rússia não descartou até um boicote aos Jogos na Grécia.
Tudo começou na semana passada, quando o COI decidiu conceder duas medalhas de ouro nas duplas da patinação artística, depois que a juíza francesa Marie-Reine Le Gougne admitiu ter sido pressionada a votar nos russos Elena Berezhnaya e Anton Sikharulidze em detrimento dos canadenses Jamie Sale e David Pelletier, que haviam terminado com a prata. No fim, as duas duplas penduraram o ouro no pescoço.
Na quinta-feira, a patinadora russa Larissa Lazutina foi impedida de tentar obter sua 10ª medalha porque um exame de sangue apontou a presença de um elevado nível de hemoglobina, que poderia se configurar em doping porque ajuda a melhorar o rendimento.
No mesmo dia, a gota dágua: a russa Irina Slutskaya acabou com a prata na patinação artística, enquanto a americana Sarah Hughes terminou campeã. Os russos questionam a vitória de Sarah e querem que Irina também ganhe o ouro. O presidente do Comitê Olímpico Russo, Leonid Tygachev, ameaçou:
Se a Rússia não é necessária para o esporte, estamos prontos para deixar a Vila Oímpica.
Rogge enviou uma mensagem ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, dizendo que compreende a preocupação russa, mas que, após consultar as federações de cada esporte envolvido na polêmica, está convencido de que os julgamentos foram absolutamente corretos.
Espero que a compreensão da real natureza da competição prevaleça disse Rogge, 59 anos, que antes de administrar o COI atuava como cirurgião ortopédico.
Do Kremlin, Putin respondeu que deseja ver como os Jogos vão terminar e testemunhar a ação do COI na tentativa de resolver os problemas.
As dores de cabeça de Rogge não se restringem à Rússia. A Coréia do Sul ameaçou, na sexta-feira, boicotar a cerimônia de encerramento, neste domingo. Os sul-coreanos estão revoltados com a desclassificação de Kim Dong-Sung, que, na quarta-feira, venceu os 1.500m na patinação de velocidade, mas foi desclassificado porque teria atrapalhado Apolo Anton Ohno (EUA), que ficou com o ouro. Os sul-coreanos enviaram ao Comitê Olímpico Americano e ao COI 16 mil mensagens de protesto pela Internet. Os dois sites entraram em colapso.
Hábil negociador, Rogge demonstrou que persegue transparência e agilidade no episódio das duplas na patinação artística. Seu predecessor, o espanhol Juan Antonio Samaranch, era adepto das conversas nos bastidores. Talvez os incidentes em Salt Lake tenham se tornado públicos exatamente pela transparência pregada por Rogge.
O belga está com a responsabilidade de fazer terminar bem os Jogos que começaram mal. Em 1998, estouraram denúncias de que houve compra de votos dos delegados do COI a fim de que Salt Lake vencesse a eleição para sede olímpica.
Antes da Olimpíada de Verão de Barcelona/1992, o jornalista inglês Andrew Jennings publicou o livro O Senhor dos Anéis, no qual relatou a simpatia de Samaranch pelo franquismo e suas relações suspeitas com investidores do movimento olímpico. Agora, por um outro ângulo, Rogge terá que assumir a condição de ser o Senhor dos Anéis a fim de mantê-los unidos.