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Materia da America Economia - Jan/2002 - Flávio Costa
Negócios relacionados ao Mundial de futebol movimentam bilhões,
mudam o
estado de ânimo dos países envolvidos e aparecem no horizonte como
ponta-pé
inicial da recuperação.
Repare nestas jogadas. A venda de televisores no Brasil, um mercado de US$ 1
bilhão anuais, crescerá 5% neste ano, por conta da Copa do Mundo
de futebol.
Na Argentina, país onde as vendas de roupas encolheram 30% nos últimos
dois
anos e o caos econômico está nas ruas, a Adidas espera aumentar
em 25% seu
faturamento - que anda en torno de US$ 100 milhões por ano -, com vendas
de
camisetas oficiais da seleção.
O equatoriano Agustín Delgado, goleador das eliminatórias, foi
vendido por
US$ 10 milhões ao Southampton, da Inglaterra. É o maior valor
histórico pago
por um jogador equatoriano. Equivale a 4,5% das exportações mensais
de
petróleo do país.
Dias depois da classificação da seleção do Uruguai
para a Copa, em novembro,
a Câmara de Deputados do país aprovou lei que aumenta de 5% para
10% o
imposto sobre venda de jogadores para o exterior.
Ficou claro? A cada quatro anos, os negócios relacionados com o Mundial
movimentam bilhões de dólares na economia da América Latina.
A participação
das seleções nos jogos ajudam a vender de bandeirinhas na esquina
a
televisores, automóveis e, claro, jogadores.
Neste ano, porém, o Mundial é mais. Pelos dólares que faz
girar, aparece no
horizonte próximo como único evento capaz de aplicar oxigênio
em economias
arrasadas pela recessão. Talvez ainda mais importante seja o efeito
psicológico. Pelas paixões que desperta, um bom desempenho nos
campos do
Japão e da Coréia, de 31 de maio a 30 de junho, pode mudar o estado
de ânimo
dos cidadãos de Brasil, Argentina, México, Uruguai, Equador, Paraguai
e
Costa Rica, os sete classificados da região. "Futebol e estado de
ânimo da
população têm uma relação muito mais forte
do que imagina nossa vã
sociologia", diz o antropólogo Roberto da Matta, professor da Universidade
de Notre Dame, nos Estados Unidos, e autor de livros como "A Pátria
de
Chuteiras".Em 1994, quando a seleção brasileira conquistou
pela quarta vez o
campeonato
mundial de futebol, era comum ouvir dizer que a boa fase da economia do
Brasil estava amparada em três "R". Real, Ricúpero e
Romário. A moeda
brasileira valia mais que o dólar, o ministro Rubens Ricúpero,
da Fazenda,
comandava uma economia em crescimento, e Romário, com os gols que fazia
nos
gramados dos Estados Unidos, mantinha em alta a auto-estima nacional. O
autor da expressão é o economista Marcílio Marques Moreira,
ex-ministro da
Fazenda, hoje presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro
e
consultor sênior da Merril Lynch.
Para Marcílio, os três R podem estar de volta. O real se fortaleceu
diante
do dólar e Ronaldinho voltou a fazer gols. "Só falta o R
da recuperação." Se
a seleção fizer bonito na Copa, a retomada no segundo semestre,
na esteira
dos Estados Unidos, ficará mais fácil. "O desempenho da seleção
toca na
psiquê do País", diz Marcílio.
Na psiquê e nas caixas registradoras. O mercado publicitário brasileiro,
por
exemplo, que movimenta cerca de US$ 10 bilhões de dólares por
ano, espera
repetir em 2002 o crescimento de 15% registrado em 1998, por conta das
promoções e campanhas relacionadas ao Mundial. Ou seja, mais US$
1,5 bilhão.
"Setores como companhias aéreas, telecomunicações
e indústria
automobilística estão reduzindo o investimento publicitário,
mas a Copa deve
estancar essa queda", afirma Ivan Marques, sócio da F/Nazca, uma
das maiores
agências de publicidade do País.
Entre os clientes de Marques estão Brahma e Skol, marcas da Ambev, líder
no
mercado de cervejas no Brasil. A Ambev tem um contrato de patrocínio
de US$
180 milhões com a seleção brasileira, por dez anos - para
ter a marca de seu
guaraná Antarctica estampada na camiseta -, e está pronta para
pôr a mão no
bolso durante a Copa. É uma das empresas que negocia com a Rede Globo
a
compra de uma das cotas de patrocínio para as transmissões dos
jogos do
Mundial. A Globo pagou cerca de US$ 120 milhões pelos direitos está
vendendo
as cotas por US$ 14 milhões. As empresas querem espaço na TV para
aproveitar o embalo da Copa, evento tão importante para os brasileiros
como
o Carnaval.
A Volkswagen prepara o lançamento de uma série especial do Gol,
da qual
espera vender pelo menos seis mil carros. A Nike, fornecedora do uniforme da
seleção brasileira, já começou a filmar seus comerciais
para o Mundial.
Entre os protagonistas estão craques como Ronaldinho, do Brasil, e Cláudio
Lopez, da Argentina, que venderão dois novos modelos de chuteiras. Enquanto
isso, a Adidas, fornecedora da camiseta da Argentina, separou US$ 40 milhões
para gastar neste ano em promoções relativas à Copa. A
empresa espera
aumentar de 50 mil para 70 mil o número de camisetas oficiais da seleção
argentina vendidas por mês. "A camiseta é um objeto de desejo",
diz Manuel
Ovalle, gerente da Adidas para a América Latina. Neste momento, os
argentinos vêem no futebol um dos poucos motivos de alegria. À
beira do caos
econômico e político, a disputa generalizada parece ser a procura
de uma
mudança de atitude. O clique pode chegar pelos pés de Juan Sebastian
Verón e
Gabriel Batistuta, duas das esperanças do time argentino. "A postura
natural
do argentino é sentir-se um pouco Maradona, campeão do mundo e
de tudo", diz
Alberto Willensky, presidente da consultoria Grupo Estratégio de Negócios,
especializada em marketing. "Se a situação econômica
começar a se recuperar,
mesmo que seja levemente, o Mundial pode fazer o resto." Essa é
aposta de
muitos. A rede de supermercados Carrefour faz parte do grupo de empresas que
paga US$ 2 milhões mensais à Associação de Futebol
argentino, para ter o
direito de usar a imagem da seleção em seus produtos. Nas próximas
semanas,
por exemplo, começam a chegar às prateleiras das lojas Carrefour
em cidades
como Buenos Aires e Córdoba erva-mate, doce de leite e material escolar
com
fotos de jogadores. "Sabemos que, toda vez que a seleção
vence, esses
produtos vendem mais", diz diego Chorny, diretor de marketing da Carrefour
Argentina.Tudo vende mais. A rede de lojas de eletrodomésticos Fravega,
uma das
maiores da Argentina, pensa repetir neste ano uma promoção que
fez sucesso
em 1998. Nas vendas a prazo de televisores, as prestações seriam
suspensas
caso a Argentina vencesse o Mundial. A torcida adorou. Televisão, aliás,
é
um dos produtos que mais vende. Só no Brasil, a Eletros, associação
dos
fabricantes do setor, estima que a venda de televisores deve crescer 5%
neste ano. Não é pouco. São cerca de 250 mil televisores
a mais na salas dos
brasileiros e um acréscimo de US$ 100 milhões no faturamento das
empresas.
Se o entusiasmo é grande na Argentina e no Brasil, países com
tradição em
Copas do Mundo, entre os novatos e menos freqüentes a festa é ainda
maior.
No Equador, que se classificou pela primeira vez, é comum ouvir nas ruas
de
Quito gritos de "Bolillo presidente". Bolillo (bastão) é
o apelido de Hernán
Darío Gómez, o técnico do milagre. A classificação
fez a alegria da
torcida. E das empresas. A Marathon, maior rede varejista de artigos
esportivos no país, vai aumentar de 22 para 28 o número de lojas
neste ano e
contratar cerca de 100 novos funcionários. Tudo para satisfazer a febre
de
consumo dos equatorianos. "A cada jogo da seleção, triplicamos
a venda de
camisetas", diz Rodrigo Ribadaneira, presidente da empresa. As agências
de
viagens já começaram a receber pedidos de pacotes que incluem
cidades com
nomes tão estranhos como Shizuoka, no Japão, e Gwangju, na Coréia,
duas das
sedes do Mundial. Estimativas das três maiores agências de viagens
do
Equador - Coltur, Marín e Andevisa - calculam em cerca de 3 mil o número
de
pessoas que viajarão ao Mundial. Pagarão pelo menos US$ 4 mil
por passagens
e acomodações. No Brasil, a Abav, que reúne as empresas
do setor, espera
aproximar-se do desempenho de 1998, quando 25 mil brasileiros viajaram à
França. Com desembolsos semelhantes, cerca de 50 mil latino-americanos
devem
ir ao Mundial neste ano. REVERTER O PLACAR.
Quem ficar em casa, é claro, não deixará de ver os jogos.
No México, a
DirecTV comprou os direitos de transmissão por uma fortuna não
revelada.
Agora, a empresa quer dividir esses direitos com as TVs abertas, Televisa e
Azteca. Cobrou caro, mas dificilmente a oferta será recusada. Afinal,
as
duas maiores TVs abertas mexicanas devem aumentar o faturamento em cerca de
US$ 100 milhões no período da Copa. Na Costa Rica, a Repretel,
dona dos
canais 4, 6 e 11, comprou os direitos de transmissão, mas evita falar
em
números. O mercado estima que pagou mais que o US$ 1,3 milhão
desembolsado
em 1998. Para o país, de apenas 4 milhões de habitantes, é
uma enormidade.
No Paraguai, o país mais pobre entre os sete classificados, a economia
também espera se movimentar ao ritmo das defesas mirabolantes do goleiro
Chilavert. Com uma economia estagnada, o país espera que a Copa traga
de
volta o otimismo. "O bom desempenho no futebol compensa o declive
econômico", diz o sociólogo Carlos Martini, professor da Universidade
Católica, em Assunção "Só a seleção
tem a capacidade de unir e alterar o
ânimo das pessoas."
De fato, o futebol ajuda a reverter tendências. No Equador, segundo pesquisa
da consultoria Cedatos-Gallup, o número de pessoas que acreditam em um
futuro melhor aumentou de 7%, em dezembro de 2000, para 40% em novembro do
ano passado, quando a seleção garantiu sua ida ao Mundial.
Para o antropólogo Roberto da Matta, o futebol é uma das poucas
situações em
que os latino-americanos exibem sua excelência - muitas vezes, superioridade
- diante do mundo desenvolvido. "Isso é ainda mais relevante porque
os
latinos se apropriaram de um esporte inventado pelos europeus", diz ele.
No caso da América Latina, o sucesso no futebol pode ser entendido como
um
dos primeiros sinais de que um país pode dar certo, um dos primeiros
motivos
de orgulho nacional. "Aconteceu com o Brasil, em 1958, e agora pode estar
acontecendo o mesmo com o Equador." Da Matta está convencido de
que a Copa
será o ponto de partida da recuperação regional em 2002.
"Será o ponta-pé
inicial", diz ele. Ou, para cair de vez no jargão do esporte, um
golaço para
animar a torcida e reverter o placar.
-Com Carlos Vasconcellos e Soraia Duarte, em São Paulo; Gustavo Stok
e Diego
Fonseca, em Buenos Aires; Neide Magalhães, na Cidade do México;
Gisela
Raymond, em Guayaquil, e José María Duarte, em AssunçãoVantagem
no placar
A copa do mUndo movimenta a economia latino-americana2 milhões de dólares
já investiu a cervejaria Pilsener, a maior do Equador, em campanhas
relacionadas ao mundial. Vai investir mais US$ 600 mil no período de
jogos
4,5 milhões é o número de sanduíches relacionados
ao mundial que o Mcdonald`s
esperavender em maio e junho, no brasil. foi o total de vendas do mcnific,
lançadodurante a copa da frança4,5 mil
vendedores ambulantes oferecerão produtos relacionados ao mundial nas
ruas
de São Paulo, segundo o sindicato da categoria15 mil
camisetas da seleção foram vendidas pela rede de supermercados
devoto, do
uruguai. a devoto oferecia desconto no preço da camiseta a quem comprava
outros produtos em suas lojas40 milhões de dólares
serão investidos pela Coca-Cola em marketing relacionado ao mundial,
no
brasil. a venda de bebidas aumenta 50%, no período da copa
100 milhões de dólares
é o que espera crescer o mercado publicitário mexicano neste ano,
por conta
do mundial problemas fora do campo