Envelhecimento, estresse e sociedade: uma visão psiconeuroendocrinológicaAging, stress, and society: a psychoneuroendocrinological view Aline Pereira (a), Carla Freitas" (a), Cristiane Mendonça (a), Fernanda Marçal (a), Jennefer Souza (a), João Paulo Noronha (a), Larissa Lessa (a), Lívia Melo (a), Raquel Gonçalves (a) e Alfred Sholl-Franco" (b, c). (a) Instituto de Psicologia, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; (b) Programa de Neurobiologia, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; (c) Núcleo de Neurociências e Ciências da Saúde, ICC, Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil
Palavras-chave: estresse, envelhecimento, saúde, idosos, sociedade.
Abstract
Key Words: stress, aging, health, elderly, society. 1. Introdução O termo stress , cunhado originalmente do inglês (em português, estresse), deriva do latim stringere e significa apertar, cerrar, comprimir (Houaiss et al, 2001), embora o seu conceito tenha sido primeiramente descrito por Hans Seyle, em 1956, que o definiu como sendo, essencialmente, o grau de desgaste total causado pela vida. Contudo, no século XVII, o termo foi utilizado por Robert Hooke, no campo da Física, para designar uma pesada carga que afeta uma determinada estrutura física. Todavia, se alguém for perguntado na rua sobre “o que é o estresse?”, certamente o definiria como algo semelhante a um desequilíbrio nervoso ou emocional causado por grandes e/ou até mesmo freqüentes pressões e dificuldades do cotidiano, atribuindo-lhe, também, o caráter de vilão: “O estresse faz mal à saúde…”, “O estresse desencadeia uma porção de doenças…” etc. Na realidade, o que a maioria não sabe é que o estresse funciona como “motivador”, “combustível” de um indivíduo em busca de suas realizações, quer no sentimental, quer no profissional, ou em qualquer outro campo (o que já fora dito no começo, na parte de definição de estresse, pelo médico Hans Seyle, embora que em outras palavras). Outro fato interessante é que não só o excesso de estresse é prejudicial a um indivíduo, proporcionando-lhe a manifestação de doenças, como também a sua falta, que vai levar à formação de um ser acomodado e despreparado para os desafios diários, geralmente, pessoas de baixa auto-estima, porém, sem causar danos mais graves à saúde, como no caso do excesso. A presente revisão visa aprofundar o debate sobre as dificuldades diárias ou cotidianas envolvidas com o estresse em idosos. Sendo a terceira idade um período de grandes conflitos e mudanças tanto no aspecto fisiológico quanto no social, resolvemos abordar, em especial, a ocorrência do estresse associado às questões do envelhecimento. Na sociedade de consumo em que vivemos, onde o valor social prioritário é o poder econômico, o idoso é discriminado e excluído por não ser mais “produtivo”, nem se integrar aos padrões de beleza e juventude culturalmente valorizados, onde segundo Birman (1994): “(...) sobre a velhice foram investidos valores negativos, considerando-se apenas como critério social o seu potencial funcional de produção e reprodução da riqueza”. O declínio biológico normal no processo de envelhecimento e o aparecimento progressivo de doenças e dificuldades funcionais com o avançar da idade sustentam, de modo geral, uma concepção de velhice como período de decadência e improdutividade. Assim, como as alterações na saúde contribuem de modo considerável para o estreitamento da inserção social dos idosos, as perdas sensoriais (déficits visuais e auditivos), os problemas ósteo-articulares, os déficits cognitivos, dentre outros, são fatores que interferem na autonomia e independência dos que envelhecem, prejudicando a sua sociabilidade e bem estar e também sendo fatores determinantes da incidência do estresse na terceira idade. 2. Aspectos Gerais do Estresse A resposta ao estresse se inicia no momento em que o cérebro é capaz de perceber um agente estressor, isto é, um estímulo e/ou situação, positivo/negativo, que produz uma reação fisiológica. Hans Selye (1956) observou que organismos diferentes apresentam um mesmo padrão de resposta fisiológica para uma série de experiências sensoriais ou psicológicas que têm efeitos nocivos em órgãos, tecidos, ou processos metabólicos, ou são percebidas pela mente como perigosas ou nocivas. Tais experiências são descritas como estressoras. Em adição, outro estudo sugere que mesmo sendo o estressor um acontecimento excitante, triste ou assustador, a resposta ao estresse será a mesma (Sapolsky, 1994). Neste estudo, utiliza-se a imagem vívida de um leão faminto perseguindo uma zebra para ilustrar esse aspecto. A perseguição para os dois animais provoca reações emocionais muito diferentes, mas as respostas fisiológicas ao estresse são as mesmas. Ambos estão em um estado de alta estimulação neuro-endócrina e estão gastando o máximo de energia. O mecanismo geral de resposta ao estresse consiste em duas seqüências bioquímicas separadas: uma rápida mediada pelos hormônios noradrenalina e adrenalina, e outra lenta mediada pelo hormônio cortisol. A adrenalina atua no metabolismo da glicose, disponibilizando os estoques de nutrientes dos músculos a fim de fornecer a energia necessária ao organismo quando este se encontra diante de uma situação estressora. Juntamente com a noradrenalina, a adrenalina também causa um aumento no débito cardíaco assim como da pressão arterial. Sendo esta uma das razões pela qual o estresse é incluído como fator de risco à saúde, uma vez que, a longo prazo, esse aumento da pressão arterial contribui para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Já o cortisol, hormônio secretado pelo córtex da adrenal, exerce efeitos sobre o metabolismo da glicose quebrando as proteínas e convertendo-as em glicose, contribui para transformar a gordura em energia e para o aumento do fluxo sanguíneo. Além disso, o cortisol também paralisa as funções reprodutivas e inibe o sistema imune (Carlson, 2002). Seyle, em seu trabalho The Stress of Life , de 1956, foi o primeiro pesquisador que, por meio de experimentos com animais de laboratório, desenvolveu o conceito de Síndrome de Adaptação Geral (SAG) e deu origem à idéia de que situações que geram estresse podem provocar doenças diversas, inclusive mentais. Na literatura epidemiol&oac |