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CARACTERÍSTICAS
DA AUTORA
Texto de Samira Campedelli & Benjamin Abdala
Jr.
Clarice Lispector
nunca soube explicar seu processo de criação.
É um mistério.
Quando penso numa história, eu só tenho uma vaga
visão do conjunto, mas isso é uma coisa de momento,
que depois se perde. Se houvesse premeditação, eu
me desinteressaria pelo trabalho.
De fato, as histórias
de Clarice raramente têm um enredo, um começo, meio
e fim, segundo os cânones narrativos tradicionais. Muitas
vezes ela chamou atenção para isto, afirmando que,
na verdade, não era uma escritora, mas sim uma sentidora,
uma intuitiva: registrava o que sentia através da palavra
escrita: um veículo, como outro qualquer. Daí a idéia
de que seus livros, mais do que histórias, contêm "impressões":
"Isso mesmo frisava, os meus livros não se preocupam
com os fatos em si, porque para mim o importante é a repercussão
dos fatos no indivíduo". Muitas de suas obras apresentam,
por isso mesmo, subtítulos explicativos, como, por exemplo
Pulsações de Um sopro de vida, como
se estivessem indicando: não é um conto ou não
é um romance. Deste modo, o estudo da produção
literária de Clarice Lispector indica-nos um projeto crítico
em relação aos padrões institucionalizados
da escrita literária e da própria vida cotidiana em
geral.
Suas personagens,
representativas da situação alienada dos indivíduos
das grandes cidades, geralmente são tensas e inadaptadas
a um mundo repetitivo e inautêntico, que as despersonaliza.
E os narradores que aparecem em sua obra estão, por outro
lado, sempre contestando a linguagem literária padronizada.
É assim que acontece com o "Autor" de Um sopro
de vida (ele, um personagem não nomeado):
Eu queria escrever
um livro. Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados.
Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. Eu queria
que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado
e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo.
Assim: poluição.
Escrevo ou não escrevo? (...)
Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou,
sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não
está à tona, está oculto em suas raízes
submersas em profundidades de mar (...)
Escrever existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo
de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo
como escrevo sem saber como e por quê - é por fatalidade
de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação.
É assim:?
Personagens e narradores
desenvolvem, assim, um mesmo tipo de prática: aventuram-se
através da imaginação, buscando romper com
a barreira da palavra, com o rotineiro mundo lógico, voltado
unilateralmente para os fatos observáveis. É necessário
recuperar o "selvagem coração da vida",
perdido quando o homem historicamente perdeu sua liberdade instintiva
- um mundo pré-lógico e pleno de vitalidade.
Em busca desse "selvagem
coração" e do enigma da vida, Clarice Lispector
segue coordenadas estilísticas já observáveis
em Marcel Proust, James Joyce e Virgínia Woolf. Afasta-se
das técnicas tradicionais do romance, caracterizado como
um espelho de época, refletindo circunstâncias econômicas
ou sociais. Sua literatura é um ambíguo espelho da
mente, registrado através do fluxo da consciência,
que indefine as fronteiras entre a voz do narrador e a das personagens.
Rompe-se assim, a
narrativa referencial, ligada a fatos e acontecimentos. Em lugar
dela, emerge uma narrativa interiorizada, centrada num momento de
vivência interior da personagem (ou do narrador). É
possível, até mesmo, que um acontecimento exterior
provoque o desencadeador fluxo da consciência: um acontecimento
pode liberar idéias que vão até o inconsciente
da personagem. O fluxo é, portanto, um sistema para apresentação
de aspectos psicológicos da personagem na ficção.
Por isso, os romances
ou os contos de Clarice a que se atribui um alto grau o uso da "técnica"
do fluxo da consciência são, quando analisados, obras
cujo assunto principal é a consciência de um ou mais
personagens. É, por exemplo, o caso do extraordinário
A paixão segundo G.H.. A personagem é "flagrada"
num estado psicológico de desorganização e
o romance "começa" (por assim dizer) numa época
qualquer, num lugar qualquer. Melhor dizer: o romance não
"começa" ele "continua", lendo-se a primeira
página cuja pontuação é a seguinte:
_ _ _ _ _ _ estou
procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando
dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não
quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que
vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.
Não confio no que aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa
que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi outra?
A isso queria chamar desorganização, e teria a segurança
de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para
a organização interior. A isso prefiro chamar desorganização
pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação
de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não
tenho capacidade para outro.
Uma literatura alienada?
Não, não se trata disso. As produções
de Clarice Lispector não deixam de se referir à realidade
concreta. É admirável sua consciência técnica,
adequando forma e conteúdo. Por exemplo, dissocia as unidades
narrativas para mostrar a falta de ligações mais profundas
na sociedade. Organizada a narrativa em ritmo lento, para contrastar
com o movimento da vida nas grandes cidades. Filtra todos os fatos
através de uma consciência que se isola do conjunto
- eis aí a solidão do homem moderno.
Longe de fazer uma
literatura alienada, Clarice levanta justamente o cotidiano alienado.
É a repercussão dele nas pessoas que a preocupa. Sob
esse ponto de vista, seus livros são altamente comprometidos
com o homem e com a realidade dele. Porque realidade não
é um fenômeno puramente externo! E essa preocupação
com a realidade interna se intensifica à medida que os problemas
levantados tornam-se uma questão social, particularmente
na década de 70. As soluções sensuais e místicas
encontradas pelas personagens de Clarice representam o nível
de concretização "possível" diante
da agressividade social, que impede um maior nível de participação.
Clarice respeita
o seu leitor: por isso ela cria, na "viagem" de suas personagens,
um novo espaço de liberdade, dentro do jogo ficcional. É
um jogo onde todos - narrador, personagens e leitor - devem participar
de forma ativa.
O mundo pré-vegetal,
anterior aos símbolos e à cultura: eis a busca de
Clarice. Quando houvesse o rompimento do indivíduo com os
laços sociais, com as convenções de qualquer
espécie, estaria criando o especo de liberdade. A abertura
da consciência para "momentos luminosos", aos quais
se chega pela adivinhação ou intuição.
Nesse sentido, Affonso Romano de Sant'Ana (Análise estrutural
do romance brasileiro, 1973) interpretou a literatura de Clarice
como momentos de "epifania". Esse termo, no sentido religioso,
indica a presença de alguma entidade sagrada, que transmite
uma mensagem ou indica um caminho. No sentido literário,
a "epifania" é um momento privilegiado de revelação,
quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a
vida da personagem. Assim, segundo R. Sant'Ana, os romances ou contos
de Clarice percorrem, via de regra, quatro passos:
1. A personagem
é disposta numa determinada situação cotidiana;
2. Prepara-se para um evento que é pressentido discretamente;
3. Ocorre o evento, que lhe "ilumina" a vida;
4. Ocorre o desfecho, onde se considera a situação
da vida da personagem, após o evento.
Nesse caso, é
o conhecimento repentino da verdade o fator mais importante a ser
considerado. É o que acontece com G.H., narradora e personagem
do romance A paixão segundo G.H.: ela está
em seu apartamento tomando café, como todos os dias. Dirige-se
ao quarto da emprega, que acaba de deixar o emprego. Lá vê
subitamente uma barata, saindo de um armário. Este evento
provoca-lhe uma náusea impressionante, mas ao mesmo tempo,
é o motivador de uma longa e difícil avaliação
de sua própria existência, sempre resguardada, sempre
muito acomodada. A visão da barata é o seu momento
de "iluminação", após o qual já
não é a mesma, já não é a criatura
alienada que tomava café distraidamente em seu apartamento.
As personagens de
Clarice Lispector são construídas através de
traços que caracterizam atitudes filosófico-existenciais.
Têm consciência em termos desses valores e, por isso,
são muito semelhantes algumas personagens que criou e situações
típicas que têm que enfrentar em cada narrativa. Assim,
Ana (do conto Amor) é muito parecida com G.H. (A
paixão segundo G.H.) ou com Catarina (do conto Os
laços de família). Elas vivem situações
de conflito em maior ou menor grau, sempre em busca do momento de
revelação, a indicar a verdade de cada uma. São
freqüentes ainda os bichos (cavalo, galinha, barata, aranha,
búfalo, gato, etc): neles temos o "coração
selvagem" onde coexistem um "bem" que é a
liberdade natural em interação dialética com
o "mal", o instinto anti-social.
O espaço libertário
que a ficção de Clarice Lispector procura construir
pressupõe a aventura que em termos de conhecimento ocorre
na contínua (des)aprendizagem. E esta só será
possível desestereotipando o conhecimento, de forma sistemática,
no corpo-a-corpo com a vida. E o principal agente desse processo
deve ser o próprio indivíduo.
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