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ESTILO DE ÉPOCA
Texto do Prof. Teotônio Marques
Filho (com a colaboração da Profª. Deisa Chamahum
Chaves)
Como é próprio
dos autores (pós-)modernistas, a maneira de fazer literatura
de Clarice Lispector marca-se pela originalidade e pelo modo anticonvencional
com que organiza o texto. O autor (pós-)modernista, e especialmente
Clarice, sempre foge das convenções estabelecidas
e da linguagem estereotipada, o que, aliás, já vai
expressando o conteúdo temático de sua obra: tirar
a máscara das formalidades e revelar a verdade subjacente
em cada uni.
Coerente com essa
postura do autor (pós-)modernista, é freqüente
nas obras desse estilo de época o emprego da técnica
surrealista, em que a narrativa vai brotando à mercê
do fluxo da consciência do condutor da história.
Essa visão
surrealista que perpassa alguns dos contos pode ser notada sobretudo
em Amor (a imagem do cego a perseguir a personagem, a necessidade
que Ana tem de amar o cego representa bem sua ânsia de se
entregar ao seu mundo obscuro e desconhecido) e em Mistério
em São Cristóvão (a coincidência
fatalista que envolve aquelas "quatro máscaras"
numa noite de magia).
Nessa linha de raciocínio,
as obras (pós-)modernistas, concebidas e elaboradas à
maneira surrealista, sempre provocam discussões e polêmicas
por porte do leitor. É a concepção da obra
aberta, sujeita a interpretações várias, em
que o autor não entrega o produto mastigadinho - pronto para
ser consumido.
Como ressaltam Youssef-Abdalla
a propósito da obra da autora, em Literatura comentada,
"Clarice respeita o seu leitor, por isso ela cria, na viagem
de suas personagens, um novo espaço de liberdade, dentro
do jogo ficcional. É um jogo onde todos - narrador, personagens
e leitor - devem participar de forma ativa". Laços
de família sem dúvida, enquadra-se perfeitamente
nessa concepção de obra aberta.
A realidade brasileira,
em que sempre se embasa a literatura modernista, pode ser detectada
em Laços de família em que traços da
nossa cultura podem ser vislumbrados.
Essa aparência
brasileira, entretanto, é altamente enganosa no livro como,
aliás, em todos os grandes autores (pós-)modernistas.
O homem aqui é visto como ser humano na sua dimensão
universal: é o homem moderno, de qualquer espaço,
alienado e esmagado pela rotina, descaracterizado e perdido no anonimato
dos grandes centros urbanos.
Embora correta, apesar
das inovações, a linguagem de Clarice Lispector, como
é comum no (pós-)Modernismo, apresenta traços
da linguagem coloquial em que as normas morfo-sintáticas
não são observadas. Isso, evidentemente, faz sentido,
pois o que a autora pretende é adequar a linguagem à
personagem, fazendo o registro do seu modo próprio de falar.
ESTILO & LINGUAGEM
A maneira de escrever
de Clarice Lispector é bastante coerente com o seu modo de
ser e com o estilo de época em que se enquadra. Como já
observamos, a forma de expressão utilizada por ela - original
e desestereotipada - revela bem o conteúdo temático
apresentado.
Clarice não
se preocupa em contar uma história. Sua preocupação
maior é com as impressões, como ela própria
observa: "os meus livros não se preocupam com os fatos
em si, porque para mim o importante é a repercussão
dos fatos no indivíduo".
"Rompe-se assim
a narrativa referencial ligada a fatos e acontecimentos. Em lugar
dela, emerge uma narrativa interiorizada, centrada num momento de
vivência interior da personagem (ou narrador)" - observa
Youssef- Abdalla, em Literatura comentada. O seu estilo,
pois, - que lembra Machado de Assis - é arrastado, anda devagar,
porque a sua preocupação é desvendar a verdade
subjacente em cada um, mascarada pela casca da rotina.
Essa tendência
para a introspecção gera, em Clarice Lispector, um
certo cerebralismo manifestado através da linguagem paradoxal,
mais em nível do pensamento e da idéia. É uma
literatura de reflexão, que exige do leitor muito esforço
para entender e desvendar o mistério que envolve aquilo que
a autora quer transmitir. Essa postura da autora está evidentemente
bem coerente com a concepção de obra aberta da literatura
(pós-)modernista.
Outra preocupação
da autora é casar forma com conteúdo. E o que observa
a dupla Youssef-Abdalla:
É admirável sua consciência
técnica adequando forma e conteúdo. Por exemplo,
dissocia as unidades narrativas para mostrar a falta de ligações
mais profundas na sociedade. Organiza a narrativa em ritmo lento,
para contrastar com o movimento da vida nas grandes cidades. Filtra
todos os fatos através de uma consciência que se
isola do conjunto - eis ai a solidão do homem moderno.
Como ressalta o crítico
Luis Costa Lima, "a linguagem de Lispector contém como
que uma armadilha: a sua simplicidade enganosa, podendo dar ao leitor
a impressão de uma planura sem fim, de uma superfície
horizontal". Eis outro elemento básico para a compreensão
de Clarice. Não se iluda o leitor: por trás dessa
aparente simplicidade lingüística muitas verdades dolorosas
se escondem: "toda a clareza tem seu reverso e mesmo na coisa
comum podemos condensar perguntas que não se desejam"."Para
quê conto mais simples do que Uma galinha? Entretanto,
por trás daquela história, muitas verdades se escondem.
É curioso
observar aqui que essa linguagem comum, revestindo aparentemente
um desenrolar de ocorrências, "é um correlato,
ao nível da linguagem, da opacidade do mundo" (Luís
Costa Lima).
Outro aspecto que
marca bem o estilo de Clarice Lispector é a sua tendência
para os seres frágeis e irracionais - próximos do
"coração selvagem". Essa busca, que remonta
"ao mundo pré-vegetal anterior aos símbolos e
à cultura", esta bem coerente com a profunda introspecção
que configura suas obras. Dessa forma essa "simplicidade enganosa"
mascara problemas existenciais, subjacentes no recôndito do
homem. O que a autora pretende é exatamente desvendar o mistério
que se esconde sob essa casca de simplicidade.
Mascaradas pela rotina
do dia-a-dia, suas personagens sempre têm, como observou o
poeta Affonso Romano, um momento de "epifania", "quando
acontece um evento ou incidente que ilumina a vida da personagem".
Coerente com essa
tendência, a obra de Clarice Lispector é povoada de
"bichos": cavalo, galinha, barata, aranha, búfalo,
gato, cão, etc. Essa presença revela bem a sua busca
do "coração selvagem", irracional, que configura
um mundo de harmonia, sem a complicação do mundo dos
homens.
Embora se expresse
em prosa, como é próprio do conto, a linguagem de
Clarice Lispector caracteriza-se, freqüentemente, pela "liricidade".
Revela-o não só pela marca pessoal que imprime nas
suas criações literárias, como pela riqueza
metafórica. Suas metáforas, expressivas e poéticas,
primam pela originalidade.
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