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TÉCNICA NARRATIVA

Clarice se valeu do monólogo para assim se disfarçar do diálogo que traça em todos os seus textos, invariavelmente. É certo que o monólogo é a forma com que um personagem se utiliza para exteriorizar seus sentimentos, inquietações e angústias. Para Clarice esta forma se concretiza nas entrelinhas onde revela um diálogo, muitas vezes transcrito entre o "eu" e o "eu-mesmo".

As sensações são provocadas em grande parte por uma "visão", um fato desencadeia toda uma revolução do personagem dentro do seu mundo. Em A paixão segundo G.H. há a barata, há que se comer a barata. Come-la significaria o rompimento do vínculo entre G.H. e a sociedade. O pequeno animal velho, então, faz o papel de acionar a reflexão sobre a vida cotidiana e as aberrações em que o indivíduo se transforma.

Os momentos de lucidez são, em regra, poucos comparados com os momentos de introspecção uma vez que a narrativa de Clarice Lispector se concentra não em fatos, mas na repercussão dos fatos no indivíduo. Uma repercussão se dá no conto Preciosidade do livro Laços de família, quando a protagonista, a jovem de quinze anos que não era bonita, viu-se violentada e daquele ato se transmutou em mulher de saltos de madeira. Tinha tão pouco e eles haviam tocado. Descobriu o mundo onde não mais se encaixava e o mundo ao qual agora pertenceria, depois de sua preciosidade ter sido tocada. Fora desejada.

Conclui-se que todo fato concreto se faz presente nas suas obras para proporcionar a volta do indivíduo para o dentro, para a justificação de suas inquietudes. O acontecimento é a desculpa do personagem para se perceber com vida e, de uma forma ou de outra, tentar se descobrir como dono de si mesmo.