| ESCREVENDO
PARA ESCRITORES Renata de Albuquerque para o site Capitu Teresa
Montero há tempos se interessa pela obra da autora de Água viva.
Segundo ela, o fascínio vem dos tempos de adolescência. E se perpetuou
ao longo de sua vida acadêmica. Doutora em Letras pela PUC-RJ, Teresa se
debruça sobre um aspecto muito particular de Clarice Lispector: os ecos
de sua obra no exterior, onde, por sinal, a escritora (que nasceu na Ucrânia)
passou boa parte da vida (acompanhando o marido, que era diplomata). Teresa
Montero já publicou Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector,
e The early dissemination of Clarice Lispector's literary works in the United
States. In: Closer to the wild heart. Essays by Clarice Lispector, esta é
a primeira parte da tese de Doutorado Yes, nós temos Clarice. A divulgação
da obra de Clarice Lispector nos Estados Unidos, defendida em 2000 na PUC-RJ.
Agora, a pesquisadora está lançando, pela Rocco, o volume Correspondências
- Clarice Lispector, um apanhado das ccartas trocadas entre Clarice e outros
escritores. É sobre isso que Teresa Montero falou ao Capitu.
Porque seu interesse por estudar Clarice Lispector? Como surgiu esse interesse
e de que forma ele começou a transformar-se em trabalho acadêmico?
Sou leitora de Clarice desde a adolescência. Desde a primeira leitura fiquei
fascinada pelo seu universo. Diria mesmo perturbada. Era um mundo que eu não
compreendia muito bem, mas que me instigava. Quando entrei na Faculdade de Letras
conheci mais a sua obra. Depois decidi escrever a sua biografia, quando ingressei
no mestrado em Literatura Brasileira na PUC-RJ. Seu mais recente
livro sobre Clarice é Correspondências. O que a levou a estudar
essa especificidade? Como foi o processo de escolha de cada uma das cartas? Muita
coisa ficou de fora? A idéia do livro partiu da família
de Clarice. Eles me pediram um levantamento da sua correspondência depositada
no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira na Fundação Casa de Rui
Barbosa. A idéia era reunir a correspondência de Clarice com outros
escritores. Foram selecionadas 129 cartas: 70 escritas por Clarice e 59 escritas
por escritores como: Manuel Bandeira, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond,
Lêdo Ivo, Marly de Oliveira, João Cabral de Melo Neto, etc. Inseri
também cartas de pessoas que tiveram uma importância muito grande
em sua vida: a artista plástica Maria Bonomi, e o jornalista Alberto Dines,
por exemplo. O que ficou de fora são cartas de arquivos particulares, que
certamente existem. A família somente entregou-me cartas de Maury e Clarice.
A "literatura
epistolar" de Clarice tem ainda pouca relevância como objeto de estudo
para a área acadêmica, ou esse tema já foi abordado e tem
um lugar garantido junto aos estudiosos? Porque é importante tratar desse
assunto, no caso de Clarice? Ele "desvenda" uma Clarice pouco conhecida
do público leitor ou apenas corrobora a obra que já conhecemos?
Não conheço estudos sobre a sua correspondência. As cartas
são um material especial porque ali está a voz de Clarice. Ao tratar
dos assuntos mais diversos, desde as dificuldades para publicar, as saudades do
Brasil, as leituras que fazia ou suas tarefas cotidianas, ela está se mostrando.
Ela está falando do que a interessa, e neste sentido é deste material
que se faz a sua obra. Vida e obra andam juntas. As
cartas de Clarice ajudam a entender como foi tecida sua obra? Os momentos refletidos
nas cartas têm conexão direta com questões literárias
da obra ou apenas esclarecem o viés biográfico de Clarice? Vida
e obra têm uma ligação profunda no caso da escritora?
Sim. Porque ela revela o medo inicial de se lançar como escritora,
de se explorar. Medo que ela venceu. E isto é muito nítido quando
se acompanha a sua obra. Seu
trabalho com Clarice Lispector vem de longa data. Há ainda algo que a fascine
no estudo dessa obra e dessa personagem? O que a motiva a continuar estudando
Clarice Lispector? Há algum "mistério" a ser desvendado
ainda? Mistérios sempre existirão. Toda vida humana é
um mistério. Mas o grande mistério é a sua obra. Como ela
conseguiu traduzir em palavras os nossos sentimentos mais profundos, as nossas
inquietações. Clarice tinha a "chama da vida", como ela
uma vez disse. Lucio Cardoso disse-lhe que ela tinha a chama da vida. Ainda não
tenho projetos sobre outros trabalhos. No momento estou curtindo este e querendo
publicar Yes, nós temos Clarice. A divulgação da obra
de Clarice Lispector nos EUA. Acredita
que ainda existam questões sobre a obra clariceana que ainda não
tenham sido abordadas? Existem recortes inéditos no estudo acadêmico
de Clarice Lispector, uma autora e obra sobre as quais já há tanto
e farto material analítico? Sempre existirá. As abordagens
sobre uma obra são inesgotáveis. O livro Era uma vez eu: a não-ficção
em Clarice Lispector, de Licia Manzo e A procura da palavra no escuro.
Uma análise da criação de uma linguagem na obra de Clarice
Lispector, de Gabriela Lirio Gurgel são dois exemplos disto. Pensando
em seu trabalho sobre a escritora, como a senhora analisa o desenvolvimento do
mesmo? Por quais etapas seu estudo já passou e, em sua opinião,
de que forma ele foi importante para esclarecer esse universo? Meus dois
trabalhos procuram situar com mais clareza, a obra de Clarice, no contexto em
que foi produzida no Brasil e no exterior. Apresentam materiais inéditos
de teor biográfico e ajudam a divulgá-la nos Estados Unidos. Em
sua opinião, há um apelo na literatura de Clarice que faça
com que mulheres identifiquem-se mais com ela que o público leitor masculino?
Por quê? É a experiência de uma mulher. Os sentimentos
são universais, mas são vivenciados por uma mulher. Já
se passam 25 anos da morte de Clarice. Qual legado a escritora deixou para a literatura
brasileira e como influenciou (se influenciou) a literatura mundial? Como é
a leitura da obra dela ainda hoje? As questões já não estão
"datadas" ou "ultrapassadas"? Qual a importância da
literatura clariceana ainda hoje? Sua obra inaugura uma nova fase para
a prosa brasileira e latino-americana. Clarice é considerada uma das grandes
escritoras do século XX ao lado de Borges, Joyce, Virginia Woolf , Kafka,
entre outros. |