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PALAVRA E O SILÊNCIO: O ESOTERISMO DE CLARICE LISPECTOR Júlio
César de Bittencourt Gomes A
maior ou menor capacidade de nomear o mundo define a maior ou menor perplexidade
e terror em relação ao mesmo. No momento em que as coisas são
nomeadas, rotuladas, deixam de ser assustadoras e passam a fazer parte do conhecido,
do familiar. O processo de apreensão do mundo pela palavra, contudo, tende
a revestir a realidade com uma opacidade embrutecedora que anestesia a nossa percepção
e nos induz a ver como óbvio, banal, algo que em sua essência é
mágico e misterioso. Dentro desse universo, onde a palavra deixou de habitar
o mais íntimo da alma humana e perdeu, para usar uma expressão de
Guimarães Rosa, a sua condição de "porta para o infinito",
a literatura constitui um elemento de transcendência, um meio de quebrar
os condicionamentos limitadores do cotidiano e (re)instaurar o sentido "místico"
das coisas. A palavra literária, então, é aquela que está
mais próxima da palavra primordial, do primeiro dia da criação,
pois está plena da humildade e do cuidado daquilo que se aproxima do mundo
para melhor entendê-lo; não para neutralizá-lo. Estabelece-se,
assim, uma oposição entre a palavra que está por tocar algo
que não "entende", e a palavra que já rotulou, "entendeu",
e remete o "entendido" para o prosaico e o esquecimento. Através
dessa concepção metafísica da palavra é possível
ver conexões entre a literatura e a tradição esotérica,
uma vez que, como lembra Pierre Riffard, a maior parte das cosmogonias ocultas
são descritas em termos lingüísticos, seja atribuindo a criação
a um verbo criador, a uma língua primordial, seja expressando-se através
de uma linguagem ou escrita consideradas divinas. Não existe nenhum esoterismo
que não atribua um valor simbólico à palavra, que não
busque a divinização através do nome e de uma etimologia
oculta. O processo iniciático, que se efetua pela quebra do silêncio,
através da atribuição de um nome místico ao neófito,
encerra-se sempre com a menção do Nome de Deus, com a recitação
dos mitos e com a entoação dos sons místicos, isto é,
fazendo da palavra a ligação com o Cosmos. Essa
concepção esotérica da palavra encontra sua ramificação
mais paradigmática na doutrina religiosa, mística e ocultista denominada
"doutrina do nome", segundo a qual o nome é a própria
coisa e atribuir um nome equivale a conhecer, compreender, dominar. Pragmática,
a "doutrina do nome", através do princípio da simetria,
pressupõe uma "prática do nome", a qual se desdobra em
planos adivinhatórios (onde a natureza de algo é passível
de ser revelada a partir do valor das letras da palavra que o designa); hermenêuticos
(a arte combinatória de letras e números, por exemplo); iniciáticos
(onde é dado ao buscador os meios de conhecer de cor os textos sagrados
e os rituais tradicionais); e mesmo artísticos, onde a "prática
do nome" é feita através da caligrafia, do desenho na areia,
da eufonia e, uma vez mais, da literatura. Mas não qualquer literatura;
somente aquela que busca devolver à palavra o seu sentido original, seu
caráter iniciático e propiciatório, o qual induz o leitor
a um estranhamento com o mundo, com o que está (aparentemente) decodificado,
e, assim fazendo, restabelece o mistério das coisas e instaura o espanto
do ser que se vê "sendo". Clarice
Lispector parece ter essa concepção da literatura (e do mundo, uma
vez que para ela ambos estão intimamente ligados) e fazendo da palavra
um meio de apreensão e revelação do mundo, repete o processo
da Criação: Clarice brinca de ser Deus. Dentro dessa linha de pensamento,
é possível estabelecer pontos de contato entre a atitude de Clarice
diante da linguagem e aquela dos místicos cabalistas, os quais concebem
a linguagem como o instrumento de Deus. Assim
como Deus, para os cabalistas, não é uma entidade perfeita e precisa
constantemente da ação de suas criaturas para a sua afirmação,
bem como para a manutenção e aperfeiçoamento de sua obra,
os personagens clariceanos parecem intuir uma imperfeição, um desequilíbrio
no mundo e em sua fúria rotuladora buscam (re)instaurar a harmonia. No
entanto, se a palavra é apaziguante (na medida em que dá um estofo
concreto ao mundo), o equilíbrio que ela proporciona é precário
e provisório, e a consciência dessa precariedade constitui o elemento
deflagrador da escrita de Clarice; escrita essa que tangencia sempre o limiar
do indizível, da não palavra, e que revela sempre a inquietude do
sujeito que infere que a realidade não é verbal e que o mundo contém
algo que as palavras não conseguem enunciar. A
percepção do caráter indizível do mundo e do fracasso
da linguagem traz para o texto de Clarice uma certa atmosfera angustiante, que
não conta nem ao menos com o artifício tranqüilizador da ironia,
uma vez que esta pressupõe uma compreensão prévia de uma
determinada situação, compreensão que parece ausente em Clarice,
na medida em que o predominante em seu texto é justamente o sentimento
de perplexidade perante as coisas. É como se ela estivesse permanentemente
(re)descobrindo o mundo, daí o estranhamento com as pessoas, com as coisas
do mundo, com os objetos do cotidiano. Essa
perplexidade com as coisas, que é quase um não saber prosseguir
(uma vez que imobiliza o sujeito), reveste-se de um tom metafísico ao longo
de toda a obra clariceana, e mesmo em seus textos mais "tradicionais",
onde a estrutura dos gêneros não parece tão ameaçada,
Clarice aborda o mundo por um viés "torto", esquivo, fazendo
com que o que é conhecido, óbvio, adquira um tom inaugural insuspeitado.
No entanto, é justamente nesse processo de nomeação quase
abstrato, onde a linguagem chega a "se falar", que a palavra entra em
crise e, por assim dizer, fracassa, pois para o fim que Clarice se propõe
as palavras, banalizadas pelo uso comum, já se mostram gastas a priori.
É necessário, então, inventar um novo léxico, o qual,
paradoxalmente, só se torna possível através do seu avesso,
da não palavra, do silêncio. Por
esses dois caminhos contraditórios viaja Clarice. Mas, se são contraditórios,
não são excludentes, e por vezes quase chegam a se tocar, quanto
mais não seja, pela afinidade que ambos apresentam com o pensamento místico,
pois se, por um lado, a via da nomeação, o texto clariceano se aproxima
da "doutrina do nome", da cabala, por outro, pela via do "esvaziamento"
da linguagem, pela busca da apreensão do instante-já, ele se avizinha
de algumas doutrinas orientais como o Budismo e o Taoísmo, por exemplo,
nos quais, como bem lembra George Steiner: (...)
imagina-se que a alma ascende dos grosseiros obstáculos da matéria,
através de domínios de percepção que podem ser transmitidos
por linguagem sublime e exata, rumo a um silêncio cada vez mais profundo. O
silêncio, em Clarice, tem tanto valor quanto a palavra e constitui, de certo
modo, o fim último e utópico de sua escrita, no entanto, ela sabe
que se o silêncio é a expressão máxima do indizível,
é somente através da palavra que se chega a essa conclusão:
Eu tenho à medida que
designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito
mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima,
a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho.
Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia,
e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço
humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos
vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só me poderá
ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha
a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. Ao
contrário do Budismo, contudo (e isso não contradiz o que eu disse
antes), a matéria, posta em foco pela palavra, não está reduzida,
no mundo clariceano, a um "grosseiro obstáculo". Ao contrário,
ela tem tanta carga de mistério quanto o "espírito", e
talvez seja mesmo mais fantástica, na medida em que se constitui no mistério
evidente e palpável, enquanto que o espírito reside no reino do
inefável, do abstrato. A consciência disso faz com que o texto de
Clarice interaja com as coisas, com os objetos, e deles faça parte. Como
se vê, em Clarice o próprio ato de observação do objeto
é uma experiência mística, na medida em que é a partir
do objeto que se constrói a consciência dos personagens: o observador
se observa através do objeto observado e assim atinge a iluminação.
Obviamente, essa experiência, que não é vivida pela maioria
das pessoas, necessita de uma mediação para que seja compreendida
pelo leitor; mediação essa que se dá pela palavra transformada,
isto é, pela palavra despida das limitações impostas pelos
seus significados convencionados. De Clarice, então, se pode dizer o que
George Steiner diz de Mallarmé: Faz
das palavras atos, não fundamentalmente de comunicação, mas
de iniciação a um mistério particular, (...) usa palavras
correntes em sentidos ocultos e enigmáticos; nós as reconhecemos,
mas elas nos dão as costas. Emblemático
desse processo de apagamento dos sentidos atribuídos às palavras
(e também do processo de fusão com o objeto), o conto-ensaio O
ovo e a galinha se constrói a partir do jogo de linguagem estabelecido
entre o objeto "ovo" e a palavra "ovo" que o nomeia, numa
aproximação lúdica e simultânea da linguagem infantil
se esboçando, e da mais abstrata especulação filosófico-metafísica,
na qual se busca incessantemente, através da reiteração do
nome, definir o objeto, sem que, no entanto, se chegue a atingir essa meta, já
que quanto mais se acumulam as definições, mais se distancia a essência
do objeto. Paralelamente
a essa fúria aproximativa do objeto, contudo, há a preocupação
do narrador em não entendê-lo, pois se o entender estará errando.
A linguagem do conto, então, não se propõe a elucidar o mistério
do ovo; quer apenas mostrar que é mistério, e o que se delineava
como um processo de apreensão do objeto, no início do texto, no
final revela-se como o desapego supremo, "pois o ovo é um esquivo",
e somente quando deixado livre, "impensado", é que pode se revelar
em sua verdadeira essência. O
círculo que leva da palavra ao silêncio, e deste novamente para a
palavra, encontra nesse conto um ponto de equilíbrio, como se ambos, palavra
e silêncio, cada um em um "momento" da circunferência, em
um dado momento "escorregassem" para um mesmo ponto do círculo,
finalmente se encontrando. Nesse
sentido, esboça-se, um processo de aproximação da música,
através do artifício do contraponto, o qual atingirá o paroxismo
em Água viva, onde se evidenciam, explicitamente, aqueles traços
típicos da escrita de Clarice que já estavam presentes em toda a
sua obra anterior mas que aqui aparecem despidos de toda amarra de gênero
ou paradigma que limite o sentido: a recusa da narrativa e a busca do silêncio,
o qual, se mais do que inapreensível, é incomunicável, ao
menos é passível de ser "tocado" através da aproximação
daquilo com que mais se parece: a matéria viva, representada em suas formas
mais reduzidas e absolutas, como a medusa, a água-viva. O orgânico-primordial,
então, confunde-se com o absoluto, com o espiritual, e sob esse prisma,
o elemento "água", presente ao longo do texto, longe de se constituir
unicamente num sentido químico, agrega a si o sentido a ele atribuído
pelos antigos alquimistas: água como "um princípio de fluidez,
fertilidade; umidade ao mesmo tempo mórbida e geradora", elemento,
enfim, mais sutil que a matéria e a linguagem, pois pode elevar-se como
vapor e depositar-se como orvalho; água como elo entre o transcendente,
o silêncio; e o concreto, a palavra. Essa
fluidez de água, da qual o texto busca se aproximar, é também
a fluidez polifônica de uma peça musical, pois em Água
viva os temas nascem e se repetem num jogo de variações e fuga
análogo ao da música. Assim como a música nada mais é
do que uma moldura para o silêncio, uma maneira de tornar perceptível
a ausência do som, o texto de Água viva é um longo
adágio, um andamento lento e contínuo para além das fronteiras
da palavra: Que
música belíssima ouço no profundo de mim. É feita
de traços geométricos se entrecruzando no ar. É música
de câmara. Música de câmara é sem melodia. É
modo de expressar o silêncio. Sob
o aspecto da palavra como um meio de expressão do silêncio, Água
viva talvez seja o texto mais perfeito de Clarice, pois ao mesmo tempo em
que constitui o auge do paradoxo que funda sua escrita (só através
da palavra é que o silêncio pode ser dito), também é
o momento de resolução do paradoxo, através da abdicação
do desejo de relatar o mundo. O mundo, então, com tudo o que ele contém,
passa a ser, simplesmente, sem explicações:
É-se. Sou-me. Tu te és. Oposto
à idéia de narrativa, de história por contar, esse minimalismo
conceitual põe a nu toda o estranhamento e a singularidade do texto de
Clarice, o qual extrapola a condição do meramente literário
para atingir o status de metafísica, cosmogonia oculta. Nesse sentido,
criando uma obra que postula seus próprios conceitos e inventa seus próprios
paradigmas, Clarice se coloca, conscientemente, à margem de toda e qualquer
tradição literária, e se inscreve na estirpe dos antigos
alquimistas, que viam na matéria o pretexto para atingir o infinito. |