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O PENSAMENTO JUDAICO EM CLARICE LISPECTOR
Sônia Régis, O Estado de São Paulo, 14 de maio de 1988

Na edição coligida das crônicas A descoberta do mundo, entre muitos equívocos da revisão, uma das máximas de Clarice aparece significativamente distorcida, descaracterizando sua definição de discurso literário. Lê-se:

mas já que se há de escrever, que ao menos não esmaguem as palavras nas entrelinhas

Quando se deveria ler (conforme as edições anteriores):

mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas

Privilegiar um único sentido em vez de o jogo de significações, a palavra em vez da voz, na coerência de sua obra, é negar sua proposta básica: a de uma linguagem aberta para a revelação (uma linguagem como destinação da idéia, realidade ativa - verbo em busca de permanência). A intenção da narrativa de Clarice é acordar sentidos (sensações e sentimentos) no tempo da fala:

O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento, mas é o pensamento presente: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe.

Assim, a qualidade literária de sua obra funda-se no desejo de escapar à leitura definitiva para ser uma reflexão; e como toda reflexão é uma condição de linguagem, seu texto se faz pela presentificação da consciência. Por isso seu discurso não antecipa nem prorroga uma significação: a palavra é apenas o nome de uma potencialidade que se torna presente na escrita. O discurso de Clarice, na verdade, é a narrativa de um estado de aprendizagem. Quem pode se aproximar dessa narrativa sem entrar no jogo especular e neutralizador da factualidade convencional?

Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim, e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Passei a entender melhor a coisa que queria ser dita.

Esse entendimento é um desejo-de-saber como motor inventivo, uma motivação iluminadora que torna escrever "um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de auto-conhecimento" (A descoberta do mundo), é uma angustiada e indefesa necessidade de transpor os limites da própria linguagem. A necessidade de nomear a existência muitas vezes se transforma num mal-dizer, porque "escrever é uma maldição", embora "uma maldição que salva", pois a palavra é o seu único domínio sobre o mundo. Essa ambigüidade fundamenta seu discurso literário. Movida pelo desejo de aprender "a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós" e pela consciência da impossibilidade de tocar o mistério da existência, pois "o melhor está nas entrelinhas", escrever se torna uma ação obrigatória para o entendimento e, ao mesmo tempo, para a surpresa de uma incompreensão. Escrever é a revelação perigosa da condição indefesa da linguagem, símbolo da condição humana e motor de seu desejo de uma realidade absoluta - significativa e significante - para a palavra.

Quero apossar-me do 'é' da coisa (...) E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já (...) Quero capturar o meu é.

A linguagem não é definitiva, mas definidora, e essa é a consciência que qualifica o seu discurso. "A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer 'um rosto bonito', mas quem disser 'o rosto', morre, por ter esgotado o assunto" (Onde estivestes de noite). Nessa operação sensível de contornar o universo cognoscível com o discurso verbal, Clarice cria uma simbologia idealista, representativa de uma realidade imanente, perfeita e intocável, cuja riqueza essencial é estar sujeita à especulação da linguagem. Seu discurso é transgressor: quer negar os limites da própria linguagem com representação.

Há em Clarice uma angústia: a de não aceitar a linguagem como uma representação de significados, buscando nela fundamentar o ser das coisas ("a palavra mais importante da língua tem uma única letra: é. É."). Dividida entre esse idealismo filosófico e uma tradição religiosa (platonismo e judaísmo), ela tanto pode afirmar "meu nome não existe. O que existe é um retrato falsificado de um retrato de outro retrato meu", quanto "não sou um sinônimo - sou o próprio nome". Seu desejo é o de uma linguagem literária mais do que significativa: plenamente realizadora.

Clarice deseja vivificar a simbologia da escrita, tornando-a um escrever infinito, contra todas as limitações da função representativa cristalizadora. Essa idealidade não pressupõe a qualidade literária, mas cria um sujeito de linguagem que perfaz todo o seu discurso, amarrando-o e definindo-o: "Que importa o sentido? O sentido sou eu". É justo invocar a voz dessa experiência para compreender sua linguagem desafiadora, confiante no difícil destino de transformar a fala numa realidade viva, num verbo em permanência na escrita, inevitável em sua própria realidade. E esses apontamentos têm a intenção de cercar os lugares em que a linguagem de Clarice se torna tragicamente transgressora, carregada do mórbido desejo de se transformar em simples apresentação de sentido, em realidade ativa, fundamentando sua vontade de escrever "tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo". Mas o que ganha em significação a linguagem literária perde em sentido, nunca podendo atingir realmente o núcleo agitador da realidade.

Para Clarice, o nome é a confirmação dos atributos da realidade; o nome indica uma propriedade em potencial. Esse inesgotável jogo de significações está ligado à tradição judaica da escritura: a escrita é ao mesmo tempo revelação e ocultamento do sagrado; desejo de captar o é das coisas (essencialidade divina), descrever seus atributos e potencialidade; vontade, enfim, de entender, pelo nome, uma qualidade secreta. Como essa finalidade é por antecipação impossível, sua experiência de linguagem resulta numa atualização constante da aparência; exercício que a faz negar-se a usar a palavra escrita, elegendo o seu infinitivo escrever, pois na escrita o sentido está congelado e seu desejo é criar uma linguagem como vivência especular. Sua narrativa desafia até mesmo o esgotamento das revelações, para ir aos fundamentos nominais das coisas, renegando conceitualmente a literatura.

O meu jogo é aberto: digo logo o que tenho a dizer e sem literatura; não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos pouco tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.

Para Clarice, a realidade mais importante da linguagem é a fala; escrever é representar o mistério da significação pela voz anunciadora - "infelizmente não sei redigiir, não consigo relatar uma idéia, não sei vestir uma idéia com palavras", procurando um entendimento que se faz pela própria linguagem: "escrevo pela incapacidade de entender, sem ser através do processo de escrever". A ação de escrever equivale a ação de pensar: Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreprodutível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador se não fosse a linguagem libertadora. Esse pensamento imaginário quer alcançar os atributos e potencialidades de algo maior, além da própria consciência individual.

Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um monumento. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente, não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.

Esse idealismo faz com que sua linguagem seja o reflexo de um mistério que não está na realidade, mas na sua imagem.

Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos nem sei? Assim: como se lembrasse. Com um esforço de memória, como s eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.

A linguagem, para ela, não existe senão como símbolo de algo fora de si mesma; representação que seu desejo quer negar, criando a ilusão de um presente permanente na escrita. Clarice não deseja escrever alguma coisa determinante, mas "os delicados estados do ser humano", pois "a criação não é uma compreensão, é um novo mistério". Seu desejo não é escrever sobre alguma coisa, mas simplesmente alguma coisa. "Não, meu livros, felizmente para mim, não são superlotados de fatos, e sim da repercussão de fatos no indivíduo". Sua intenção é entender o mundo através da escrita:

Como uma forma de depuração, eu sempre quis um dia escrever sem nem mesmo o meu estilo natural. Estilo, até próprio, é um obstáculo a ser ultrapassado. Eu não queria meu modo de dizer. Queria apenas dizer. Deus meu, eu mal queria dizer; mentir o pensamento seria tirar a única alegria de escrever.

Essa especulação vívida nos remete aos traços de um pensamento judaico profundamente marcado na sua idéia de linguagem. Em sua obra, a linguagem que revela é uma linguagem religiosa, que deseja re-ligar realidades distanciadas. "Eu escrevo por intermédio de palavras que ocultam outras - as verdadeiras. É que as verdadeiiras não podem ser denominadas". Todo o seu projeto literário visa decodificar o simbolismo da linguagem, que é reflexo dos atributos e potencialidades de algo maior do que a sua própria realidade: "Só conheço alguma coisa do ato de escrever. (Apesar de que eu não escrevo: eu falo)".

A fala é a voz emancipadora de significados, o sentido mais próximo do nome, reprodução de um indizível que permanece como sombra da escrita ("Fiz uma breve avaliação de posses e cheguei à conclusão espantada de que a única coisa de que ainda não nos foi tirado é o próprio nome"). Escrever, no discurso de Clarice, tem o sentido múltiplo de desvendar, aprender, redesenhar, lembrar, entender, pensar, sentir, falar, dizer, procurar, atingir, descobrir, libertar-se, inocentar-se, vivificar, reconhecer. Denunciar, enfim, o "atrás-do-pensamento", a nebulosa caótica do inominado.

Essa visão recuperada pela linguagem (como a idealidade platônica) se encarna nos seus textos como um desejo de tornar presente o ausente; seu estilo é a luta contra esse interdito. Escrever acaba sendo dizer constantemente a impossibilidade de captar a singularidade de um sentido, confessar uma incredulidade quanto ao real e roçar indefinidamente a realidade de uma imagem. A palavra quer tomar posse da idéia, ser um é, um verbo concretizador de qualidades, atingir o interdito da linguagem: sua impossibilidade de ser a realidade no presente da consciência. A própria conformação da língua hebraica funda essa característica remanescente de sua linguagem, ligada à tradição de um pensamento judaico, que Clarice questiona através da literatura.

A limitação da palavra a desespera, pela impossibilidade de captar a imagem definitiva; daí o uso de símbolos conceituais (como o ovo, a barata e o espelho). Clarice sempre rejeitou o jogo intelectual da escrita e acredita na intuição e na inspiração como criadoras de significados (função da Escritura Sagrada). O sentido profético da sua escrita se anuncia na necessidade de um entendimento com a imaginação denunciadora e não com a razão. Para ela, a escrita é uma descrição do aparente simbólico com o sentido da intuição, conciliando essas ambigüidades numa unidade que se encaminha para um interpretante final, no sentido semiótico, sem, no entanto, renunciar ao resgate de uma origem. Entre um passado dado e um futuro por se fazer, há o tormento de procurar registrar o impossível presente, que é mera possibilidade de conhecimento na linguagem.

Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. É sempre atual, é o fotômetro de uma máquina fotográfica que se abre e imediatamente se fecha, mas guardando em si o flash. Mesmo que eu diga 'vivi' ou 'viverei' é presente porque eu os digo já.

A necessidade fundamental de nomear, na sua obra, sem cristalizar sentido, vem da tentativa de qualificar os graus de potencialidade de uma realidade imaginada, tornar a palavra uma ação definidora.

Todas as palavras hebraicas têm o mesmo valor e as propriedades do nome; e por um nome entendo uma palavra pela qual significamos ou indicamos alguma coisa que caia sob o intelecto (...) Notar-se-á que o infinito, chamado em latim um modo, é, em hebraico, um nome puro e simples. O infinito não conhece presente, nem passado, nem qualquer outro tempo.

O nome permite relacionar os atributos das coisas, não criando oposições entre o real e a realidade da linguagem, mas apenas uma diversidade que funda a realidade literária, feita de entrelaçamentos e definições. Como aponta Marilena Chauí, ao relacionar a essência e a potência divinas na diversidade dos modos verbais estudados por Espinosa:

Esse movimento da diferença e da identidade, impedindo que a imanência seja dissolução do finito no infinito ou deste naquele, transforma em filosofia um acontecimento lingüístico espontâneo: a concepção do nome em verbo. Da linguagem como ato. O que implica (fato da língua hebraica, que não conjuga os verbos no presente, apenas no passado e no futuro) em tornar o presente um ponto de atualidade do verbo, um 'existir em ato'.

O 'há' hebraico não exprime tanto uma existência (um estar consigo mesmo e no repouso), mas uma presença viva ou dinâmica.

É esta a intenção da linguagem de Clarice: a palavra é um nome em ação, que permanece na escrita como um presente ideal (e impossível). Daí a sua preocupação descritiva, que culmina com uma da (im)possibilidades mais complexas e delicadas de sua obra, a de prender o é da coisa na escrita, ou seja, tornar um passado em presente de leitura. Essa idéia, contida simbolicamente no verbo hayah, representa a constância da potencialidade do que é, na linguagem, próxima da idéia de um infinitivo divino, como na citação bíblica: "asher'eheyeh": "eu sou aquele que sou".

No discurso de Clarice, esse conceito transforma-se em existência pela enunciação constante do sujeito como qualidade de linguagem, como sua narrativa indica: "o sentido sou eu"; "sou o próprio nome", neutralizando a escrita como cristalização de sentidos. Se por um lado essa constante luta move seu discurso, por outro, atormenta seu pensamento. A impossibilidade do entendimento perfeito e do registro exato da realidade humana pela linguagem leva Clarice a não-resignação, leva-a a não-conformação, a escapar dos gêneros, da divisão entre forma e fundo.

A escritora deseja, na realidade, denunciar a gravidade da condição humana, única realidade que lhe parece convincente, que é a impossibilidade de um conhecimento pleno. Essa angústia leva-a a uma reação de cólera como forma de escrever.

Mas eu denuncio. Denuncio a nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer - e respondo a toda essa infâmia comm - exatamente isto que vai agora ficar escrito - e respondo a toda essa infâmia com a alegria; mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia contra um Deus todo-poderoso, contra um Deus que até com um tato esmagado podia me esmagar? (...) Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? Pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas d'Ele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que aconteceu, dessa vez não vou ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez. Vou estragar a sua reputação.

Essa ira dessacralizadora da linguagem como delação, ação de filha colérica, volta-se contra a fragilidade da própria linguagem: simples jogo de significações que não consegue fixar um sentido. Jogo religioso no sentido lato. Escrever se transforma, para Clarice, em revelação dos segredos intuídos na intimidade significativa dos seres, na descrição do aparente simbólico com o sentido da intuição, no contar indefinidamente, no presente de uma narrativa que se quer linguagem em ação, os nomes - qualidades - possíveis das coisas em sua interioridade. Escrever é enunciar um presente de linguagem que é passado de existência e futuro de vivência. É pensar o mistério da realidade, o que a aproxima de uma realidade imanente: "Não estou brincando pois não sou sinônimo - sou o próprio nome".