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A JORNADA PELO AUTOCONHECIMENTO NO LIVRO A PAIXÃO SEGUNDO G.H.
Thiago Maia

No romance A paixão segundo G.H. presentifica-se uma jornada de autoconhecimento. Com o dito paradoxal "Perder-se é um achar perigoso", a personagem evidencia isso ao leitor, a mão que a sustenta. Quando G.H. sai do seu mundo (a organização que ela dava aos fatos da vida) e entra no mundo (o caos informe, o desconhecido), ela perde a falsa identidade que mantinha para os outros, a personalidade retificada, para enfim construir uma nova identidade mais autêntica, na qual ela entra em contato com os seus demônios interiores, desafia as normas sociais de bom comportamento e sente-se livre, absolutamente livre.

A descoberta-se de si tem paralelo com a descoberta do mundo, por isso a inscrição no Oráculo de Delfos: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo".

Dentro do seu casco, dentro do seu universo familiar, G.H. se mantinha dentro dos limites de uma vida artificial, sem o contato íntimo com o seu "Eu profundo". Porém ao descobrir o quarto da empregada, que tinha uma organização diferente do resto da casa e gravuras estranhas na parede, G.H. inicia-se na descoberta do seu "Eu Profundo" a partir da sua relação com o Outro. Inicialmente ela rejeita a presença desse Outro, sente raiva da sua ex-empregada, mas quando descobre e amassa uma barata que estava no seu quarto, ela se sente como se estivesse penetrando numa "verdade oculta e infame". A partir dessa experiência, G.H. tem uma epifania, uma revelação despertada pelo reconhecimento da presença repentina do seu Ser em-si.

A viscosidade da barata, a sua ancestralidade, o seu caráter imundo e abjeto suscita um desejo de ir além, de penetrar no ser da barata, de descobrir a verdade da barata, que talvez fosse a verdade de si mesmo e do mundo. A personagem repensa toda a sua vida, o modo pelo qual se apresentou ao mundo, repensa o próprio mundo e a existência. A angústia existencial perpassa todo o livro, e tal como em Sartre, há em Clarice Lispector uma afirmação da liberdade humana em meio ao absurdo da existência. Ao comer a barata G.H. afirma plenamente sua liberdade perante as normas sociais interiorizadas (o Super Ego) e perante o Nada. Benedito Nunes já afirmava que

o desenvolvimento de certos temas importantes da ficção de Clarice Lispector insere-se no contexto da filosofia da existência, (..) partem da mesma intuição kierkegaardiana do caráter pré-reflexivo, individual e dramático da existência humana, tratando de problemas como a angústia, o nada, o fracasso, a linguagem, a comunicação das consciências.

O inferno de G.H. é justamente o de inserir profundamente no mistério da existência, refletir sobre si mesmo e sobre a vida em geral, buscando um sentido universal nessa sua experiência com a figura abjeta de uma barata. Em suma, ela busca o sentido do não-sentido. Sua personalidade fragmentária enreda-se em questões metafísicas conflitantes. Não há fronteiras nítidas entre o Eu e o Não-Eu, entre a parte e o todo.

"É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda", "Cada olho reproduzia a barata inteira". Os dois opostos são pares que se interelacionam dialeticamente. Ao comer a barata G.H. realiza a fusão do seu Eu com o ser da barata. Mais, ela inicia uma jornada rumo à uma experiência de integração entre o Eu e o mundo, entre o Ser Para-si e o Ser Em-si. Ao perder o seu Eu, G.H. encontra o "eu ser", a existência pura, que provém "de uma fonte muito anterior à humana e, com horror, muito maior que a humana". Sem o seu ego mundano, coisificado, G.H. entra e se diluí no mar da existência. A parte se perde e se acha no Todo. Realiza-se o que foi preconizado pelo Oráculo de Delfos: no seu enraizamento nos mistérios da existência, na sua busca interior pelo autoconhecimento, G. H. acaba por conhecer "os Deuses e o Universo".