Página inicial 





















AS PERSONAGENS "INFANTIS" EM CONFLITOS E SEMELHANÇAS COM AS PERSONAGENS "ADULTAS"
Meire Oliveira Silva

No conto Uma galinha, do livro Laços de família, que começa com o famoso "Era uma galinha de domingo..." - bordão típico do início dos contos de fadas infantis - narra-se uma perseguição em pleno domingo de manhã. Perseguição impessoal de uma galinha para o almoço de uma família tradicional ou nem tanto, uma família aleatória. Como o próprio texto mostra, era tudo feito de modo tão automático: "Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio." Até que a galinha consegue escapar, mobilizando o instinto de perseguição de todos os presentes na casa. Eis que quando finalmente a agarram "...de pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta". E isto comove momentaneamente de maneira impressionante a todos da casa, até que sob os protestos da menina, a galinha recentemente uma 'galinha - mãe' escapa da morte. "A galinha torna-se a rainha da casa". É interessante notar a semelhança maior ainda com Laura (A vida íntima de Laura) nessa passagem, já que em determinado momento da narrativa, "Laura estava satisfeita como uma rainha". Mas é porque ela vivia no mundo da imaginação como o coelho Joãozinho. Mundo dos "pensamentozinhos".

Já a outra galinha, mesmo com todo seu ar de importância não próprio, mas o ar que se refere à áurea que a ela atribuíram, e que de nada valia para sua "vida de galinha", "pensada com cabeça de galinha", cabeça porém "vazia, de galinha" e vivendo para seu fim eminentemente de galinha: "a
té que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos".

Os monólogos interiores, os fluxos de consciência estão presentes de forma sensibilíssima nesse conto. A elevação do ser "ínfimo", a galinha, "estúpida, tímida e livre" à condição de rainha, já denuncia o mito. Mesmo caminhando para seu destino inevitável somente cumpre seu expediente de vida de galinha, sem nome, sem "pensamentozinhos e sentimentozinhos". E a comparação inevitável da galinha com a mulher, e até a elevação de Laura à condição humana, como a própria distinção do nome a destaca de sua simples espécie. A comparação com outro romance de Clarice Lispector, devido à galinha, a representação da mulher e a construção da personagem Laura:

Nunca nunca sim sim. Tudo era como o barulho do bonde antes de adormecer, até que se sente um pouco de medo e se dorme. A boca da máquina fechara como uma boca de velha, mas vinha aquilo apertando seu coração como o barulho do bonde; só que ela não ia adormecer. Era o abraço do pai. O pai medita um instante. Mas ninguém pode fazer alguma coisa pelos outros, ajuda-se. Anda tão solta a criança, tão magrinha e precoce... Respira apressado, balança a cabeça. Um ovinho, é isso, um ovinho vivo. O que vai ser de Joana?

O ovinho vivo e a mulher, ou da mulher ou ainda as três etapas que caracterizam a estrutura do conto Uma galinha com a fuga, a esperança de fugir atingindo as alturas dos telhados e a recapturação. Como uma recorrência em torno do mesmo tema, a impossibilidade de libertação, na mesma cozinha onde a galinha tornando o centro da casa, e posteriormente "a rainha", aqui se torna centro da narrativa. Provoca uma inversão de papéis, dada a identificação com a dona-da-casa que são submetidas à mesma angústia e em nenhuma delas se "adivinharia um anseio", já que a narrativa salta de uma para a outra de forma tão sutil e ao mesmo tempo surpreendentemente rápida que é quase impossível se perceber. Ao pôr o ovo, "nascida que fora para a maternidade", é extremamente clara a analogia:

GALINHA=MÃE=LAURA=MULHER

Ou ainda somente a comparação mulher=galinha, que no texto, estão fundidas junto às informações. Ambas parecem pertencer a um só corpo, ou ainda um amálgama (mistura) que não possibilita a distinção. Afinal, a qual das duas o narrador se refere em passagens como:

Parecia calma. Desde Sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela... Nunca se adivinharia nela um anseio.

Porém mesmo em relação à comparação somente entre uma galinha e outra, sendo uma galinha de fábulas, que há uma aproximação muito sutil e muito velada da realidade, sua vida é muito semelhante. Talvez, porque em Clarice Lispector as fábulas não tenham uma preocupação só de moralizar ou alegorizar alguma preocupação essencialmente social. Seu objetivo ao mesmo tempo em que se aproxima da realidade para denunciá-la, parece subverter-se tentando explicar essa realidade, não mais representá-la. Logo, essa é uma característica que se aproxima claramente de sua obra para adultos.

Segundo a definição de Lúcia Pimentel Góes:

A fábula é uma forma literária indireta na exposição de sua expressão, de caráter geralmente crítico, de análise precisa e tradução sintética dos fatos que são tanto objetivos quanto eloqüentes para o entendimento.

Levada em conta essa definição, pode-se afirmar que ao mesmo tempo em que a literatura infantil se encaixa nas fábulas modernas, recorrentes em histórias de animais tradicionais em muito dela se afasta por ainda concentrar muito da sua característica própria de imersão na essência das personagens. Sua obra infantil, numa definição mais radical, é um possível esboço muito bem trabalhado e minuciosamente arranjado de sua obra adulta.

Por isso, a inevitável recorrência ao mesmo ponto: Laura tem nome, tem família, tem pessoas que não a matariam por nada nesse mundo porque a querem muito bem e tem até visitas dos habitantes de Júpiter. Laura tem filhos, não ovos e apesar de ser "burrinha" e muito feia por fora, é muito bonita por dentro. Laura tem uma identidade e mais do que tudo, tem um final feliz!

Quanto às obra A mulher que matou os peixes e o conto Macacos, as descrições são distintas em cada um dos modos de relatar o primeiro macaco que a narradora havia adquirido. O modo de se referir de cada um dos textos, apesar de muito diferente, é muito aproximado, não só pelas descrições serem de um mesmo objeto, mas por apresentarem linguagens muito próximas. As descrições de Os macacos condensam muito do estilo "lispectoriano", mas têm uma carga emotiva chegando a beirar o infantil por diversas vezes:

Escolhi uma miquinha muito suave e muito linda, que era muito pequena. Estava vestida com saia vermelha, e usava brincos e colares baianos. Era muito delicada conosco e dormia o tempo todo. Foi batizada com o nome de Lisete. Lisete às vezes sorria pedindo desculpas por dormir tanto. Comer, quase não comia, parada num cantinho só dela.
(A mulher que matou os peixes)

E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
Quase cabia na mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana... dormia muito, mas para comer era sóbria e cansada.
(Macacos)

O relato de Lisete (Lisette) é muito diferente em cada um dos textos notando principalmente como a narradora economiza adjetivos e mesmo palavras em sua descrição para o público adulto e em como alonga e enfeita a descrição para o público infantil. São fascinantes as artimanhas pelas quais Clarice Lispector tece ambas as teias que constituem os enredos. Numa referência mais aprofundada nos fatos e menos preocupada apenas com os aspectos psicológicos a narradora de A mulher que matou os peixes consegue suavizar o relato da morte e da separação dos macacos trabalhando bem conceitos de perda. Mesmo o título Macacos do conto já problematiza os fatores envolvidos, dando um ar impessoal à narrativa. As metáforas usadas como "macacão - pequeno" ou "homem - alegre" e "mulher em miniatura" podem ser indícios de uma visão estereotipada e de cunho caricatural dos dois animais.

O artista, deve porém utilizar dados de observação, tentando reconstruir com coerência o seu universo. Enfim, os livros de animais ajudariam os pequenos a crescer, a vencer suas lutas, a sair do seu egocentrismo e a descobrir novos laços afetivos.
(Introdução à Literatura Infantil e Juvenil)

Apesar das inúmeras semelhanças entre os dois textos, existem, por outro lado, diferenças marcantes da própria grafia do nome Lisete (Lisette) em ambos os textos:

Foi batizada com o nome de Lisete.
(A mulher que matou os peixes)

E ali mesmo comprei a que se chamaria Lisette.
(Macacos)

Talvez a intenção da escritora fosse simplificar detalhes que à narrativa não causariam maior efeito e encurtar a narrativa, porém não deixando de ser fiel às descrições importantes e aos fatos exemplificados. Outro fato distinto a ser salientado é o que se refere ao tempo de permanência da macaca com a narradora, numa contradição gritante:

Três dias esteve conosco... no terceiro dia estávamos na área de serviço admirando Lisette e o modo como ela era nossa... Depois eu disse aos meninos: Lisete está morrendo.
(Macacos)

No sexto dia dei um grito quando adivinhei: Lisete está morrendo!
(A mulher que matou os peixes)

Quanto a forma de encarar cada um das reações diante da morte da macaca também existem outras diferenças:

No dia seguinte telefonaram, e eu avisei aos meninos que Lisette morrera. O menor me perguntou: "Você acha que ela morreu de brincos?" Eu disse que sim. Uma semana depois o mais velho me disse:
"Você parece tanto com Lisette!" "Eu também gosto de você", respondi.
(Macacos)

No dia seguinte o veterinário telefonou avisando que Lisete tinha morrido durante a noite. Compreendi então que Deus queria levá-la. Fiquei com os olhos cheios de lágrimas e não tinha coragem de dar a notícia ao pessoal de casa. Afinal, avisei e todos ficaram muito, muito tristes.
De pura saudade, um dos meus filhos perguntou:
- Você acha que Lisete morreu de brincos e colar?
Eu disse que tinha certeza que sim, e que, ela mesmo morta continuaria linda.
Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim e disse com muito carinho:
- Você sabe, mamãe que você se parece muito com Lisete?
...
- Obrigada, meu filho - foi isso que eu disse a ele e dei-lhe um beijo no rosto.
(A mulher que matou os peixes)

A narrativa quando motivada pela perspectiva infantil é muito mais suave, muito delicada e muito sutil. É capaz de falar sobre acontecimentos tristíssimos com a pureza e a magia com que uma criança falaria sobre eles. Baseia-se também nas minuciosas descrições, na pormenorização dos detalhes e nas citações dos diálogos. Fatos que dão um toque todo pessoal e bem próximo à narração de qualquer fato. Já quando os relatos são sintetizados, os diálogos suprimidos e os exemplos descartados, como no caso do conto Macacos, a narrativa toma ar bem impessoal e mesmo se magistralmente trabalhado como é por Clarice Lispector, a emoção tende à melancolia e não à emoção terna e ingênua que sente uma criança ante ao fator da morte. A impressão que vem à tona é a de que o adulto enxerga a morte sob a visão única da idéia de perda de algo - algo que mesmo indiretamente lhe pertence ou a sua vida. Já no caso da criança e sua inocente visão, a única coisa que realmente lhe importará, será o da falta ou mais precisamente, a ausência daquele objeto que é tratado e visto, pelo que ele representa também, como ser vivo. Este é um dos exemplos que é dado tanto na volta da família em direção à casa e deixando Lisete (Lisette) no hospital:

Fomos embora de guardanapo vazio.
(Macacos)

Voltamos para casa com o guardanapo vazio e o coração também. Antes de dormir eu pedia para Deus salvar Lisete.
(A mulher que matou os peixes)

Quanto ao final dos textos:

Uma semana depois o (filho) mais velho me disse: "Você parece tanto com Lisete!" "Eu também gosto de você," respondi.
(Macacos)

- Também de pura saudade, o outro filho olhou para mim com muito carinho:
- Você sabe, mamãe que você se parece muito com Lisete?
Obrigada, meu filho - foi isso que eu disse a ele e dei-lhe um beijo no rosto.
(A mulher que matou os peixes)

No livro infantil a narradora diz não ter se sentido ofendida com a observação do filho, porque segundo ela "a gente se parece mesmo com macaquinho", e porque Lisete (Lisette) era "cheia de graça e muito bonita". (Talvez por isso mesmo tenha sido em Macacos que Lisette tratava-se de uma "mulher em miniatura" e de que o macaco grande era um "homem alegre".) Mas no conto Macacos a mãe parece desconversar, quando o filho a elogia, dizendo gostar dele também... Tudo aqui fica tão indefinido e infinitamente triste que a morte de Lisete (Lisette) passa a fazer parte de uma noção profundamente melancólica e vazia de morte. Simplesmente vazia. Nada mais. Assim como o guardanapo vazio. Não com o guardanapo e o coração vazio da criança... A miquinha tinha além de brincos, colar e pulseira uma identificação muito especial naquela casa, ela como Laura parecia ter "pensamentozinhos e sentimentozinhos" já que "às vezes parecia sorrir pedindo desculpas por dormir tanto..." Mas já quando é retratada simplesmente como "macaca", no conto, seus "sentimentozinhos" são rebaixados como sendo de uma miquinha "um pouco suave demais!" ...doente...

A narrativa permeada de extrema meiguice é feita para criança e talvez pela criança porque o que parece é que a narradora projeta sua versão da história sob o ponto de vista mais ingênuo e infantil possível. Retratar Lisete ou Lisette como ser e até quase humano verdadeiramente... pelo menos elevar seu valor...

...esquecer Lisete? Nunca.
(A mulher que matou os peixes)