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MARCHA DA PANTERA Olga de Sá No
dia 9 de dezembro, faz 24 anos da morte de Clarice, ocorrida em 1977. Esquecida
pela mídia, cada vez mais estudada nos meios universitários e amada
por seus leitores no Brasil e no exterior, Clarice Lispector continua viva na
Literatura Brasileira contemporânea. O
primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem,
projetou-a imediatamente na Literatura Brasileira, como uma ficcionista consciente
de seus meios de expressão. Pretendendo
traduzir o que existe de complexo e contraditório no mundo, a romancista
teve de violentar a lógica da linguagem, fertilizá-la, torná-la
adequada e flexível. Assumindo
um ritmo pessoal de narrativa, permeando-a de uma nota poética imprevista,
Clarice rompe com a linearidade do romance tradicional, cria uma “estilística
das sensações”, um dicionário imagético pessoal, articula
uma “ordenação estrutural” de seus contos e romances, capaz de questionar
concretamente as concepções naturalistas do gênero e de situá-la
na mesma linhagem renovadora da literatura universal: Virginia Woolf, Joyce e
outros. Os problemas
gerais da linguagem, da escritura, da existência e da morte, provocam “digressões”
na escritura de Clarice Lispector, retardam a narrativa, fecundam as “entrelinhas”
e são responsáveis por aquele
caráter “ensaístico” que alguns críticos lhe censuram. Nunca,
porém, essas “digressões” se caricaturam em dissertações
ou assumem forma discursiva. Clarice jamais tenta ganhar o leitor para uma causa.
Apenas enuncia. Sua enunciação, pontuada de comparações,
de “como se”, alonga-se numa tentativa sempre recomeçada de atingir uma
expressão à altura de sua percepção do mundo, ou melhor,
à altura de sua cosmovisão singular e diferenciada. Diz
em A legião estrangeira: "nunca
tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais
grave: é o de concepção". O
processo de criação de Clarice Lispector sempre foi objeto de indagação
e de comentário, seja da crônica jornalística, seja da crítica
literária. Correu uma espécie de lenda de que ela escrevia em transe.
Sobre o assunto, foi entrevistada pelo jornalista Edgar Pereira. Clarice não
costumava comentar o que escreviam sobre ela, mas a este jornalista respondeu:
Eu não
disse isso: que escrevia em transe. Simplesmente porque não é verdade.
Jamais caí em transe em minha vida. Não psicografo nem baixa em
mim nenhum pai-de-santo. Sou como qualquer outro escritor. Em mim, como em alguns
que não são apenas racionalistas, o processo de gestação
se faz sem demasiada interferência do raciocínio lógico e
quando de repente emerge à tona da consciência vem em forma do que
se chama inspiração.
Dizia que só conseguia a simplicidade à custa de muito trabalho.
Reescreveu A maçã no escuro
onze vezes e nesse tempo foi interrompida por seu filho Paulo que lhe pedia uma
história. Inventou O mistério do coelho pensante, conto infantil,
que não faz nenhuma concessão às crianças, no sentido
de ensinar-lhes alguma moral, como nas fábulas. A história do coelhinho
que, inexplicavelmente foge da gaiola porque está com fome, continua inexplicável
até o fim. Ninguém sabe, nem o leitor, nem as crianças, nem
o narrador, como é que o coelhinho gordo escapou das grades pelas quais
era impossível, que passasse. Clarice
também não revia seus livros, depois de publicados. Só existe
2ª ed. revista de A cidade sitiada, com mais de mil correções.
Mas são correções sem nenhum peso literário: acrescenta
um sujeito, um verbo, uma pontuação, parágrafos, sempre para
deixar mais claro o que certa espécie de leitor e de crítico considerou
hermético. Diz
Clarice: Eu
mesma poderia pegar um livro meu e tirar coisas que até eu vejo que não
deveriam ali estar. Porque depois do livro pronto já posso ir me desligando
dele. Às vezes o livro está com pernas demais. Mas é difícil
saber se a gente está cortando a perna que anda ou a perna morta. Eu não
me incomodo muito com defeito. Defeito é coisa que nunca me atrapalhou.
A
Editora Rocco está reeditando a obra de Clarice Lispector. Na apresentação,
a encarregada dessa edição – Marlene Olinto – sublinha esse traço
característico de Clarice. Como existem pouquíssimos manuscritos
e poucos originais de seus escritos, torna-se não só difícil,
mas quase impossível, rastrear influências ou mostrar a gênese
e o desenvolvimento de sua escritura. A nova edição só corrige
os erros, que se acumularam, nas sucessivas edições das obras, de
uma Editora para outra. Quando
se tratou de fazer a edição critica de A paixão segundo
G.H., coordenada por Benedito Nunes e da qual participei, não se encontrou
o original da obra. Foi preciso ilustrar a edição com manuscritos
do conto A bela e a fera. Clarice
não escrevia em transe. Tomava notas em papéis, durante o dia e,
às vezes, acordando à noite e assim criou seu fundo de gaveta. Depois
reunia os apontamentos e dizia: “Estou preparada”, que significava estar com a
ponta do lápis feita. Quando seus filhos eram pequenos, e viajava como
esposa de diplomata, trabalhava com máquina de escrever no colo, sempre
interrompida pelos meninos. Clarice
não escrevia em transe. Era uma curiosa da “terceira margem” da realidade,
gostava de coisas esotéricas, de cartomantes. Macabea, personagem de A
hora da estrela vai à cartomante, que lhe anuncia um destino luminoso
com o estrangeiro, que a fará feliz. Macabea é atropelada por um
Mercedes e vive sua hora de estrela, morrendo rodeada de curiosos. Convidada
para representar o Brasil no Congresso de Bruxaria, de Bogotá, os bruxos
esperavam que ela fizesse alguma mágica, ou falasse de esoterismo. Clarice
limitou-se a ler seu conto O ovo e a galinha, conto mágico pela
plurissignificação. Clarice também se dizia mágica,
mas sua magia está no jogo da linguagem, na capacidade de criar um logos
pessoal, fascinante, desafio ao leitor que, empaticamente é atraído
por sua escritura ou dela se afasta, decepcionado. Clarice
não é uma escritora hermética ou difícil. Não
criava palavras novas, trabalhando o significante como Guimarães Rosa,
porque afirmou encontrar no dicionário todas as palavras necessárias,
para o que desejava exprimir. O que em seus textos causa estranheza é a
sintaxe, a serviço de figuras tais como paradoxos, oxímoros, antíteses,
núcleos metafóricos, repetições. Na
apresentação de A paixão segundo G.H., dirige-se pela
primeira vez a possíveis leitores. Este
livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas
por pessoas de alma já formada. Aqueles que sabem que a aproximação
do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive
o oposto daquilo de que se vai aproximar. Como
“viver é difícil” e escrever é viver, não escrever
é morrer, há dois focos imantados que percorrem a obra clariceana,
dilaceram sua escritura, nessa ânsia de nomear o ser, sabendo que o perde.
1. O pólo epifânico,
constituído pelos procedimentos literários que exprimem as epifanias
de beleza, que revelam o ser num dado momento excepcional e convidam a personagem
a revirar a própria existência. 2.
O pólo paródico, constituído pela paródia séria,
não burlesca, que denuncia o ser, pelo desgaste do signo, desescrevendo
o que foi escrito, num perpétuo diálogo com seus próprios
textos e com outros textos do universo literário. Neste caso, intertextualidade
e intratextualidade se constituem em procedimentos paródicos. Na
passagem, na transição de um procedimento a outro que naturalmente
não é cronológica, mas simultânea, existe a epifania
do feio que chamei “anti-epifania”. Nas
camadas da escritura clariceana, há, portanto, duas tonalidades fundamentais:
1. o tom maior, que
se espraia e se condensa em núcleos metafóricos, cujo eixo são
a água, a terra, o ar e o fogo, como elementos sensíveis, que organizam
a escritura porque organizam o mundo. Esses signos às vezes se iconizam
como no caso da barata de A paixão segundo G.H. ou A mulher e
o cavalo, se desdobram a ponto de despertar no leitor a impressão de
certo barroquismo, certo esbanjamento. Este tom maior está presente em
sua obra inaugural Perto do coração selvagem, em O lustre,
Água viva, A maçã no escuro, em que atinge
seu clímax. 2.
O tom menor, o contra-canto, que já aparecem nos romances citados, instaura-se,
singularmente, como paródia séria em seu terceiro romance, A
cidade sitiada. A
partir daí, quase todos os títulos de seus romances exprimem, por
meio de uma contradição interna, contrastante com as epifanias de
beleza, o limite do ser e do escrever. A
cidade (é) sitiada / A maçã (está) no escuro / A paixão
(é) segundo G.H. / O livro dos prazeres (é) aprendizagem / A hora
(é) da estrela (de cinema). Onde
o contraste? O ser para Clarice apresenta uma face sensível, sensorial,
capaz de ser colhida e expressa pela linguagem, uma face concreta, alcançável,
a serviço da qual ela cria imagens estranhas, símbolos, recursos
flexíveis e múltiplos: -
é a cidade provinciana invadida pelo progresso; -
a maçã vermelha, apetecível sobre a mesa; -
a paixão, esperada pelo leitor como erótica, “vida e amores de G.H.”
- a felicidade alcançável
entre homem e mulher, como num “manual para ser feliz”. -
A hora cronológica da morte, como “hora” de estrela de cinema, Marilyn
Monroe. A outra face
do ser é obscura e misteriosa, escondida e talvez a linguagem não
a atinja nunca. Essa face não se entrega ao signo, que se multiplica e
desdobra, se condensa e forma núcleos. São as epifanias de beleza.
Exemplos existem inúmeros.
Clarice não teoriza sobre a epifania nem usa esse termo, que lhe chega
via Joyce. Joyce colheu-o
na esfera religiosa e transformou-o em técnica literária. Cancelou-o
como um momento de revelação do ser, (O retrato do artista quando
jovem, Dublinenses), colhido pelo sujeito, e criou-o como momento objetivo, em
que se constrói a epifania no texto (Ulisses ou Finnegans Wake). Em
Clarice, a cena do banho em Perto do coração selvagem ou
a do cego e do Jardim Botânico no conto Amor, são epifanias
de beleza, que traduzem , no primeiro caso, a estranheza sensível da puberdade,
quando a menina se transfigura em mulher; no segundo caso, a exuberância
da vida e da própria ânsia de existir, a que a mulher presa, na rotina
do lar, não tem acesso. Como Joana, protagonista de Perto do coração
selvagem, que era “tristemente uma mulher feliz”, os Laços de família
que prendem e esterilizam, estereotipados na velha aniversariante festejada e
ridicularizada pelos filhos, netos, genros e noras, mas que tem plena consciência
de sua irônica situação. Quanto
à paródia, aparece no texto clariceano, no seu sentido etimológico
de: “pará” = junto, ao lado de; “ode”= ode, canto e, portanto, “canto paralelo”,
diálogo de vozes textuais. Não, no sentido de imitação
burlesca, para ridicularizar ou levar ao riso. Perceber
um texto como paródico é reconhecer em filigrana um outro texto,
revelar a aproximação ou o afastamento entre os textos. Os índices
materiais de empréstimo – aspas, tipo itálico, referências
– em princípio não são usados. Para reconhecer a paródia,
o crítico deve conhecer o sub-texto e o contexto, a que a obra se refere.
A paródia não
é, portanto, só um fato de escritura, mas um fato de leitura. A
análise interna de um texto e sua descrição retórica
não são suficientes para revelar seu caráter paródico.
A paródia,
considerada escritura de conotação, oferece, além de seu
significado imediato, um significado segundo, o texto parodiado, e pode ser igualmente
descrita como metalinguagem. É um discurso que toma por objeto um outro
discurso. É
uma operação no sentido lógico do termo. A paródia
manifesta a duplicidade de uma atração e de uma recusa. Tem como
referente sistemas significantes, não a sociedade. Combate o conformismo
e transgride o sentido. Na
modernidade, a paródia não é considerada, como na primeira
metade do século XIX, um gênero menor. Ela caracteriza a escritura
moderna, organizada em espaço de tensões, que se abre para a totalidade
cultural e a complexidade do existir humano, em meio aos impasses da civilização
e da cultura. Focalizei
esse aspecto no texto clariceano nas quase 300 páginas do ensaio: Clarice
Lispector: a travessia do oposto. Clarice
era de família judia e tinha um conhecimento amplo e profundo da Bíblia.
Além do paralelismo
bíblico, de que Clarice aproveita a repetição e usa como
procedimento poético, o texto de A paixão segundo G.H. parodia
textos bíblicos. A
experiência de G.H., narrada por ela mesma depois que atinge o silêncio,
é um percurso místico às avessas: a personagem G.H. é
uma escultora amadora, que gosta de arrumar as coisas; é uma mulher que
tem amantes, não tem olhos para a sua empregada Janair, vive num mundo
“quase”, onde nada chega ao clímax. Tudo é medíocre. O espaço
da experiência é um quarto de empregada, num apartamento de cobertura,
esturricado de sol. Todos os “topoi” de uma experiência mística estão
revertidos. O “êxtase” de G.H., deve passar pela manducação
da barata, inseto imundo, segundo o Levítico – livro bíblico – que
sem burla, substitui a manducação da hóstia. Para
chegar à imanência e comungar com o Deus, presente em toda a matéria
do universo, G.H. tem de renunciar à transcendência de ser humano,
que, ao contrário da vida plena animal, criou uma “subjetivação”
ao longo dos séculos. Só
comungando a massa da barata, que vem da aurora do mundo, G.H. alcançará
a “divinização”. Saberá então que “o imundo não
é imundo”, pois é plasma vivo. Não
há mais espaço para esperança e futuro. É a hora de
viver, sem palavras, o instante-já. G.H., em vez de recuar, vende a própria
alma para saber (mito fáustico). Mas
é que o inferno já me tomara, meu amor, o inferno da curiosidade
malsã. Eu já estava vendendo a minha alma humana, porque ver já
começara a me consumir em prazer, eu vendia o meu futuro, eu vendia a minha
salvação, eu nos vendia. Atingia
assim o núcleo da vida, o infernalmente inexpressivo, o nada. Todo esforço
humano de salvação, que consiste em transcender, é eliminado
para se ficar dentro do que é. No
mundo-barata não há piedade, elimina-se a “sentimentação”
(uma das poucas palavras criadas por Clarice). A ferocidade mútua permite
o assassinato de um ser pelo outro. Se a barata fosse mais forte, certamente madeixa
quieta e vigilantemente matar. O texto estrutura-se sobre o paradoxo perder/ganhar,
que tem fundamento bíblico: "Por
que quem quiser salvar a sua vida, perde-la-á". Indiciada
na barata-fêmea esmagada pela cintura, metonímia da mulher, G.H.
deixa cair a persona, “rosto de prata e beleza” - sua máscara humana –
e chama pela mãe ancestral, parodiando a Ave-maria: “Mãe bendita
sois entre as baratas, agora e na hora desta tua minha morte, barata e jóia”.
Nos interstícios
da matéria primordial, a respiração do mundo é uma
espécie de silêncio. O plasma, as entranhas vivas da matéria,
subjazem à organização humana. Ao neutro do sêmen é
inerente o ritual da vida, que G.H. pode recuperar, porque nasceu com ele. Já
não tem medo de cumprir o ritual consumidor, que lhe é imanente:
"é o próprio processar-se
de vida no núcleo, é a marca do Deus". A
alegria de perder-se é uma alegria cega, uma alegria de sabá. A
orgia do sabá realiza-se, nos textos de Clarice, sempre de noite. É
a face dionisíaca de sua escritura, oposta à face apolínea,
que também a caracteriza. Ângela, personagem de Um Sopro de Vida,
livro póstumo, é a face dionisíaca de Clarice, oposta ao
autor, sua face racional. A
questionadora postura de Clarice sobre escrever/viver, linguagem/ser enquadra
a palavra escrita como instrumental da existência. O
drama vivencial de Clarice Lispector é um drama fáustico. Não
por meio de influências existencialistas, via Sartre ou Heidegger, nem por
meio de filtros, fechada num gabinete gótico, entre retortas, escrevendo
em transe. Vendeu
a alma para saber, vendeu a vida para escrever. “Escrevo logo existo”, eis sua
fórmula existencial, que Descartes baseou no pensar e Benedito Nunes formulou
para ela em termos de narrativa: "Narro,
logo existo" ou formulando de outro modo: "narro, para compreender".
Duvidar da palavra
não era simplesmente um problema acidental para Clarice. Era duvidar da
forma como lhe escorria a existência. Nasceu “incumbida”. Na sua escritura.
Na sua sinuosa e direta marcha de pantera. |