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UMA ENCENAÇÃO
CÔMICA DA TRAGÉDIA BRASILEIRA - NOTAS SOBRE A HORA
DA ESTRELA
Manoel Freire Rodrigues
Mais conhecida como
autora de uma ficção “introspectiva”, só mais
recentemente Clarice Lispector vem despertando o interesse dos estudiosos
para os aspectos sociais e ideológicos que enformam sua obra,
em particular algumas narrativas. De um modo geral a crítica
tem negligenciado esse aspecto da ficção de Clarice,
dando mais ênfase às questões ditas existenciais
e de natureza filosófica e metafísica que ela aborda
e instiga a pensar.
O presente texto
discute alguns aspectos sócio-ideológicos da forma
literária em A hora da estrela, último romance
publicado pela autora e obra fundamental no conjunto de sua ficção,
na medida em que incorpora e desenvolve os temas que estão
no centro das preocupações de Clarice ao longo de
sua obra, tais como a reflexão sobre a arte e o problema
da representação (suas possibilidades e limites),
a possibilidade do conhecimento “pleno” através da linguagem,
a possibilidade de uma literatura socialmente engajada, e a pobreza
do mundo, pobreza “feia e promíscua”, conforme escreve a
autora (1998, p. 22).
Esses temas encontram-se
às vezes simultaneamente numa mesma obra da escritora, havendo,
entretanto, a predominância de alguns deles em determinadas
textos. Assim, pode-se dizer, grosso modo, que em A paixão
segundo G. H. predomina o problema do conhecimento e suas possibilidades
de comunicação pela linguagem, bem como a questão
da representação, embora o problema social já
se encontre aí com certa intensidade, conforme observa Solange
R. de Oliveira, que afirma ser nessa obra que “pela primeira vez,
aborda-se o problema da luta de classes” na ficção
Clariceana (1985, p. 8). Já em Uma aprendizagem ou o livro
dos prazeres também o problema do conhecimento e da comunicação
pela linguagem e pelas formas artísticas está presente,
mas aqui o tema central é a “conversão” de Lori, personagem
central do romance, por Ulisses, professor de filosofia, que é
“socialista” e ajuda Lori na sua descoberta do mundo e de si mesma.
Na sua conversão, a discípula, depois de intermináveis
encontros com Ulisses acaba por encontrar “outro mundo”, que não
é mais o seu mundo burguês de filha de ex-milionário
arruinado. Sua aprendizagem se dá graças ao didatismo
de Ulisses, que confessa sua vocação para ensinar,
graças a “Este meu senso didático, que é a
vontade de transmitir” (1998, p. 53). Já em A hora da
estrela encontram-se de certo modo todos esses temas e questões
abordadas nos dois romances mencionados, porém com uma diferença
fundamental: aqui o problema da pobreza e da marginalização
das classes sociais oprimidas aparece de forma explícita,
configurado na personagem central do romance, Macabéa, moça
retirante nordestina que sobrevive numa “cidade toda feita contra
ela” (1998, p. 15).
Aquilo que parece
estar apenas anunciado em A paixão segundo G. H.,
posto ainda de modo contido ou implícito, ou seja, o conflito
de classes, em A hora da estrela aparece de forma ostensiva,
como anuncia o narrador e também personagem Rodrigo S. M.,
que afirma escrever uma “História exterior e explícita”,
porém que “contém segredos” (p. 13). O confronto entre
classes sociais diferentes configura-se em A hora da estrela em
vários níveis e mostra a distância que separa
as pessoas de camadas sociais distintas no Brasil, ou seja, a distância
que separa os pobres (operários, subempregados e desempregados)
dos estratos sociais mais privilegiados da sociedade, incluindo-se
aí os detentores do poder econômico, os que realmente
ditam as regras do jogo, e aqueles que, não sendo privilegiados
economicamente, ainda assim podem se considerar, de algum modo,
privilegiados, pois detêm certos bens que os distinguem socialmente
da massa marginalizada. Esses são os detentores daquilo que
poderíamos chamar capital cultural, que lhes assegura uma
posição mais ou menos confortável na sociedade,
representados pelo escritor Rodrigo S. M., narrador do romance.
Esse conflito se
configura inicialmente pelas longas “reflexões” e especulações
do narrador sobre a possibilidade de escrever a história
nas condições em que se encontra. Embora ache necessário
e urgente escrever a história da nordestina, Rodrigo S. M.
demonstra não saber como fazê-lo, dada a distância
que o separa de Macabéa, e daí sua enorme dificuldade
de se aproximar da moça. O obstáculo inicial é
a “inutilidade”, para contar a história da moça, do
instrumental sofisticado de que dispõe o narrador: o saber
acumulado de uma de tradição erudita e clássica,
sua linguagem e seu repertório literário em face de
um material tão simples e tão pobre, a vida quase
vazia de Macabéa. Vida, aliás, quase sem vida, a que
o narrador teme não conseguir dar visibilidade: “O que me
proponho a contar parece fácil à mão de todos.
Mas sua elaboração é muito difícil.
Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado
e mal vejo” (p. 19). E o escritor imaginário Rodrigo S. M.
segue na sua tentativa de se aproximar e se “pôr no nível
da nordestina”, buscando alcançar a expressão à
altura, adequada para narrar sua pobre história. Essa busca
chega ao ponto de cansar o leitor, já impaciente pelo adiamento
da história. Na sua discussão prolixa o narrador parece
ganhar tempo adiando o início de uma história que
se sente incapaz de narrar.
A “incapacidade”
de Rodrigo S. M. para encontrar a expressão mais adequada
para narrar a história da nordestina sugere a enorme dificuldade,
ou quem sabe até a impossibilidade de o escritor ou intelectual
brasileiro falar do povo de modo convincente. Essa distância
era percebida muito claramente por Clarice, que sugere em boa parte
de sua obra o quanto é difícil alcançar com
a sua linguagem a expressão ou a forma capaz de falar honestamente
do outro.
Clarice tinha uma
percepção muito clara e uma consciência muito
aguda do papel e da situação contraditória
do intelectual e do artista numa sociedade tão cheia de problemas
como a sociedade brasileira de seu tempo (que, aliás, sob
esse aspecto pouco mudou até nossos dias). Ela reconhecia
perfeitamente a situação ambígua do escritor,
dividido entre o “compromisso” com os oprimidos, uma espécie
de obrigação de dar voz a quem não tem voz,
de um lado, e de outro lado sua condição de dependência
em relação ao sistema dominante, do qual recebe alguns
“privilégios” e ao qual ajuda a sustentar através
da produção, reprodução e transmissão
de todo um conjunto de normas e valores de ordem estética,
jurídica e moral que sustentam a tradição e
legitimam a organização do sistema. Há uma
passagem de A hora da estrela que parece mostrar, com o peculiar
traço cômico do livro, essa ambigüidade, essa
condição contraditória e desconfortável
do escritor:
Por enquanto quero andar nu e em
farrapos, quero experimentar pelo menos uma vez a falta de gosto
que dizem ter a hóstia. Comer a hóstia será
sentir o insosso do mundo e banhar-se no não. Isso será
coragem minha, a de abandonar os sentimentos antigos já
confortáveis.
Agora não é confortável:
para falar da moça tenho que não fazer a barba durante
dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar
de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além
de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr
no nível da nordestina. Sabendo no entanto que talvez eu
tivesse que me apresentar de modo mais convincente às sociedades
que muito reclamam de quem está neste instante mesmo batendo
à máquina (p. 19-20)
O trecho contém
elementos que ilustram, problematizando, a condição
do intelectual (no caso, o ficcionista) na sociedade brasileira
dos anos 60/70. Para escrever a história de uma maneira mais
convincente e honesta o narrador não tem dúvidas de
que é preciso invadir o mundo da moça nordestina,
e quase vestir-se na sua pele para poder sentir e para “experimentar
pelo menos uma vez a falta de gosto que dizem ter a hóstia”,
ou seja, é preciso não apenas “saber” da vida da moça,
mas também sentir, conhecer sentindo, pois no caso saber
implica também sentir. Esse é um impasse difícil
de ser superado, pois o próprio escritor reconhece não
poder penetrar plenamente no mundo da moça, tão separados
e distantes se encontram um do outro. Ele sabe que só ocasionalmente
pode entrar no mundo de Macabéa, mas nem pode e nem deseja
nele permanecer, pois só enquanto escreve a história
- de ficção - será capaz de “andar nu e em
farrapos” para poder experimentar o mundo insosso da moça,
visto que seria muito difícil “abandonar os sentimentos antigos
já confortáveis”.
Seria difícil
e arriscado abandonar os sentimentos antigos e “confortáveis”
porque o escritor, no caso Rodrigo S. M., sabe da necessidade de
falar do diferente, do “feio”, no caso a vida e o mundo de Macabéa,
mas sabe que isso implica em transgredir os códigos vigentes,
construir uma nova expressão. Dessa forma, para falar do
feio, ou seja, da pobreza, que para Clarice (e para Rodrigo S. M.)
é “feia e promíscua”, o narrador busca uma forma adequada,
uma forma que não se pode mais avaliar pelas convenções
da estética do belo e do bom gosto. A forma que o narrador
busca para contar a história de Macabéa se orienta
por uma “estética do feio” ou do “mau gosto”, que Clarice
persegue propositadamente em seus últimos escritos, entre
os quais se encontra A hora da estrela.
Sobre essa opção
de Clarice por uma estética que incorpora elementos considerados
antiestéticos ou de mau gosto, Sônia Roncador (2002)
assinala que isso ocorre, sobretudo, nas obras da autora publicadas
nos anos 70, nas quais haveria uma ruptura em relação
ao seu estilo da escritora anterior a esse período. Segundo
ela, Clarice abandona nesse período a forma elegante de suas
primeiras obras para adotar uma estética do feio, produzindo
obras deliberadamente malfeitas, sendo que essa ruptura no plano
da forma corresponde a uma mudança em relação
aos temas abordados pela romancista. A crítica afirma que
a escrita mais descuidada que aparece nas últimas obras da
escritora tem sua razão na procura da forma para expressar
o feio e o abjeto que caracterizam os temas abordados por Clarice
nos últimos anos de sua carreira, quando ela se mostra “intensamente
envolvida com certos temas sociais como a miséria econômica
e afetiva, a fome e a injustiça social” (2002, p. 150). E
é dentro dessa nova diretriz estética adotada por
Clarice que podemos situar A hora da estrela, obra na qual
há uma confluência das várias tendências
da escrita ficcional da autora, principalmente da última
fase de sua obra.
Essa divisão
de tendências no estilo da ficção de Clarice
Lispector é também apontada por Vilma Arêas,
para quem a obra de Clarice pode ser compreendida em dois estilos
ou fases diferentes: a primeira compreende o intervalo que vai da
publicação de Perto do coração selvagem
(1944), e A paixão segundo G. H. e A legião
estrangeira (1964). A literatura produzida por Clarice nessa
fase foi chamada por ela mesma, segundo Vilma Arêas, de “literatura
das entranhas”, ou seja, uma literatura “profunda e séria”,
comprometida com os grandes temas humanos e obedecendo a uma estética
reconhecidamente de “bom gosto”, portanto de alto valor literário.
Aqui a escritora se apresenta como uma das mais altas expressões
da literatura de língua portuguesa, em que a busca da expressão
mais justa, da frase precisa e elegante, da forma perfeita parece
ter sido um alvo perseguido por ela.
Já a segunda
fase, que a autora denomina de “literatura feita com a ponta dos
dedos”, de valor literário discutível segundo os padrões
e critérios convencionais de “bom gosto”, apresenta uma ruptura
no estilo da autora com esses padrões, correspondendo à
maior parte da obra derradeira de Clarice. Essa fase compreende
as obras realizadas após o golpe militar de 64, e nelas (ou
na maior parte delas) percebe-se uma certa desilusão da autora
em relação à literatura, ou pelo menos em relação
àquela que se considera a “grande literatura”, a qual Clarice
renega, afirmando literalmente em várias passagens de sua
obra desse período, além de fazê-lo na própria
configuração dessas obras, nas quais pratica uma literatura
“antiestética”, o que se observa em livros como A hora
da estrela e A via crucis do corpo, em que a opção
deliberada pelo feio constitui em si mesmo um valor estético.
Essa opção
de Clarice por uma literatura de “mau gosto”, predominante nos seus
últimos escritos, constitui uma atitude de ordem estética
diretamente relacionada a uma postura da autora no campo político-ideológico,
ou seja, deve-se à reação da escritora em face
da realidade social brasileira, cada vez mais degradada. É
em função dessas circunstâncias que a autora
resolve tratar aberta e explicitamente certos temas que nos seus
livros anteriores só implicitamente eram sugeridos. Parece
que o contato direto da autora com a cruel realidade brasileira
despertou nela o sentimento e o desejo de fazer uma literatura abertamente
“social” e comprometida, denunciando - mas sem aderir a clichês
e sem proselitismo - as mazelas sociais do país, cada vez
mais agudas e evidentes, já difíceis de se ocultarem
em discursos hipócritas e numa literatura meramente ornamental.
Portanto, as circunstâncias do período pós-64
e seus desdobramentos atuaram de forma decisiva para essa nova atitude
de Clarice Lispector (Cf. ARÊAS, 1977).
Em outra passagem
deste trabalho sugeri que A hora estrela constitui de certo
modo uma síntese ou um ponto de confluência das diferentes
tendências da escrita de Clarice Lispector, tanto do ponto
de vista dos temas abordados como também dos aspectos estilísticos
da obra da autora. Isso a meu ver sugere que não se pode
estabelecer uma separação rígida entre as duas
fases da obra de Clarice, ou seja, não se pode separar sua
obra em duas fases ou tendências distintas e distantes, como
sendo uma literatura introspectiva e profunda, de um lado, e de
outro um realismo “cru” e “feroz”, traço da ficção
brasileira do final do século XX apontado por Pasta Jr. (2002).
Parece mais coerente afirmar que não há um corte profundo,
mas uma passagem na qual alguns elementos dos primeiros escritos
(mais fortes) permanecem nos últimos, embora atenuados, enquanto
que outros menos salientes nos primeiros são realçados
nos últimos, havendo uma espécie de contaminação
entre ambos, como observa Vilma Arêas:
A contaminação significa
que freqüentemente os contos escritos com as “pontas dos
dedos” se organizam em estreita relação com os textos
das entranhas, obedecendo apenas a uma espécie de variação
modal, que se realiza às vezes através da paródia,
às vezes pela ênfase ou depuração de
um tema ou ainda pelo contraste mais brutal no interior do registro
tragicômico, tensão estrutural de grande parte dos
escritos de Clarice (p. 2-3).
Pois bem, A hora
da estrela é a obra de Clarice que melhor articula o
encontro das várias pontas da sua ficção, pois
nesse livro está o problema da representação
e a impotência da linguagem para comunicar a “essência
da coisa”; a dificuldade do sujeito de uma classe para falar do
outro, da outra classe, e portanto a dificuldade de compreendê-lo;
o problema da fome e da miséria, das desigualdades sociais
e suas conseqüências, além de uma outra questão
sutil e complexa, para a qual poucos artistas atentavam: a relação
do escritor e da literatura com o mercado e com a indústria
cultural. Há, portanto, um conjunto de temas complexos e
importantes nesse pequeno livro, aparentemente tão simples.
A questão
da representação, ou mais precisamente da representação
do elemento nacional popular na literatura é um ponto importante
de A hora da estrela, sobre o qual o narrador especula à
exaustão, não raro dando um tratamento cômico
à questão, em que não deixa de haver uma certa
ironia cínica, como sugere a passagem: “para falar da moça
tinha que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras
escuras por dormir pouco, só cochilar por pura exaustão
[...] além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso
para me por no nível da nordestina” (p. 19).
Ora, nessas condições
parece que qualquer tentativa de representação da
moça – e do pobre, portanto – soaria falsa e artificial,
o que não deixa de ser verdade até certo ponto, uma
vez que é quase impossível para o narrador descer
ao “nível da nordestina”. Mas a via encontrada por Clarice
para falar do pobre no seu confronto com o outro, ou seja, com as
classes favorecidas, atenua, se não elimina, a impressão
de artificialidade, na medida em que nivela as personagens pelo
viés da comicidade. A observação de Vilma Arêas
sobre a inspiração circense de Clarice em A hora
da estrela é interessante, mostrando que há uma
certa atenuação das diferenças (ou uma redução
da distância) que separam as personagens, uma vez que todos
no romance ganham uma configuração cômica, inclusive
o narrador, que também participa do jogo, “introduzindo em
linha dupla no texto o desempenho do regisseur, do mestre-de-cerimônias
circense” (ARÊAS, 1991, p. 152).
E não só
o narrador e Macabéa, mas todos os personagens do romance
apresentam traços cômicos, o que de certa forma os
rebaixa a ponto de ficarem não muito acima de Macabéa,
a estrela do espetáculo. Ao caracterizar a nordestina como
negatividade em pessoa, ou seja, a ausência total de qualidades
dignas de apreço, e colocando-a num mundo em que os demais
figurantes, apesar de mais espertos, não estão muito
acima dela, Clarice acaba por expor um mundo pobre, “feio e promíscuo”,
na medida em que o marco referencial é o vazio de Macabéa,
e todos ali participam dele, não havendo muita distância
entre eles e a moça.
Observando as figuras
que participam da história da nordestina e que são
determinantes na configuração do seu destino, vê-se
que de certo modo todos participam um pouco de sua miséria.
Se nenhum deles sofre das privações materiais, da
indigência mental e ingenuidade de Macabéa, isso não
é suficiente para eximi-los da condição de
explorados e marginalizados da sociedade, atuando meramente como
peças necessárias ao funcionamento do sistema: analfabetos
e semi-analfabetos alguns, ignorantes e alienados todos (incluindo-se
aí o médico). Em todos eles a ausência de qualquer
sentido edificante para a existência: nenhum um projeto, nenhum
um ideal além da bruta existência material, para a
qual só há um sentido: ganhar dinheiro, como sugerem
Olímpico e o médico.
Portanto, é
difícil apontar características desses personagens
que os possam distinguir substancialmente de Macabéa, sobressaindo-se
eles apenas por alguma esperteza, ausente nela. Olímpico
de Jesus é também nordestino, tendo vindo do sertão
da Paraíba para tentar a sorte melhor na capital carioca,
onde conquista a posição de “metalúrgico”,
da qual muito se orgulha. O que há em Olímpico que
o faz superior a Macabéa é a sua “esperteza” (no pior
sentido) e a ambição de conquistar poder e dinheiro,
o desejo de poder para mandar e explorar como era explorado. Diferentemente
de Macabéa, Olímpico “não era inocente coisa
alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo” e carregava
“dentro de si a semente do mal”, além de gostar de “se vingar”,
sendo que esse desejo de vingança é que “lhe dava
força de vida” (p. 47). Apesar de ter a semente do mal e
gostar de se vingar Olímpico não enxergava qualquer
horizonte a não ser o da exploração capitalista
da qual era vítima, pois seu desejo não é conquistar
uma alternativa à sociedade em que vive, mas simplesmente
passar da condição de explorado para a de explorador,
conquistar poder e dinheiro, não importando os meios que
tenha de usar para isso. Sabe-se pelo narrador que ele roubava e
“era um verdadeiro técnico em roubar” (p. 50), além
de que matar tinha feito dele “homem com letra maiúscula”.
Olímpico não tinha vergonha, era o que se chamava
no Nordeste de “cabra safado” (p. 46), e afirmava que um dia seria
deputado.
Assim, se Macabéa
não tem horizonte e mal consegue esboçar umas perguntas
para as quais “não há resposta”, Olímpico tem
um horizonte em mira e este é o horizonte da classe dominante.
É por isso que ele “Era mais passível de salvação
do que Macabéa, pois não fora à toa que matara
um homem” (p.57). Portanto, o universo de A hora da estrela
caracteriza-se pela exploração, em que só há
possibilidade de salvação para quem está disposto
a lançar mão dos meios mais deploráveis para
alcançar uma posição confortável e “respeitável”.
As “boas maneiras”, a educação e o respeito pelo outro
estão excluídos, subsistindo apenas na mente vazia
de Macabéa, que se vangloria de ter recebido a melhor herança,
“as boas maneiras” que a tia lhe ensinara, no que é prontamente
reprovada por Olímpico, para quem “a melhor herança
é mesmo muito dinheiro” (p. 45).
Outro personagem
que se opõe a Macabéa é Glória, sua
colega de trabalho que lhe toma o namorado (se é que se possa
chamar a relação de Olímpico e Macabéa
de namoro). Também se opõe a Macabéa pelo fato
de ser mais “inteligente” e mais ágil no trabalho, além
de seus dotes físicos serem reconhecidamente superiores aos
da nordestina. Glória encarna a típica mulata sensual
e namoradeira, cujos atributos despertam o desejo erótico
dos homens. Não é por outra razão que Olímpico
logo se apaixona quando a ver, deixando Macabéa que, longe
de ter os atributos físicos e a sensualidade de Glória,
“é um cabelo na sopa”, pois “não dá vontade
de comer” (p. 60). Diferentemente,
Glória possuía no
sangue um bom vinho português e também era amaneirada
no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido.
Apesar de branca, tinha em si a força da mulatice. Oxigenava
em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas raízes estavam
sempre pretas. Mas mesmo oxigenada ela era loura, o que significava
um degrau a mais para Olímpico. Além de ter uma
grande vantagem que nordestino não podia desprezar [...]
O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambicionado clã
do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar
de feia, Glória era bem alimentada. E isso fazia dela material
de boa qualidade (p. 59).
Como acontece em
boa parte da obra de Clarice, a crítica social aqui se realiza
pelo viés da sátira e do humor. A figura de Glória
descrita pelo narrador é bastante cômica e funciona
como paródia de certas convenções e discursos
estereotipados da cultura brasileira sobre a mulata, tida como símbolo
da sensualidade tropical e explorada exaustivamente pela indústria
do espetáculo dominante na sociedade de consumo. Glória
se enquadra nos moldes das convenções de uma ideologia
apologética da mestiçagem, que produz clichês
em torno de uma suposta superioridade da mulher mestiça brasileira,
cujas qualidades realçadas são principalmente as que
se relacionam com a sensualidade. Vemos que “Apesar de branca, tinha
a força da mulatice”, que numa sociedade de forte herança
escravista é uma qualidade que carrega certa ambivalência,
ora considerada como positiva, ora vista como negativa, de acordo
com situação. Inteligente e de uma percepção
agudíssima para o pormenor e o detalhe aparentemente insignificante,
Clarice não deixa de perceber o comportamento ambíguo
da sociedade brasileira em ralação a aspectos peculiares
como é o caso da questão racial. Ora, numa sociedade
marcada pela presença forte da raça negra, mas dominada
política e economicamente pelo elemento branco, as qualidades
do negro e do mestiço são avaliados de acordo com
as convenções estabelecidas pelos brancos, ou seja,
pela cultura dos grupos dominantes, sendo consideradas positivas
aquelas qualidades do negro ou do mestiço que satisfazem
os desejos do branco. Assim, no caso da mulher negra ou mestiça,
a sua qualidade mais celebrada é a sensualidade, característica
que tem deleitado o homem branco desde os remotos tempos da colonização.
Note-se que Glória, mesmo tendo os atributos físicos
que satisfazem os homens sedentos de erotismo, para convencer a
sociedade de que não era apenas uma mulata, precisava oxigenar
de “amarelo-ovo os cabelos crespos”, pois sabia que sua aparência
loura “significava um degrau a mais para Olímpico” e, claro,
para toda a sociedade.
A vantagem da aparência
física de Glória sobre Macabéa é gritante
e faz Olímpico trocar de partido. Mas ela tinha outra vantagem
que “nordestino não podia desprezar”, pois era carioca da
gema e pertencia ao “ambicionado clã do sul do país”.
Aqui a ironia clariceana concorre com toda a força a para
o efeito satírico do texto: Glória, empregada de uma
firma decadente, filha de um açougueiro e moradora de uma
pensão do subúrbio carioca ostenta orgulho pela sua
posição superior e por estar, dessa forma, mais próxima
da elite do país. O efeito disso é forte e imediato
sobre a mente de Olímpico. Retirante vindo Nordeste tangido
pela ameaça da fome, conquistar um lugar de metalúrgico
na capital carioca, namorar (ou, quem saberia, casar) com uma moça
loura, “carioca da gema” e filha de açougueiro, não
seria pouca coisa, sobretudo porque ele desejava a qualquer custo
subir para outras classes.
O cômico da
situação está também na forma como Olímpico
se impressiona pelas qualidades de Glória. A potência
física da moça faz lembrar ao nordestino a superioridade
dela em relação a Macabéa e a muitas nordestinas
suas conterrâneas: é que Glória jamais passara
fome: “Vendo-a, ele adivinhava que, apesar de feia, Glória
era bem alimentada”. O narrador realça ainda mais o ridículo
para a obtenção do efeito cômico da situação
quando Glória é comparada a um “material”, no pensamento
de Olímpico, que acreditava ser ela “material de boa qualidade”
por ser bem alimentada.
O cômico está
presente em todo o livro, alternando-se com o humor e a ironia,
quando não ocorrem simultaneamente. Sugeri anteriormente
que os demais personagens são flagradas em seu ridículo
quando se encontram com Macabéa. Uma dessas figuras, embora
não possa ser considerada propriamente uma personagem da
narrativa, uma vez que aparece apenas em uma ocasião da história,
é o médico. A situação desse médico
é também de extrema precariedade. Seu trabalho é
um faz de conta porque “ele era médico de pobres” e para
isso não se exigia muita dedicação nem preparo
para o exercício da medicina, conforme sugere o narrador:
Esse médico não tinha
objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro e
nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento
e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobres detestando
lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade
muito alta à qual também ele não pertencia.
Sabia que estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas
mas para pobre servia. O seu sonho era ter dinheiro para fazer
exatamente o que queria: nada. (p. 67-8).
A crítica
social de Clarice aqui é contundente, porém não
panfletária, equilíbrio necessário, mas nem
sempre fácil de alcançar por aqueles que enveredam
pelas trilhas da literatura socialmente “comprometida”. Sempre atenta
aos pormenores, a autora percebia com muita agudeza as contradições
e os senões que se escondem por trás das aparências
imediatas das circunstâncias sociais e humanas. Ao mesmo tempo
em que expõe a precária situação da
assistência médica destinada aos pobres, a autora mostra
alguns elementos mediadores do processo, situados entre o sistema
propriamente dito, ou o poder responsável pelo serviço,
e a qualidade desse serviço que chega aos pobres, ao mostrar
o comportamento do médico, que ainda sendo vítima
é também sujeito do processo e responsável
por parte de seus resultados. O narrador informa que o médico
não tinha objetivo nenhum na profissão e que o exercício
da medicina “era apenas para ganhar dinheiro”, resultando disso
o atendimento displicente dado a Macabéa (aos pobres). Trabalhava
insatisfeito porque “achava a pobreza uma coisa feia” e detestava
lidar com os pobres, rebotalho de “uma alta sociedade à qual
ele também não pertencia”, pela qual ele também
era explorado, daí sua frustração. Chama atenção
também o desleixo em relação à vida
profissional e a si mesmo, pois “sabia que estava desatualizado
na medicina”, mas isso não importava, pois trabalhava para
pobre e qualquer coisa servia. Sem amor à profissão
e sem respeito pela clientela que atendia, não se preocupava
com a formação profissional, pois seu único
desejo era ganhar muito dinheiro para poder fazer apenas o que queria,
ou seja, não fazer nada.
Ter muito dinheiro
para não fazer nada é o ideal de indivíduos
formados numa cultura que despreza o trabalho, própria de
sociedades de forte herança escravista, como é o caso
do Brasil, onde o trabalho era visto como algo aviltante, que não
era para os cidadãos de bem, mas para escravos. Clarice revela
traços de um capitalismo atrasado, no seio do qual se misturam
os elementos mais díspares: a ignorância, a pobreza
extrema convivendo lado a lado com a riqueza, a ambição
pelo dinheiro e o desprezo pelo trabalho honesto e persistente,
eis um quadro típico do capitalismo à brasileira,
que se configura trágica e comicamente em A hora da estrela,
obra que “oferece uma radiografia do modelo do capitalismo brasileiro”,
como observa Vilma Áreas (1995, p.83).
Mas além de
seu desprezo pelos pobres e pelo trabalho, outros traços
são apresentados de forma a tornar cômica a figura
do médico, rebaixando-o ao nível das demais personagens,
inclusive de Macabéa. É sobretudo pela caracterização
física que se produz a comicidade de sua figura: “O médico
muito gordo e suado tinha um tique nervoso que o fazia de quando
em quando ritmadamente repuxar os lábios. O resultado era
parecer que estava fazendo beicinho de bebê quando está
prestes a chorar” (p. 67).
Os defeitos físicos
são sempre potencialmente cômicos, sobretudo quando
resultam de alguma fraqueza espiritual ou “defeito moral”, conforme
nos mostra Bergson (1993) e Propp (1992). A obesidade por si mesma
pode ter um efeito cômico e sua comicidade é realçada
quando ela está relacionada à preguiça e ao
parasitismo, portanto a defeitos morais ou espirituais, lembrando
que para Bergson o cômico do ser humano é resultado
quase sempre de um defeito físico ou moral, ambos presentes
no médico que atende Macabéa.
A figura do médico
representa também o exemplo de um tipo de comicidade produzida
pela repetição de movimentos involuntários,
pois tinha um tique nervoso que o fazia “de quando em quando repuxar
os lábios”, resultando daí o extremo do ridículo,
pois parecia que estava fazendo “beicinho de bebê quando está
prestes a chorar”. Na cultura cristã a gula é considerada
um pecado, portanto um defeito moral do ser humano, e é potencialmente
cômica, pois o indivíduo guloso está sempre
sujeito a se expor e ser flagrado em situações ridículas.
Uma característica do médico é a gula, pois
embora o narrador não o diga explicitamente, sabemos disso
por suas próprias palavras, ao dizer a Macabéa que
sua enorme barriga é “resultado das boas macarronadas e de
muita cerveja”.
Há outro personagem
importante na história de Macabéa, a cartomante, ou
madama Carlota, que também apresenta traços cômicos,
embora o trágico da história esteja diretamente ligado
à sua pessoa, pois é ela que revela para o leitor
o destino trágico de Macabéa. A exemplo dos demais
personagens, o cômico de madama Carlota começa pela
sua caracterização física, sua aparência
produzida pela maquiagem: “madama Carlota era enxundiosa, pintava
a boquinha rechonchuda em vermelho vivo e punha nas faces obesas
duas rodelas de ruge brilhoso. Parecia um bonecão de louça
meio quebrado” (p. 72).
Como o tragicômico
é a base da estruturação de A hora da estrela,
ao lado de seus traços cômicos, como os demais personagens
a cartomante também revela aspectos da tragédia social
brasileira, como a prostituição, o charlatanismo e
a contravenção, que ela pratica sempre “perseguida
pela polícia”, mas “protegida por Jesus”, de quem ela se
vangloria de ser “fã”, confessando também ser “doidinha
por ele” (p. 73). A entrada em cena de madama Carlota revela outra
peculiaridade da sociedade brasileira, a frágil e tênue
fronteira que separa o legal do ilegal, a ordem da desordem, pois
a cartomante faz parte de um mundo não oficial e “proibido”,
cujas práticas, porém, embora oficialmente proibidas,
são tacitamente permitidas e convivem lado a lado e pacificamente
com o que se chama de vida oficial e legal. Portanto, embora pareça
à primeira vista a simples história de uma pobre moça
nordestina, A hora da estrela constitui, pelos vários elementos
que apresenta, uma encenação cômica da tragédia
brasileira.
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