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LAÇOS DE
FAMÍLIA
Texto de divulgação
feito pela editora Rocco.
A Clarice Lispector
se aplica, mais do que a nenhum outro escritor brasileiro, aquilo
que em si próprio detectava o escritor argentino Julio Cortázar,
como um estranhamento, "el sentimento de no estar del todo"
- a sensação de não pertencer, descrita por
Clarice: "Tenho certeza de que no berço a minha primeira
vontade foi de pertencer... de algum modo devia estar sentindo que
não pertencia a nada nem a ninguém... Quem sabe se
comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo
menos eu pertencia um pouco a mim mesma".
O desajustamento
crônico às pessoas, ao círculo social, às
correntes literárias, ao casamento, ao próprio amor
foi uma constante na vida da menina russa exilada que se transformou
numa das maiores expressões da literatura brasileira. Clarice
alternava sua produção de romances, crônicas,
livros infantis com contos. Nestes se mostrou uma mestra incomparável.
Laços de
família, publicado pela primeira vez em 1960, e reeditado
pela Rocco dentro do projeto que incluiu novo padrão gráfico
e revisão da obra de Clarice pela especialista em crítica
textual Marlene Gomes Mendes, é um tesouro da ourivesaria
literária. São treze contos, hoje tidos como clássicos.
Entre eles, os festejadíssimos Amor, O crime do
professor de Matemática, O búfalo e Feliz
aniversário, adaptado para a televisão por Ziembinsky.
Neles os personagens
são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora
do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. Clarice
cria situações onde uma revelação, que
desconstrói e ameaça a realidade, desvela a existência
e aponta para uma apreensão filosófica da vida. Em
Laços de família, Clarice aprofunda sua técnica
narrativa em uma abordagem quase fenomenológica.
Trata a solidão,
a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através
da rotina de dona-de-casa (Devaneio e embriaguez duma rapariga,
Amor, A imitação da rosa), do mergulho
trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca (Feliz
aniversário), da domesticação da natureza
mais selvagem das mulheres (Preciosidade, O búfalo),
ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, como
o drama do professor de Matemática diante do abandono e da
morte de um animal. São lições de vida na prosa
definitiva e transcendente de uma sacerdotisa da nossa literatura.
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