|
A VIDA ÍNTIMA
DE LAURA
Meire Oliveira Silva
Laura é muito
"burrinha", mas infinitamente bondosa, "muito da
simples" e também a "galinha mais simpática
que já vi". No caso, quem disse que viu foi Clarice
Lispector, que é identificada na história como um
narrador que tudo observa de um de ângulo central, de onde
tudo é mostrado diretamente. Assim como todos os romances
ou contos de sua autoria.
Laura é uma galinha casada com o galo Luís. Ambos
são muito vistosos e simpáticos, mas não cheiram
bem. Laura põe muitos ovos, enquanto Luís canta muito
bem e gosta muito dela. Ela é uma galinha muito bonita por
dentro apesar de ter um pescoço muito feio, mas o que realmente
importa são seus "pensamentozinhos e sentimentozinhos".
Ela tem muito medo de que um dia a matem e por isso "sai cacarejando
feito uma doida": "Ela cacareja assim: Não me matem!
Não me matem!"
Mas não a matam porque ela põe muitos ovos. Certa
vez, ela pôs um ovo, do qual nasceu um pintinho muito amarelo
- chamado Hermany - e que logo já pegou a mania da mãe:
comer, comer, comer! A galinha Laura também se protegia à
sua maneira: fazia um barulhão cacarejando. Os galos, logo
incentivados berram, afugentado o ladrão pela barulheira
que acordava a casa inteira, que logo acendia todas as suas luzes.
Outro dia a cozinheira disse à Dona Luísa - dona de
Laura - que a galinha já estava ficando velha e não
botando mais tantos ovos e que era melhor ela virar comida: galinha
ao molho pardo. Mas Dona Luísa não tinha coragem de
comer Laura de jeito nenhum.
Laura também chegou a conhecer Xext - um jupteriano - já
que era uma galinha muito simpática. Conversaram e ela acabou
por lhe fazer um pedido: disse que se seu destino fosse virar comida,
queria é ser comida por Pelé. Xext foi embora e Laura
continuou com sua vidinha muito gostosa.
Era uma vez os "pensamentozinhos" de uma galinha "muito
burrinha"
Numa linguagem que
cria um clima todo especial de cumplicidade e aconchego Clarice
Lispector narra o dia-a-dia de Laura, uma galinha "muito burrinha",
de pescoço muito feio mas com uma bondade enorme que guarda
"sentimentozinhos e pensamentozinhos". Clarice já
abre o livro com a explicação do que viria a ser o
significado do termo "vida íntima" do título
do livro, depois ao dizer que vai contar a vida íntima de
Laura. E seguido de uma adivinhação muito gostosa:
"Agora adivinhem quem
é Laura. Dou-lhe um beijo na testa se adivinhar".
Logo após
revela que o nome Laura pertence a uma galinha, deixando o clima
mais descontraído e envolvente. Palco perfeito para o desenrolar
das aventuras de Laura. Com várias passagens em que dialoga
com o leitor e faz suas próprias observações,
a história se aproxima muito mais da contada oralmente -
usando argumentos e recursos que estão muito presentes na
linguagem falada - do que da história que é simplesmente
escrita.
Laura, apesar de uma galinha, nessa história ela "cacareja
assim: não me matem! Não me matem!". Além
de viver sempre apressadinha e "basta-lhe cacarejar um bate-papo
sem fim com as outras galinhas". Além destes, outros
inúmeros exemplos de personificações e tratamento
desses animais fabulosos como seres humanos estão presentes
no texto inteiro. Inclusive os efeitos moralizantes, típicos
de fábulas, como amar alguém pelo que é interiormente,
mas pelo seu exterior. Amar o que a pessoa representa e não
somente aparenta ser. Como na passagem:
Mas elas (as galinhas)
não desprezam a carijó por ser de outra raça.
Elas até parecem saber que para Deus não existem
essas bobagens de raça melhor ou pior.
Mas em outros momentos
da narrativa, parece que a narradora brinca um pouco com o fato
de esta ser uma história infantil moderna, e que nada tem
a ver com contos de fadas. Como na passagem, que começa por
"Era uma bela noite feliz..." que em seguida é
arrematada por "Bela coisa nenhuma! Porque foi terrível!
Um ladrão de galinhas tentou roubar Laura..." E a narrativa
continua normalmente depois dessa irônica frase parodiando
os contos de fadas tão conhecidos pelas crianças.
Outra característica é a recorrência sempre
ao nome Laura e aos pronomes que a ela se referem, juntamente com
as várias paronomásias e aliterações,
como figuras de expressão, que ao brincar com os sons produzem
a beleza interior e fundamental que condiciona o texto. Em outras
passagens, é comum o nivelamento entre ser humano e animal,
como por exemplo quando o momento que enquanto as galinhas cacarejavam,
o galo Luís "berrava", entre outras muitas passagens
desse tipo.
O universo íntimo de Laura também parece ser bem trabalhado,
já que ela quase não age e todas a narrativa se origina
em torno de seus "pensamentozinhos". Suas ações
traduzem suas aspirações:
Laura, toda satisfeita,
esfregou suas penas com o bico para alisar - igual como a gente
penteia os cabelos. Porque ela é muito vaidosa e gosta
de estar bem arrumada.
Tudo se desenvolve
a partir dos olhos de Laura que tudo observava: adultos, galinhas
e, até mesmo, um visitante de Júpiter. Visita essa
que mostra como Laura apesar 'de pensar que pensava', ela pensava
mesmo. Seus "pensamentozinhos" eram tão rápidos
quanto o narizinho do coelho Joãozinho. O habitante também
só a "escolhera" em sua imaginação,
porque ela pensava, ou como Clarice descreve, porque "não
era quadrada." Laura também esperava por um dia, se
seu destino fosse virar comida, que fosse comida pelo menos por
Pelé. E aqui é possível também, estabelecer
relação entre Laura e a galinha do conto Uma galinha,
do livro Laços de família, que por botar muitos
ovos quase não é morta.
|