|
A HORA DA ESTRELA
Célia A. N. Passoni, Fuvest 2003
Último volume
publicado pela escritora, data de 1977, ano em que morreu. De certa
forma condensa as experiências até então realizadas
pela autora, ao revolver sua principal preocupação
- o ato de escrever.
Narrado em 1º pessoa por Rodrigo S. M., escritor que pretende
contar, sem requintes e brilho de estrelas, a história de
uma nordestina:
Relato antigo,
este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos
à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei
contra meus hábitos uma história com começo,
meio e gran finale seguido de silêncio e de chuva caindo.
Através das
constantes interferências do narrador, o leitor vai conhecendo
quão difícil é o relacionamento dele (como
autor) com o ato da escritura e, ao mesmo tempo, desvenda seu envolvimento
com a personagem que vai gradativamente compondo. Nesse sentido
pode-se perceber que a composição da obra serve para
amarrar dois pontos fundamentais da ficção: a criação
da personagem e a psicologia da composição. Outro
ponto a ser destacado é o da linguagem que, na obra adquire
uma presença constante, porque é motivo de insistentes
investigações por parte do narrador, chegando às
raias da personificação, uma vez que a linguagem também
enfrenta a "crise" da criação.
Sim, mas não
esquecer que para escrever não-importa-o-quê o meu
material básico é a palavra. Assim é que
esta história será feita de palavras que se agrupam
em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa
palavras e frases. É claro que, como todo escritor, tenho
a tentação de usar termos suculentos: conheço
adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão
esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação,
já que palavra é ação, concordais?
Mas eu não vou enfeitar a palavra, pois se eu tocar no
pão da moça se tornará em ouro - e a jovem
(ela tem dezenove anos) e a jovem não poderia mordê-lo,
morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar
a sua delicada e vaga existência.
O narrador passa
a mergulhar no problema da comunicação, na esperança
de poder traduzir com palavras a historia e combiná-la com
a discussão sobre a palavra e a criação.
Grito puro e sem
pedir esmola. Sei que há moças que vendem o corpo,
única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um
sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal
tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem
e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás
- descubro eu agora - também eu não faço
a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.
Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora
mulher pode lacrimejar piegas.
O posicionamento
do autor na investigação escrita combinado com a preocupação
de se auto-analisar traduz-se no profundo debate entre a finalidade
da criação e o veículo da comunicação
que é a linguagem. Por fim, ao investigar fragmentos da vida
da personagem, isto é, ao confeccionar a narrativa propriamente
dita, passando pela investigação dos fatos, a linguagem
passa a exercer seus domínios na vida social, indicando,
dentre os processos de criação, a interação
do elemento bruto (palavra), da lapidação artística
(autor) e da transposição social (vida da personagem).
Nesse sentido, é possível verificar o entrecruzamento
dessas três investigações, todas elas modeladas
a partir de aprofundamento pscicofilosóficos que desencadeiam
a tessitura da trama do volume. O leitor que esperar um relato linear
ou uma história romanesca, dificilmente conseguirá
satisfazer seus anseios, pois o volume não é um relato
sentimental, nem procura dourar a realidade:
(...) nada cintilará,
trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza
desprezível por todos.
Então, por
que ler o volume? De certa forma, sua leitura induz a captar o sentido
mais profundo da linguagem e a tentar, através da forma,
o esboço de um conteúdo. Ler pela necessidade de ler,
da mesma forma que se encontra no escritor a necessidade de escrever:
Enquanto eu tiver perguntas e não houver
resposta continuarei a escrever. (...)
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar
invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita.
De onde, no entanto até sangue arfante de tão vivo
de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em
cubos de geléia trêmula. Será essa história
um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade
nela - e é claro que a história é verdadeira
embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo
porque todos nós somos um e quem não tem pobreza
de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe
faltar coisa mais preciosa que ouro - existe a quem falte o delicado
essencial.
Não raro,
o processo de produção da linguagem é associado
ao processo de produção musical. A composição
assume o aspecto da música e a nomenclatura torna-se a mesma.
(..) As palavras
são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais,
estalactites, rendas, música transfigurada de órgão.
Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida
e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com
brio. (...)
Esqueci de dizer
que tudo o que estou agora escrevendo é acompanhado pelo
rufar enfático de um tambor batido por um soldado. No instante
mesmo que eu começar a história - de súbito
cessará o tambor.
O Autor, a personagem,
uma história...
O narrador coloca dados sobre a história que pretende contar,
intercalando-os com suas preocupações metalingüísticas.
Com poucas palavras situa a narrativa no presente, mesmo porque,
segundo ele, não há outro tempo possível.
Quero acrescentar,
à guisa de informações sobre a jovem e sobre
mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente
é o dia de hoje e o dia de amanhã será um
hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
A criação,
no entanto, não flui com facilidade. Ela transcorre com esforço
descomunal, pois escrever é como "quebrar rochas".
Devagar, buscada nas entrelinhas, vai surgindo Macabéa, personagem
nordestina de Alagoas que, por algum motivo desconhecido, vem para
o Rio, "uma cidade toda feita contra ela". O narrador,
identificando-se com a personagem, envolve-se na narrativa, partilha
com sofreguidão o destino que vai traçando para ela,
e, culminando num processo de puro êxtase de criação,
acaba se tornando ele mesmo um personagem. Faz-se pobre como a personagem,
adquire olheiras, não se permite mais prazeres pequenos como
futebol, porque se identifica com a situação vivida
pela nordestina: escrevo por não ter nada a fazer no mundo:
sobrei e na há lugar para mim na terra dos homens.
A apresentação de Macabéa se dá aos
poucos, para que o leitor possa ter tempo para se acostumar com
toda a miséria da personagem:
Ela nascera com
maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê
com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente
examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-na
de "panos", diziam que vinham do fígado. Disfarçava
os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio
coitada era melhor que o pardacento. Ela era toda um pouco encardida
pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite
dormia de combinação. Uma colega de quarto não
sabia como avisar que seu cheiro era murrinhento. E como não
sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la.
Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas
tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém
olhava para ela na rua, ela era café frio.
Entre a singela e
a asquerosa, Macabéa aparece órfã, sendo criada
por uma tia que morre não sem antes lhe financiar um curso
de datilografia. Com rápidas pinceladas, o autor compõe
o quadro da infância miserável, de educação
precária.
Nascera inteiramente
raquítica, herança do sertão (...)
Com dois anos
de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão
de Alagoas. (...) Muito depois fora para Maceió com a tia
beata, única parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava
de coisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto
da cabeça (...)
Depois - ignora-se
por quê - tinham vindo para o Rio, o inacreditável
Rio de Janeiro, a tia lhe arranjara emprego, finalmente morrera
e ela, agora sozinha, morava numa vaga de quarto compartilhado
com mais quatro moças balconistas das Lojas Americanas.
É como datilógrafa
que a jovem sobrevive no Rio. Alimentava-se mal, cheirava mal, vivia
mal. Estava ameaçada de ser despedida do emprego.
Pequenas vaidades a sustentavam, pequenos prazeres serviam para
amolecer-lhe a vida.
(...) o luxo que
se dava era tomar um gole de café frio antes de dormir.
Pagava o luxo tendo azia ao acordar. (...)
Ela era calada
(por não ter o que dizer) mas gostava de ruídos.
Eram vida. (...)
Seu espaço
está circunscrito à Rua do Acre, onde mora, e à
Rua do Lavradio, onde trabalha, perto do porto que espia no movimento
domingueiro.
Vez por outra ia
para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias
e roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco. É
que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um
pouco é um encontro.
Tinha poucos "luxos":
uma vez por mês ia ao cinema, pintava de vermelho as unhas
das mãos, bebia refrigerante e café, comia cachorro-quente
e às vezes sanduíche de mortadela. Morava em pensão
miserável com quatro Marias no mesmo quarto. Macabéa
, de madrugada, ligava o rádio emprestado e invariavelmente
ouvia a Rádio Relógio, que dava "hora certa e
cultura" através de pequenas informações
do tipo almanaque intercaladas com anúncios comerciais; mesmo
porque, a moça adorava e colecionava recortes de anúncios.
O tom monótono da rádio casa-se perfeitamente com
a vida da datilógrafa que passa a se identificar com o locutor
na escassez de atrações, na falta de colorido, na
linguagem desnudada, no vocabulário pequeno. A Rádio
Relógio é tão-somente um traço exterior
semelhante ao esboço de poucas linhas traçado para
a personagem.
O mundo inteiro de Macabéa é totalmente fora dos padrões,
convertendo a personagem que está sendo criada num ser totalmente
inverossímil a conviver com um mundo real e devastador. O
narrador ao tecer as características da moça, vai-se
distanciando dos fatos que inicialmente constituem sua preocupação
primeira e passa a se identificar cada vez mais com a personagem,
tanto que acaba por receber as pressões que ele mesmo cria
para Macabéa, assumindo para si a morte que se aproxima da
personagem. Passando por lenta metamorfose, o narrador deixa transbordar
em si o sofrimento de sua "cria" que estranhamente principia
miúda, cresce e consegue uma autonomia na narrativa, fazendo
o narrador confessar que já não pode influir no destino
da personagem.
(Estou passando
por um pequeno inferno com esta história. Queiram os deuses
que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me
cobriria de lepra).
Nestes últimos
três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me tiro-me
de mim como quem tira uma roupa.
Despersonalizo-me
a ponto de adormecer (...)
Vou fazer o possível
para que ela não morra. Mas que vontade de adormecê-la
e de eu mesmo ir para a cama dormir.
Macabéa
por acaso vai morrer? Como posso saber?
No escritório
da datilógrafa também trabalha a oxigenada Glória,
mestiça de "bom vinho português e também
amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano
escondido". Glória termina por atrair as atenções
de Olímpico de Jesus, nome que ironicamente remete à
cultura pagã e à religiosidade cristã, num
contraponto entre gregos e romanos.
Olímpico de Jesus foi um breve-brevíssimo caso de
namoro de Macabéa. Ele é operário, metalúrgico,
com canino de ouro e tem uma louca paixão por discursos,
sonhando com dinheiro e querendo ser deputado por Paranaíba.
Passa como uma luz pela idéia de Macabéa que até
ela é alguém, uma datilografa com namorado metalúrgico,
que pode até se casar, embora ambos tenham problemas de comunicação.
Para Olímpico, trocar Macabéa por Glória foi
negócio de ocasião: a oxigenada tinha família,
comida na mesa, pai açougueiro e, para completar, era loura,
oxigenada, mas loura.
Macabéa confessa à colega de trabalho que gostaria
de ser Marylin Monroe e é com uma atriz que se parece na
última cena da narrativa, quando representa seu único
e grande papel, ao ser atropelada por um rico "Mercedes".
Antes de morrer, balbucia uma frase: "Quanto ao futuro",
pois a cartomante, consultada pouco antes, antecipara-lhe um futuro
em que seria amada por um rico e louro estrangeiro. O abraço
final, que ela mesma se dá ao assumir a posição
fetal para acomodar o corpo, representa a união do amor,
da vida a se extinguir e da morte. A morte dá a Macabéa
a oportunidade vital de reconhecer-se como ser humano consciente,
à espera do futuro.
Terá tido
ela saudade do futuro? Ouço a música antiga de palavras
e palavras, sim, é assim. Nesta hora exata macabéa
sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou,
queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso.
Estrela de mil pontas.
O sangue que Macabéa
vomitou saiu de sua boca como o batom dos lábios vermelhos
da estrela de cinema, estrela inatingível, sublime, assemelhando-se
à etérea vida da nordestina, tão breve como
um ponto-final.
|