Relatórios sobre o Fórum Preparatório Rio + 10, em Porto Alegre, realizado pelo Fórum Social Mundial
Um
mundo sustentável é possível!
Martin Dietrich Brauch
Parte 1 (28/01/2002) | Parte 2 (29/01/2002) | Parte 3 (30/01/2002)
O Fórum
Preparatório Rio + 10, que se realiza de 28 a 31 de janeiro em
Porto Alegre, mostra-se otimista, desde a sua frase-lema. Às
vésperas do II Fórum Social Mundial, o Governo do Estado do Rio
Grande do Sul, juntamente com associações brasileiras de ONGs
ambientais, realiza na capital gaúcha um debate sobre os
desafios à implementação da sustentabilidade. As resoluções
deste debate, além de apresentadas no II FSM, serão levadas à
próxima Cúpula da Terra, em setembro próximo, na cidade de
Johannesburgo, na África do Sul.
Já nas palavras de abertura do Fórum proferidas por Olívio
Dutra, governador do RS, apareceram severas críticas ao
neoliberalismo e ao modelo insustentável de desenvolvimento.
Dutra atribuiu especial importância à questão climática. Fez
críticas à matriz energética baseada na termoeletricidade por
que o governo federal tem optado, desde o início do risco de
apagão.
O grande contraste entre a grande soma destinada pela
Organização das Nações Unidas para a guerra e os escassos
recursos financeiros para programas ambientais, citado por um dos
componentes da primeira mesa de discussão, deixou claro que,
acima de tudo, falta vontade política para que o mundo atinja a
sustentabilidade.
No primeiro painel do Fórum, intitulado "Ética,
Globalização e Sustentabilidade", Pedro Ivo Batista,
representante da CUT, associou a crise do sistema capitalista
atual aos problemas ambientais, criticando o atual modelo de
produção, que não leva em conta o trabalho, o operário e os
recursos naturais gastos.
Segundo Batista, o sistema capitalista, através de sua
produção insustentável, deixou de ser civilizatório para
conduzir o planeta a uma crise ambiental. O homem precisa deixar
de ver a si próprio como o centro da natureza, integrando-se a
ela como pequena parte que realmente representa, sugeriu Batista.
A capacidade do homem de projetar não o coloca em posição
superior a outros seres - apenas dá a ele maior responsabilidade
de ação pela prevenção da natureza.
O experiente professor José Lutzenberger, presidente da
Fundação Gaia, propôs que a tecnologia deva ser mais
questionada. Não se deve, segundo o professor, confundir
ciência e tecnologia. A ciência, diálogo puro entre o homem e
o Grande Mistério, é amoral. A tecnologia, porém, usa a
ciência para produzir artefatos. E esse uso pode ser feito,
pelos tecnocratas dominadores da atualidade, para benefício de
poucos, como é o caso da manipulação genética de sementes,
citada por Lutzenberger, que obriga pequenos produtores a
tornarem-se dependentes das empresas de sementes. Assim, o
professor José Lutzenberger propõe não o fim da tecnologia,
mas a sua adaptação às reais necessidades do homem (e não dos
mercados!), em harmonia com o ambiente.
O educador Moacir Gadotti apontou, no seu espaço, um dos pontos
positivos desde a Rio 92. Segundo ele, a abertura e o interesse
de jovens em relação à questão ambiental no Brasil têm
aumentado nos últimos dez anos. Nunca deixando de lado a
importância da conscientização e da educação ambiental,
Gadotti enfatizou a necessidade da existência conjunta de
cidadania planetária, fim das injustiças sociais e
sustentabilidade. A globalização ideal, para Gadotti, associa
renda justa, cidadania e solidariedade.
O último expositor do painel, Frei Beto, apontou a ruptura dos
laços entre natureza-indivíduo como uma das piores
conseqüências dos tempos modernos. Além disso, traçou um
paralelo entre a colonização européia da época das caravelas
e o que chamou de globocolonização, atualmente. Apontou, enfim,
que para alcançar sustentabilidade é necessário mudar a
cultura atual, passando a valorizar mais a natureza e o próximo.
O valor de competitividade, bem presente nas relações sociais
atuais, deve ser substituído pela solidariedade, para que se
possa "cultivar o que temos no interior", conforme
afirmou.
No segundo painel, Comércio Internacional e Meio Ambiente,
Sérgio Schlesinger mostrou uma sustentabilidade igualada a
preservação ambiental, justiça social e acesso aos recursos
naturais.
Schlesinger garantiu que não há livre comércio sem impactos
ambientais. Citou o exemplo da ALCA, em que os EUA têm interesse
em projetos de sustentabilidade, porque têm a tecnologia para
isso. Os outros países, porém, não poderão acompanhar essa
adaptação sustentável, ficando em desvantagem. A realidade,
segundo Schlesinger, é que o interesse de fortalecer a
exportação vêm antes da preocupação ambiental. O expositor
aconselhou, para que o comércio internacional seja sustentável,
que primeiro seja alcançada, nacionalmente, uma produção
sustentável.
O espanhol Joan Martinez Allier, coordenador do programa de
doutorado em Ciências Ambientais da Universidade Autônoma de
Barcelona, falou de dívida ecológica, incluindo a mudança
climática nessa dívida.
Segundo Allier, a dívida dos países pobres para com os países
ricos é pagável, tendo-se em vista a dívida que os países
desenvolvidos contraíram, liberando gases tóxicos e de efeito
estufa nos países em vias desenvolvimento, praticando
biopirataria (apropriação gratuita e violenta do saber dos
indígenas) e explorando riquezas naturais. Tudo isso tem valor
monetariamente incalculável e muito maior que a dívida externa
dos países explorados.
Por fim, para amanhã (29/01), há grandes expectativas! Pela
manhã, haverá o polêmico e esperado painel Mudanças
Climáticas, grande centro de atenções das reuniões do Fórum
Preparatório Rio + 10. Além disso, os painéis
"Conservação da Biodiversidade, Bioética e
Biotecnologia" e "Gestão das Águas". Até breve!
Parte 2 (29/01/2002) (Voltar para cima)
É chegado o dia do Fórum
Preparatório Rio + 10 ao qual todas as atenções estavam
voltadas. No seu segundo dia, o debate em Porto Alegre foi
direcionado a um dos temas ambientais mais importantes da
atualidade: as mudanças climáticas globais causadas pelo efeito
estufa. Além disso, a biodiversidade, a bioética, a
biotecnologia e as águas foram tema do Fórum no decorrer do
dia.
O primeiro expositor do painel "Mudanças Climáticas",
professor Emílio La Rovere, já representou, com sua brilhante
apresentação, grande parte do valor e da produtividade da
jornada de discussões. O professor da UFRJ apresentou seu
trabalho "Como os países em desenvolvimento podem
participar em acordos internacionais", apresentado em
workshop na cidade dinamarquesa de Copenhague, em dezembro do ano
passado. La Rovere garantiu que a participação nos acordos que
discutem a mudança climática oferece opções de crescimento
econômico aos países, mesmo que ultimamente sejam apontados
apenas os problemas causados pelo fenômeno do efeito estufa.
A proposta do professor La Rovere é de que se possa identificar
a maneira como programas de desenvolvimento nacional podem levar
a reduções concretas de gases de efeito estufa, para que, a
partir disso, aproveite-se o potencial da luta contra a mudança
climática para obter crescimento econômico e reforçar a
sustentabilidade. La Rovere acredita na importância das
agências nacionais reguladoras, como a ANP e a ANEEL, na
promoção de uma reestruturação do sistema energético.
Criticando o modelo atual de produção de energia adotado pelo
governo federal, com a construção de usinas termoelétricas, o
professor Emilio incentivou as fontes alternativas de energia. E
mais: recomendou e comprovou a eficiência ambiental do
pró-álcool, que, no seu auge, em 1990, conseguiu promover uma
economia anual de 10 milhões de toneladas de carbono, em
emissões que totalizavam 55 milhões de toneladas de carbono. La
Rovere ainda afirmou que, enquanto vários países buscam a
inserção do álcool como fonte renovável de energia, o Brasil
anda na contramão, ao abandonar este que poderia ser um modelo
de sustentabilidade.
Os trabalhos locais dos municípios e estados em prol do
desenvolvimento sustentável também foram apoiados pelo
professor da universidade carioca. Deve-se, segundo ele, melhorar
localmente a qualidade de vida. Atitudes como a luta contra a
poluição atmosférica através da inspeção de veículos de
transporte e da redução de emissões dos carros, além de
contribuir para a maior pureza do ar nas cidades, ajuda na
redução das emissões de gases que provocam efeito estufa.
Emilio La Rovere falou ainda sobre o mercado de carbono que se
cria com a breve ratificação do Protocolo de Quioto, mas deixa
claro que mais importante que o benefício financeiro é o
desenvolvimento sustentável que esse mercado poderá trazer ao
Brasil. Ele indicou também as bases que deverão ser observadas
na implantação de projetos, para que reduzam as emissões de
gases de efeito estufa e contribuam para a sustentabilidade: os
projetos devem gerar empregos, melhorar a distribuição de
renda, substituir importações e ajudar na sustentabilidade das
finanças públicas, reduzindo despesas.
É claro que não foram deixados de lado os problemas desse
mercado. La Rovere apontou a dúvida que ainda existe sobre a
porcentagem do lucro dos certificados de carbono que ficará com
o país e da porcentagem que pertencerá aos investidores
internacionais. Além disso, disse que deverá haver
fiscalização de órgãos nacionais e internacionais competentes
para que haja sustentabilidade tecnológica, ou seja, para que a
tecnologia trazida para países em vias de desenvolvimento não
seja obsoleta, ferro velho europeu ou norte-americano. Enfim, ele
defendeu não uma "xenofobia de tecnologia", conforme
disse, mas inovação e disseminação com responsabilidade, sem
trapaças.
O professor La Rovere encerrou, afinal, defendendo uma
implementação ainda mais intensa e regionalizada do Fórum
Brasileiro de Mudanças Climáticas, para que a sociedade civil
brasileira possa envolver-se cada vez mais na discussão das
questões climáticas, tornando-se parte ativa ao auxiliar a
tomada de decisões.
Numa apresentação repleta de números e informações
completíssimas, Simon Retallak, editor da revista The Ecologist,
mostrou a grande importância do problema da mudança climática.
Os resultados divulgados no último relatório do Painel
Intergovernamental sobre Mudança Climática não poderiam mesmo
ter deixado de ser divulgados por Retallak: mais chuva, mais
enchentes, mais temporais, mais furacões, maiores temperaturas,
mortes, gelo polar derretendo, falta d'água, crise na saúde
humana - enfim, um caos como não conhecemos e detestaríamos
conhecer.
Simon reconheceu que tudo seria uma decepção, mas somente se
nada pudéssemos fazer. Ele garantiu que há tecnologias para
novas fontes de energia e disse desejar que o mundo esteja livre
dos combustíveis fósseis em, no máximo, 50 anos. Afirmou que
há quem diga que o hidrogênio há de firmar-se como líder nos
combustíveis, superando a secular supremacia do petróleo. O que
falta, é claro, é vontade política. Como bem se sabe, nem
mesmo os míseros 5,2% de redução foram alcançados, que se
dirá dos 60% que são necessários? Aliás, Simon traz números
bem interessantes sobre a falha ao alcançar a redução de 5,2%:
Estados Unidos da América, Japão, Canadá, Austrália e a
maioria dos países europeus experimentam um aumento médio de
11% em suas emissões anuais.
O editor da revista The Ecologist admitiu que o acordo de Quioto
não será suficiente, mas aposta nele como um início. Criticou
o governo de Bush e de outros países que usam seu poder para
boicotar o Protocolo e sugeriu uma redução máxima, de maneira
que se possa reaproximar a concentração de gases estufa aos
seus níveis pré- industriais. Simon Retallak disse que não se
podem esperar mais dez anos para resolver o problema e,
encerrando, fez uma relação interessante entre a economia
baseada no petróleo e a manutenção financeira dos movimentos
internacionais de terrorismo.
A mudança climática foi a questão de maior dificuldade de
implementação desde a Rio 92 e especialmente a partir do
governo de Bush, conforme afirmou em sua apresentação o
Secretário Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul,
Cláudio Langone. Ele apontou a desigualdade do mundo atual, com
seus abismos sociais e sua dinâmica urbana insustentável,
condições que não podem ser esquecidas na busca pela
sustentabilidade. Sugeriu uma mudança radical no sistema de
produção e consumo.
Cláudio Langone mostrou seu medo em relação à falta de
envolvimento dos EUA na questão do clima. Ele acha que o
isolamento, a partir dos ataques terroristas de 11 de setembro de
2001, do maior responsável por emissões de gases estufa, que
discute ainda menos a questão, tanto nacional, quanto
internacionalmente, pode levar a uma derrota política na Rio +
10, ou a uma frustração semelhante à das conferências da Haia
e de Durban. Ele teme, especialmente, que a sociedade dos EUA
continue a voltar todas as suas atenções para o terrorismo e
deixe de lado a problemática do clima, que necessita com
urgência de ações para ser revertida.
Além de sugerir um "IPTU planetário", composto de
organização e fundo financeiro de políticas públicas para
investimentos na reversão das mudanças climáticas, o
secretário Langone apoiou, como o colega La Rovere, o Fórum
Brasileiro de Mudanças Climáticas, lembrando que até mesmo a
implantação de fóruns estaduais seria necessária para um
envolvimento social mais intensivo.
Olivier Deleuze, belga que coordenou as atividades da União
Européia na conferência do clima em Bonn, também deixou para
os participantes do Fórum Preparatório Rio + 10 um pouco de
suas experiências. Deleuze acredita que o grande desafio é
atrair os países-chave, como EUA, Rússia e Japão, para que o
Protocolo de Quioto entre logo em vigor, com a ajuda da
ratificação, em bloco, da União Européia, antes mesmo da
conferência de Johannesburgo.
O belga também acredita que a punição para os países que não
alcançarem seus objetivos de redução diante de Quioto (não
poder usar os mecanismos de trocas de emissões estabelecidos no
Protocolo) é justa e eficaz. Além disso, sugeriu que os países
em desenvolvimento assumam o mais brevemente possível um
compromisso de redução, pois suas emissões, em 2020, terão
mesma importância do que as dos países desenvolvidos.
Depois da apresentação de Deleuze, último expositor do painel
"Mudanças Climáticas", um manifesto de boicote, com
furor, a produtos "made in USA" foi anunciado. ONGs
brasileiras, especialmente gaúchas, criticaram a economia
norte-americana, baseada em combustíveis fósseis, indústrias
poluentes, imperialismo, dívidas ecológicas, prepotência e
desprezo à natureza. Essas ONGs listaram ainda, no manifesto,
uma lista de produtos e serviços que devem ser evitados, em
sinal de protesto: GM, Ford, McDonalds, Esso, TEXACO, Coca Cola,
Pepsi Cola, American Airlines, entre outros.
No painel da tarde, de nome "Conservação da
Biodiversidade, Bioética e Biotecnologia", a senadora
Marina Silva, do PT do Acre, defendeu a importância para o
modelo ocidental das comunidades tradicionais na conservação da
biodiversidade brasileira. Citando exemplos de experiências de
sua vida, mostrou como é possível a existência de uma
sociedade sustentável que cresça economicamente. Muriel
Saragoussi, da Fundação Vitória Amazônia, reforçou mais uma
vez a idéia de que o grande problema é o modelo de
desenvolvimento adotado nas civilizações ocidentais, que deve
ser mudado para que se resolvam as crises ambientais.
Muriel também demonstrou os avanços alcançados desde a Rio 92
na Convenção da Biodiversidade então adotada. José Hermeto
Hoffmann, Secretário Estadual de Agricultura e Abastecimento do
Rio Grande do Sul, apontou a necessidade de um novo modelo de
agricultura, para que mais pessoas sejam atraídas ao campo e que
nele as atividades sejam realizadas com sustentabilidade.
Hoffmann citou que 160.000 pessoas migram do campo para a cidade
a cada dia, em termos globais, o que mostra um distanciamento da
cultura agrícola sustentável.
O painel "Gestão das Águas" contou com exposições
de Alcides Faria, da Coalizão Rios Vivos, Volney Zanardi Jr.,
diretor do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria
Estadual de Meio Ambiente gaúcha, e Dieter Wartchow,
Diretor-Presidente da CORSAN, empresa estadual gaúcha que
gerencia os recursos hídricos. Os expositores demonstraram a já
evidente necessidade de preservação dos recursos hídricos e,
mais do que isto, maneiras sustentáveis através de que se pode
alcançar um gerenciamento justo desses recursos.
No terceiro e último dia (30/01) do Fórum Preparatório Rio +
10, em Porto Alegre, haverá o painel "Meio Ambiente,
Pobreza e Cidades Sustentáveis", depois do qual se
realizará a Plenária Final, que deve reunir as opiniões gerais
para a elaboração de uma resolução final dos debates.
Parte 3 (30/01/2002) (Voltar para cima)
No terceiro e último
dia do Fórum Preparatório Rio + 10, foram promovidas
discussões sobre a relação entre as cidades, a urbanização e
a sustentabilidade planetária, que é o principal alvo de
ecologistas e da conferência que se realizará em Johannesburgo.
Na plenária final, ocorrida durante a tarde, foram expostas as
considerações finais dos representantes da organização do
Fórum, fazendo-se, assim, um encerramento das atividades do
fórum, mas não da luta ambiental.
No painel "Meio Ambiente, Pobreza e Cidades
Sustentáveis", a arquiteta e professora da USP Ermínia
Maricato explicou um pouco da situação atual dos projetos
urbanísticos no Brasil e no resto da América. A professora
garantiu que o problema da ocupação irregular, especialmente em
nossas conhecidas favelas, em áreas públicas e de proteção
ambiental, como à beira de mananciais, não se dá devido à
falta de planos urbanísticos ou de leis rigorosas. Ela admite
que há realmente uma necessidade de leis mais adequadas, mas
afirma que o problema maior é a falta de cumprimento das leis
existentes e a falta de fiscalização. Ermínia criticou as
políticas de urbanização, que são feitas por pessoas bem
formadas academicamente, mas que não conhecem a realidade do
espaço urbano brasileiro, importando, muitas vezes, idéias
européias que nunca se poderão adaptar a essa realidade. Essas
leis de gabinete, segundo Ermínia, arbitrárias e inexperientes,
são o maior obstáculo para a construção de cidades
sustentáveis, já que é devido a elas é que passa a existir a
grande distância entre discurso e prática. Ermínia demonstrou,
ainda, falhas presentes em cidades apontadas como modelo de
urbanização sustentável, como Curitiba. Embora a cidade seja
sucesso de planejamento urbano no seu núcleo, há também áreas
de proteção ambiental ocupadas.
Outra constatação feita por Ermínia é a de que as invasões
nas cidades não comovem o público em geral na mesma escala do
que as invasões dos sem-terra na área rural, por exemplo.
Segundo a professora, as áreas de proteção ambiental acabam
sendo invadidas sem que a população reclame justamente pelo
fato de que elas não têm interesse para o mercado; afinal, são
protegidas pelo poder público. O problema é que o governo pouco
faz para evitar que os pobres, fugindo dos altos preços de
mercado da terra nos núcleos das cidades, instalem-se nessas
áreas protegidas, tornando-as verdes apenas no papel.
A professora Ermínia criticou a inversão dos valores
urbanísticos, onde exceção vira regra e vice-versa. Ela
observou que a urbanização é feita para uma minoria de maior
renda, enquanto a "regra" é a invasão, praticada
pelas maiorias de baixa renda. Essa invasão acaba tirando dos
mais pobres o direito à cidade, no qual se incluem o direito a
água tratada, saneamento básico, locais de recreação, enfim,
tudo o que é necessário para a qualidade de vida humana. A
conseqüência de toda essa inversão de regras e exceções
apontada pela professora Maricato é clara e visível nas cidades
brasileiras: enchentes, desmoronamentos, poluição de recursos
hídricos.
A solução apontada por Ermínia é a orientação dos
investimentos do poder público, para que se evite que os
recursos sejam apenas destinados ao sistema viário, valorizando
em especial o transporte sobre rodas e de veículos individuais.
Além disso, é necessário que o patrimonialismo, ou seja, a
extrema valorização da propriedade, seja evitado, de maneira
que a terra tenha valor de uso, e não de troca, deixando de
servir apenas para enriquecer poucos. Ermínia também aponta
como solução um mais profundo conhecimento da realidade, para
que se evitem os já citados problemas de implantação de
planejamentos inadequados à realidade brasileira. Áreas
públicas ocupadas ilegalmente devem ser regularizadas, sem, no
entanto, que o governo esqueça de urbanizá-las, dando direito
à cidade também aos pobres. Além disso, é necessário o
remanejamento de pessoas que ocupem áreas protegidas e,
finalmente, um controle urbanístico forte, para que sejam
aplicadas as leis já existentes. Segundo Ermínia, nos planos
diretores das cidades deve constar o saneamento ambiental,
visando sempre a vida digna e sustentável para os habitantes.
Ruben Pesci, do Foro Latino-Americano de Ciências Ambientais,
também criticou o atual valor de troca do solo, ao invés do
valor de uso. Crê que as repúblicas em crise são a principal
causa para a falta de controle sobre a urbanização e que, desde
1992, tem havido um forte regresso na questão. Criticou também
o modelo neoliberalista, que acentua exclusões sociais e impede
a sustentabilidade, e o vazio de conhecimento já denunciado por
Ermínia. Ruben apontou, como soluções, um aumento do poder da
opinião pública e uma série de medidas locais e nacionais a
serem implantadas pelos governos, ampliando a malha ferroviária,
incentivando os polos regionais como fim de aliviar a
superpopulação das metrópoles capitais, aumentando a
democracia republicana e participativa. Pesci também apoiou os
pequenos projetos regionais, em contraste aos grandes e caros
investimentos que abrangem áreas muito maiores, mas que não
contribuem tanto para a sustentabilidade.
Ricardo Sanchez, do Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente, compartilhou um pouco de suas experiências na América
Latina. Depois de também apontar vários dos problemas urbanos
atuais, destacando a questão do aumento da produção de lixo,
sugeriu uma mudança de paradigmas como única forma de
resolução dos problemas. É necessário, segundo Sanchez, que a
participação popular seja incentivada, que a dívida ecológica
(já citada em dias anteriores do Fórum Preparatório) seja
cobrada dos países desenvolvidos. Além de tudo, Sanchez
reafirmou a necessidade de mudar os padrões de produção de
energia, sempre tendo em vista a sustentabilidade.
Gerson Almeida, Secretário Municipal de Meio Ambiente do
município de Porto Alegre, apontou as relações entre o rápido
e desordenado crescimento das cidades, nos últimos anos, e a
disseminação da pobreza. Afirmou, como Ermínia, o crescimento
desproporcional da cidade informal, causando exclusão social,
ambiental e espacial, com falta de serviços públicos, de grande
maioria da população. Criticou a falta de discussão do enigma
do meio urbano, para o qual a ciência, segundo ele, tem pouco a
ofertar, e o controle dos interesses de mercado sobre a
construção e a organização das cidades. Gerson deixou claro
que, para alcançar sustentabilidade, é imprescindível a
gestão ambiental urbana, entendendo o papel importantíssimo da
cidade na integração do homem com a natureza. Segundo Gerson, a
interação da cidade com geosfera, biosfera, atmosfera e
hidrosfera deve ser melhor estudada.
Na plenária final, depois do lançamento da página na internet
do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio
Ambiente (www.ongsbrasil.org), houve os últimos pronunciamentos
de representantes dos governos de Porto Alegre e do Rio Grande do
Sul, além das organizações não-governamentais realizadoras do
evento. A Rio + 10, conforme afirmaram, não deve ser apenas uma
revisão da Rio 92. Deve também apresentar novos compromissos
com o meio ambiente. Foi apontada a importância da integração
entre o Fórum Social Mundial e o Fórum Preparatório Rio + 10,
representando a união da resolução dos problemas ambientais e
também sociais, para a construção do "novo mundo
possível" prometido pelo FSM. Esse novo mundo possível
deve ser construído com a combinação de indignação com os
problemas atuais e de esperança de resolvê-los, conforme
afirmou o representante do governo do estado do RS, secretário
Claudio Langone.
Em seguida, a senadora Marina Silva foi convidada a ler o
Manifesto "Um Mundo Sustentável é Possível",
resultado final das reuniões e dos painéis do Fórum
Preparatório Rio + 10. Comovida, a senadora disse que seus
problemas neurológicos, devidos a uma contaminação com
mercúrio, atrapalham-na, muitas vezes, na hora da leitura -
mesmo que, na minha opinião, a leitura tenha saído muito bem...
A senadora explicou a comoção dizendo que o documento ficara
muito bom e traduzira, realmente, tudo o que fora discutido
durante o Fórum. O documento, enfim, critica o não-cumprimento
da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças
Climáticas, especialmente com o boicote norte-americano ao
protocolo de Quioto, a partir do governo Bush, que colocou a
economia nacional em primeiro lugar. Mais críticas foram feitas
ao modelo neoliberal adotado pelos países capitalistas. A
declaração rejeita a globalização visando apenas o lucro e
defende a luta ambiental unida à luta contra injustiças, com a
participação intensa do povo, não apenas dos governos. O
manifesto também rejeita as patentes que garantem monopólios de
patrimônios naturais a empresas, garantindo a soberania dos
povos sobre suas riquezas genéticas. O documento reconhece que
deve haver uma mudança nos modelos de urbanização e
industrialização para que se resolvam os problemas sociais e
ambientais. Finalmente, a carta lida pela senadora pede a
implementação da Agenda 21 para que haja uma humanidade justa e
um mundo sustentável.
Martin
Dietrich Brauch
Representante Jovem do Fórum Brasileiro de Mudanças
Climáticas no
Encontro Preparatório Rio + 10, em Porto Alegre.
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