Relatórios sobre o Fórum Preparatório Rio + 10, em Porto Alegre, realizado pelo Fórum Social Mundial

Um mundo sustentável é possível!
Martin Dietrich Brauch

Parte 1 (28/01/2002) | Parte 2 (29/01/2002) | Parte 3 (30/01/2002)

Parte 1 (28/01/2002)

O Fórum Preparatório Rio + 10, que se realiza de 28 a 31 de janeiro em Porto Alegre, mostra-se otimista, desde a sua frase-lema. Às vésperas do II Fórum Social Mundial, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, juntamente com associações brasileiras de ONGs ambientais, realiza na capital gaúcha um debate sobre os desafios à implementação da sustentabilidade. As resoluções deste debate, além de apresentadas no II FSM, serão levadas à próxima Cúpula da Terra, em setembro próximo, na cidade de Johannesburgo, na África do Sul.

Já nas palavras de abertura do Fórum proferidas por Olívio Dutra, governador do RS, apareceram severas críticas ao neoliberalismo e ao modelo insustentável de desenvolvimento. Dutra atribuiu especial importância à questão climática. Fez críticas à matriz energética baseada na termoeletricidade por que o governo federal tem optado, desde o início do risco de apagão.

O grande contraste entre a grande soma destinada pela Organização das Nações Unidas para a guerra e os escassos recursos financeiros para programas ambientais, citado por um dos componentes da primeira mesa de discussão, deixou claro que, acima de tudo, falta vontade política para que o mundo atinja a sustentabilidade.

No primeiro painel do Fórum, intitulado "Ética, Globalização e Sustentabilidade", Pedro Ivo Batista, representante da CUT, associou a crise do sistema capitalista atual aos problemas ambientais, criticando o atual modelo de produção, que não leva em conta o trabalho, o operário e os recursos naturais gastos.

Segundo Batista, o sistema capitalista, através de sua produção insustentável, deixou de ser civilizatório para conduzir o planeta a uma crise ambiental. O homem precisa deixar de ver a si próprio como o centro da natureza, integrando-se a ela como pequena parte que realmente representa, sugeriu Batista. A capacidade do homem de projetar não o coloca em posição superior a outros seres - apenas dá a ele maior responsabilidade de ação pela prevenção da natureza.

O experiente professor José Lutzenberger, presidente da Fundação Gaia, propôs que a tecnologia deva ser mais questionada. Não se deve, segundo o professor, confundir ciência e tecnologia. A ciência, diálogo puro entre o homem e o Grande Mistério, é amoral. A tecnologia, porém, usa a ciência para produzir artefatos. E esse uso pode ser feito, pelos tecnocratas dominadores da atualidade, para benefício de poucos, como é o caso da manipulação genética de sementes, citada por Lutzenberger, que obriga pequenos produtores a tornarem-se dependentes das empresas de sementes. Assim, o professor José Lutzenberger propõe não o fim da tecnologia, mas a sua adaptação às reais necessidades do homem (e não dos mercados!), em harmonia com o ambiente.

O educador Moacir Gadotti apontou, no seu espaço, um dos pontos positivos desde a Rio 92. Segundo ele, a abertura e o interesse de jovens em relação à questão ambiental no Brasil têm aumentado nos últimos dez anos. Nunca deixando de lado a importância da conscientização e da educação ambiental, Gadotti enfatizou a necessidade da existência conjunta de cidadania planetária, fim das injustiças sociais e sustentabilidade. A globalização ideal, para Gadotti, associa renda justa, cidadania e solidariedade.

O último expositor do painel, Frei Beto, apontou a ruptura dos laços entre natureza-indivíduo como uma das piores conseqüências dos tempos modernos. Além disso, traçou um paralelo entre a colonização européia da época das caravelas e o que chamou de globocolonização, atualmente. Apontou, enfim, que para alcançar sustentabilidade é necessário mudar a cultura atual, passando a valorizar mais a natureza e o próximo. O valor de competitividade, bem presente nas relações sociais atuais, deve ser substituído pela solidariedade, para que se possa "cultivar o que temos no interior", conforme afirmou.

No segundo painel, Comércio Internacional e Meio Ambiente, Sérgio Schlesinger mostrou uma sustentabilidade igualada a preservação ambiental, justiça social e acesso aos recursos naturais.

Schlesinger garantiu que não há livre comércio sem impactos ambientais. Citou o exemplo da ALCA, em que os EUA têm interesse em projetos de sustentabilidade, porque têm a tecnologia para isso. Os outros países, porém, não poderão acompanhar essa adaptação sustentável, ficando em desvantagem. A realidade, segundo Schlesinger, é que o interesse de fortalecer a exportação vêm antes da preocupação ambiental. O expositor aconselhou, para que o comércio internacional seja sustentável, que primeiro seja alcançada, nacionalmente, uma produção sustentável.

O espanhol Joan Martinez Allier, coordenador do programa de doutorado em Ciências Ambientais da Universidade Autônoma de Barcelona, falou de dívida ecológica, incluindo a mudança climática nessa dívida.

Segundo Allier, a dívida dos países pobres para com os países ricos é pagável, tendo-se em vista a dívida que os países desenvolvidos contraíram, liberando gases tóxicos e de efeito estufa nos países em vias desenvolvimento, praticando biopirataria (apropriação gratuita e violenta do saber dos indígenas) e explorando riquezas naturais. Tudo isso tem valor monetariamente incalculável e muito maior que a dívida externa dos países explorados.

Por fim, para amanhã (29/01), há grandes expectativas! Pela manhã, haverá o polêmico e esperado painel Mudanças Climáticas, grande centro de atenções das reuniões do Fórum Preparatório Rio + 10. Além disso, os painéis "Conservação da Biodiversidade, Bioética e Biotecnologia" e "Gestão das Águas". Até breve!

Parte 2 (29/01/2002) (Voltar para cima)

É chegado o dia do Fórum Preparatório Rio + 10 ao qual todas as atenções estavam voltadas. No seu segundo dia, o debate em Porto Alegre foi direcionado a um dos temas ambientais mais importantes da atualidade: as mudanças climáticas globais causadas pelo efeito estufa. Além disso, a biodiversidade, a bioética, a biotecnologia e as águas foram tema do Fórum no decorrer do dia.

O primeiro expositor do painel "Mudanças Climáticas", professor Emílio La Rovere, já representou, com sua brilhante apresentação, grande parte do valor e da produtividade da jornada de discussões. O professor da UFRJ apresentou seu trabalho "Como os países em desenvolvimento podem participar em acordos internacionais", apresentado em workshop na cidade dinamarquesa de Copenhague, em dezembro do ano passado. La Rovere garantiu que a participação nos acordos que discutem a mudança climática oferece opções de crescimento econômico aos países, mesmo que ultimamente sejam apontados apenas os problemas causados pelo fenômeno do efeito estufa.

A proposta do professor La Rovere é de que se possa identificar a maneira como programas de desenvolvimento nacional podem levar a reduções concretas de gases de efeito estufa, para que, a partir disso, aproveite-se o potencial da luta contra a mudança climática para obter crescimento econômico e reforçar a sustentabilidade. La Rovere acredita na importância das agências nacionais reguladoras, como a ANP e a ANEEL, na promoção de uma reestruturação do sistema energético. Criticando o modelo atual de produção de energia adotado pelo governo federal, com a construção de usinas termoelétricas, o professor Emilio incentivou as fontes alternativas de energia. E mais: recomendou e comprovou a eficiência ambiental do pró-álcool, que, no seu auge, em 1990, conseguiu promover uma economia anual de 10 milhões de toneladas de carbono, em emissões que totalizavam 55 milhões de toneladas de carbono. La Rovere ainda afirmou que, enquanto vários países buscam a inserção do álcool como fonte renovável de energia, o Brasil anda na contramão, ao abandonar este que poderia ser um modelo de sustentabilidade.

Os trabalhos locais dos municípios e estados em prol do desenvolvimento sustentável também foram apoiados pelo professor da universidade carioca. Deve-se, segundo ele, melhorar localmente a qualidade de vida. Atitudes como a luta contra a poluição atmosférica através da inspeção de veículos de transporte e da redução de emissões dos carros, além de contribuir para a maior pureza do ar nas cidades, ajuda na redução das emissões de gases que provocam efeito estufa.

Emilio La Rovere falou ainda sobre o mercado de carbono que se cria com a breve ratificação do Protocolo de Quioto, mas deixa claro que mais importante que o benefício financeiro é o desenvolvimento sustentável que esse mercado poderá trazer ao Brasil. Ele indicou também as bases que deverão ser observadas na implantação de projetos, para que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e contribuam para a sustentabilidade: os projetos devem gerar empregos, melhorar a distribuição de renda, substituir importações e ajudar na sustentabilidade das finanças públicas, reduzindo despesas.

É claro que não foram deixados de lado os problemas desse mercado. La Rovere apontou a dúvida que ainda existe sobre a porcentagem do lucro dos certificados de carbono que ficará com o país e da porcentagem que pertencerá aos investidores internacionais. Além disso, disse que deverá haver fiscalização de órgãos nacionais e internacionais competentes para que haja sustentabilidade tecnológica, ou seja, para que a tecnologia trazida para países em vias de desenvolvimento não seja obsoleta, ferro velho europeu ou norte-americano. Enfim, ele defendeu não uma "xenofobia de tecnologia", conforme disse, mas inovação e disseminação com responsabilidade, sem trapaças.

O professor La Rovere encerrou, afinal, defendendo uma implementação ainda mais intensa e regionalizada do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, para que a sociedade civil brasileira possa envolver-se cada vez mais na discussão das questões climáticas, tornando-se parte ativa ao auxiliar a tomada de decisões.

Numa apresentação repleta de números e informações completíssimas, Simon Retallak, editor da revista The Ecologist, mostrou a grande importância do problema da mudança climática. Os resultados divulgados no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática não poderiam mesmo ter deixado de ser divulgados por Retallak: mais chuva, mais enchentes, mais temporais, mais furacões, maiores temperaturas, mortes, gelo polar derretendo, falta d'água, crise na saúde humana - enfim, um caos como não conhecemos e detestaríamos conhecer.

Simon reconheceu que tudo seria uma decepção, mas somente se nada pudéssemos fazer. Ele garantiu que há tecnologias para novas fontes de energia e disse desejar que o mundo esteja livre dos combustíveis fósseis em, no máximo, 50 anos. Afirmou que há quem diga que o hidrogênio há de firmar-se como líder nos combustíveis, superando a secular supremacia do petróleo. O que falta, é claro, é vontade política. Como bem se sabe, nem mesmo os míseros 5,2% de redução foram alcançados, que se dirá dos 60% que são necessários? Aliás, Simon traz números bem interessantes sobre a falha ao alcançar a redução de 5,2%: Estados Unidos da América, Japão, Canadá, Austrália e a maioria dos países europeus experimentam um aumento médio de 11% em suas emissões anuais.

O editor da revista The Ecologist admitiu que o acordo de Quioto não será suficiente, mas aposta nele como um início. Criticou o governo de Bush e de outros países que usam seu poder para boicotar o Protocolo e sugeriu uma redução máxima, de maneira que se possa reaproximar a concentração de gases estufa aos seus níveis pré- industriais. Simon Retallak disse que não se podem esperar mais dez anos para resolver o problema e, encerrando, fez uma relação interessante entre a economia baseada no petróleo e a manutenção financeira dos movimentos internacionais de terrorismo.

A mudança climática foi a questão de maior dificuldade de implementação desde a Rio 92 e especialmente a partir do governo de Bush, conforme afirmou em sua apresentação o Secretário Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, Cláudio Langone. Ele apontou a desigualdade do mundo atual, com seus abismos sociais e sua dinâmica urbana insustentável, condições que não podem ser esquecidas na busca pela sustentabilidade. Sugeriu uma mudança radical no sistema de produção e consumo.

Cláudio Langone mostrou seu medo em relação à falta de envolvimento dos EUA na questão do clima. Ele acha que o isolamento, a partir dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, do maior responsável por emissões de gases estufa, que discute ainda menos a questão, tanto nacional, quanto internacionalmente, pode levar a uma derrota política na Rio + 10, ou a uma frustração semelhante à das conferências da Haia e de Durban. Ele teme, especialmente, que a sociedade dos EUA continue a voltar todas as suas atenções para o terrorismo e deixe de lado a problemática do clima, que necessita com urgência de ações para ser revertida.

Além de sugerir um "IPTU planetário", composto de organização e fundo financeiro de políticas públicas para investimentos na reversão das mudanças climáticas, o secretário Langone apoiou, como o colega La Rovere, o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, lembrando que até mesmo a implantação de fóruns estaduais seria necessária para um envolvimento social mais intensivo.

Olivier Deleuze, belga que coordenou as atividades da União Européia na conferência do clima em Bonn, também deixou para os participantes do Fórum Preparatório Rio + 10 um pouco de suas experiências. Deleuze acredita que o grande desafio é atrair os países-chave, como EUA, Rússia e Japão, para que o Protocolo de Quioto entre logo em vigor, com a ajuda da ratificação, em bloco, da União Européia, antes mesmo da conferência de Johannesburgo.

O belga também acredita que a punição para os países que não alcançarem seus objetivos de redução diante de Quioto (não poder usar os mecanismos de trocas de emissões estabelecidos no Protocolo) é justa e eficaz. Além disso, sugeriu que os países em desenvolvimento assumam o mais brevemente possível um compromisso de redução, pois suas emissões, em 2020, terão mesma importância do que as dos países desenvolvidos.

Depois da apresentação de Deleuze, último expositor do painel "Mudanças Climáticas", um manifesto de boicote, com furor, a produtos "made in USA" foi anunciado. ONGs brasileiras, especialmente gaúchas, criticaram a economia norte-americana, baseada em combustíveis fósseis, indústrias poluentes, imperialismo, dívidas ecológicas, prepotência e desprezo à natureza. Essas ONGs listaram ainda, no manifesto, uma lista de produtos e serviços que devem ser evitados, em sinal de protesto: GM, Ford, McDonalds, Esso, TEXACO, Coca Cola, Pepsi Cola, American Airlines, entre outros.

No painel da tarde, de nome "Conservação da Biodiversidade, Bioética e Biotecnologia", a senadora Marina Silva, do PT do Acre, defendeu a importância para o modelo ocidental das comunidades tradicionais na conservação da biodiversidade brasileira. Citando exemplos de experiências de sua vida, mostrou como é possível a existência de uma sociedade sustentável que cresça economicamente. Muriel Saragoussi, da Fundação Vitória Amazônia, reforçou mais uma vez a idéia de que o grande problema é o modelo de desenvolvimento adotado nas civilizações ocidentais, que deve ser mudado para que se resolvam as crises ambientais.

Muriel também demonstrou os avanços alcançados desde a Rio 92 na Convenção da Biodiversidade então adotada. José Hermeto Hoffmann, Secretário Estadual de Agricultura e Abastecimento do Rio Grande do Sul, apontou a necessidade de um novo modelo de agricultura, para que mais pessoas sejam atraídas ao campo e que nele as atividades sejam realizadas com sustentabilidade. Hoffmann citou que 160.000 pessoas migram do campo para a cidade a cada dia, em termos globais, o que mostra um distanciamento da cultura agrícola sustentável.

O painel "Gestão das Águas" contou com exposições de Alcides Faria, da Coalizão Rios Vivos, Volney Zanardi Jr., diretor do Departamento de Recursos Hídricos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente gaúcha, e Dieter Wartchow, Diretor-Presidente da CORSAN, empresa estadual gaúcha que gerencia os recursos hídricos. Os expositores demonstraram a já evidente necessidade de preservação dos recursos hídricos e, mais do que isto, maneiras sustentáveis através de que se pode alcançar um gerenciamento justo desses recursos.

No terceiro e último dia (30/01) do Fórum Preparatório Rio + 10, em Porto Alegre, haverá o painel "Meio Ambiente, Pobreza e Cidades Sustentáveis", depois do qual se realizará a Plenária Final, que deve reunir as opiniões gerais para a elaboração de uma resolução final dos debates.

Parte 3 (30/01/2002) (Voltar para cima)

No terceiro e último dia do Fórum Preparatório Rio + 10, foram promovidas discussões sobre a relação entre as cidades, a urbanização e a sustentabilidade planetária, que é o principal alvo de ecologistas e da conferência que se realizará em Johannesburgo. Na plenária final, ocorrida durante a tarde, foram expostas as considerações finais dos representantes da organização do Fórum, fazendo-se, assim, um encerramento das atividades do fórum, mas não da luta ambiental.

No painel "Meio Ambiente, Pobreza e Cidades Sustentáveis", a arquiteta e professora da USP Ermínia Maricato explicou um pouco da situação atual dos projetos urbanísticos no Brasil e no resto da América. A professora garantiu que o problema da ocupação irregular, especialmente em nossas conhecidas favelas, em áreas públicas e de proteção ambiental, como à beira de mananciais, não se dá devido à falta de planos urbanísticos ou de leis rigorosas. Ela admite que há realmente uma necessidade de leis mais adequadas, mas afirma que o problema maior é a falta de cumprimento das leis existentes e a falta de fiscalização. Ermínia criticou as políticas de urbanização, que são feitas por pessoas bem formadas academicamente, mas que não conhecem a realidade do espaço urbano brasileiro, importando, muitas vezes, idéias européias que nunca se poderão adaptar a essa realidade. Essas leis de gabinete, segundo Ermínia, arbitrárias e inexperientes, são o maior obstáculo para a construção de cidades sustentáveis, já que é devido a elas é que passa a existir a grande distância entre discurso e prática. Ermínia demonstrou, ainda, falhas presentes em cidades apontadas como modelo de urbanização sustentável, como Curitiba. Embora a cidade seja sucesso de planejamento urbano no seu núcleo, há também áreas de proteção ambiental ocupadas.

Outra constatação feita por Ermínia é a de que as invasões nas cidades não comovem o público em geral na mesma escala do que as invasões dos sem-terra na área rural, por exemplo. Segundo a professora, as áreas de proteção ambiental acabam sendo invadidas sem que a população reclame justamente pelo fato de que elas não têm interesse para o mercado; afinal, são protegidas pelo poder público. O problema é que o governo pouco faz para evitar que os pobres, fugindo dos altos preços de mercado da terra nos núcleos das cidades, instalem-se nessas áreas protegidas, tornando-as verdes apenas no papel.

A professora Ermínia criticou a inversão dos valores urbanísticos, onde exceção vira regra e vice-versa. Ela observou que a urbanização é feita para uma minoria de maior renda, enquanto a "regra" é a invasão, praticada pelas maiorias de baixa renda. Essa invasão acaba tirando dos mais pobres o direito à cidade, no qual se incluem o direito a água tratada, saneamento básico, locais de recreação, enfim, tudo o que é necessário para a qualidade de vida humana. A conseqüência de toda essa inversão de regras e exceções apontada pela professora Maricato é clara e visível nas cidades brasileiras: enchentes, desmoronamentos, poluição de recursos hídricos.

A solução apontada por Ermínia é a orientação dos investimentos do poder público, para que se evite que os recursos sejam apenas destinados ao sistema viário, valorizando em especial o transporte sobre rodas e de veículos individuais. Além disso, é necessário que o patrimonialismo, ou seja, a extrema valorização da propriedade, seja evitado, de maneira que a terra tenha valor de uso, e não de troca, deixando de servir apenas para enriquecer poucos. Ermínia também aponta como solução um mais profundo conhecimento da realidade, para que se evitem os já citados problemas de implantação de planejamentos inadequados à realidade brasileira. Áreas públicas ocupadas ilegalmente devem ser regularizadas, sem, no entanto, que o governo esqueça de urbanizá-las, dando direito à cidade também aos pobres. Além disso, é necessário o remanejamento de pessoas que ocupem áreas protegidas e, finalmente, um controle urbanístico forte, para que sejam aplicadas as leis já existentes. Segundo Ermínia, nos planos diretores das cidades deve constar o saneamento ambiental, visando sempre a vida digna e sustentável para os habitantes.

Ruben Pesci, do Foro Latino-Americano de Ciências Ambientais, também criticou o atual valor de troca do solo, ao invés do valor de uso. Crê que as repúblicas em crise são a principal causa para a falta de controle sobre a urbanização e que, desde 1992, tem havido um forte regresso na questão. Criticou também o modelo neoliberalista, que acentua exclusões sociais e impede a sustentabilidade, e o vazio de conhecimento já denunciado por Ermínia. Ruben apontou, como soluções, um aumento do poder da opinião pública e uma série de medidas locais e nacionais a serem implantadas pelos governos, ampliando a malha ferroviária, incentivando os polos regionais como fim de aliviar a superpopulação das metrópoles capitais, aumentando a democracia republicana e participativa. Pesci também apoiou os pequenos projetos regionais, em contraste aos grandes e caros investimentos que abrangem áreas muito maiores, mas que não contribuem tanto para a sustentabilidade.

Ricardo Sanchez, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, compartilhou um pouco de suas experiências na América Latina. Depois de também apontar vários dos problemas urbanos atuais, destacando a questão do aumento da produção de lixo, sugeriu uma mudança de paradigmas como única forma de resolução dos problemas. É necessário, segundo Sanchez, que a participação popular seja incentivada, que a dívida ecológica (já citada em dias anteriores do Fórum Preparatório) seja cobrada dos países desenvolvidos. Além de tudo, Sanchez reafirmou a necessidade de mudar os padrões de produção de energia, sempre tendo em vista a sustentabilidade.

Gerson Almeida, Secretário Municipal de Meio Ambiente do município de Porto Alegre, apontou as relações entre o rápido e desordenado crescimento das cidades, nos últimos anos, e a disseminação da pobreza. Afirmou, como Ermínia, o crescimento desproporcional da cidade informal, causando exclusão social, ambiental e espacial, com falta de serviços públicos, de grande maioria da população. Criticou a falta de discussão do enigma do meio urbano, para o qual a ciência, segundo ele, tem pouco a ofertar, e o controle dos interesses de mercado sobre a construção e a organização das cidades. Gerson deixou claro que, para alcançar sustentabilidade, é imprescindível a gestão ambiental urbana, entendendo o papel importantíssimo da cidade na integração do homem com a natureza. Segundo Gerson, a interação da cidade com geosfera, biosfera, atmosfera e hidrosfera deve ser melhor estudada.

Na plenária final, depois do lançamento da página na internet do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente (www.ongsbrasil.org), houve os últimos pronunciamentos de representantes dos governos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, além das organizações não-governamentais realizadoras do evento. A Rio + 10, conforme afirmaram, não deve ser apenas uma revisão da Rio 92. Deve também apresentar novos compromissos com o meio ambiente. Foi apontada a importância da integração entre o Fórum Social Mundial e o Fórum Preparatório Rio + 10, representando a união da resolução dos problemas ambientais e também sociais, para a construção do "novo mundo possível" prometido pelo FSM. Esse novo mundo possível deve ser construído com a combinação de indignação com os problemas atuais e de esperança de resolvê-los, conforme afirmou o representante do governo do estado do RS, secretário Claudio Langone.

Em seguida, a senadora Marina Silva foi convidada a ler o Manifesto "Um Mundo Sustentável é Possível", resultado final das reuniões e dos painéis do Fórum Preparatório Rio + 10. Comovida, a senadora disse que seus problemas neurológicos, devidos a uma contaminação com mercúrio, atrapalham-na, muitas vezes, na hora da leitura - mesmo que, na minha opinião, a leitura tenha saído muito bem... A senadora explicou a comoção dizendo que o documento ficara muito bom e traduzira, realmente, tudo o que fora discutido durante o Fórum. O documento, enfim, critica o não-cumprimento da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, especialmente com o boicote norte-americano ao protocolo de Quioto, a partir do governo Bush, que colocou a economia nacional em primeiro lugar. Mais críticas foram feitas ao modelo neoliberal adotado pelos países capitalistas. A declaração rejeita a globalização visando apenas o lucro e defende a luta ambiental unida à luta contra injustiças, com a participação intensa do povo, não apenas dos governos. O manifesto também rejeita as patentes que garantem monopólios de patrimônios naturais a empresas, garantindo a soberania dos povos sobre suas riquezas genéticas. O documento reconhece que deve haver uma mudança nos modelos de urbanização e industrialização para que se resolvam os problemas sociais e ambientais. Finalmente, a carta lida pela senadora pede a implementação da Agenda 21 para que haja uma humanidade justa e um mundo sustentável.

Martin Dietrich Brauch
Representante Jovem do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas no
Encontro Preparatório Rio + 10, em Porto Alegre.

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