Mudança global do clima e a água
O efeito estufa, que através da concentração de gases como o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso aumenta a temperatura média da terra a cada dia, sensível e gradualmente, manifesta a sua mais alarmante conseqüência na água. O nível do mar tende a crescer, movido pelo derretimento das geleiras que o aquecimento terrestre provoca. Com esse crescimento, existe uma grande probabilidade de que várias áreas do planeta sejam inundadas. Por outro lado, outros lugares sofrerão a cada dia mais com as secas e a falta de água potável provocadas pelo aquecimento global. O que será pior: o excesso ou a falta de água?
Pelo que indicam as estimativas, é difícil prever o que será pior. O aumento do nível do mar será fatal nas nações de pequenas ilhas, que, além de serem as mais vulneráveis, onde as inundações serão mais rápidas, evidentes e devastadores, fazem justamente parte do grupo de nações pobres, que não tem condições de contornar os problemas mais graves. As nações de pequenas ilhas consistem, ainda, em um exemplo da injustiça da mudança do clima: serão os locais mais prejudicados, apesar de serem, na maioria das vezes, países cujas emissões de gases estufa (GEE) são desprezíveis perante as de grandes potências e de alguns países desenvolvidos.
As populações, em todo o mundo e especialmente no Brasil, estão concentradas em áreas litorâneas. Promover a mudança dos habitantes para locais sem risco ou proteger os litorais através de diques são medidas que sairão caríssimas às pessoas e aos governos. Mas não só a estes o aumento do nível sairá caro: muitos animais perderão seus habitats naturais, muitos poderão não resistir a uma adaptação como nós, humanos, certamente resistiremos.
A precipitação em forma de chuvas aumentará e o ciclo das águas ficará desregulado. Existirão áreas muito úmidas em contraste com as áreas sem chuvas. Muitas áreas de agricultura serão inutilizadas, enquanto outras regiões antes frias para o plantio serão convertidas em zonas agriculturáveis. Percebe-se claramente que a mudança do clima constitui em problema para muitos, porém, ao mesmo tempo, em lucro para países temperados e polares.
O nordeste brasileiro e a parte central da África, entre outras zonas em processo de desertificação, sentirão com muita intensidade os resultados do aquecimento global. A desertificação tende a ficar mais rápida. Em contrapartida, precipitações em grande escala, tempestades, enchentes, juntamente com manifestações extremas da natureza, como furacões e tornados, serão mais freqüentes, para o desespero dos habitantes de regiões que já sofrem com esse tipo de problemas, como a América Central e alguns pontos da costa dos EUA.
Os jovens, no 1º Encontro Mundial de Jovens sobre Mudança do Clima, que ocorreu paralelamente à 6ª Conferência do Clima, da ONU, lembraram e discutiram todos esses problemas. Além disso, olharam para outros problemas que se poderão causar indiretamente devido ao aumento do nível marítimo: a contaminação das águas, com a conseqüente difusão de doenças já praticamente erradicadas, e os conflitos pela água potável, a qual já diminui mesmo sem as mudanças globais relativas ao efeito estufa. Em algumas regiões do mundo, podem ocorrer disputas e até guerras por água, aumentando ainda mais a rivalidade entre países que são naturalmente secos (e inimigos), como os do Oriente Médio.
Acima de tudo, perceberam os jovens que a água será a riqueza e a desgraça do século XXI. A falta e o excesso de água que o efeito estufa provoca formam um dos grandes problemas que a humanidade inevitavelmente terá de enfrentar. Educação nas escolas, provimento de remédios e conscientização da população poderão ajudar a evitar as doenças. O uso de filtros, estações de tratamento e punição de indústrias que liberam seus dejetos nas águas de rios, lagos e mares poderão ajudar a combater a poluição das águas, garantindo vida saudável para as próximas gerações, com água potável. Poderão também impedir os conflitos por água. Porém, contra os problemas do aumento do nível do mar e das inundações, há apenas uma providência que se pode tomar: reduzir as emissões de gases estufa. Desde a Revolução Industrial, já se nota um certo aumento no nível do mar. As conseqüências das emissões desde aquela época até dias de hoje não podemos evitar já se manifestam atualmente e continuarão a manifestar-se nos próximos 70, 100, 150 anos, quem sabe até mais. Resta-nos, portanto, reduzir as emissões atuais, para que, finalmente, possam ser evitadas as manifestações mais trágicas da mudança climática que se manifestarão nos próximos séculos se não deixarmos de lado o conceito de desenvolvimento a qualquer custo, mesmo através da degradação do ambiente. Convenhamos: esse conceito é idéia do século passado.
Martin Dietrich
Brauch
martin@wyocc-br.org
Publicado em 10 de Janeiro de 2001.
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