O construtivismo e sua função educacional1
Lino
de Macedo2
Meu objetivo neste texto é caracterizar construtivismo, dando ênfase a
sua função educacional. Para isso, adotarei primeiro o procedimento de
contrastá-lo com uma visão não construtivista do conhecimento. Parto do
pressuposto que construtivismo e não construtivismo correspondem a duas visões opostas, isto é,
complementares e irredutíveis. Por isso, pode-se, ainda que de forma caricata,
analisar as características de um e outro, tal que seja possível, muitas
vezes dizermos para nós mesmos quando
estamos sendo construtivistas ou adotando um procedimento consistente com esta
posição sobre a aquisição do conhecimento.
Como estudioso da teoria de Piaget e suas aplicações escolares ou
psicopedagógicas, tenho sido freqüentemente procurado por profissionais que
trabalham nestas áreas para responder a estas perguntas: O que é
construtivismo? Como e por que ser construtivista? Aqui, estas serão meu mote.
Mas, antes, devo advertir ao leitor que não tenho formação filosófica e que meu
construtivismo reduz-se à versão que lhe deu Piaget, tal como pude, ai de mim,
assimilá-la.
Se construtivismo e não construtivismo correspondem a visões opostas de
conhecimento, no mínimo duas tarefas nos são dadas: analisar sua irredutibilidade
e sua complementaridade. É isso que
proponho ao leitor acompanhar nos dois próximos itens, pois no terceiro e
último analiso alguns aspectos do construtivismo na escola.
Para um contraste entre
construtivismo e não construtivismo
1.O construtivismo valoriza as
ações, enquanto operações do sujeito
que conhece.
Visões não
construtivistas do conhecimento valorizam a transmissão, sendo, por isso mesmo,
a linguagem seu instrumento mais primoroso. Não poderia ser diferente. Quando
uma pessoa ou uma comunidade supõe ter produzido, não importa se pela
experiência ou reflexão, um conhecimento sobre alguma coisa e julgam que é
importante transmiti-lo para alguém que - por hipótese - não possui este
conhecimento, fazem-no pela via da linguagem. Esta é, de fato, o recurso mais
poderoso, econômico e analógico que conhecemos para compartilhar com alguém
algo que, por não ter participado de sua história, ele só pode lhe ter acesso
por via indireta É poderoso porque nos transporta para um espaço e tempo desconhecidos
para nós; porque nos faz pensar, tirar conclusões, rever pontos de vista;
porque dado seu caráter irreversível, certos acontecimentos só podem ser
“revividos” pela via da linguagem, etc. É econômico porque sintetiza nas
imagens que produz em nós algo que, na sua ocorrência foi muito longo e cheio
de detalhes que podem ser omitidos. É analógico porque por intermédio de B
produz algo que até então só tinha existência em A. Consideremos a última
viagem Parati-Antártida-Parati, de quase dois anos, que fez nosso navegador
solitário Amir Klink. Chamamos de ‘A' esta sua experiência. Só por intermédio de ‘B’, isto é, via fotos,
narrativa, descrição, etc, poderemos nos apropriar disso que antes só ele
possuía.
Não se trata, pelo considerado acima, de condenar
a linguagem, repito, melhor ou as vezes único meio de dispormos de certas
informações. O problema é o lugar que ela ocupa na produção de um conhecimento.
Na perspectiva não construtivista seu lugar é o mais importante. Ao
construtivismo interessam as ações do sujeito que conhece. Estas, organizadas
enquanto esquemas de assimilação,
possibilitam classificar, estabelecer relações, etc, sem o que aquilo
que, por exemplo, se fala ou se escreve para alguém não tem sentido para ele.
Ou seja, o que importa é a ação de ler ou interpretar o texto e não apenas
aquilo que, por ter-se tornado linguagem. pode por ele ser transmitido.
Mas, insisto não basta isso.
2. O
construtivismo produz conhecimento em uma perspectiva não formal ou, se se quiser, apenas formalizante.
Uma visão não construtivista do conhecimento é, necessariamente,
formalizada. Se nele há considerações de conteúdo, este só interessa enquanto
exemplo ou descrição de algo, que possa, cada vez mais, ser abstraído de seu
contexto. Ou seja, a forma tende a se tornar independente do conteúdo. Exemplo
disso temos nas clássicas frases das cartilhas A maioria delas corresponde a
algo sem sentido, porque provavelmente jamais a ouviríamos em um diálogo reais
entre duas crianças ou mesmo adultos. O autor da cartilha sabe disso. Mas,
sentiu-se, talvez, autorizado a escrevê-las porque quis valorizar, por exemplo,
a formação silábica 'va, ve, vi, va, vu', recorrendo a um conteúdo qualquer
para praticá-la. A produção construtivista
do conhecimento é formalizante, mas não formalizada. Nela, forma e conteúdo,
ainda que não confundidos, são indissociáveis Daí, por exemplo, preferir-se na
aprendizagem da leitura e escrita da criança trabalhar a partir do nome dela ou
de textos que tenham sentido ou valor funcional em sua cultura.
Poder-se-ia repetir as considerações acima, por intermédio de outros
dois termos: tematização e paradigma.
A visão não construtivista de conhecimento opera por paradigmas e seus casos
exemplares. A construtivista por um trabalho constante de reconstituição ou
tematização (o que exige
descentração e coordenação dos diferentes pontos de vista, então produzidos).
Como nos mostrou Piaget (1974a e 1974b), os meios ou esquemas de ação que
utilizamos para produzir um resultado em função de um objetivo quando de sua
constituição mobilizam todo um trabalho de regulação (Piaget, 1977). Nesta fase, os meio são os
próprios fins. Mal estes instrumentos
coordenam-se entre si, por um complexo processo de assimilação e acomodação
recíprocas (Piaget, 1936) neste quaterno (objetos espaço tempo e causalidade ou
implicação entre ações) sem o qual algo não existe (Piaget, 1937), assumem sua
eterna e infinita função de serem meios para outros fins Ou seja, todo esquema de ação tem função
instrumental. Tomemos apenas dois exemplos. Quando a criança aprende a
engatinhar seus esforços de regulação concentram-se nesta difícil arte de
coordenar entre si braços, pernas, outras partes do corpo, tal
que este movimento (minimamente ajustado no espaço de suas posturas e no tempo
de suas mudanças de estado) possa ocorrer. Nesta fase, vê-se que todos os
esforços da criança concentram-se no aprender a engatinhar. Mal ela o consegue
volta-se para os 'novos' ob¡etos (uma mãe que teima em se afastar dela, um
cachorrinho, uma bola interessante, mas distante,) utilizando o engatinhar como
instrumento de aproximação ou afastamento deles. Quando se aprende a escrever -
e para muitos esta tarefa demora anos - todos os esforços concentram-se em
dominar seus 'segredos'. Mal se aprende a escrever e é o bilhete ou carta que
nos toma toda a atenção. Ora, tematizar um esquema de ação, tendo ele sido
apenas meio ou instrumento de outras ações ou acontecimentos, implica em
inverter esta situação. Agora, tem-se que reconstituí-lo, transformá-lo, tomar
consciência de suas características, do quão bem ou mal ele cumpre suas
funções, significa criticá-lo, transformá-lo, assumir suas conseqüências, etc.
Tematizar é, por isso, reconstruir em um nível superior aquilo que já
realizamos em outro nível. Tematizar é construir um novo conhecimento, para um
velho e ignorado saber, reduzido a sua boa ou má função instrumental.
Outra coisa é o paradigma e seus casos exemplares. Na
tematização a exigência é a da demonstração, da reconstituição e transformação
de algo já sabido. No paradigma é o modelo ou padrão, graças ao qual
reproduzimos algo dentro de certas condições, repetindo um
resultado esperado ou exigido. Para isso, tem-se os casos exemplares, ou seja
situações 'concretas' (ainda que não necessariamente vividas por nós) ricas de
'conteúdos’ formatados conforme o
paradigma, pelas quais podemos entendê-lo. Não nos espanta, por isso, que na
aprendizagem da leitura e escrita pela via não construtivista a cópia de frases,
palavras ou letras sem sentido para a criança ser um dos instrumentos mais
usados. Por outro lado, como trabalhos complementares, tematização e paradigma
são como duas faces de uma mesma moeda. As crianças, todos nós, mal tematizamos
alguma coisa já a tratamos como um paradigma ou um 'bom exemplo' a ser seguido
ou evitado por nós ou nossos amigos.
3. No
construtivismo o conhecimento
é concebido como um tornar-se antes de um
ser.
A visão não construtivista do
conhecimento é ontológica. Ou seja, parte-se de algo cuja existência já está
minimamente constituída como objeto a ser conhecido. Daí sua pretensão
descritiva ou explicativa do conhecimento como um "é". Ora, no
construtivismo o conhecimento só pode ter o estatuto da correspondência, da
equivalência e não da identidade (Piaget, 1980). Por isso, o conhecimento só pode ser visto como um
"tornar-se" e não como um "ser". Em uma perspectiva adulta,
formal, já constituída (ainda que em constante reformulação), sabemos, por
exemplo, que há um conhecimento sobre leitura e escrita a ser transmitido. Trata-se
de um conhecimento socialmente produzido e acumulado, cuja transmissão precisa
ser feita ou repetida naqueles que ainda não sabem ler ou escrever. Ora, em uma
perspectiva "infantil", informal, ainda não constituída minimamente
enquanto tal, a escrita não é, mas se toma como um sendo para
alguém: Para este, não se tratará de descrever uma forma de ler ou escrever já
praticada, mas de refazer (ainda que de forma abreviada) esta história nele e
através de ações ou objetos (ou dos termos que os representam) que fazem
sentido para ele. Assim poder-se-ia dizer que quando "nasce" um
escritor também "nasce" uma escrita, quando "nasce" um
leitor também "nasce" um texto, mesmo que, para outros, estes (o
texto e a escrita) já fossem constituídos.
Contrastando as duas posições de outro jeito: para o não construtivista
a criança só saberá escrever no final do ano, quando tiver repetido o processo
de alfabetização (ou dominado seus paradigmas); para o construtivista a criança
já sabe escrever desde o primeiro dia de aula, ainda que este seu saber
conhecerá muitos aperfeiçoamentos (no processo de sua necessária tematização), tal que se torne mais legível e publicável para seu autor ou para
um outro.
4. Ao construtivismo o conhecimento
só tem sentido enquanto uma teoria da
ação (em sua perspectiva lógico-matemática) e não enquanto uma teoria da representação.
Como já consideramos no item 1, uma visão não construtivista termina por
considerar o conhecimento como uma teoria da representação da realidade, não
importa se boa ou má. Ora, na perspectiva construtivista um
conhecimento sobre algo (seja num plano individual, ou coletivo,
como se faz em História da Ciência, por exemplo), só é possível enquanto uma
teoria da ação, da ação que produz este conhecimento E nesta teoria interessam,
sobretudo, os aspectos lógicos
e matemáticos da ação. Lógicos porque se trata de um sujeito ou uma sociedade
construírem ou reconstruírem os procedimentos necessários àquela produção.
Sabemos que tanto em termos físicos quanto simbólicos algo (o gesto de andar ou um texto, por
exemplo) só acontece se certos instrumentos ou meios forem coordenados no
espaço e no tempo, tal que as relações entre seus elementos produzam resultado
consistente com um objetivo. A lógica expressa este "fazer bem" da
ação, isto é, estas regras de procedimento, esta sintaxe, sem a qual algo não
se constitui como um "objeto" ou acontecimento. Matemáticos, porque
há uma "topologia", uma "álgebra", um "grupo de
deslocamentos" destes estados e posições, sem os quais algo não acontece,
nem se constitui. Matemáticos porque há uma lei de composição, que se repete,
que é estruturante do fenômeno que, enquanto tal, só se expressa em suas
infinitas versões. Ou seja, um engatinhar, enquanto ato, é sempre diferente de
um outro, mas enquanto lei de composição, só se constituiu como um
"X", isto é, pela eterna troca de estados e posições, por exemplo,
entre perna esquerda, braço direito, perna direita, braço esquerdo, etc. Esta
lógica e matemática da ação, que produz conhecimento, dependem, como já
implícito no termo "teoria", de uma significação (Piaget, 1946) ou
seja, de uma linguagem que possibilita interpretar, dar um sentido a dinâmica
de tudo isso. Dinâmica que opera por intermédio dos "significados"
que transformam uma ação e dos "significantes", que conservam os
aspectos que a constituem, enquanto algo estruturado e eficaz, ou seja, válido.
Neste caso, não se trata de uma linguagem que apenas representa a realidade,
mas que constitui ou conserva/transforma os aspectos da ação ou do pensamento,
que tem valor (a ação ou o pensamento) de conhecimento Decorre disso que em uma
perspectiva construtivista produz-se interpretações sobre a realidade e não
fatos (posição não construtivista). Estas interpretações, pouco a pouco na
história de sua construção tanto teórica quanto metodológica, convergem para
algo comum e público, isto é, em condições iguais, consentidas por todos. O
conhecimento científico (Piaget, 1967) é, em muitos casos, um bom exemplo
disso.
5. O construtivismo
é produto de uma ação espontânea ou apenas desencadeada, mas nunca induzida.
Para encerrarmos estas considerações sobre “o
que é construtivismo”, talvez seja bom analisarmos a mais difícil de suas
exigências. Exigência esta que o separa definitivamente de um não construtivismo
Só a ação espontânea do sujeito, ou apenas nele desencadeada, tem sentido na
perspectiva construtivista. Esta é a
essência do "método clínico" de Piaget (1926), tão citado quanto
incompreendido: saber ouvir ou desencadear na criança só aquilo que ela possui
como patrimônio de sua conduta, como teoria de sua ação, como esquema
assimilativo. Ora, em uma visão não-construtivista a ação induzida é, muitas
vezes, a mais freqüente.
Para
uma completitude entre construtivismo e não construtivismo
Adotamos o procedimento de analisar
construtivismo e não construtivismo como duas formas opostas e, por isso,
irredutíveis de conhecimento. Em fazendo assim temos, também, que concebê-los
como complementares e fundamentais. O problema é saber quando ou como operar um
ou o outro. Sabemos que a síntese, a fórmula ou paradigma é tão necessários
para a criança quanto a análise dos meios que produzem este resultado. Ou seja,
construtivismo e não construtivismo são duas formas de produção de conhecimento
O problema é diferenciá-las e integrá-las; é saber, repito, quando e como
operá-los em proveito da educação da criança.
Havia um tempo em que casa, oficina e escola
ocupavam um mesmo lugar e nelas tudo se fazia e compreendia. As transmissões ou
lições de vida dos mais velhos eram tão freqüentes quanto a participação direta
das crianças nos trabalhos que realizavam. Ajudar a mãe a cuidar das galinhas,
da horta ou comida, ajudar ao pai na ordenha das vacas, no cultivo da roça, no
traçado da madeira era tão necessário, para eles, quanto as brincadeiras e
travessuras, para as crianças. Neste contexto, muitas histórias da própria
família, de sua tradição, das coisas boas e más acontecidas, eram contadas e
contadas nas muitas versões dos pais,
avós, tias, irmãos mais velhos e
outros As primeiras letras eram obtidas não raro também graças ao interesse de
um pai rico contratando um professor particular ou se servindo das habilidades
de uma tia “solteirona” e sabida. A família era grande e próxima (no amor e no
ódio bem como no espaço e no tempo de seus desenlaces). O mesmo se dava com o
espaço cultural representado pela igreja (com suas festas, procissões),
vizinhança (com as brincadeiras, jogos, caçadas, etc) e outros. Neste tempo as
transmissões -quase sempre orais e fornecidas por alguém querido e respeitável-
e as ações produtivas ocorriam simultaneamente. Tinha-se uma casa
"construtivista" e "não construtivista" ao mesmo tempo.
Estas duas perspectivas complementavam-se, fundiam-se quase que em uma só.
Hoje tudo mudou. A família é pequena, restrita
aos pais (muitas vezes, só a mãe) e filhos. Trabalha-se fora. O tempo dentro de
casa é curto e “precioso” (precisa-se
cuidar da casa e dos filhos). O cansaço e a 'televisão' concorrem entre si,
para ver quem tira mais tempo das relações informais e descompromissadas entre
os moradores da casa. Os vizinhos são desconhecidos e por isso perigosos. Os
parentes moram longe e encontrá-los "custa caro". Muitas vezes, há
mais desavenças do que avenças entre parentes e amigos, agora apenas colegas.
Não é raro ter-se dois ou três empregos. Ao lado disso, tudo se especializou. O
pão e outros alimentos são comprados prontos ou semiprontos. O tempo de preparo
da comida, de lavagem da roupa e outros afazeres domésticos são e têm que ser
curto. O médico, psicólogo ou dentista cuidam da saúde. A escola dá a
instrução. As instruções precisam ser breves, seriadas e eficientes. As
relações são de preferência formais e objetivas. Nada de nhenhenhém. Levar os
filhos para ver os amigos ou colegas de escola é sempre difícil. Tem-se que
economizar também nisso.
Construí, acima, de propósito as imagens
caricatas de um passado (não tão passado), simultaneamente construtivista e não
construtivista, e de um presente, pouco construtivista. Não se trata do saudosismo.
Pode-se analisar as coisas do um outro ângulo. Hoje temos recursos técnicos que
tornam a ênfase sobre as ações ou operações que produzem conhecimentos muito
mais fáceis do que antigamente. Hoje temos gravador, câmera fotográfica, câmera
de vídeo, televisão, computador.
Pode-se por eles fazer e refazer infinitas vezes uma ação e analisá-la
nos seus mínimos detalhes. A metodologia das ciências está muito mais
aperfeiçoada As teorias se entrelaçam e explicam muito mais. Temos o telefone.
Insisto, temos o computador, a impressora, que tornam, por exemplo, o processo
de escrita muito mais fácil e estimulante. Temos fax, modem, etc. Temos o rádio
e o avião. Temos uma imprensa cada vez mais barata e ágil. Com isso, a criança
dos dias de hoje conta com recursos para seu desenvolvimento não imagináveis
vinte ou trinta anos atrás. Não se trata de ser saudosista, mas de analisar o
preço que pagamos por uma modernidade que rompeu uma função cuja análise (ou
perspectiva construtivista) e síntese (ou perspectiva não construtivista) eram solidárias e
complementares, até pelos poucos recursos que se dispunham. Como aproveitar os
recursos construtivistas destas revoluções técnicas? Como
tornar a escola construtivista, se a casa não pode mais sê-lo, tanto quanto a
criança precisaria? Como tornar a vida e as lições
de vida uma realidade na escola?
Sabemos que há construtivistas “natos”. Professores que
se preocupam mais com o processo de aprendizagem de seus alunos. Que gostam
deste nhenhenhém das crianças, que valorizam a informação
contextualizada e como pode ser produzida pela criança.
Professores que, nunca tendo ouvido falar deste nome (“construtivismo”), “traiam” a cartilha e
inventavam um número de outros recursos para aprendizagem do ler, escrever e
contar. O mesmo se pode dizer das famílias. Há umas que, apesar do quadro limitativo desenhado acima, sempre encontram
tempo para viver e dar lições de vida para seus filhos, para contar histórias,
para fazerem coisas juntas. Há outras que não se dispõem para isso. Minha conjectura é que se a criança possui
um lar “construtivista” então ela pode (“pagando
caro”, às vezes, por isso3)
até aprender em uma “escola não construtivista”. Estas
escolas chamadas “tradicionais”, “fortes”,
aonde as crianças vão para aprender as matérias, dentro da
ordem e disciplina. E, pelo que já disse, penso que até nestas escolas sempre
haverá professores ou outros funcionários construtivistas. Mas,
o problema é quando não há mais construtivismo (sempre no sentido traçado
aqui) em lugar algum e a criança terá que, quase sozinha e sem
recursos, receber transmissões, com conteúdos tão diferentes (português,
matemática, ciências, regras morais, de higiene e saúde, etc) e
tão importantes para sua formação. E se pensarmos nas
dificuldades das famílias, que mal e mal conseguem sobreviver? É claro que em
sua sabedoria valorizam uma forma melhor de vida para seus
filhos. Mas, como fazê-lo, se há coisas mais urgentes e se não
têm recursos para isso?
Para uma escola mais
construtivista
O estatuto universal e obrigatório da educação primária é uma “conquista” do final do século passado (cf., por exemplo, Delval, 1991).
Antes, como sabemos, a escola era privilégio dos segmentos mais ricos e
protegidos de nossa sociedade. Contudo,
esta conquista na prática continua sendo uma quimera. Poucos são os que
continuam na escola, são os que aprendem nela. Estes não por acaso, são em sua
maioria filhos de famílias com mais recursos financeiros e educacionais. Delval
(1991) defende a tese de que os compromissos antigos da escola com a classe
dominante continuam inarredáveis; ou seja, há fracasso escolar, mas não
fracasso da escola em sua função conservadora dos privilégios dos seus
protegidos. Minha suposição é que se manter não construtivista é uma das razões
deste infeliz sucesso da escola
Afirmei acima que nossa escola é predominantemente não construtivista.
Consideremos, a esse respeito, que a transmissão de conhecimentos dos mais
velhos para os “mais novos” é tradicionalmente uma tarefa de
adultos. Por hipótese, eles é quem possuem experiência e “maturidade” suficiente
para isso. Ora, a “criança” é uma
descoberta recente de nossa sociedade (Delval, 1991). Até alguns séculos atrás
pensava-se que ela fosse um adulto em miniatura, dai atribuirem-lhe tarefas
hoje inadmissíveis; ao contrário, pensava-se também que ela fosse como um “anjo” pela inocência e simplicidade, pela incapacidade de compreender ou
acompanhar certos acontecimentos na vida da família, daí esconderem-lhe certas
coisas ou exporem-na a outras sem qualquer crítica. Por outro lado, julgava-se
que só o hábito, a experiência e a imitação modelariam a criança tornando-a tal qual um adulto. Dai a ênfase na
transmissão, na linguagem, na cópia.
Mas, hoje - pelo menos esta é nossa suposição em todo este texto - seja pelos
aspectos já analisados, seja por tantos outros que autores mais preparados do
que eu têm mostrado, tornar-se mais construtivista é uma necessidade atribuída
à escola. Quais as mudanças a serem
feitas nos diversos aspectos de sua estrutura e funcionamento? A seguir indico,
de forma superficial e incompleta, alguns tópicos disso.
1. Postura do professor
Uma questão muito debatida é sobre a postura do
professor, por exemplo, diante dos
conteúdos escolares. Supõem alguns
que o professor construtivista não precisa considerar os conteúdos ou matérias
escolares, tanto quanto o fazem os professores da escola tradicional. Trata-se
de um engano. O professor construtivista deve saber muito a matéria que
ensina. Mas, por uma razão diferente.
Antes, tratava-se de saber bem, para transmitir ou avaliar certo. Agora, trata-se de saber bem para discutir com a
criança, para localizar na história da ciência o ponto correspondente ao seu
pensamento, para fazer perguntas inteligentes, para formular hipóteses, para
sistematizar, quando necessário. O conhecimento científico sobre determinado
assunto será sempre nossa referência principal. Mas, não se trata de saber para
impor, submeter ou induzir uma resposta na criança. Em uma visão não
construtivista a resposta ou mensagem do professor é o que interessa. Em uma visão construtivista, é a pergunta ou
situação problema que ele desencadeia nas crianças. (Macedo, 1992).
2. Materiais de ensino
O lugar do livro didático e de outros recursos de ensino em uma escola
construtivista é, igualmente, uma outra questão fundamental. Consideremos, por
exemplo, a questão do livro4.
Simplificando muito, qualquer um conhece o paradigma dos atuais: a) explicação
sintética e “didática” dos conteúdos, b) exemplos, de preferência tirados de situação
conhecida, e c) proposta de exercícios ou experiências. Tudo isso apresentado
de “forma colorida” e com muitas ilustrações. O professor trabalha a situação
explicando os termos desconhecidos e repetindo, com ou sem “arte”, aquilo já
disponível no texto. Se as dúvidas não são muitas ou se o tempo urge, passa-se
à unidade seguinte e assim sempre, até a
“hora da verdade” (a prova). Isto porque, se se trata de um livro sobre
matéria científica (matemática, biologia, física, história. etc), não se pode “inventar”
muito sobre o que lá está proposto. “Inventar” ou “viajar” é quando muito
permitido para o texto literário, Isto se o professor de Português for
“alternativo”. Ora, em uma perspectiva
construtivista tudo isso teria que ser repensado. Sabemos que um texto
literário, como ponto de chegada, exige tanta coerência entre uma comunidade de
leitores, quanto um texto dito cientifico. E, igualmente, que este, como ponto
de partida, deveria admitir -se se considerasse a perspectiva de seu leitor -
tantas versões quanto um texto literário. Mas, muitas vezes, qualquer
semelhança entre o modo como se trabalha um texto científico e um texto
literário é mera coincidência.
3. Disciplina na sala de aula
Uma boa aula não construtivista pede o silêncio e a contemplação do
ouvinte, para que o conferencista possa extasiá-lo com seus conhecimentos e sua
sabedoria. Pede a limpeza e o florido de uma sala de jantar, preparada para bem
receber o amigo querido. Uma aula construtivista pede o ruído e a manipulação,
nem sempre jeitosa, daqueles que, tendo
ou aceitando uma pergunta, não estão
satisfeitos com o nível de suas respostas. Pede a “sujeira” e o
experimentalismo de uma cozinha.
Reconheço que minhas imagens são grosseiras, extremadas e muito
caricatas. Mas, com elas apenas gostaria de lembrar ao leitor os valores que
passamos, conscientemente ou não, nas “milhares” de vezes em que um professor
intervem exigindo um silêncio, que é mais um mutismo, ou exigindo uma ordem,
que é mais um “varrer para baixo do tapete”.
4. Avaliação escolar
Em outros textos
desenvolvi, ainda que de forma igualmente introdutória, questões relativas ao erro (Macedo, 1990) ou
à avaliação escolar (1992). Aqui, quero apenas considerar que esta eterna,
importante e irresolvida questão - como e por que avaliar a produção escolar da
criança? - tem tratamentos muito diferentes, dependendo da perspectiva
construtivista ou não do professor. E se é correto, como suponho, que muitos de
nós admitimos a necessidade de a escola tornar-se mais construtivista -mesmo
que não tenhamos ainda boas respostas para isso - então, será preciso, também,
discutir sobre a avaliação nessas novas bases.
DELVAL, Juan. Crecer y pensar. Guanajuato: Paidós Mexicana, 1991.
MACEDO, Lino de. Para uma visão construtivista do erro no contexto escolar. In: Coletânea de textos de Psicologia
HEM/CEFAM, Vol. 1 Psicologia da Educação. São Paulo:
Secretaria de Estado da Educação - Coordenadoria de Estudos e
Normas Pedagógicas, 1990, p. 345-362.
______ Jogos de palavras e cognição. Revista Trino, (2):43-47, 1991.
______Método Clínico e avaliação escolar. Fundação para o Desenvolvimento
da Educação (FDE), Secretaria da Educação do Estado de São
Paulo, 1992 (a ser publicado)
PIAGET, Jean. La représentation
du monde chez l’enfant. Paris: Presses Universitaires de France, 1926.
______
La naissance de l’intêligence chez I'enfant. Neuchâtel: Delachaux & Nestlé, 1936.
______La construction du réel chez
I'enfant. Neuchâtel: Delachaux & Nestlé,
1937.
______La formation du simbole chez I'enfant. Neuchâtel: Delachaux & Nestlé,
1946.
______(dir.). Logique et connaissance scientifique. Paris : Gallimard,
1967.
______La prise de canscience. Paris: Presses Unversitaires
de France, 1974~.
______Reussir et comprendre. Paris:
Presses Universitaires de
France, 1974
________L’equilibration de: structures cognitive: Paris Presses Universitaires de France, 1977.
_________Recherches sur les correspondence: Paris: Presses Universitaires de France, 1980.
1 Artigo
publicado na Revista EDUCAÇÃO E REALIDADE, Porto Alegre, 18(1):25-31, jan/jun.
1993.
2 Professor e Vice-Diretor do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo
3 Minha hipótese, um pouco mais desenvolvida em outro lugar (Macedo,
1991), é que nós produtores da “cartilha” e de uma escola não contrutivista,
temos uma relação predominantemente utilitarista com as letras e os números. Ou
seja, muitos de nós só escrevemos ou
calculamos quando obrigados pelas circunstâncias da vida (trabalho, conta
bancária etc). Penso que esta nova geração terá uma relação mais “amorosa” e espontânea com estes instrumentos hoje fundamentais para
uma cidadania mais digna e proveitosa.
4 Esta imagem devo-a, mas sem responsabilizá-la pelas simplificações e
generalizações aqui cometidas, à Profª. Leny Martine Rodrigues Teixeira, minha
orientanda. Ela realiza um importante trabalho (a ser defendido como sua tese
de doutorado até o final deste ano) sobre educação matemática em crianças de 5ª
série de primeiro grau; a análise do livro didático e do modo como professores
utilizam-no na sala de aula.