Aspectos
sócio-culturais dos transtornos alimentares
Luciene Helen da Silva
Joane Jardim Dias
Adriana Amaral do
Espírito Santo
Os transtornos alimentares são freqüentemente considerados quadros
clínicos ligados à modernidade, mas uma breve revisão histórica evidencia a
existência dessas patologias ao longo do tempo e retoma a velha discussão
psicopatológica do essencial e do acessório, do patogenético e do patoplástico, enfim das relações entre a doença e a
cultura.
A etiologia desses transtornos é multifatorial,
ou seja, eles são determinados por uma diversidade de fatores que interagem
entre si de modo complexo, para produzir e, muitas vezes, perpetuar a doença.
Classicamente, distinguem-se os fatores predisponentes, precipitantes e os
mantenedores dos transtornos.
Os fatores predisponentes são aqueles que aumentam a chance de
aparecimento do transtorno alimentar, mas não o tornam inevitável. Entre eles,
estão as questões individuais e familiares e características sócio-culturais.
Os fatores que precipitam a
doença marcam o aparecimento dos sintomas dos transtornos alimentares,
incluindo a dieta alimentar e eventos estressores na
vida.
Finalmente, os fatores mantenedores determinam se o transtorno vai ser
perpetuado ou não, abrangendo também questões fisiológicas, psicológicas e
culturais.
Neste artigo, faremos algumas considerações a respeito dos aspectos
sócio-culturais que contribuem para o surgimento de distúrbios com relação à
alimentação, desde os mais brandos até os mais graves, como anorexia nervosa,
bulimia e obesidade.
Ditadura da magreza e outros
fatores
Os aspectos socioculturais dos transtornos alimentares têm sido
amplamente estudados. O interesse pelo tema decorre de observações, encontradas
já nas primeiras descrições contemporâneas destes transtornos, de que a extrema
valorização da magreza nas sociedades ocidentais desenvolvidas estaria
fortemente associada à ocorrência de anorexia nervosa e bulimia nervosa.
Estudos epidemiológicos demonstram um aumento na incidência destes
transtornos concomitante à evolução do padrão de beleza feminino em direção a
um corpo cada vez mais magro. Os dados revelam também que anorexia nervosa e
bulimia nervosa parecem ser mais prevalentes em países ocidentais e são
claramente mais freqüentes entre as mulheres jovens, especialmente aquelas pertencentes aos estratos sociais mais elevados destas
sociedades, o que fortalece sua conexão com fatores socioculturais.
Estas informações levaram alguns pesquisadores a conceberem os
transtornos alimentares como "síndromes ligadas à cultura" (culture-bound syndromes).
De acordo com esta concepção, a pressão cultural para emagrecer é considerada
um elemento fundamental da etiologia dos transtornos alimentares, que interage,
como colocado anteriormente, com fatores biológicos, psicológicos e familiares
para gerar a preocupação excessiva com o corpo e o pavor doentio de engordar, característicos da bulimia e anorexia nervosa. A
influência dos aspectos socioculturais é marcante.
Transtornos Alimentares e a Cultura Ocidental
Nas sociedades ocidentais, ao mesmo tempo em que observamos uma oferta
abundante de alimentos de alto teor calórico e de rápido consumo, e a vida
cotidiana se torna cada vez mais sedentária, as modelos e atrizes de sucesso,
representantes dos padrões ideais de beleza feminina, são extremamente magras e
muitas vezes apresentam um corpo de pré-adolescente, com formas poucos definidas.
Assim, este padrão se impõe especialmente para as mulheres, nas quais a
aparência física representa uma importante medida de valor pessoal. Proliferam
novas e miraculosas dietas para emagrecimento; as academias de ginástica
apresentam inúmeras opções de exercício e revelam o alto investimento
tecnológico para o desenvolvimento de técnicas de exercício físico. São
notáveis também os avanços da indústria cosmética no desenvolvimento de
produtos e técnicas cirúrgicas que auxiliem na busca pela magreza e pelo corpo
perfeito.
Duas crenças falsas acompanham a busca do corpo ideal. A primeira delas
é a noção de que o corpo é infinitamente maleável e que este ideal estético
pode ser atingido por qualquer um que siga as prescrições culturais de
exercícios e dieta adequados. Nega-se a
particularidade do corpo de cada um e as limitações impostas pela biologia e
genética. Acredita-se que a boa forma física depende apenas do esforço pessoal.
Além disso, a imagem do corpo ideal é acompanhada de conotações simbólicas de
sucesso, auto-controle, auto-disciplina, liberação
sexual, classe e competência. O fracasso em se atingir este ideal passa a ser equacionado
com falta de força de vontade, preguiça e fraqueza. A segunda crença falsa diz
respeito justamente a idéia de que aqueles que
atingirem este padrão de forma corporal alcançarão tudo o que buscam, desde
sucesso na profissão, nos relacionamentos sociais e até nos relacionamentos
amorosos.
Embora a aparência física seja um elemento fundamental da imagem da
mulher em diversas épocas e culturas, a extrema magreza nem sempre foi o ideal
almejado. Uma passagem rápida pela história da arte revela que a Renascença
valorizava mulheres de corpo cheio, com quadris grandes e abdomens avantajados.
Nas décadas de 40 e 50, estrelas de Hollywood como Marylin Monroe eram mulheres de seios fartos e corpos
curvilíneos, valorizadas por seu sex appeal. Mesmo em épocas que preconizavam um padrão
mais longilíneo, nem sempre a dieta era o principal
recurso para atingi-lo. Na década de 20, por exemplo, as mulheres usavam faixas
para tornar o tórax mais achatado e os seios menos aparentes. Em outras épocas,
espartilhos eram amplamente utilizados para reduzir a cintura das mulheres.
Atualmente dietas e exercícios parecem ser os principais meios para se
modificar o corpo, conforme nos revela a alta prevalência destes
comportamentos. E os ideais de beleza cultuados pela juventude em especial são
de atrizes e celebridades anoréxicas como Vitória Beckham, Mary-Kate Olsen, Nicole Richie e Kate Moss.
O impacto deste padrão no comportamento revela-se no desejo
generalizado, especialmente entre as mulheres, por um corpo mais magro. A discrepância entre o peso real e o ideal levam a um estado
de constante insatisfação com o próprio corpo e as dietas para perder peso
tornam-se extremamente freqüentes. Surge assim um campo fértil para o
desenvolvimento dos transtornos alimentares.
Dada esta relação, pode-se levantar a hipótese de que existe um "continuum de preocupação com o
corpo" levando à dieta e outros métodos drásticos de controle do peso.
Deste ponto de vista, os transtornos alimentares seriam a
expressão máxima, numa relação linear e direta, da "cultura do
corpo" predominante em algumas sociedades. Contudo, esta hipótese é
questionável na medida em que apenas uma pequena parcela de todos os que fazem
dieta chegam a desenvolver um transtorno alimentar. A etiologia dos transtornos
alimentares é hoje concebida como multidimensional e inúmeros
outros fatores parecem mediar o impacto da cultura no comportamento individual,
entre eles as vulnerabilidades psicológica e biológica.
Na população brasileira observa-se o reconhecimento crescente de casos
de transtornos alimentares na última década, motivando a criação de serviços
especializados para seu atendimento em centros universitários.
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