Compreendendo o aborto
espontâneo - uma perspectiva psicanalítica
Luciana
Araujo Gomes[1]
HILDEBERTO VIEIRA
MARTINS[2]
Deslindar a gravidez em seus matizes implica
também em examinar a possibilidade de ocorrência de uma incidência, que é o
aborto espontâneo.
Ao estudarmos o desenvolvimento de
uma vida humana no útero materno, consideramos que esse estudo, além de
contemplar a vivência emocional dos nove meses necessários à gestação, também
deve conter um problema passível de acontecer nesse processo: o aborto
espontâneo.
Assim, no presente estudo
objetivamos definir o aborto espontâneo e apresentar suas possíveis causas, com
base na teoria psicanalítica.
Atentamos para a seguinte questão:
se uma gravidez teve lugar na vida de uma mulher é porque existiu o desejo de
produzir uma vida como determinante ao seu acontecimento. Toda gravidez é
oriunda de um desejo e, sob a ótica da psicanálise, ele pode ser analisado pela
lógica do inconsciente.
Sublinhamos que em qualquer gestação
está presente um conflito de ambivalência que se caracteriza pela oscilação de
dois desejos: o desejo de aceitação e o de rejeição ao filho. O desejo de
rejeição é oculto à mulher, o que significa que cinge o aspecto inconsciente de
seu psiquismo; ele pode expor a perigo a gestação, provocando a sua interrupção
com a ocorrência do aborto espontâneo.
O aborto espontâneo foi então
pensado como o resultado de um desejo inconsciente de negar o filho gerado,
através de um ataque inaudito ao corpo da mulher. E foi pelas suas vivências
que a mulher elaborou esse desejo.
O
estudo compreende uma pesquisa teórico-bibliográfica, cujo delineamento
metodológico consistiu na análise da literatura científica no que concerne à
definição e às possíveis causas inconscientes do aborto espontâneo.
Sabemos
que poucas foram as pesquisas na área da Psicologia da Gravidez que se
propuseram esmiuçar o aborto espontâneo, ainda que como problema secundário
dentro da problemática da gestação, e a inexistência de estudos que o
colocassem como investigação relevante. Assinalamos, portanto, a importância em
desnudá-lo.
Considerações preliminares acerca do desejo de ter um
filho
A
ocorrência de uma gravidez exprime a existência de um desejo de ter um filho
que existiu tanto na mulher quanto no homem. Stewart e Szejer (1997) comentam
que um filho é o resultado do desejo de um homem e do desejo de uma mulher, e
foi do encontro desses desejos que originou um terceiro desejo: o desejo de
vida que se encarnou no corpo do filho. Como pontuam: ''(...) Do encontro de dois
desejos, o do homem e o da mulher, vai nascer um projeto. (...) Seja qual for a
configuração, essa origem marcará a criança e fará parte de sua história.
(...)'' (p. 55).
A fecundação é então a conseqüência da unção
de dois desejos propiciadores do nascimento de um terceiro desejo de vida que
se entranhou no corpo de uma criança. Logo, reportando novamente aos autores:
''(...), no momento do encontro, o homem e a mulher produzem juntos um filho em
potencial, um ser desejante (desejando viver) e que, durante todo o tempo da
gravidez, vai se fazer dentro do corpo e pelo corpo da mulher” (p. 89).
Se não
existisse o desejo de ter um filho, ainda que se consumasse o ato sexual, esse
não propiciaria o seu nascimento; por outro lado, estando presente, mesmo não o
sendo racionalmente reconhecido pelo casal, dimanará certamente na gestação,
marcando-a como não planejada e resultado do acaso.
O
desejo de ter um filho é elaborado a partir das vivências de cada um, podendo
surgir já na infância ao longo de suas experiências familiares, sobretudo de
suas relações com os pais. Stewart e Szejer (1997) comentam que é sempre em
referência aos modelos familiar, parental e social do homem e da mulher que se
constitui esse desejo; e quando há um encontro entre eles, encontro e projeto
de filhos, isso significa que o modo como cada um deseja um filho pode, nesse
momento, se entrelaçar um no desejo do outro. Desta forma, o acontecimento de
uma gravidez traduz a articulação entre suas histórias, que lhes permitiu um
encontro comum sobre o desejo de ter filho. A concepção ocorre, portanto, antes
mesmo do ato de gerar, situando-se na pré-história da gravidez como inscrição
da junção dos desejos do pai e da mãe.
Sob a
ótica da psicanálise, o desejo não pertence à ordem do consciente. Neste
sentido, um casal pode fazer de tudo para não ter filho e simplesmente fazê-lo
porque o desejo inconsciente foi mais forte que qualquer decisão racional. É também possível que o desejo
inconsciente se una à vontade consciente. Um exemplo seria quando uma gravidez
programada ocorre e sucede sem problema algum. Mas podem ocorrer conflitos
entre o desejo inconsciente e a vontade consciente. Assim, Stewart e Szejer
(1997) dizem que um preservativo mal colocado ou uma pílula esquecida
constituem atos falhos que podem ser entendidos como discurso do inconsciente,
podendo ser atribuídos aos dois — ao homem e à mulher — pois se houve
fecundação, o desejo de ter um filho está presente.
Segundo
os autores, para que se possa compreender a razão desses atos falhos não é
suficiente explicá-los apenas pela presença de um desejo inconsciente mais
forte do que a vontade consciente. é
preciso ligar o evento a seu contexto para que a verdadeira razão possa
emergir:
(...) Porque esta mulher, nesse momento — ainda mais que ela nunca havia
esquecido de tomar suas pílulas — repentinamente comete esse ato e inicia uma
gravidez? E porque este homem... etc. Ou ainda, porque este casal se colocou,
nesse momento, na situação de gerar um filho? (...) determinada mulher de quarenta
anos concebe um filho imprevisto no momento em que sua filha mais velha acaba
de se casar ou vai ter um bebê. Determinado homem coloca mal seu preservativo
após a morte recente de seu pai. Outra mulher esquece sua pílula no dia em que
fica sabendo que seu marido tem uma ligação extraconjugal. As razões são
inúmeras e tão variadas quanto particulares. Se a criança vive, essa razão
particular a marcará como um primeiro selo: o de sua origem. (p. 56-57).
Entendemos,
portanto, que são muitos os motivos que levam um homem e uma mulher a
elaborarem seu desejo de ter um filho. Esse desejo emerge revestido de sentido
que se ajouja as vivências particulares de cada um. Podemos dizer que um filho
vem responder ao desejo dos pais, ou melhor, ele existe para cumprir uma
realização na história do homem e da mulher. Assim, Stewart e Szejer (1997) nos
falam que o filho gerado antes de ser o filho real, é o filho do desejo de um
homem e do desejo de uma mulher, que se fundou a partir de uma falta, pois é de
uma falta que nasce um desejo.
Considerações acerca do conflito de ambivalência
presente em toda gestação
Aray
(1968) comenta que em toda gravidez está presente um conflito entre preservar e
destruir o feto, mesmo naquelas que não terminam
Langer
(1981) assinala que nenhuma gravidez é totalmente rejeitada ou totalmente
aceita, pois em maior ou em menor grau um conflito de ambivalência se faz
presente. Em seu trabalho clínico, ela reparou que quando o conflito de
ambivalência na gravidez é pouco intenso, ele pode revelar-se em sintomas menos
ofensivos como as náuseas e os vômitos — esses indicando uma tentativa de
aborto por via oral.
Maldonado
(1985) considera a vivência básica da gravidez a ambivalência afetiva, que
significa, conforme expressou, a balança do querer e do não querer. Ela comenta
que em toda gestação há sempre uma oscilação entre desejar e não desejar o
filho. Não existe uma gravidez totalmente aceita ou totalmente rejeitada, pois
mesmo quando há clara predominância de aceitação ou rejeição, o sentimento
oposto jamais se encontra inteiramente ausente. A autora associa as mudanças
emocionais na gestação ao conflito de ambivalência que se faz presente nesse
período, e diz que essas mudanças decorrem de tal conflito. Para ela, a
existência na vida humana de fenômenos que se opõem consiste em um evento
absolutamente natural, e caracteriza todos os relacionamentos interpessoais
significativos. Maldonado (1985) então assinala com relação às manifestações de
sentimentos ambivalentes que se instalam logo no primeiro trimestre da
gestação:
No
primeiro trimestre, o feto ainda não é concretamente sentido, e as alterações
do esquema corporal ainda estão bastante discretas. Portanto, as manifestações
mais comuns da ambivalência são os sentimentos de dúvida entre estar ou não
grávida, mesmo após a confirmação clínica que, por sua vez, também tende a
evocar uma mistura de sentimentos de alegria, apreensão, irrealidade e, em
alguns casos, franca rejeição. é
comum também a sensação de o feto não estar ainda suficientemente presso [sic] [grifo da autora] no útero, o que provoca inúmeras fantasias
de aborto e, em alguns casos, tentativas propositais ou acidentais [grifo da autora] — como, por exemplo, excesso de
exercícios e atividades físicas, propensão exagerada a tombos, fumar e beber
excessivamente. Às vezes, o desejo de abortar é disfarçado por um mecanismo de
formação reativa como, por exemplo, a autoproteção e cautela exageradas que
fazem com que a mulher restrinja severamente várias atividades, até mesmo as
relações sexuais, por medo de prejudicar o feto. (p. 28).
Segundo
a autora, as fantasias conscientes construídas pela mulher grávida acerca do
bebê e de si própria como mãe são importantes, pois constituem defesas contra o
temor de que a própria hostilidade, componente da ambivalência, destrua o feto.
A autora ainda assinala que, embora toda gravidez seja marcada pela oscilação
de sentimentos desde o primeiro trimestre, a reação inicial não se cristaliza
para sempre. Isto significa que uma atitude inicial de rejeição pode dar lugar
a uma atitude predominante de aceitação e vice-versa.
Soifer
(1992) também faz comentários acerca da ambivalência presente em toda gravidez.
Segundo ela, a ocorrência de alguns sintomas no primeiro trimestre da gestação,
tais como vômito, diarréia e constipação, exprime um modo de defesa da gestante
ao se deparar com um sentimento de rejeição em relação ao filho que gera; a
gestante estaria, portanto, buscando dar vazão a esse sentimento através da sintomatologia.
A autora então diz: "(...) Portanto, [a gestante] vomita ou defeca
excessivamente como maneira de dissociar e discriminar o bom e o mau dentro de
si, expulsando o mau para ficar com o bom, o filho." (p. 27).
Para
Stewart e Szejer (1997) o desejo de ter filho é sempre ambivalente. Uma mulher
pode por isso desejar uma criança e se deparar em si mesma com uma série de
argumentos para não fazê-la, ou, ao contrário, pode não desejá-la e acabar
ficando grávida. É possível que a mulher se sinta ambivalente ao se confrontar
com o seu desejo de ter um filho porque, para que se realize esse desejo, e
então se reconheça na condição de mãe, ser-lhe-á preciso renunciar à condição
de filha.
Há
mulheres que se culpam por se sentirem ambivalentes. Nesse tipo de situação é
preciso que a família e todos aqueles que convivem com ela colaborem para o seu
saber sobre o seu desejo a fim dela não se sentir mais tão ambivalente; e isso
se dá de maneira a não culpá-la pelo seu sentimento contraditório, porque senão
a família estará reforçando ainda mais sua ambivalência.
Os
autores também comentam que a ambivalência não desaparece na gravidez. Sendo a
base do desejo de ter um filho, ela reaparece no momento em que esse filho
passa a abrigar o útero materno. Assim, em toda gestação a mulher experimenta
no primeiro trimestre alguns momentos de incerteza com relação à sua condição
de grávida, em que se pergunta: estou mesmo grávida? Esta interrogação da
mulher acerca de seu novo estado aponta para a contradição de seu desejo de ter
esse filho. Ao se pensar grávida, a mulher pode ser tomada inesperadamente por
um desejo de não estar, de voltar à sua condição de filha, ainda que tenha sido
essa gravidez ardentemente desejada.
No
curso da gestação, ao se reconhecer grávida, ela não pode evitar de se
perguntar se esse processo chegará a termo. O indagar da mulher a respeito de
sua condição, como também da possibilidade do prolongar de sua gestação, pode
denotar o modo de expressão de sua ambivalência, ou, o modo de dizer que não
quer mais o filho desejado do qual está grávida.
Stewart
e Szejer (1997) ainda pontuam que, dependendo dos casos, a ambivalência é mais
ou menos marcada. Todavia ela está sempre presente em cada homem e em cada
mulher, inscrita na própria estrutura de seu inconsciente e na linguagem, e
ressurge nas situações que impõem uma tomada de decisão; a gravidez constitui
uma dessas situações, assim como o projeto de ter um filho. Porque somos seres
humanos ou seres de linguagem, somos capazes de desejar; e ser capaz de desejar
é ser capaz também de não desejar. Os dois movimentos são simultâneos, senão
não estamos mais na ordem do humano e sim na ordem do animal, que é movido pelo
instinto de reprodução. O homem, pelo contrário, pode ter sua capacidade
reprodutora desorganizada pela linguagem. Por isso podemos dizer que a
capacidade humana de se reproduzir está submetida à ordem da linguagem, sendo o
homem definido como ser de linguagem.
Considerações acerca da definição do aborto espontâneo
Como
vimos, um filho é o produto do encontro de dois desejos: o do homem e o da
mulher. Sob o ponto de vista da teoria psicanalítica, o desejo pode ser
analisado pela lógica do inconsciente. Ainda que tenha erigido de um desejo,
toda gravidez é também marcada pela negação ao filho. O desejo de aceitação é
balanceado pelo desejo de rejeição, constituindo ambos os desejos em oscilações
que caracterizam o conflito de ambivalência presente em qualquer gestação.
Mesmo nos casos em que a gravidez foi programada, há o desejo de negar a
criança que cinge o aspecto inconsciente do psiquismo da mulher, cuja
elaboração deu-se a partir de suas vivências. Esse desejo pode comprometer a
gravidez de forma aguda — quando a gestante tem náuseas e vomita — ou de forma
severa, implicando na sua interrupção, com a gestante abortando espontaneamente
o feto. Assim, Deutsch (1949/1953) difere o aborto provocado do espontâneo,
dizendo que no primeiro a perda do feto se deve a uma ação consciente da
mulher, através da intervenção de agentes externos ao corpo no curso da
gravidez; no aborto espontâneo, o agente indutor se encontra na psique da
mulher e sua ação não depende da vontade consciente da mesma, estando muitas
vezes em oposição a essa. Para Deutsch (1949/1953), os mecanismos psíquicos do
aborto espontâneo são inconscientes, são reações de conversão, porém diferentes
da conversão histérica, e estão no campo denominado pela medicina de
psicossomático, no qual há uma intervenção do psiquismo no corpo, no
funcionamento do organismo.
Com
vista a estes comentários, entendemos então o aborto espontâneo como o
resultado de um desejo inconsciente de rejeição ao filho por meio de um ataque
inaudito ao corpo da mulher; e esse desejo se fundou a partir de toda uma
vivência peculiar representada em seu psiquismo, vindo a comprometer o
desenrolar da gravidez e a vinda ao mundo de um bebê. Partindo deste princípio,
levantaremos algumas de suas causas orientados em teóricos psicanalistas, os
quais, por intermédio de trabalhos clínicos, puderam compreender o aborto
espontâneo.
Teorias psicanalíticas e possíveis explicações das causas
inconscientes do aborto espontâneo
Myriam Szejer e
Richard Stewart (1997)
Uma
causa que explica o aborto espontâneo é a similaridade de datas e ocorrências
de aborto vivenciadas por antecedentes na família em sua história passada. Para
que confrontemos essas datas e essas ocorrências, devemos avaliar o contexto
familiar específico no qual elas têm lugar, o que nos permite desvendar o
significado próprio desses abortos e descobrir o sentido que os interliga. Como
comentam:
(...) é claro que o sentido dessa morte pode
escapar. Mas para tentar captá-lo, é útil prestar atenção às datas e às coincidências [grifo dos autores].
Determinada mulher, por exemplo, que sempre faz mortes in útero na mesma data,
poderia, talvez, descobrir o sentido dessa data em sua história ou na de sua
família e interromper esse circulo infernal, colocando, enfim, palavras sobre
esses não-ditos, dos quais ela se tornou inconscientemente escrava. (...) (p.
177).
Uma
outra causa consiste na necessidade da mulher de reprimir algum sentido em sua
vida que se encontra associado a uma data específica; ela então aborta na
respectiva data que lhe tem um sentido oculto. Conforme observaram em uma
paciente:
“Por exemplo, havia uma mulher que abortava sempre em
determinado momento da gravidez e se recusava terminantemente a admitir isso.
Essa data tinha um sentido em sua história, que ela tinha necessidade de
reprimir, porque ela o percebia como ameaçador.” (p. 141).
A
ocorrência do aborto espontâneo pode se inscrever em um contexto familiar
marcado por ocorrências de abortos mal-assumidos, ou seja, um luto não feito
por uma antecedente da família, ocasionando em uma repetição inevitável. Nesse
caso, o aborto exprime a evocação desse luto não elaborado; a criança abortada
ocupava o lugar de outras crianças, também abortadas, na história da família;
como não teve seu lugar definido, ela tendeu a repetir o trágico destino de
seus antepassados:
(...) Que repetição entra em jogo nessa família e por que
essa mulher deve endossá-la? Ouvir essas mulheres, compreendê-las, poderá
permitir-lhes romper com esses mecanismos psíquicos profundos, encontrando sentido
naquilo que parecia desprovido de significado. Assim, dotada de sentido, a
história poderá prosseguir. Mas enquanto o sentido não é compreendido, colocado
em palavras, ele procura fazer-se entender, num processo de repetição que se
pode confinar numa perspectiva trágica. (p. 141).
A causa
inconsciente do aborto espontâneo também pode ligar-se a casos na família de
mulheres que morreram durante o parto, encontrando-se a gestante identificada
com essas mulheres e com suas trágicas histórias de vida maternal, o que a faz
representar inconscientemente o nascimento de um filho como uma ameaça de
morte.
Uma outra explicação está no
contexto familiar da mãe, no qual uma história se repete: as mortes ou abortos
espontâneos no mesmo lugar. Um exemplo é a mulher que está esperando o seu
segundo filho, e o segundo filho de sua mãe ou de sua avó sofreu um aborto
espontâneo.
Em
última análise, os autores explicam o aborto espontâneo pela compreensão dos
conflitos que têm lugar no contexto do casal e do filho. Sendo os conflitos
recalcados, eles encontram no aborto uma maneira de expressar uma situação
inconsciente específica que necessita ser expressa.
Conforme
sublinham, o que há de comum a todas essas situações é que elas se inscrevem
nas histórias particulares e só podem ser compreendidas nesse contexto.
Júlio Aray (1968)
Uma das
causas é a idéia tida pela mulher de que o feto não lhe pertence; ele
representa para ela algo precioso roubado de sua mãe: o pênis de seu pai;
assim, tal idéia leva-a ao aborto a esse objeto de fantasia gerador de intensas
angústias.
As
raízes do aborto espontâneo também são encontradas na história da gestante, e
mais especificamente em sua relação primária com os pais. Aray (1968) diz que a
privação das figuras parentais tem como conseqüência mais freqüente uma redução
na capacidade de desempenhar satisfatoriamente as funções paternais. O aborto
espontâneo ilustra, por uma identificação ao feto, a repetição das vivências
desagradáveis com as figuras parentais internalizadas.
O autor
ainda pontua como causa do aborto espontâneo os elementos edípicos. A gênese do
aborto está em uma perturbação da relação com o pai, baseada em uma dificuldade
prévia na relação com a mãe. O aborto espontâneo sintetiza, portanto,
dificuldades na resolução do complexo edípico. Ele descreve o perfil das
relações edípicas das pacientes abortadas: a) Se a relação com a mãe foi
difícil e insuficiente por diferentes razões, isso impede que a paciente
consiga uma identificação feminina satisfatória, levando-a a dificuldades em
lidar com as vivências de mulher e mãe; é como se ela se sentisse abortada pela
mãe devido às insuficiências por que passara em sua relação com a mesma; tal
situação é repetida com o pai e com os outros objetos eróticos posteriores; b) A
figura paterna foi de um modo geral ausente como pai, no entanto, apresentou-se
muito idealizado, sedutor e com características femininas; nesse caso o aborto
espontâneo constitui uma repetição da relação mal-elaborada com os pais; há uma
relação fugaz, idealizada, expressa no começo da gravidez pelo próprio ato de
engravidar, e logo depois a desilusão e a perda.
Os
elementos da situação edípica observados com maior freqüência são: a fuga ao
incesto, uma vez que a gravidez representa inconscientemente o resultado de uma
relação incestuosa; realização do crime edípico, visto que no aspecto
inconsciente o feto é representado como um dos pais; submissão à castração
genital por meio do aborto, como castigo pelo incesto fantasiado ou consumado;
repetição com o feto do que sofreu na relação com o pai e a mãe; reativação de
uma cena primária violenta e sádica.
Marie Langer (1981)
Para
essa autora, as dificuldades em relação à feminilidade ou transtornos na
identificação feminina têm sua origem na relação insatisfatória da mulher com
sua mãe durante a infância, que freqüentemente é repetida com o pai, mas que de
qualquer modo, é a fundamental. A figura materna interiorizada torna-se
perigosa e ameaçadora, impossibilitando toda identificação positiva com os
aspectos maternais. Os conflitos e dificuldades na integração da feminilidade
geram intensa angústia, que interfere na capacidade procriativa e resulta na
morte do feto, constituindo, portanto, o mecanismo do aborto espontâneo. Assim,
Langer (1981) diz: "(...) a defesa mais freqüente contra a angústia
provocada pelo feto que cresce e cresce, consiste no aborto, na expulsão
prematura do perseguidor, que corre amiúde, sem poder ser freada por nenhuma
medida preventiva ou medicação." (p. 199).
Langer
(1981) também comenta que durante a gravidez a mulher revive sua relação
primitiva e infantil com sua mãe, através de uma dupla identificação: com ela
(a mãe) e com o feto. O feto pode representar no inconsciente da mulher sua
própria mãe e, especialmente o superego materno. Ela rejeita o filho por vê-lo
como exigente, despótico e impossível de satisfazer. Encontra-se, portanto,
identificada com o feto, e projeta sobre ele sua própria voracidade infantil,
seus desejos agressivos orais em relação à sua mãe. Esta seria mais uma causa
do aborto espontâneo segundo a autora.
Para
Langer (1981), o feto pode também representar à mulher algo precioso roubado à
sua própria mãe — o pênis do pai —, da qual passará a temer a retaliação
através de um castigo atroz. Temos aí uma outra causa do aborto espontâneo.
Hélène Deutsch (1949/1953)
O
aborto espontâneo é causado pela atuação de uma angústia inconsciente muito
elevada, em nível tal que sobrepassa muitas vezes o próprio desejo consciente
da gestante de ter o filho. As situações geradoras dessa angústia são: o temor
à dependência da mãe, a luta contra o filho experimentada de forma hostil, a
tendência ao autocastigo que torna impossível o cumprimento de qualquer desejo
muito intenso.
No que
concerne à dependência materna na gravidez, ela pode adquirir a aparência de um
protesto, como o dos adolescentes, que é tanto mais intenso quanto maior a
dependência. Nesses casos, o filho que poderia ser sentido como a concretização
da independência é, ao contrário, sentido como ligação, daí decorre o desejo
inconsciente de eliminá-lo.
Sobre a
tendência ao autocastigo, Deutsch (1949/1953) considera que todos os processos
da reprodução são particularmente vulneráveis ao sentimento de culpa. Embora de
forma secundária, a gravidez pode mobilizá-los, pois ela reativa antigos
sentimentos de culpa relativos à atividade sexual e aos sentimentos agressivos
infantis por ocasião da gravidez da mãe.
No que
se refere à luta contra o filho a autora pontua que, devido a uma dificuldade
de elaboração da gravidez, na relação com a criança a mãe pode senti-la como
uma perseguidora hostil. A situação biológica dessa gravidez é a de parasitismo
por parte da criança. Nessa situação, o filho não corresponde ao feto; o feto é
o parasita biológico; o filho é, nesse momento da gravidez, a idéia que dele
faz a mãe. Se ele não habita deste modo o universo psíquico dela, o protesto
contra o sacrifício biológico se exprimirá pela tendência à expulsão do feto de
algumas maneiras: por vias oral, anal ou genital; no último caso ocorreria o
aborto espontâneo. A autora então assinala:
Na medida em que exista um desejo positivo insuficiente para
o amor e o sofrimento masoquista, e na medida em que a identificação maternal
não se eleve acima da significação parasitária do feto, este continuará sendo
um perturbador psíquico e em certas circunstâncias, físico. (p. 129).
Para
Deutsch (1949/1953), o que transforma o feto de parasita em ser amado é um
processo de identificação no psiquismo materno, e, quando isso acontece, a
mulher revive e realiza um antigo desejo de identidade entre o eu e o não-eu,
um sentimento de unidade. As influências perturbadoras criadas, por exemplo,
pelo sentimento de culpa, podem inibir esse sentimento.
Raquel Soifer (1992)
Soifer (1992), particularizando os
acessos de ansiedade durante a gravidez, comenta que cada um deles pode durar
dias ou semanas e chegar a produzir sintomatologia física própria, podendo
repercutir em aborto espontâneo. As fases de perigo de aborto são as ansiedades
do segundo e terceiro mês de gravidez que é o período no qual se forma a
placenta, e o quarto mês no qual ocorre a percepção dos primeiros movimentos
fetais.
As ansiedades do segundo e terceiro
mês são resultantes da percepção inconsciente do processo de placentação. Ao
estabelecer-se a circulação através das vilosidades, muda o sistema nutritivo
do embrião e esse processo passa a se realizar por meio da placenta. Em si
mesma, a nidação é um ato agressivo à mucosa uterina por parte do ovo
fecundado. Ambos os processos, nidação e absorção de substâncias alimentícias
na corrente circulatória materna, com as mudanças psicológicas que determinam,
são percebidos e vividos de forma persecutória pelo inconsciente da gestante. O
aborto espontâneo é então uma ocorrência resultante das ansiedades manifestadas
com a percepção inconsciente do processo de placentação. Para Soifer (1992), se
esse processo for explicado à gestante, sua ansiedade decresce a níveis
toleráveis, constituindo em uma higiene mental do aborto.
No que
concerne a uma segunda fase da gravidez considerada pela autora como fase de
perigo de aborto, o quarto mês, essa é o período no qual a percepção dos
primeiros movimentos fetais torna-se possível, mas pode ocorrer um pouco antes,
aos três meses e meio. A percepção desses movimentos determina a emergência de
fortes ansiedades, e dependerá de cada personalidade a maior ou menor
capacidade de tolerá-las. O extremo patológico a que pode levar tais ansiedades
é o aborto espontâneo por volta do quarto ou quinto mês de gravidez.
No que diz respeito ao processo de luto pelo aborto
espontâneo vivenciado pela mulher que abortou, como também pelo seu companheiro
e demais familiares
Segundo
Maldonado (1989) uma das motivações importantes para gerar filhos é o desejo de
transcendência, de uma certa imortalidade pelo prolongamento das gerações.
Considerando-se,
com base em Dolto (1982, apud STEWART E SZEJER, 1997), que um filho é três, ou
seja, é o desejo do pai, o da mãe e o de vida que se entranhou em seu corpo, a
possibilidade de gerá-lo e dele vir a nascer assegura ao casal a vida eterna,
pois ele é o desejo encarnado dos pais que irá perpassar a cada nova geração,
marcando desta maneira a existência da humanidade. Deste modo, o homem e a
mulher, quando geram um filho, o fazem com o sentimento que nunca deixarão de
existir, uma vez que passarão a existir nele — no filho.
Maldonado
(1989) nos diz então, quanto à possibilidade de gestar, que esse processo
representa a vida fazendo parte da própria vida, ou, um ciclo universal maior
indo além do ciclo vital pessoal. Para a autora, a possibilidade de gerar vida
vincula-se à sensação de ser capaz de criar, amar, fazer coisas boas, ser
fecundo, realizar-se.
Em uma
outra obra (1985), ela comenta que no decorrer da infância o homem e a mulher
criam pouco a pouco uma imagem básica a respeito de si próprios como pessoas.
Neste sentido, muitas vezes formam idéias positivas que os valorizam,
percebendo-se como pessoas boas, que produzem coisas boas e que por isso são
merecedoras de viver acontecimentos bons. Todas essas sensações referentes à
crença na própria bondade e capacidade de fazer coisas boas convergem com
grande intensidade para a situação de ter um filho. Assim, para o homem e a
mulher a possibilidade de gerar vida intensifica os sentimentos positivos
criados por cada um, que vem perpassando suas vivências desde a infância — e
que eles sempre atualizam — vinculados a eles próprios como pessoa.
Essa
possibilidade de gestar ganha o sentido de produtividade, vitalidade e saúde. A
mulher sente-se valorizada porque o ato de poder doar o próprio corpo ao abrigo
e formação de uma nova vida expressa que ela está bem por dentro, que o
interior de seu corpo está saudável e que então ela está com saúde o bastante.
Com isto, ela pode desfrutar, junto a seu companheiro — cujo desejo aliado ao
dela lhes permitiu o nascimento de uma criança —, de suas condições de
virilidade, potencialidade e fecundidade, afirmadas pelo ato de gestar.
Maldonado
(1985) também assinala que além da imagem básica positiva com relação à pessoa
do homem e da mulher, ambos também formam no curso da infância uma imagem
negativa sobre eles próprios, percebendo-se em alguns momentos como pessoas
más; depreciam-se não acreditando que alguém possa gostar-lhes, e carregam a
sensação de serem castigados por tudo que fizeram de ruim. Todos esses
sentimentos relativos à crença em sua própria bondade e em sua própria maldade
vão colorir grande parte das vivências do ciclo grávido-puerperal. A
possibilidade de gerar morte vincula-se, portanto, à sensação de serem capazes
de destruir, odiar, serem ruins, provocando sentimentos de culpa e temor ao
castigo. Nesse tipo de situação, o corpo é sentido pela mulher como estragado e
improdutivo.
Soifer
(1992), em seus comentários sobre o puerpério em caso de morte do feto,
assinala que a ocorrência de um aborto espontâneo é sempre vivida pela mulher
de maneira catastrófica. A depressão puerperal que sobrevém apresenta-se muito
intensa. A frustração dos desejos, devaneios e projetos e, principalmente, a
impossibilidade de aplicar a capacidade maternal, produz na mulher uma dor
intolerável, causando uma profunda ferida narcisista de difícil e lenta
recuperação e ocasionando uma lembrança duradoura dessa dor emocional que
funda. As idéias conscientes centram-se na vivência de haver engendrado um
monstro. As idéias inconscientes implicam a convalidação da fantasia equipadora
bebês-fezes, pela qual o filho morto aparece como a transformação real do bebê
em fezes, esses resíduos que são lançados fora e perdidos. Portanto,
reatualizam-se as ansiedades da aprendizagem do controle esfincteriano. Para
Soifer (1992), a vivência de um aborto espontâneo faz erigir na mulher o
sentimento de castração, de lhe ter sido arrancada uma parte valiosa de si própria.
Assim, ela comenta:
(...) Neste caso,
além da vivência de castração, vale dizer, do sentimento de lhe ter sido
arrancada uma parte valiosa de si mesma, surge na paciente a reatualização da
dor narcisista infantil, pois aquilo depositado no urinolzinho, a mãe o
denomina cocô [grifo da autora] e diz
que é preciso jogá-lo fora, sem atentar para as vivências da criança, que o
considera algo muito bonito, muito importante, uma parte de si mesma, ou seja,
um bebê. (p. 88).
A
autora observou em seu trabalho clínico que esse sentimento de castração surge
tanto na mulher como em seu companheiro, e em menor intensidade nos demais
familiares. O maior perigo nesse caso é quanto à união do casal; é muito
freqüente que os cônjuges, a fim de enfrentarem a dor, projetem um no outro a
culpa pela perda do filho. Se tal projeção é intensa, poderá ocasionar a
dissolução do vínculo. Ela então repara: "(...) Observamos na prática uma
alta percentagem de casamentos desfeitos por uma ocorrência desse tipo." (p. 88).
Deutsch
(1949/1953) comenta que a relação da mãe com o feto não é a mesma com o filho
nascido, porque durante a gravidez o filho ainda não é um objeto externo a ela.
Na gravidez, a relação se desenvolve unicamente ao nível do lugar que ele ocupa
nas fantasias maternais, constituindo uma relação narcísica. O interesse
retirado ao mundo exterior se dirige à parte de seu ego que representa
psiquicamente o feto. Não se trata ainda do filho como objeto de amor, mas
continua sendo, tal como na infância, o filho como produto da fantasia na vida
psíquica da mãe, e só difere das fantasias infantis na segurança de sua
realização e no término definido para o seu cumprimento. Somente o seu
nascimento, quando ele passa a existir no mundo exterior e a ter uma certa
autonomia, possibilita o surgimento da relação de objeto em seu sentido
próprio, embora não signifique necessariamente que isso irá ocorrer. Estando
mãe e feto em uma relação narcísica, entendemos que nessa intensa relação de
simbiose, o filho como feto é sentido como parte do ego psíquico e corporal da
mãe. Assim, uma incidência acidental durante o curso da gravidez, como é o caso
do aborto espontâneo, causa uma ferida narcisista profunda, uma vez que perder
o filho indubitavelmente compromete a mulher em também perder partes de seu ego
psicológico e corporal.
Em seu
trabalho analítico com pacientes que abortaram, Aray (1968) observa que essa
ocorrência é sempre vivida como uma situação traumática, por envolver a vida de
um filho e porque é sentida como um ataque generalizado aos processos criativos
por meio da intervenção ao corpo. Para o autor, o luto pelo aborto liga-se à
perda do filho como também a uma perda de elementos do ego psicológico e
corporal da mulher que foram igualmente atacados com o aborto. Incluem-se aí os
processos criadores, as fantasias primitivas referidas ao nascimento das
crianças, modificações no esquema corporal, objetos internos que foram
projetados sobre o feto e problemas relativos à morte. Aray (1968) então
assinala: "(...) se fará luto por essa perda, assim como por todas aquelas
fantasias, expectativas psicológicas que aparecem em seu transcurso, e que são
bruscamente castradas pela intervenção." (p. 30) Como pode existir uma
cicatriz uterina localizada, também o aborto espontâneo faz emergir uma
cicatriz emocional que, ainda que não se expresse imediatamente, poderá
manifestar-se com o tempo.
Aray
(1968) também comenta, com base em Deutsch (1949), que o homem e a mulher podem
reviver a satisfação completa de quando se deliciaram ao serem gestados por
suas mães. Essa satisfação completa é possível ao homem no coito, pois é no
coito que ele realiza a volta ao útero; na mulher seria na gravidez, por meio
de sua identificação com o feto. O parto viria lhe talhar essa completude, por
isso ele é para ela traumático. Assim como o parto, também o aborto é sentido
por ela como um corte à possibilidade de reviver a relação completa de
satisfação com a mãe, o gozo pleno que experimentou quando se abrigou no útero.
Como verificou: "Em algumas pacientes observei que o aborto é vivido como
um novo trauma do nascimento, donde se reproduzem as mesmas angústias que ante
aquele acontecimento inicial." (p. 35-36) Deste modo, esse desejo de
retornar ao estado de união narcísica com a mãe que na gravidez a mulher
realiza por identificação ao feto, implica, nos casos de aborto, em uma perda
que exige elaboração.
Com
vista a estes comentários, entendemos que a impossibilidade de levar a termo
uma gravidez é sentida pelo homem e pela mulher como castração de suas
capacidades criadoras e impedimento da concretização do desejo de
transcendência, o que produz neles um sofrimento incomensurável. Ambos vêem-se
frustrados em suas expectativas de se consolidarem pai e mãe por meio da
realização do desejo de ter um filho.
Constituindo
um acidente de percurso da gravidez de uma mulher, uma ocorrência inopinada da
qual ela não teve implicância em termos de decisão consciente para a sua
efetivação, o aborto espontâneo marca o processo de gestação como um momento
nefasto na vida do casal e de toda sua família. Após vivenciá-lo, cabe à mulher
e ao homem dar sentido a essa situação elaborando o luto que lhes compete, de
modo a entrarem em contato com a difícil realidade que é a da perda de um
filho. Passam, portanto, por um momento de mudança em que terão que assimilar
irrevogavelmente a realidade da perda, porque de agora em diante não mais
poderão ocupar-se de expectativas e planos futuros com relação ao filho
recém-nascido. Precisam superar a situação para fazer face à necessidade de
adaptação à nova realidade. Para tanto, terão que enfrentá-la, e isso
ser-lhes-á possível através de condutas que favoreçam a elaboração do luto.
Segundo
Souza (1984), a elaboração do luto pelo aborto espontâneo devolve à mulher a
capacidade de pensar com tranqüilidade sobre o acontecimento, tornando-a mais
complacente consigo. A vivência da perda é relatada em clima de tristeza. Os
sentimentos positivos com relação à criança abortada surgem de modo mais suave,
sem as tormentas da auto-acusação, assim como os sentimentos positivos em
relação ao companheiro. O aborto espontâneo então perde a sua característica
inicial de uma incidência de pura maldade, e a mulher poderá resgatar
sentimentos positivos com relação a essa ocorrência, resgatando também a si
própria.
Maldonado
(1989) comenta as conseqüências de um luto não trabalhado. Segundo ela, muitos
familiares e até mesmo profissionais aconselham condutas que promovem a
incubação do luto ao invés da elaboração, pois têm a preocupação de poupar a
mãe. Por conta disto, demoram a dar a notícia da morte do feto enviando
mensagens contraditórias e de consolo. A mulher fica sem ter como expressar sua
dor. Porque as pessoas têm em geral medo de experimentar emoções fortes e
compartilhá-las com outras, criam na maioria dos casos algumas manobras a fim
de ficarem incólumes aos momentos que são para elas ruins. Todavia, na situação
de morte do feto a conduta de fragilizar a mãe e abafar a expressão de sua dor
tem conseqüências nefastas em períodos ulteriores da vida da mulher, do casal e
da família. A autora então assinala: "Apesar dos distintos matizes de cada
situação, todas têm em comum um trabalho de luto a ser realizado. Portanto, um
dos pontos básicos da tarefa assistencial é facilitar a elaboração desse luto."
(p. 101).
A
autora aponta para algumas ações tidas pela equipe hospitalar que dificultam a
elaboração do luto. Essas ações consistem em impedir à mulher a livre expressão
de seus sentimentos. Buscar logo desfazer os sentimentos de pesar com práticas do
tipo: tentar mudar de assunto quando ela começa a falar sobre o filho e
distraí-la com outra coisa, ou manter as emoções soterradas sob altas doses de
tranqüilizantes, promovem a incubação patológica do luto e bloqueiam a
comunicação entre os membros da família.
Maldonado
(1989) também comenta que, se por um lado as práticas vigentes superfragilizam
a mãe, por outro lado costumam ser bastante cruéis com o pai. Isto porque na
maioria dos casos, enquanto a mulher é poupada pela equipe hospitalar da notícia
da morte do feto, o homem, pelo contrário, não o é. Ele não é impedido de ver o
feto morto, sendo, portanto, colocado em contato com a realidade. Todavia, ele
não costuma encontrar lugar para expressar honestamente seu sofrimento. A
autora pontua:
(...) Seguem o mito cultural da imagem da mulher fraca/homem forte e definem como forte a pessoa que não demonstra tristeza e não solta o choro — a
maldição do homem-não-chora. Assim,
com freqüência, o pai é bruscamente comunicado sobre a morte do neném; e não só
tem que tomar as providências necessárias, avisar a família — como também é obrigado a não relatar o fato à mulher,
naquele momento, ou se faça de forte junto a ela. Não se permite que ele desabe e demonstre a dor de ter perdido
o filho. [grifos da autora] (p. 103).
A
conduta tida pela equipe no hospital de incubar o luto somente tenderá a
dificultar a elaboração da perda, da vivência da falta. Por meio dela, o casal
e a família negarão a lacuna e mais tarde poderão preenchê-la com uma nova
gravidez. Só que é essencial que o filho morto ocupe um lugar próprio na
história familiar, pois, do contrário, a criança que nasce depois corre o sério
risco de não ter sua existência validada. Às vezes até mesmo recebe o nome que
tinha sido destinado ao filho anterior, não tendo desta maneira um lugar
definido na vida de seus pais. Na história da família, essa não significação do
filho que morreu em útero será marcada como um luto não feito, podendo o aborto
espontâneo se repetir nas gerações futuras como uma ocorrência inevitável.
Assim,
Maldonado (1989) considera que as dores e os sofrimentos que nos atingem
precisam ser vividos e sentidos em seu devido tempo. Portanto, facilitar o
contato com a realidade, juntamente com o espaço de expressão das emoções,
constitui ajuda importante.
Considerações
Finais
No pós-aborto a
mulher e sua família terão que reorganizar suas vidas viabilizando mudanças, de
maneira a compreenderem a realidade da perda, pois de agora em diante não
poderão mais se ocupar com projetos futuros com relação à vinda de um bebê.
Como passam por um momento de mudanças, podemos dizer que, em alguns casos, a
mulher e a família se encontram mais permeáveis à ajuda. Assim, colocar-se
disponível à família no externar de sua dor de ter perdido um filho em útero,
caso ela deseje isso, é condição sem a qual não se poderá ajudá-la a enfrentar
a situação.
Um trabalho realizado nos serviços
de saúde que dê atenção especial à elaboração do luto, propiciando, ou não, a
expressão dos sentimentos, poderá constituir insumo essencial que a aliviará e
encorajará na superação dessa dolorosa realidade.
Como pontuamos, há casos em que o
casal e a família não desejam falar sobre a situação vivida. Nesses momentos, é
fundamental que os profissionais respeitem esse silêncio, oferecendo-lhes sua
presença discreta e não invasiva em meio à dor dessa família.
Ainda que ganhe o sentido de uma
experiência lúgubre na vida de uma mulher e de seus familiares, a vivência de
um aborto espontâneo também poderá ser encarada como enriquecedora, pois é
indubitável que implicará na reformulação de suas vidas e na transformação de
todos enquanto pessoas, casal, pais, filhos, homem e mulher,
proporcionando-lhes dessa forma um crescimento pessoal humano.
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