Futebol e consumo – o atleta como produto

Adriana Amaral do Espírito Santo

Janeiro/2004

 

1. Futebol – da origem ao espetáculo

 

É difícil estipular uma data de surgimento do esporte que hoje denominamos futebol. Há registros de que, já na pré-história, os homens praticavam jogos que utilizavam os pés como instrumentos para chutarem objetos semelhantes a uma bola, embora fosse comum, durante muitos séculos, também a utilização das mãos.

Na metade do século XIX, do rugby, praticado com as mãos, saíram alguns praticantes, que preferiam jogar a bola com os pés, denominando o jogo de football. Em 1863, através de um encontro entre doze clubes, em Londres, estes jogadores criaram a Football Association e adotaram novas regras, que foram sendo aprimoradas ao longo dos anos. Foi, digamos, a oficialização do futebol como o conhecemos hoje.

No Brasil, há diversas versões para a introdução formal do novo esporte. A mais conhecida e aceita conta que um jovem inglês, Charles Müller, em 1894, retornando de estudos em seu país de origem, trouxera duas bolas de futebol. Com isso, teria promovido a primeira partida, entre os empregados ingleses da São Paulo Railway e funcionários da Companhia de Gás.

Segundo Levine (in Meihy e Witter, 1982), a história do futebol no Brasil se divide em quatro períodos: 1894 – 1904, restrito a clubes urbanos pertencentes a estrangeiros; 1905 – 1933, fase amadora, em que cresceram os esforços para melhorar o nível do jogo; 1933 – 1950, o início da profissionalização; após 1950, reconhecimento a nível internacional, comercialização sofisticada e maturidade.

Nessa evolução, o jornalismo teve papel de destaque. A circulação dos jornais e a cobertura futebolística cresceram proporcionalmente ao interesse ascendente do brasileiro pelo futebol, e vice-versa. De esporte amador, sem remuneração para os atletas que o praticavam, o futebol foi se profissionalizando e passando a dar retorno financeiro aos jogadores, embora ainda em quantias ínfimas. Nessa época – meados dos anos 1930 –, o aumento da divulgação pelo rádio colaborou grandemente para a consolidação do esporte como uma “mania nacional”.

Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, o futebol no Brasil não parou de crescer. Pelo contrário, foi neste período que, segundo Levine (1982), ele se tornou verdadeiramente uma indústria nacional, fortemente regulada pelo governo e tendo sua base na cobertura de jornais e rádios. Poucos anos depois, o advento da televisão alargou o alcance do futebol brasileiro que, a essa altura, já era reconhecido internacionalmente. A infra-estrutura crescia cada vez mais; da mesma forma, os salários também iam atingindo cifras internacionais.

A atividade televisiva contribuiu também para que o jogo de futebol, antes restrito ao universo masculino, em face das agressões físicas e verbais, se estendesse ao gosto das mulheres. Nas Copas do Mundo, elas também viraram torcedoras, e o futebol tornou-se um acontecimento familiar.

Com a hegemonia das seleções brasileiras sobre os outros países nos campeonatos internacionais, o futebol no Brasil foi se configurando, cada vez mais, como espetáculo. Acrescentaria, aqui, às quatro fases descritas anteriormente, de acordo com Levine, uma última, correspondente à história mais recente desse esporte em nosso país. Após a conquista do tetracampeonato mundial, em 1994, houve uma intensificação do investimento da mídia no esporte, que já possuía status de “paixão nacional”. A projeção da seleção brasileira, desacreditada após décadas sem vencer a Copa do Mundo, tomou proporções astronômicas, bem como a remuneração dos jogadores.

Não apenas as edições seguintes receberam atenção ainda mais intensa da mídia, mas também os campeonatos internos no Brasil ganharam mais espaço do que nunca, tornando-se grandes acontecimentos televisivos. Dentro desta conjuntura, os jogadores ganham destaque, tornando-se verdadeiros heróis e, conseqüentemente, garotos-propaganda por excelência, vendidos pelos clubes para seus parceiros investidores.

 

2. O futebol dentro da lógica capitalista

 

O crescimento vertiginoso do futebol no Brasil o fez alcançar um status de unanimidade nacional. Mesmo aqueles que “ousam” não gostar do esporte são obrigados a conviver dentro de uma cultura de “país do futebol”, que idolatra os atletas, consome em grande escala qualquer produto vinculado a jogadores famosos e times vencedores e fecha todas as portas em época de Copa do Mundo para assistir aos confrontos da seleção.

Existem várias justificativas teóricas que tentam explicar o fenômeno futebolístico em nosso país. Uma delas o associa diretamente ao espírito capitalista, dando-nos alguns subsídios para sua compreensão dentro da lógica do consumo.

Como sabemos, o capitalismo envolve um relacionamento de dominação da burguesia sobre a massa proletária. Segundo Ramos (1988), “a burguesia organiza uma ideologia para justificar o capitalismo, como uma ordem natural.” (p. 19) São idéias que se tornam comuns como parte da sociedade, disfarçando a dominação.

Ainda segundo este autor, citando Gramsci, existem dois tipos de dominação social: o repressivo e o ideológico. Este último pode utilizar as estratégias de legitimação, mistificação ou hegemonia. Para Ramos, o futebol é um exemplo de hegemonia cultural, através da qual a classe dominante garante o poder do Estado impondo-se ao proletariado. Dessa forma, o futebol no Brasil seria apreendido pela massa como um “valor popular cultural”, também com um nível de mistificação que não ofereceria oportunidades a qualquer tentativa de contestação.

Assim, serviria também como uma forma de alienação do povo com relação à política. Para Meihy (in Meihy e Witter, 1982), as torcidas representam uma massa passiva que abre caminho para a introdução das ideologias úteis para que determinados grupos manipulem a população.

Ramos (1988) apresenta três hipóteses principais sobre o papel do futebol no Brasil. Em primeiro lugar, para ele o futebol seria um aparelho ideológico do Estado, que nivela burgueses e trabalhadores numa mesma categoria: torcedores. As relações capitalistas de dominação e exploração são dissolvidas quando o assunto é futebol; a divergência máxima é sobre o clube do coração. Assim, o futebol amansaria o trabalhador, fazendo-o descarregar todas as suas tensões dentro dos estádios ou em frente à televisão, colocando-o em condições psicológicas ideais para obedecer ao patrão.

Um outro ponto seria a mistificação da realidade, reduzindo a capacidade crítica e a compreensão sobre a sociedade. Para isso, o papel da mídia é fundamental, ficando caracterizado pela avalanche de noticiários e programas sobre futebol, em número bem superior a temas como política e economia.

A terceira hipótese de Ramos é que o futebol legitima o capitalismo, não questionando suas contradições. Divididos em torcedores de diferentes clubes, os trabalhadores adotariam uma postura acrítica e passiva frente à realidade. Nos estádios, as injustiças sociais são minimizadas. Quando o assunto é futebol, o patrão desce do pedestal e se torna também simples torcedor. Pode até ocupar posição inferior, quando o time para o qual torce perde para aquele favorito de seu empregado.

Essas três hipóteses conseguem resumir um fenômeno complexo que insere o futebol na cultura do consumo, englobando não apenas o aspecto ligado diretamente ao capital, mas também com relação à mentalidade que está por trás deste sistema.

Seguindo essa lógica, o futebol alavanca uma imensa máquina propagandista, principalmente em época de Copa do Mundo, em que toda a nação é convocada a se unir em torno da torcida pela campanha da seleção. Nos casos de conquista do título, então, o valor desta torcida é exacerbado pela mídia, que aproveita a onda de patriotismo para elevar seus lucros em alguns milhões de dólares.

 

3. Marketing esportivo –  o atleta como produto

 

De acordo com Contursi (2000), “Marketing Esportivo consiste nas atividades que visam a satisfazer as expectativas e necessidades do consumidor do esporte.” (p. 40) Nesse sentido, englobaria o marketing do esporte – propaganda de produtos e serviços esportivos – e o marketing através do esporte – que consiste em utilizar o esporte como veículo promocional.

Ainda segundo este autor, foi a partir da conquista brasileira do tricampeonato mundial de futebol, em 1970, que começaram a ser utilizadas técnicas de merchandising nos uniformes dos jogadores.

De lá pra cá, este ramo do marketing só fez crescer, constituindo a verdadeira indústria que conhecemos hoje. O esporte exibe o produto de diversas formas, atinge públicos diferenciados e carrega consigo uma imagem de sucesso, vida, prazer, vitória, entretenimento. O produto é diretamente associado à emoção do esporte, atingindo o torcedor principalmente pela via do sentimento, mesmo que inconscientemente. (Melo Neto, 1995)

Dentro da realidade de decadência pela qual o futebol brasileiro passou nos últimos anos – e que ainda resiste até hoje, em diferente escala, principalmente nos clubes –, o investimento em marketing passou a ser uma esperança de solução de crises. A maioria dos clubes investiu na contratação de empresas de marketing, para criarem estratégias de revalorização de suas marcas.

Estas empresas não só trabalham sobre a marca do clube, como também a oferecem para investidores que queiram tê-los como chamativo para seus produtos. A associação de uma marca a clubes como Flamengo e Corinthians, por exemplo - mais do que simples clubes de futebol, verdadeiras “nações” – garante às empresas maior poder de venda e divulgação na mídia, além de chegarem mais perto do público consumidor. (Melo Neto, 1995)

As empresas de marketing possuem grande influência também nas contratações, visando lucrar sobre a imagem de seus atletas. O astro valoriza não apenas a marca do clube; um atleta vitorioso e bem-sucedido é um ótimo produto, pois o torcedor-consumidor tende a associar talento com alta qualidade, e conseqüentemente, garantia de sucesso.

Aliado a isso, está a maioria das histórias de vida dos jogadores de futebol: histórias de sacrifício, em que meninos pobres lançaram-se para longe da família em busca de um sonho, até conseguirem alcançar o sucesso. Segundo Moscovici (1998), o sacrifício da renúncia e a exigência de uma compensação “têm, juntos, o poder de conferir um valor ao que não teria valor se não renunciássemos nem exigíssemos.” (p. 282) Existiriam dois personagens que poderiam ser identificados, grosso modo, com o jogador e o torcedor: aquele que aceita as privações, o sofrimento, e aquele que demanda, em favor do qual o primeiro realiza o sacrifício.

Portanto, além da magia de seu talento dentro de campo, esses jogadores agora, após muitos obstáculos, possuem dinheiro. Isso faz com que seu poder de influência seja ainda maior sobre o público consumidor.

Dessa forma, antes de contratar um jogador, além de avaliar sua utilidade para o time, o clube avalia também o potencial de comercialização de sua imagem. Melo Neto (1995) cita alguns cuidados que devem ser levados em conta pelo patrocinador no momento da contratação de um atleta, de acordo com a revista Meio e Mensagem:

1) o personagem escolhido deve ter perfeita adequação com o produto ou marca que se pretende anunciar;

2) antes de assinar o contrato, procure checar a credibilidade ou o poder de convencimento e de comunicação do esportista;

3) procure saber como está a imagem do escolhido junto ao público-alvo do produto;

4) evite o uso de atleta temperamental ou explosivo. Nunca se sabe o que ele é capaz de fazer com a cabeça quente;

5) verifique o resultado das campanhas personificadas pela celebridade. Será que ele já não anunciou um produto da concorrência?   (p. 164)

 

A combinação destes itens permite, inclusive, que um “jogador-problema” seja contratado, desde que preencha outros requisitos básicos, como foi o caso do jogador Edmundo, contratado pelo Clube de Regatas do Flamengo em 1995. Apesar da fama de “Animal”, seu forte apelo junto ao público jovem significou altos retornos para o clube, o que pôde ser constatado na fala do então presidente do Flamengo, Kleber Leite:

Se o comprássemos como um simples jogador, por mais habilidoso que ele pudesse ser, não teríamos conseguido viabilizar a venda de cotas de patrocínio. Ao oferecê-lo como um produto, um astro do futebol, com uma imagem de jovem bem-sucedido, brigão, valente, irreverente – enfim, tudo o que um jovem em início de carreira gostaria de ser – aumentam consideravelmente as oportunidades de patrocínio. (Melo Neto, 1995, p. 171 – grifos meus)

 

Muitas vezes, essa imagem polêmica é cuidadosamente construída, consistindo no marketing pessoal de atletas como o próprio Edmundo e Romário. Este, na época da Copa do Mundo de 1994, tratou de alimentar ataques a técnicos, jogadores, imprensa e marcou um estilo forte que, com a conquista do tetracampeonato, valorizou ainda mais sua imagem (sobre o caso Romário, ver próximo item).

De acordo com o que escreveu Moscovici (1998), a atuação de jogadores de futebol adorados pelo público para a publicidade poderia ter sua lógica entendida pela referência a uma característica superior à qualidade do próprio produto. A publicidade faria com que a própria oferta do produto fosse vista como demanda. Esta, então, se tornaria uma necessidade e seu consumo, um dever. Assim, desejamos fazer compras em determinado supermercado porque ele é freqüentado por certo jogador; comemos uma marca de alimento porque é a preferida de outro atleta; queremos ter determinado produto que leva o nome de algum craque famoso, embora mais caro do que outro, da mesma qualidade, mas de uma marca dissociada da imagem de algum ídolo.

 

4. A construção da imagem do herói – estudos de casos

 

O culto ao futebol no Brasil serve também como um argumento nacionalista, principalmente com relação à seleção, que suscita diversas representações sobre a nação e o povo brasileiros. (Helal e Coelho, in Murad et al, 1996) Essas experiências favorecem a emergência de mitos e heróis, impulsionados principalmente pela ação da mídia.

Segundo Helal e Coelho (1996, p. 87), citando U. Eco, o mito “é projeção sobre um objeto das aspirações da comunidade” e, para Meihy (1982, p. 13), “o herói-jogador simboliza o ideário do grupo”. Dessa forma, a mídia constrói imagens de ídolos, editando trajetórias que falem sobre nós, ou seja, que possibilitem uma identificação da população com cada história e a cada biografia.

Assim, o jornalismo esportivo e as empresas de marketing utilizam-se destes fatos para investirem não apenas nos clubes e na seleção, mas também em figuras que se destacam durante competições importantes, construindo cuidadosamente sua imagem, de forma a servirem à indústria do consumo. Isso se dá através do lançamento de produtos esportivos, propaganda de artigos da maior variedade, participação em programas de TV e rádio, aparição em revistas, etc.

·         O primeiro herói nacional e o “rei Pelé”

Segundo Levine (op. cit.), o primeiro herói nacional de futebol no Brasil foi Arthur Friedenreich, o “pé de ouro”, responsável pela vitória do Brasil contra a Argentina na Copa América do Sul, em 1919. Naquela época, os atletas ainda nem eram remunerados.

Após “Fried”, inúmeros outros atletas se destacaram, tendo marcado seus nomes na história do esporte brasileiro. No entanto, o maior ídolo de futebol que o país já teve foi Edson Arantes do Nascimento, o “rei Pelé”. Embora de talento incontestável com a bola nos pés, muito de sua fama, que se eternizou pelo mundo, deve-se à ação do marketing sobre ele. Segundo Levine (1982), seu aparecimento coincidiu com as aspirações internacionais do futebol brasileiro e o desejo de elevar o atleta negro como orgulho nacional. Sua carreira foi cuidadosamente programada, com a perspectiva de valorizar o patrimônio do Brasil.

Pelé talvez tenha sido o primeiro jogador de futebol brasileiro a efetivamente entrar para a indústria da propaganda. Ao mesmo tempo em que ele próprio se tornava produto, objeto de aspiração do povo brasileiro, sua imagem alavancava as vendas dos mais variados produtos.

Ainda segundo Levine (op. cit., p. 36), Pelé era “o sonho dos construtores de imagens”: admirado, patriota, humilde e mudo politicamente, encaixando-se nos valores sociais que vigoravam na sociedade brasileira. Esta afirmação confirma a idéia de que o futebol serviria como uma forma de manipulação da massa, através da transmissão de valores úteis a uma determinada classe. Embora Pelé não pertencesse à classe dominante, sua inação política seria facilmente refletida em seus milhões de fãs.

Ainda hoje, décadas após sua aposentadoria do futebol, Pelé serve à indústria comercial. Recentemente, lançou no mercado fita de vídeo sobre os melhores momentos de sua carreira e inaugurou exposição sobre sua vida, contada através de objetos pessoais e relíquias da época de seleção. Estes são apenas alguns exemplos que confirmam sua imagem até hoje como produto de sucesso garantido por excelência.

·         O caso de Romário

Um outro ícone que exemplifica a transformação do jogador de futebol em produto comercial é Romário.

O marco de sua ascensão como mito pode ser considerado o ano de 1992, início da preparação do Brasil para a Copa de 1994, quando o jogador começou a se transformar na maior estrela da seleção brasileira daquela geração. Um desentendimento com a comissão técnica o tirou da maioria dos jogos eliminatórios para aquela Copa, até que sua presença foi inevitável. Romário acabou disputando as partidas decisivas e se tornou o principal responsável pela classificação da seleção. (Guedes, in Murad et al, 1995)

A esta altura, sua imagem de rebeldia já havia se consolidado, e a imprensa aproveitava para alimentar a “onda” do estilo bad boy. Romário não foi o primeiro e nem o último jogador desta linhagem mas, com certeza, o episódio das eliminatórias fez sua fama ganhar maiores proporções. A conseqüente conquista do tetracampeonato consolidou seu papel de “salvador da pátria”, embora ele mantivesse uma postura muitas vezes arrogante e individualista. Certamente, a modéstia nunca foi seu forte, o que contribuiu para a construção de um personagem polêmico, seu marketing pessoal.

No entanto, a figura do bad boy era apenas um detalhe pois, aliado ao papel de herói, estavam características que o identificavam com a classe trabalhadora brasileira: um homem de família e de origem pobre, que conseguiu, por conta de muito sacrifício, alcançar o sucesso.

A própria Vila da Penha, bairro de origem do jogador, ganhou atenção especial da mídia, que reservou espaços especiais para os moradores do lugar que conheciam Romário, a escola onde o craque estudou, o terreno onde jogava peladas, o botequim de seu pai, os integrantes de sua família (Guedes, 1995). Quem não se lembra da imagem de dona Lita, mãe do jogador, assistindo aos jogos da seleção em sua casa humilde, quebrando garrafas de cerveja como simpatia após cada gol da equipe brasileira? (anexo III)

O alimento dado à figura de Romário favoreceu não apenas comerciais de muitos produtos, participações em programas de TV, jornais e revistas, mas também inspirou músicas que o idolatravam como melhor jogador do mundo ou, pela via humorística, sustentavam sua história e sua conduta de rebelde, que inclusive criava desavenças com técnicos e relutava em comparecer aos treinos de seu time. Foram produtos que também fizeram grande sucesso nas rádios e programas de TV a nível nacional.

É fato comprovado não apenas pelos brasileiros, mas também por outros países aonde sua fama chegou, que Romário possui um talento incontestável para fazer gols. No entanto, a maneira como sua imagem foi construída fez toda a diferença com relação a muitos outros bons jogadores que não obtiveram a mesma projeção e os mesmos salários astronômicos do craque. Sem dúvida, toda essa história por trás do ídolo é um sustentáculo para que hoje, já com idade avançada – para um jogador de futebol – ele se mantenha em destaque, disputado por diversos clubes e alimentando sua imagem através de episódios que confirmam sua rebeldia.

·         O “Projeto Sávio”

Em 1995, a nova administração do C. R. Flamengo investiu pesado em publicidade e na formação do time, com a contratação do chamado “ataque dos sonhos”, com Romário (tetracampeão mundial), Edmundo (o “animal”, até então craque do Palmeiras) e Sávio (um jogador que despontava como grande promessa em seus primeiros anos como profissional).

Para a torcida, que estava em busca de um ídolo, foram oferecidos dois modelos bem distintos (Helal e Coelho, 1996). Romário e Edmundo, figuras já consolidadas no cenário futebolístico do país, seguiam a linha da rebeldia. Já Sávio, recém-egresso da categoria de juniores, estava em fase inicial de construção, seguindo um estilo diametralmente oposto ao de seus companheiros de ataque.

Dono da camisa 11 do Flamengo, com a chegada de Romário o jogador novato foi obrigado a trocar de número. Passou a vestir a camisa 10, que pertenceu a Zico, maior ídolo da história do clube. Este fato, acrescido das características de Sávio – franzino, carismático e talentoso – foi apenas mais um impulso para a idéia de que o novo dono da camisa 10 seria o sucessor do velho ídolo. Teve início, então, o “Projeto Sávio” (Helal e Coelho, 1996).

A preparação de Sávio como substituto de Zico foi impulsionada pelas próprias declarações do ex-jogador, que legitimavam a sucessão, ao destacar as virtudes do jovem de apenas 21 anos de idade. Segundo Helal e Coelho (1996), havia uma tentativa de se transmitir a herança de uma tradição, baseada no passado glorioso do mito e do clube. Para isso, não apenas as qualidades profissionais, mas também as pessoais – assim como acontecera com Romário – foram estimuladas, enfocadas repetidas vezes pela mídia.

Assim, a construção da imagem pública de Sávio como ídolo do Flamengo está alicerçada em características bem definidas que unem suas qualidades extraordinárias dentro de campo com um comprometimento exemplar na vida pessoal e uma conduta emblemática de quem é ídolo de uma comunidade. Na edição feita pela mídia, os recursos acionados em torno da imagem de Sávio enfatizam sempre as suas qualidades no campo esportivo (dribles e velocidade) em oposição ao “físico franzino”, o seu comportamento na vida pessoal (“passado difícil”, “longe da família”, “humildade”, “paciência e atenção com os fãs”) e sua ligação com o clube (”prata da casa”, “amor ao Flamengo”, “ter Zico como ídolo”). (Helal e Coelho, 1996, p. 87)

 

Vale lembrar também o marketing dirigido ao público feminino, principalmente às adolescentes. Sávio, jovem e bonito, era campeão de aparições em revistas dirigidas a elas, como galã em pôsteres que podiam ser afixados na parede e muitas outras estratégias que elevavam as vendas destes periódicos.

Diferente de Pelé e Romário, no entanto, a publicidade em torno de Sávio rendeu frutos apenas por um período limitado, uma vez que, após o fracasso do “ataque dos sonhos”, o jogador foi vendido para um clube estrangeiro (1). Enquanto isso, a mídia prontamente tratou de encontrar substitutos, novos craques jovens e bonitos, capazes de unir o talento de seu futebol à venda de produtos, pelo maior espaço de tempo possível. A cada ano, surgem novas revelações, úteis não apenas para manter o nível de excelência dos campeonatos e da seleção brasileira, mas também para servirem como promissores garotos-propaganda.

 

5. Considerações finais

 

Pudemos vislumbrar, através da breve análise realizada aqui, a maneira pela qual o futebol evoluiu de um simples esporte para uma verdadeira unanimidade nacional.

Nessa trajetória, ele parece ter tomado um rumo que se insere perfeitamente na lógica da cultura do consumo que vivenciamos hoje, através da utilização de estratégias de marketing e da larga veiculação na mídia, que transmitem para o público um futebol “fascinante”, da forma a render altos lucros.

Dentro desta mentalidade, estão os atletas, que acabam servindo como a mercadoria principal que faz a máquina propagandista funcionar. A imagem transmitida pela propaganda enfatiza sempre o atleta vitorioso, glorioso, bem-sucedido, e a mídia dá vulto a suas conquistas pessoais, como carros caríssimos, apartamentos e belas mulheres.

Certamente, a mídia atua de forma fundamental como um dos principais pilares de sustentação para o futebol se manter, no Brasil, como unanimidade nacional.

 

 

(1) Neste ano de 2006, o jogador Sávio retornou ao clube de origem (Flamengo), fazendo ressurgir nos torcedores rubro-negros a esperança de um salvador do time, porém sem o apelo publicitário de outrora.

 

 

6. Referências bibliográficas

 

CONTURSI, Ernani Bevilaqua. Marketing esportivo. Rio de Janeiro, Sprint, 2ª ed., 2000.

 

GUEDES, Simoni Lahud. “O salvador da pátria – considerações em torno da imagem do jogador Romário na Copa do Mundo de 1994”. In MURAD et al. Futebol: síntese da vida brasileira. Revista Pesquisa de Campo, n.º 1/95. Rio de Janeiro: UERJ, Departamento Cultural / SR-3, 1995.

 

HELAL, Ronaldo e COELHO, Maria Cláudia. “Mídia, idolatria e construção da imagem pública: um estudo de caso”. In MURAD et al. Futebol: síntese da vida brasileira. Revista Pesquisa de Campo, n.º 3/4. Rio de Janeiro: UERJ, Departamento Cultural / SR-3, 1996.

 

LEVINE, Robert M. “Esporte e sociedade: o caso do futebol brasileiro”. In: MEIHY, José Carlos Sebe Bom e WITTER, José Sebastião (orgs.) Futebol e cultura: coletânea de estudos. São Paulo: Imprensa Oficial: Arquivo do Estado, 1982.

 

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. “Para que serve o futebol?” In: MEIHY, José Carlos Sebe Bom e WITTER, José Sebastião (orgs.) Futebol e cultura: coletânea de estudos. São Paulo: Imprensa Oficial: Arquivo do Estado, 1982.

 

MELO NETO, Francisco Paulo de. Marketing esportivo. Rio de Janeiro: Record, 1995.

 

MOSCOVICI, Serge. A máquina de fazer deuses. Rio de Janeiro: Imago, 1998. Cap. VIII: O dinheiro como paixão e como representação.

 

RAMOS, Roberto. Futebol: ideologia do poder. Petrópolis: Vozes, 1988. 2ª ed.

 

Fonte eletrônica:

www.futnet.com.br/historia_do_futebol/celeiro_de_craques.asp

 

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