Transferência e contratransferência no atendimento de idosos

por terapeutas jovens

Adriana Amaral do Espírito Santo

Junho/2002

 

 

 

Introdução

 

Freud via com reservas o atendimento psicanalítico de idosos. Diz ele, em 1905:

 

A idade dos pacientes tem uma grande importância no determinar sua adequacidade ao tratamento psicanalítico, que, por outro lado, perto ou acima dos cinqüenta anos a elasticidade dos processos mentais, dos quais depende o tratamento, via de regra, se acha ausente — pessoas idosas não são mais educáveis — e, por outro o volume de material com o qual se tem de lidar prolongaria indefinidamente a duração do tratamento. (apud Pisetta, 1999)

 

Devemos considerar, no entanto, o fato de que a construção da Psicanálise se deu numa época com características diversas da nossa, em que nem mesmo a expectativa de vida favorecia o interesse no que atualmente se denomina terceira idade.

Portanto, não é o fato de Freud haver questionado a validade da análise em idosos que vai impedir que fenômenos relatados por ele aconteçam no processo terapêutico das pessoas com mais de sessenta e cinco anos. Embora geralmente grande parte dos atendimentos realizados com pessoas idosas aconteça em grupo — casos em que ocorre também transferência entre os próprios participantes—, vamos considerar aqui apenas as relações com os terapeutas ou coordenadores destes grupos, procurando manter, de certa forma, a noção de Freud sobre estes fenômenos apenas na relação analítica.

Sendo assim, e diante do interesse pessoal que a questão da terceira idade suscita, pareceu-me bastante pertinente buscar relações entre estes fenômenos no atendimento a idosos por pessoas mais jovens. A idéia do trabalho surgiu a partir da leitura de um artigo de Renata Catunda da Silva, publicado nos anais do IV Fórum da Residência em Psicologia Clínico-Institucional da Uerj: “Terapeutas jovens no atendimento ao idoso — questões transferenciais e contratransferenciais”.

Assim, procuro fazer aqui uma breve revisão teórica acerca do tema, seguida de considerações sobre as implicações inerentes à velhice. A partir disso, tento realizar uma reflexão sobre os dois assuntos, de modo que seja possível estabelecer uma relação que possa, inclusive, auxiliar uma futura prática profissional.

 

A transferência e a contratransferência

 

Laplanche & Pontalis (1998) definem a transferência como “o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica”. (pág. 514)

Esta acepção da palavra, que é utilizada até hoje, foi utilizada por Freud pela primeira vez em 1895 (Estudos sobre a histeria). Mas foi no caso Dora, publicado em 1905, que ela se tornou mais evidente, seu erro de interpretação tendo sido considerado por ele próprio como fator que levou à interrupção prematura do tratamento pela paciente.

Segundo Freud, nem todos os impulsos libidinais teriam passado por todo o processo de desenvolvimento psíquico, sendo desconhecidos pela consciência da personalidade. Se a necessidade que a pessoa tem de amar não é completamente satisfeita pela realidade, ela provavelmente tenderá a se aproximar de pessoas com idéias libidinais antecipadas, mesmo que inconscientes. Assim, o investimento libidinal pode dirigir-se também para a figura do médico (ou do analista).

Existe uma transferência positiva e uma negativa. A primeira envolve sentimentos de simpatia, amizade, confiança, amor, admiração e similares. Se o analista e o analisando são de sexos opostos, a essência da transferência assemelha-se a uma relação de enamoramento. Já a chamada transferência negativa envolve os sentimentos hostis, como ódio, oposição e agressão.

Freud explicou esta ligação amorosa ou hostil como uma repetição da relação do analisando com as figuras parentais. “Era a criança no analisando quem experimentava seus sentimentos transferidos tão intensamente que era-lhe muitas vezes difícil reconhecer que não amava (ou odiava) a pessoa real do analista, mas os pais, a quem o analista representava.” (Fromm, 1980, pág. 37)

Fromm amplia esta noção, apontando para a existência da transferência no âmbito social, em que líderes religiosos ou políticos, por exemplo, são idolatrados, comparando esta situação ao que acontece na análise.

 

O adulto também é impotente e, à semelhança da criança, está ansiando por alguém que o faça sentir-se seguro, protegido, e é por essa razão que está disposto e propenso a idolatrar figuras que são ou facilmente se prestam a ser consideradas salvadoras, mesmo que na realidade possam ser meio loucas. (Fromm, op cit, p. 40)

 

 

Uma vez que Freud considera que a transferência ocorre necessariamente no processo terapêutico, sua função no tratamento é fundamental. No entanto, ele constata que ela pode atuar também como uma forma de resistência, pois é desencadeada no momento em que conteúdos recalcados importantes ameaçam se revelar.

Por isso, é necessária uma conduta adequada por parte do terapeuta, para utilizá-la a favor do tratamento.

 

A transferência, tanto na sua forma positiva como negativa, entra a serviço da resistência; mas nas mãos do médico torna-se o mais poderoso dos instrumentos terapêuticos e desempenha um papel que não pode deixar de ser hipervalorizado na dinâmica do processo de cura. (Freud, apud Laplanche & Pontalis, op cit, pág. 518)

 

Nestes casos, deve ser considerado também o fenômeno da contratransferência, definido por Laplanche & Pontalis (op cit, pág. 102) como o “conjunto das relações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste”. (Daí, a necessidade, para Freud, de o analista se submeter a uma análise pessoal).

Ambos os conceitos assumiram uma grande extensão, sofrendo algumas modificações em relação ao que foi concluído por Freud. Segundo Laplanche & Pontalis (op cit, pág. 515), para alguns autores a transferência designa

 

o conjunto de fenômenos que constituem a relação do paciente com o analista e que, nesta medida, veicula, muito mais do que qualquer outra noção, o conjunto das concepções de cada analista sobre o tratamento, o seu objetivo, a sua dinâmica, a sua tática, os seus objetivos, etc.

 

Já por contratransferência, ainda segundo eles (pág. 102), “certos autores entendem (...) tudo o que, da personalidade do analista, pode intervir no tratamento, e outros limitam a contratransferência aos processos inconscientes que a transferência do analisando provoca no analista.

 

A questão da terceira idade

 

Se você quiser saber como se sente um velho embace os óculos, tape os ouvidos com algodão, calce sapatos pesados e folgados demais para os seus pés, ponha luvas e tente, mesmo assim, levar seu dia de modo normal. (Skinner, 1983)

 

Assim como a infância não é um conceito natural, como bem demostrou Philippe Ariès em sua obra, também a velhice é uma construção histórica. Na Psicologia, o interesse sobre o tema é relativamente recente, datando aproximadamente do final da década de 1950. Foi impulsionado também pelo gradativo processo de envelhecimento populacional, fenômeno que vem ocorrendo mundialmente principalmente desde a década de 1980. Nunca se viveu tanto.

Mas nem por isso podemos afirmar que esta questão está bem resolvida entre nós, talvez pelo fato mesmo de ser tão recente. É verdade que a representação do “velho” não é a mesma em todas as épocas e culturas. No entanto, estamos lidando atualmente com uma imagem que está acompanhada de muitos preconceitos e alguns mitos. Segundo França e Soares (in Silva, 1999, p. 56), há dois mitos em relação ao idoso: o da experiência e sabedoria e o da fragilização, este último devido principalmente aos limites físicos. Ambos têm sua cota de verdade. No entanto, não devem ser entendidos de maneira generalizada, pois existem muitos idosos que não correspondem a estas imagens.

Veloz et. al. discutem ainda três tipos principais de simbolização: “o idoso como protagonista, a velhice como última fase da vida e o próprio envelhecimento enquanto processo que transcende a própria velhice para abranger todo o curso de vida.” Parece-nos que a mentalidade que se vai adotar então atua como um dos principais influenciadores no tratamento dispensado à pessoa idosa. Muitas crenças e valores atuais não podem ser acompanhados pelo idoso, e isto muitas vezes leva à associação de sua imagem a uma noção de declínio.

No entanto, ultimamente vêm sendo realizados esforços para tentar modificar esta situação. Uma maior conscientização vem trazendo uma gradativa preocupação com a saúde dos idosos, tendo sido já criados vários centros de convivência no país, como as universidades para a terceira idade, proporcionando uma maior qualidade de vida e um importante convívio intergeracional que pode ajudar a contornar muitos preconceitos.

As perdas físicas parecem ser as mais notórias para quem chega à faixa dos sessenta e cinco anos, afetando tanto a própria pessoa quanto aqueles que a cercam. É comum ocorrer uma crise de identidade naqueles que percebem-se velhos, sendo muitas vezes difícil o fato mesmo de aceitar-se velho. Muitas doenças mais graves podem começar a surgir e freqüentemente surge o problema da queda naqueles que se deparam com uma nova realidade em sua constituição física.

Por outro lado, e também como conseqüência destas alterações, aparecem alguns aspectos psicológicos que podem ser agravados a partir desta idade. Muitos idosos sofrem o problema da rejeição nas próprias relações familiares, e comumente surge o medo da solidão. A aposentadoria também é, em si, um complicador, pois implica numa mudança de papel perante a família e a sociedade. O velho pode ser visto apenas como aquele que não mais produz, ficando assim marginalizado.

Uma questão também bastante discutida em relação à velhice é a sexualidade. É verdade que ocorrem muitas mudanças, principalmente fisiológicas, neste período. Muitas doenças podem prejudicar o desempenho sexual, bem como os problemas de impotência e ejaculação, por exemplo, podem ser agravados. Além disso, devemos lembrar que aqueles com mais de sessenta e cinco anos cresceram numa época de muito puritanismo e repressão sexual. Assim, temas como a masturbação e a homossexualidade são vistos ainda com mais reserva.

 Além destas alterações fisiológicas, estão também situações bastante peculiares, como a viuvez, o medo e a vergonha de se engajar num novo relacionamento a partir de determinada idade. No caso mais específico das mulheres idosas, há também a queixa de que os homens mais velhos procuram namorar mulheres mais jovens, não se interessando por elas. Assim, a sexualidade, que já é encarada como um tabu em nossa sociedade, acaba ganhando características bastante peculiares nesta idade. Porém, estas questões não devem ser um impeditivo da vida sexual e afetiva na terceira idade.

Podemos lembrar ainda que, para aqueles que já chegaram a uma etapa tão avançada, o medo da finitude e da morte pode se intensificar. A velhice é o momento final da vida, onde a proximidade da morte provoca um momento de balanço, de repassar as coisas boas e ruins que aconteceram, as boas e as más companhias. O confronto com estas lembranças e a perspectiva do desconhecido podem gerar muita angústia.

 

Os fenômenos transferenciais entre idosos e terapeutas jovens

 

Diante deste quadro sobre a velhice e do nosso entendimento sobre os conceitos de transferência e contratransferência, brevemente expostos aqui, podemos ensaiar algumas reflexões sobre estas relações que acontecem no atendimento terapêutico de idosos por pessoas mais jovens, com idade para serem seus filhos ou netos.

Como vimos, Freud relaciona a transferência com a relação do analisando com os pais quando criança. Poderíamos nos perguntar se, nos casos com os quais nos preocupamos aqui, em que o analisando é alguém muito mais velho do que o analista, isso também ocorreria. Segundo Fromm, parece que sim. Assim como ele amplia esta discussão para o campo social, acredito que poderíamos seguir o seu raciocínio de que o adulto também anseia por segurança e proteção, estando propenso a se dedicar a figuras que ocupam um lugar de destaque. Principalmente no caso dos idosos que, como já vimos, muitas vezes são vítimas de vários preconceitos da sociedade.

Silva (op. cit.) afirma que é comum que o terapeuta seja visto como filho ou neto pelo paciente. Pode ocorrer também que o idoso veja no jovem “a imagem da jovialidade perdida”, algo que ele pode ter sido quando tinha a mesma idade.

Podemos considerar estes como casos de transferência positiva. Se o idoso enxerga no terapeuta esta figura cheia de carga afetiva, isto pode ser um facilitador da terapia. Assim, se o paciente está enfrentando, por exemplo, um problema de solidão, de rejeição pela família, ele pode encontrar no terapeuta o amparo necessário para ajudá-lo a contornar a situação. Freud já dizia que uma dependência afetuosa e dedicada podia ajudar uma pessoa a superar certas dificuldades, com um sentimento do tipo “na sua frente, não sinto vergonha: posso dizer-lhe qualquer coisa”.

No entanto, pode ocorrer uma transferência negativa, que age como um fator de resistência à terapia. Um idoso que esteja enfrentando uma crise de identidade, por exemplo, devido a dificuldades em lidar com sua sexualidade frente às mudanças corporais, pode oferecer alguma resistência quando se depara com uma terapeuta jovem, bonita e vestindo roupas decotadas.

Silva (op. cit.) cita algumas frases decorrentes de seu trabalho que exemplificam alguns casos em que a diferença intergeracional pode funcionar como obstáculo: “Normalmente no início do atendimento é muito comum frases do tipo: ‘Nossa, mas você é tão jovem, muito imatura.’ Ou ‘vocês (se referindo aos coordenadores de um grupo) só querem saber de namorar, de passear...’, ou ‘vocês não sabem o que é isso, ainda não viveram o suficiente (em relação à morte)’.”

Estas situações demonstram, entre outras coisas, a confirmação do mito da experiência, ao qual nos referimos anteriormente. Assim, o papel do terapeuta pode ficar prejudicado. O próprio idoso às vezes é responsável por essa distinção hierárquica entre eles e os mais jovens. Cabe ao terapeuta tentar contornar esta situação através da criação de um vínculo, mostrando sua competência como profissional, independente da faixa etária de ambos, e utilizando isto para o bom andamento da terapia.

É preciso atentar também para o fenômeno da contratransferência. O papel do terapeuta deve estar bem claro. Caso contrário, ele corre o risco de entrar no “jogo” do paciente e assumir o papel que lhe é atribuído, o que provavelmente não proporcionará nenhuma ajuda para o caso. Tendo consciência da contratransferência, o analista também pode utilizá-la no sentido de favorecer o processo terapêutico.

 

Considerações finais

 

O que procuramos fazer aqui foi uma breve reflexão sobre o tema da transferência e da contratransferência, problematizando-os frente à temática da terceira idade.

Como vimos, Freud parecia não acreditar no atendimento psicanalítico a pessoas idosas, embora, como decorrência do envelhecimento populacional, seja grande atualmente o número de idosos no mundo, e com questões peculiares a esta faixa etária.

Assim, acredito ser necessário alargar um pouco alguns dos seus conceitos, como os que tratamos aqui, para ser possível dar conta desta nova demanda.  Nós, psicólogos (ou estudantes de Psicologia), temos o dever ético de buscar a atualização profissional, de forma a atender todos aqueles que precisarem de nossa ajuda, e não será por limitações teóricas que deixaremos de fazê-lo.

Portanto, é preciso que nós, jovens, estejamos prontos e atentos às características do atendimento às pessoas mais velhas, tornando possível um atendimento de boa qualidade, que promova o bem-estar daqueles que nos procuram. E parece que entender a história de vida de nossos pacientes idosos é o primeiro passo para identificarmos a ocorrência da transferência, permitindo lidarmos com nossas próprias ansiedades para que a contratransferência não atrapalhe a dinâmica do tratamento.

 

 

Referências bibliográficas

 

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