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TOPOFILIA: UM ESTUDO DA PERCEPÇÃO, ATITUDES E VALORES DO MEIO AMBIENTE |
INTRODUÇÃO
No presente trabalho, nos detivemos a abordar o tema Topofilia, proposto pelo professor de geografia Yu-fu Tuan, autor do livro "Topofilia: um estudo da Percepção, Atitudes e Valores do Meio Ambiente".
A priori, o trabalho tem como objetivo elucidar a teoria da Topofilia, partindo da sugestão de que a psicologia e a geografia podem caminhar juntas no entendimento da percepção humana em relação ao meio ambiente.
DESENVOLVIMENTO
O estudo da percepção, das atitudes e dos valores do meio ambiente é extraordinariamente complexo, e quem o faz é a Topofilia. Esta vem a ser o "elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou ambiente físico".
O autor através de tópicos nos transmite como o psicológico e o fisiológico do homem afetam a sua percepção. Partindo que uma pessoa é um organismo biológico, um ser social e um indivíduo único, sendo a percepção, atitudes e valores o reflexo dos três níveis do ser.
Os seres humanos estão biologicamente bem equipados para registrar uma grande variedade de estímulos ambientais, através de:
1. Órgãos do sentido: este proporciona ao ser humano perceber o mundo. Dos cinco sentidos tradicionais, o homem depende mais da visão do que dos demais sentidos, pois ele é predominantemente um animal visual. Entretanto, dependendo da cultura o órgão mais importante pode variar.
2. Estruturas e respostas psicológicas comuns: a linguagem de sinais e símbolos é característica da espécie humana. Com ela os seres humanos construíram mundos mentais para se relacionarem entre si e com a realidade externa. O resultado desses processos mentais é o meio ambiente artificial.
Para alcançar estes resultados utilizou-se a:
v Racionalização: aplicação de regras lógicas no cotidiano do ser humano.
v Escala da percepção humana: o ser humano tende a ver os objetos do meio ambiente de acordo com o tamanho do seu corpo e a capacidade do seu aparelho perceptivo.
v Segmentação: os seres humanos tendem a segmentar os continuuns da natureza.
v Oposições binárias: a mente humana organiza os fenômenos em pares opostos, como por exemplo, vida-morte, terra-água, etc.
v Substância e esquema cosmológico: uma forma de associações como resposta à necessidade de ordem para estabelecer relações entre os fenômenos.
v Simbolismo e esquemas cosmológicos: um símbolo é uma parte que tem o poder de sugerir um todo, trazendo à mente uma sucessão de fenômenos relacionados entre si. Estes são orientados pela cultura.
v Psicologia das cores e simbolismo: as cores desempenham um papel importante nas emoções humanas, podendo constituir os primeiros símbolos do homem. Cores como branco e preto adquirem significados positivos e negativos entre todos os povos, sendo também o vermelho muito compartilhado, pois entre as cores cromáticas é a mais dominante.
v Psicologia espacial e simbolismo: as pessoas tendem a estruturar o espaço com elas no centro e em zonas concêntricas, as demais.
3. Fisiologia humana: como espécie os seres humanos são extremamente polimórficos; as variações externas são notáveis, mas menores quando comparadas com as diferenças internas.
A associação do físico com o temperamento e caráter, é um lugar comum na literatura. Entre 1930 e 1940, Willian Sheldon relacionou o tipo de corpo com o temperamento, classificando as pessoas em três tipos:
- Endomorfo (fofo, redondo e gordo): desfruta da natureza com os outros.
- Mesomorfo (ossudo, muscular e atlético): desfruta em dominar a natureza.
- Ectomorfo (alto, magro e frágil): contempla a natureza e a interpreta para explicar o seu próprio humor.
As diferenças fisiológicas entre homem e mulher são claramente especificáveis, afetando os modos de responderem ao mundo. Em toda cultura conhecida, homem e mulher recebem papéis diferentes: são ensinados na infância a se comportarem de maneira diferente.
Nas ciências sociais, o homem é considerado como uma pessoa adulta ativa, ignorando o fato de que a maturidade é apenas uma etapa da vida. Sendo as etapas:
v Infante ou bebê: não distingue o eu e o meio ambiente. A idéia do todo da pessoa (corpo inteiro), passa desapercebido, e só então aos 6 meses é que começa a percebe-lo.
v Criança pequena (5 a 6 anos): é animista, pois acredita que todos os corpos que se movimentam tem vida. Esta só consegue ver o ambiente próximo, visto que o termo paisagem ainda não tem significado para ela.
v Criança e a abertura para o mundo (pré-adolescência): uma criança de 7 ou 8 anos até os 13, 14 anos, vive a maior parte do tempo no mundo das impressões sensoriais. É capaz de conceituar o espaço em suas diferentes dimensões e tem a habilidade conceitual do adulto. Pode ver a paisagem como segmento da realidade. Sem preocupações, sem as cadeias da aprendizagem, livre do hábito e negligente do tempo, se abre para o mundo.
v Velhice: para os velhos o mundo se contrai não apenas porque os seus sentidos perdem a precisão, mas porque à medida que o futuro diminui, também diminui o horizonte (espaço horizontal) e o velho passa a se envolver com os acontecimentos e objetos próximos, como no mundo da criança.
O Etnocentrismo (egocentrismo coletivo) também pode afetar a percepção humana, visto que é o hábito de um determinado grupo de ordenar o mundo de modo que seus componentes estejam no centro, perdendo o valor longe dele. Isto demonstra que um grupo pode ser auto-suficiente. A ilusão de superioridade e centralidade é provavelmente necessária para a manutenção da cultura. E esta afeta a forma como o indivíduo percebe o meio ambiente.
Bem como a cultura pode influenciar a percepção de modo que uma pessoa em determinada cultura pode ver coisas inexistentes relacionadas com o meio ambiente em outras culturas, processo este chamado que alucinação.
A Topofilia compreende as maneiras como os seres humanos respondem ao meio ambiente e que podem variar, desde a apreciação estética até o contato corporal. O despertar profundo para a beleza ambiental, normalmente acontece como uma revelação repentina. As cenas simples e mesmo as pouco atrativas podem revelar aspectos que antes passavam desapercebidos e este novo insight na realidade é, às vezes experienciado como beleza.
O contato físico com o ambiente natural é cada vez mais indireto e limitado a ocasiões especiais. O que falta às pessoas das sociedades avançadas é o envolvimento suave, inconsciente com o mundo físico, que prevaleceu no passado, quando o ritmo de vida era mais lento e do qual as crianças ainda desfrutam. Como exemplo do contato físico com o meio temos o apego do pequeno agricultor, que conhece a natureza porque ganha a vida com ela. A Topofilia do agricultor esta formada desta intimidade física, da dependência material e do fato de que a terra é um repositório de lembranças e esperanças.
O sentimento topofílico é visto pelo apego por um lugar por ser familiar, representando o passado e evocando o orgulho e o patriotismo dando ênfase as raízes de um povo.
O termo Topofilia associa sentimento com lugar. E certos ambientes naturais tem figurado de maneira proeminente no imaginário da humanidade, como por exemplo, a praia, o vale e a ilha.
A praia tem dupla atração. Por um lado, as reentrâncias das praias sugerem segurança; por outro lado, o horizonte aberto para o mar sugere aventura. Além disso, o corpo humano que desfruta apenas do ar e da terra, entra em contato com a água e a areia.
O vale (ou bacia fluvial) promete uma subsistência fácil por ser um nicho ecológico altamente diversificado. O ser humano depende muito do acesso à água, pois não dispõe de mecanismos para retê-la em seu organismo. Se o curso de água é relativamente grande, também serve como um meio de comunicação natural. Os agricultores valorizam os solos ricos dos fundos de vales. O vale é identificado simbolicamente como útero e como refúgio; a sua concavidade nutre e protege a vida.
A ilha parece ter um lugar especial na imaginação do homem. Ao contrário da floresta tropical ou da praia, ela não pode reivindicar abundância ecológica, nem teve grande significância na evolução do homem. A sua importância reside no reino da imaginação. Em muitas lendas, a ilha aparece como a residência dos mortos ou dos imortais. Além de tudo, ela simboliza um estado de inocência religiosa, isolado dos infortúnios do continente pelo mar.
A construção do mundo ideal é uma questão de remover os defeitos do mundo real, sendo este o objeto de estudo da geografia que fornece o conteúdo do sentimento topofílico. E assim os paraísos têm uma certa semelhança familiar porque os excessos da geografia (muito quente ou muito frio, muito úmido ou muito seco, etc.), são removidos.
E quando uma sociedade alcança certos níveis de desenvolvimento e complexidade, com a construção de grandes cidades e a agitação da vida urbana, as pessoas começam a observar e apreciar a simplicidade relativa da natureza.
É amplamente aceito que o campo é a antítese da cidade, mas a natureza virgem ou o selvagem, e não o campo, é o pólo oposto da cidade. O campo é a paisagem intermediária. Tanto a cidade como as fazendas são percebidas como inimigas de uma natureza intacta.
Esta crescente apreciação do selvagem, como a do campo, é resposta aos fracassos reais e imaginários da vida na cidade.
O meio ambiente não é a causa direta da Topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá formas às nossas alegrias e ideais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Deste modo, para efeito de estudo da Topofilia, elo afetivo entre a pessoa e o ambiente físico, a geografia fornece as condições para o seu desenvolvimento.
Através da relação espaço e da interferência do homem no meio ambiente, juntamente com características psicológicas e fisiológicas, da cultura de um povo, o homem passa a ter a sua percepção do meio ambiente, adquirindo valores positivos ou negativos do mesmo e faz com que ele tenha uma atitude frente aos ambientes que o cerca. Isto é a Topofilia.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Tuan, Yi-fu. Topofilia: um Estudo da Percepção, Atitudes e Valores do Meio Ambiente. 2a. edição. Editora Difel. São Paulo, 1980.
Publicado por: Manoela Gomes dos Anjos
Salilma Chiara
Enviado em 10/2.004