Enquanto a Chuva Não Vem - Continuação

Música de Fundo: gp_zigner.midi de Pablo Sarasate.


Dois anos depois Carmem veio assistir Adele em sua primeira apresentação na Orquestra Municipal e aceitou seu convite para mudar-se e morar com ela. Carmem havia formado-se em letras, na única faculdade de sua cidade, e mal sobrevivia com seus rendimentos de professora em uma cidade pequena. A oferta da amiga, além de propiciar-lhe sua companhia, a ajudaria profissionalmente. Carmem tornou a sentir-se forte e Adele continuava seus estudos musicais, agora na Escola Municipal de Música, e as duas viviam como cúmplices, apoiavam-se nos menores atos, nos menores gestos, apesar de possuírem personalidades distintas. À Adele agora, era suficiente a companhia de Carmem e sua música, da mãe e da irmã não soube notícias, apesar de haver participado seu endereço assim que fixou-se num apartamento; continuava ignorando, ou talvez nem percebesse, os homens que sua beleza, seu talento e sua altivez conquistava; outras amizades também não a atraiam mais, havia sofrido decepções assim que chegou em São Paulo. Primeiro, com uma colega do conservatório onde trabalhava, cuja amizade inicial transformou-se em adversidade confessa assim que reconheceu a capacidade e dedicação de Adele, e depois, com um companheiro da Escola de Música que a cobria de gentilezas enquanto praticavam as partituras recomendadas pelos maestros que os orientavam, agradecia de mil formas seus ensinamentos, mas quando Adele começou a sobressair-se na Escola, disfarçadamente procurou prejudicá-la, na vã esperança dos pequenos e mesquinhos de com isto promoverem-se. Estas e as outras experiências vividas desde a infância, mais o relacionamento difícil com a família, fizeram com que Adele se tornasse extremamente cautelosa em relação aos seres humanos, somente em Carmem reconhecia amizade. Enquanto Adele bastava-se a si mesma para resolver sua vida, mas apreciava a companhia de Carmem que anulava qualquer sentimento de solidão e por isso, valorizava sua amizade, Carmem necessitava da amiga que lhe fornecia a visão que não possuía para perceber belezas, a força que não tinha para procurar realizações, a sinceridade de seus conselhos.

Quando Adele ganhou a bolsa para estudar na Escola de Música, em Londres, Carmem foi também, e por intermédio de Adele empregou-se como intérprete na escola que havia ofertado a bolsa. E Carmem continuou a consolar os homens que se interessavam por Adele, pois para ela só existiam a música, o violino e os estudos. Sua única diversão era assistir apresentações musicais. No segundo ano depois de sua chegada à Londres, Adele já fazia sucesso na Escola: os melhores mestres ministravam-lhe ensinamentos, orientavam seus estudos e até pequenas apresentações já lhe haviam conseguido. Após cinco anos, com todo seu talento e dedicação, participava, como convidada, da Orquestra Sinfônica de Londres. Carmem ainda trabalhava como intérprete, acompanhava Adele em suas apresentações e, conforme a sucesso chegava à amiga, foi aos poucos se tornando sua secretária, sua empresária, sua camareira. E surgiram muitos candidatos a amigos, ou pretensos, ou apaixonados, assim como inimigos que Adele tinha como que talento para consegui-los. Quanto mais a fama foi se aproximando de Adele, mais as atenções interessadas cresciam e a maioria era percebida por ela com a experiência que foi adquirindo, mas por vezes iludia-se e sofria, e Carmem a consolava com sua amizade constante e presente.

Na sua primeira volta ao Brasil, para cumprir apresentações contratadas por Carmem, Adele recebeu a visita da irmã Rose - separada do marido, sofrida - com o filho Tiago de oito anos. Permaneceu no país por dois meses em companhia de Rose, de Tiago e de Carmem que, após um mês de convívio já havia despertado em Rose a antiga antipatia. Quando Adele retornou à Europa deixou a família confortavelmente instalada e com a promessa de ampará-la, apesar de todos os desentendimentos com Rose que procurou minar-lhe a confiança que depositava em Carmem.

Durante um concerto, Adele pela primeira vez fez solo com Adrian, que substituiu o pianista que seria seu acompanhante. Enquanto executavam a música, da obra de Pablo Sarasate, não sei se por ela, ou por estar determinado, ou felizmente, ou infelizmente, apaixonou-se, naquele instante, por Adrian.

Carmem, em suas idas e vindas assessorando Adele, já havia conhecido Adrian e pela primeira vez um homem que ainda não conhecera Adele, interessou-a. Procurou ajudá-lo profissionalmente, induziu Adele a apresentar-se com ele em alguns eventos, pouco a pouco o tornou conhecido do público amante da música, mas Carmem, talvez por receio de parecer vulnerável, não confessou à amiga seu amor e também não percebeu a emoção de Adele na presença de Adrian.

Uma deusa fora do alcance humano era como Adrian sentia Adele, sua música trazia para ele emoções sensuais. Ele a via diáfana, etérea e ele, um simples homem. Em Carmem, Adrian percebeu a mulher ávida em ser amada e que o impulsionou, a mulher racional. Em Adele não sentiu seu apelo mudo, cujo escudo que havia construído ao seu redor não a permitia demonstrar e nem ser atravessado. E por timidez decidiu-se por Carmem, que também lhe ofertava a presença de Adele.

Quando Adrian propôs casamento à Carmem, ela há muito sabia sobre a paixão da amiga, o que a fez amá-lo mais ainda, e nem em sonhos cogitou abdicar em favor dela. Adele aceitou, aparentemente tranqüila, mas profundamente se culpou por sua fraqueza, por não ter revelado seu amor, pela tristeza que sentia, pelo sentimento de inveja da amiga, mas não derramou uma única lágrima, nem mesmo no contato solitário de seu travesseiro. Suas emoções sempre foram secas como algumas terras nordestinas de seu país, que racham e acabam com a vida dos seres que tentam viver sobre ela.

Adele em pé, de olhos fechados, frente aos convidados e atrás do celebrante, tocou durante toda a cerimônia a música que havia revelado a si mesma o amor que sentia e, como enfeitiçados, todos os presentes choraram, menos Adrian que, atônito percebeu o erro que acabara de cometer e mesmo quando o violino já descansava no estojo, a noiva e os convidados ainda choravam e esperavam o término da cerimônia. Adele e Adrian, imóveis, uniam-se num olhar árido. Horas depois, Adele embarcou no avião que a traria ao Brasil.

Veio sem violino, sem partituras. Por dois meses não ouviu a irmã lhe aconselhar a abandonar Carmem, também não quis ouvir suas acusações sobre ser destituída do sentimento de amor, tanto o fraternal como o emocional. Apegou-se ao sobrinho Tiago, recusou entrevistas e apresentações e depois de prometer que daria a Tiago a melhor educação e atenção, partiu com ele de volta à Londres levando, também, o nó na garganta do choro preso com que chegou.

Tiago passou a acompanhá-la em todos os compromissos que podia, quando não interferia em seus estudos, e Adele apegou-se a ele de quem tirava forças para, apesar do nó da garganta e dos olhos secos, cada vez mais se dedicar à música. Carmem continuou empresariando Adele que em quase todos seus concertos era acompanhada por Adrian. E por anos tocaram juntos a mesma música. A Europa nunca antes aplaudira tanto Pablo de Sarasate. Nos contratos, que Carmem fechava para os dois, sempre havia a clausula que exigia a execução da música que levava os ouvintes ao delírio molhado de lágrimas copiosas. Nunca nenhum intérprete havia conseguido passar tal emoção à platéia e a melodia de Sarasate era sempre o ato final, que encerrava, que exauria de emoção o público e os executantes.

Adele e Adrian passaram a recusar quase todos os convites para participarem de Orquestras Filarmônicas, unicamente aceitavam as que propunham destacarem-se em duos, que interpretavam magistralmente. Mesmo quando tocavam outras partituras, eram perfeitos na sintonia, nos acordes, nos arranjos imprevistos que criavam conforme iam atingindo o final da execução, e quando soavam os últimos acordes, todos, desde o maestro, até os uniformizados empregados dos teatros, demonstravam as sensações que viveram. Durante as apresentações, e enquanto recebiam os aplausos, o nó da garganta de Adele desfazia-se, mas assim que colocava o violino no estojo era novamente atado, fortemente, e ela corria para o convívio de Tiago.

Carmem e Adele aos poucos, transformaram a amizade em relacionamento profissional, sem uma única palavra, como num acordo mútuo e mudo. Com Adrian Adele só encontrava-se nos palcos do mundo. Quando nasceu a filha, Carmem deixou de trabalhar para Adele, que aceitou a disposição dos dezenove anos de Tiago para cuidar de seus negócios. O nó da garganta ainda permanecia, e Adele e Adrian cada vez mais, amavam-se através da música.

A carta de despedida e na qual também confessava o desfalque, que Tiago deixou, dois anos depois que assumiu o controle financeiro, aumentou o nó da garganta e secou ainda mais os olhos de Adele e ela refugiou-se na música e consolou-se aguardando os encontros musicais com Adrian até quando, uma curva fechada duma estrada bandida, venceu-a, roubando-lhe sua capacidade de continuar ativa e o nó da garganta sobrepôs-se à vontade.

O desastre incapacitou, paralisou, o braço de Adrian e calou, para o mundo, também a música de Adele, que retornou definitivamente ao Brasil onde adquiriu uma pequena propriedade rural, localizada nas terras áridas do norte. Solitária e muda, na companhia do olhar reprovador de Rose, senta-se, quase todas as horas de seus dias, na pequena varanda de onde avista-se a planície seca, amarelada, ensolarada, além do pequeno gramado e dos arvoredos cultivados e regados - pela água do poço artesiano - por Rose. E toca a música de "Melodias Ciganas", e aguarda a passagem dos poucos carros que são anunciados, ao longe, pela terra seca que levantam, e pesquisa o céu azul, límpido, e o horizonte procurando por nuvens salvadoras...



-----------| FIM |-----------

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