Para os filhos, que só dirigiam-se a ele quando necessitavam de ajuda financeira - e o calavam com a freqüente frase: "Você está fora do nosso tempo!" - e também para Tati, sequer um adeus, e quando olhou a mulher pela última vez, pensou: "Por que não se chama Paloma Linhares?".O nome Paloma Linhares o acompanhou desde a partida, Alfredo buscou na mente alguém que houvesse conhecido com esse nome e não encontrou. Depois de um mês, em que visitou quatro cidades, sem quase dormir, perturbado pela lembrança do nome, percebeu que seu único desejo agora era encontrar Paloma Linhares.
Em toda cidade que parou, anunciou no jornal local: "Procura-se Paloma Linhares. Informações pelo telefone do Hotel...". O anúncio era sempre igual. Publicava-o por três dias e aguardava alguma notícia enquanto andava pelas ruas, freqüentava restaurantes, cinemas, igrejas e comércio, procurando Paloma Linhares. Alfredo estava mais magro, em razão da única refeição que fazia, das noites mal dormidas em hotéis baratos, precisava poupar até encontrá-la, e após quatro meses de busca a concebia em sua mente, sentia seu perfume, conhecia o timbre de sua voz.
No último dia de estadia, da vigésima quinta cidade que visitava, quando já arrumava sua pequena valise, o único empregado do hotel chamou-o para atender ao telefone. Era a primeira Paloma Linhares que iria conhecer. A voz no telefone pareceu-lhe a que imaginava. Convenceu-a encontrá-lo na praça. Pagou ao empregado para passar a roupa que reservava para a ocasião. Banhou-se e barbeou-se caprichosamente e se reencontrou na imagem do espelho. Quando regressou ao hotel para trocar a roupa que vestia e pegar a valise, a imagem do espelho já não era dele. Precisava partir. Aquela não era sua Paloma Linhares.
Por dois anos percorreu estradas e alojou-se em modestos hotéis de pequenas cidades, também de grandes e de capitais desenvolvidas. Mais três Paloma's Linhares o procuraram, mas eram mais Tati's que Paloma's Linhares. Enfim chegou numa cidade cujos espelhos o mostravam verdadeiro e, em sua atmosfera pressentiu a presença desejada. Pela primeira vez não publicou o anúncio. Uma calma interior garantia-lhe a certeza de seu encontro com Paloma Linhares.
Empregou-se numa agência bancária. Queria proximidade com o público. Pesquisou todos dos arquivos dos correntistas, dos aplicadores. Mandou confeccionar uma placa branca, com a inscrição "Procura-se Paloma Linhares" em verde-esperança, e a deixava ao lado de seu nome toda vez que atendia clientes. Causou curiosidade nos colegas do banco, para os quais mentiu dizendo ser filha de uma amiga de sua falecida mãe.
Rosa também trabalhava no banco. Deveria estar por volta dos quarenta anos, era viúva já conformada com a condição solitária, até conhecer Alfredo. Aquele homem simpático, descompromissado, educado e também solitário, despertou-lhe esperanças de companhia, de afeto, de emoções, despertou-lhe a mulher entorpecida. Alfredo no início não reparou em Rosa absorvido em sua procura, mas a presença constante, solícita em esclarecer-lhe dúvidas do dia a dia do banco, cresceu e foi notada por ele. Rosa cercava-o de atenções: visitava-o no pequeno apartamento que morava, preparava seu jantar, organizava suas roupas, acarinhava-o na cama onde entregava-se ao seu prazer. Uma vez perguntou-lhe de Paloma Linhares e não obteve resposta. Aceitou passivamente. Assim como seu silêncio, sua necessidade em permanecer isolado ouvindo música com o olhar perdido no infinito vislumbrado através da janela e pelas pequenas frestas entre os inúmeros prédios ao redor. Um ano depois Alfredo sofria com a solicitude de Rosa, seu desprendimento, sua dedicação tornava-a, a seu ver, muito próxima de ser uma Tati. E mais uma vez se perguntou se a causa não seria o nome simples. Procurou não magoá-la ao tentar explicar o fim do relacionamento.
Para não correr o risco de cair novamente numa armadilha feminina, Alfredo convidou Martim para dividir o apartamento. Viúvo, após vinte anos de casamento, Martim queria viver a solidão que o fez encontrar sua individualidade e, em Alfredo, havia reconhecido afinidades, companheirismo, amizade sincera. Trabalhavam juntos e aos poucos, mutuamente analisaram-se com toda a experiência dos seus cinqüenta anos, e se aprovaram. Alfredo reencontrou a amizade juvenil. Havia respeito entre eles: aceitavam as diferenças, valorizavam as igualdades, não julgavam o que classificavam como defeitos - simplesmente ignoravam. Mas nem para Martim Alfredo contou sua ânsia em encontrar Paloma Linhares, que ele continuava a sentir próxima: o vento quando soprava mais forte, trazia ao seu olfato o perfume que imaginava dela; o silêncio das noites insones, sem o balburdio sonoro das movimentadas avenidas das redondezas, transformava-se em murmúrios da voz sonhada; as carícias do lençol sobre o corpo adormecido eram sentidas no sonho, como feitas por ela.
Após três anos dividindo o apartamento e cada vez mais unidos, Alfredo e Martim eram alvos de comentários que lhes atribuíam um relacionamento homossexual e ignoravam tranqüilamente. Foi Rosa que, ofendida pela indiferença de Alfredo, iniciou o boato que nenhum dos dois desmentiu, pois em comum concordavam que não deviam explicações de seus atos, e entendiam a infeliz Rosa que não os perdoava por rejeitarem sua companhia, por não preencherem sua solidão. Apesar da profunda amizade, nunca houve nenhum comentário entre eles sobre seus passados, ignoravam ambos qualquer existência de parentes, de amigos ou conhecidos. E Alfredo continuava, incansavelmente, a procura de Paloma Linhares. Sempre saía só, freqüentava todos os lugares em que pudesse conhecer mulheres e abordava-as, mesmo quando acompanhadas o que algumas vezes causou-lhe embaraços. Várias delas, a primeira vista, o fizeram pensar haver encontrado sua Paloma, em algumas só percebeu o engano após vários encontros. Houve uma, a última, que só depois de quatro meses de convívio revelou-se verdadeiramente, para sua decepção.
Alfredo enfim desistiu da procura, iria somente aguardar o encontro. Sabia que um dia a encontraria. Deixou levar-se pela vida, ela o guiaria, lhe mostraria o caminho; e pouco a pouco foi definhando, murchando, secando, sob o olhar preocupado e impotente de Martim, e morreu tranqüilamente.
Martim cuidou do enterro, providenciou o sepultamento e após colocar a coroa de flores enviada pelos colegas do banco, despediu-se mentalmente do amigo e antes de sair leu no jazigo, à esquerda do de Alfredo: "Aqui jaz Paloma Linhares, aquela que
em vida não encontrou seu Alfredo".
-----------| FIM |-----------