São Paulo, sexta-feira, 29 de abril de 2005

 

 

 

Avenida Cerro Corá, 16:40: invasão e desrespeito. O pisca-alerta ligado indica que é uma emergência, mas a calçada é de uma padaria. Trata-se apenas de individualismo mesmo.

 

 

Cidade Universitária, 17:40: o luminoso na saída do campus informa que ciclistas sem vínculo com a USP estão proibidos de circular.

 

Nenhuma mensagem para os motoristas sobre a necessidade de respeitar ciclistas e pedestres e instruindo a não usar as vias do campus como pistas de corrida, o que ocorre com freqüência. Nada sobre atropelamentos e ameaças a ciclistas.

 

 

 

 

 

 

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Cidade Universitária 17:43: o atleta de ciclismo passa, tranquilamente, em alta velocidade, no farol vermelho, aberto para os pedestres, em frente à Faculdade de Educação, mesmo ouvindo os gritos de “pare, olha o sinal vermelho”, do ciclista que vinha atrás. As pessoas no ponto de ônibus e as que esperavam para atravessar a rua balançam a cabeça, desanimadas. Infelizmente o grito ocupou o momento da foto.

 

 

Rua Bela Cintra, 18:15: o trânsito parado desde a Estados Unidos até a Paulista. Carros se espremem, não há espaço sequer para passar uma bicicleta. A solução é desmontar e ir pela calçada.

 

 

Esquina da Bela Cintra com Alameda Santos, 18:25: entre párachoques, o pedestre atravessa a rua: a escala da máquina e a escala do corpo. O sinal está vermelho para os carros, mas quem se importa? As faixas brancas pintadas no chão não são nem vistas: o motorista entrega-se à sua imobilidade, fechado, sozinho e adoecendo aos poucos.

 

 

Pode passar, pedestre, a faixa é sua! Mas cuidado com as motos nos corredores.

 

 

Bela Cintra com alameda Santos: parados sobre a faixa de pedestres, os motoristas não enxergam as pessoas à sua frente, que tentam atravessar a rua vivas. São obstáculos, assim como buracos, lombadas, o marronzinho do CET, o diabo do farol que não abre...

 

 

 

 

 

 

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Esquina da Paulista com Consolação, 18:35: trânsito pesado, parado. Pedestres aglomerados nas calçadas esperando o rápido sinal verde para atravessar a avenida. Buzinas e barulho dos motores, cento e tantos quilômetros de congestionamento. A cidade entregue a uma imobilidade frustrante, veículos de duas toneladas, de 10, 20, 50 mil reais parados, jogando fumaça no ar, ocupando o espaço de pessoas e plantas. Motoristas irritados, falam ao celular, apóiam-se no volante, mexem no rádio. Só querem chegar em casa. A contemplação tomou o momento da foto.

 

Vindos da zona leste, zona oeste, centro, um pequeno grupo de ciclistas atravessou o caos e se reúne no canteiro da avenida, com máscaras anti-poluição, uma placa amarela, panfletos e disposição para estabelecer contato com outras pessoas, face a face, na rua.

 

 

 

Avenida Paulista, 19h: ciclistas circulam em meio aos carros parados no trânsito, entregando panfletos aos motoristas, orientando, esclarecendo.

 

 

Av. Paulista, 19:15: em meio ao tráfego, sem poluir, sem agredir, mostrando que há alternativas.

 

 

Esquina da Paulista com a Brigadeiro, 19:30: vidros fechados – sem diálogo, sem contato, sem companhia, sem vida. Só com o medo.

 

 

Paulista com Brigadeiro, 19:40: vidros abertos – diálogo, entendimento, informação, mudança.

 

 

 

Paulista com Brigadeiro, 19:45: uma pequena mensagem, uma grande idéia.

 

 

Paulista com Brigadeiro, 19:50: há gente no trânsito que ri, se diverte, se abraça, conversa.

 

 

 

 

 

“As onças pardas não eram onças pardas, se chavamam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram máquinas. Os tamanduás os boitatás as inajás de curuatás de fumo, em vez eram caminhões bondes autobondes anúncios-luminosos relógios faróis rádios motocicletas telefones gorjetas postes chaminés... Eram máquinas e tudo na cidade era só máquina. (...)

Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só maquinando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina... Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava nostálgico assim. Até que numa noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu:

– Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate. (..)

A máquina devia de ser um deus de que os homens não eram verdadeiramente donos só porque não tinham feito dela uma Iara explicável mas apenas uma realidade do mundo. De toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma luz: Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens. Macunaíma deu uma grande gargalhada. Percebeu que estava livre outra vez e teve uma satisfa mãe. Virou Jiguê na máquina telefone, ligou pros cabarés encomendando lagostas e francesas.”

 

(Mário de Andrade, Macunaíma)

 

Participe disso!

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