VIRTUALMENTE EXCLUÍDOS
As intensas transformações tecnológicas ocorridas desde a década de 1970, quando iniciava a era da informatização da sociedade, mantiveram não só as classes de baixa renda, como também nações inteiras à margem desta evolução, criando uma legião de info-excluídos. Hoje, a tão sonhada “sociedade da informação” incita diversos debates a respeito da socialização da tecnologia, ou seja, a maneira pela qual o advento das novas tecnologias poderá auxiliar no desenvolvimento e principalmente democratização da informação e, por fim, da sociedade.
Os fatores determinantes de qual será o futuro da sociedade da informação ainda não são perfeitamente delineáveis, mas há uma série de questões relevantes a esse respeito.
O primeiro esclarecimento que deve ser feito diz respeito ao que se pode chamar de “índole da tecnologia”. Toda evolução tecnológica traz consigo um número variável de mudanças – variáveis também em intensidade – no comportamento da sociedade. Prontamente, passa-se a teorizar sobre o impacto que essa tecnologia causará na sociedade em questão, como se esta mesma tecnologia não fosse fruto do próprio desenvolvimento do homem, seu criador e utilizador por excelência. É incoerente, portanto, acreditar que a tecnologia seja boa ou má em sua essência. Tampouco podemos dizer que é neutra, na medida em que condiciona ou restringe (dependendo de sua utilização) o desenvolvimento da sociedade.
Esta dualidade está perfeitamente representada nos atuais debates sobre a internet como meio de democratização da informação. De um lado temos o desenvolvimento de uma poderosa ferramenta de comunicação – em tempo virtualmente real – que permitiu a alguns segmentos da sociedade criar um verdadeiro mundo virtual. Hoje é possível trabalhar, estudar, conversar, comprar, entreter-se etc., sem sair da frente de um computador. Poucas possibilidades escapam a instantaneidade do click do mouse. Os teóricos do gênero falam até mesmo no surgimento da “inteligência coletiva”, ou seja, o compartilhamento pleno de informações entre os indivíduos, de modo que todos os usuários tenham condições idênticas de possuir o mesmo nível de conhecimento sobre qualquer assunto. Até certo ponto, é possível acreditar na idéia de inteligência coletiva – por exemplo, numa comunidade acadêmica fechada.
Para pensar em algo desta natureza, porém, é preciso considerar as condições sócio-econômicas e culturais de cada comunidade em particular. A primeira dificuldade é de natureza estrutural: mais da metade da população mundial nunca teve acesso a um telefone. Seria difícil, portanto, prever o compartilhamento de informações sem a utilização das linhas telefônicas.
Fala-se, então, na utilização da internet via ondas de rádio. De fato, é uma ótima idéia, não fossem os altos custos deste tipo de transmissão. Mais uma vez, mais de 50% da população mundial vive em condições miseráveis, abaixo da linha da pobreza, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU). Se esta imensa quantidade de pessoas não tem condições de sustentar suas próprias necessidades básicas, não podemos ser pretensiosos a ponto de imaginar sua inclusão imediata no “mundo virtual”, até hoje bastante custoso para os usuários.
Outro fator que merece citação é o aspecto cultural de cada nação do mundo. É bastante evidente a existência de regimes de governo que não permitem às suas populações o livre acesso à informação, como é o caso de vários países do Oriente Médio. Além disso, deve-se considerar que grau de relevância e que significação têm todos os gigabytes de informações disseminados na rede, perante a formação cultural de cada povo. John Thompson cita em seu livro A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia, um estudo feito por Liebes e Katz com o seriado norte-americano Dallas. Liebes e Katz mostram como diferentes grupos étnicos atribuem diferentes significados à mesma mensagem.
Tem-se, portanto, um quadro bastante adverso à teoria da inteligência coletiva e da democratização da informação. A população mundial é incapaz, nas condições atuais de adaptar-se rapidamente a estes dois conceitos. Antes, deve-se prosseguir com os debates acerca da socialização da tecnologia, para que se possa trilhar caminhos para uma migração gradual, não-excludente e efetiva da sociedade real para o mundo virtual.