Lama na imprensa
Por Júlio Arantes
A semana de 15 a 21 de fevereiro foi singular para a
imprensa alagoana. Trata-se da semana em que ocorreu o julgamento pela morte do
tributarista Sílvio Vianna. No banco dos réus, Coronel Cavalcante – como é
conhecido – e Garibalde Amorim, os executores. O julgamento era especial porque
envolvia o setor econômico de maior influência do Estado, o da indústria da
cana-de-açúcar.
Os depoimentos, um a um, evidenciavam o envolvimento direto
dos usineiros com o caso. Apesar de se tratar tão somente do julgamento dos
executores, os coronéis de Alagoas – aqui o coronelismo ainda existe e é mais
forte do que se imagina – rapidamente se prontificaram em tentar encobrir seu
envolvimento com o caso.
O primeiro foi mais primitivo: ameaçou jornalistas que
teriam “inventando” histórias a seu respeito. Os sindicatos prontamente saíram
em defesa dos ameaçados, com notas em diversos veículos de comunicação. Ao
final, o primitivo se retratou, pedindo desculpas – ainda que isso não signifique
que ele se arrependeu de coisa alguma, pelo contrário, está acostumado a estas
práticas.
O segundo foi mais hábil. Dono de dois
veículos de comunicação, um jornal impresso e uma rádio AM, disparou sua
metralhadora giratória. Utilizou sem qualquer escrúpulo de espaços de
comunicação que, em tese, deveriam servir à população, para veicular todo tipo
de informação, real ou não, em sua defesa. Aliás, essa já era uma prática sua.
Praticamente todas as edições de seu diário têm uma “matéria” falando dos
projetos e ações do deputado. Sua rádio, com um locutor de
peso do cenário alagoano, não é diferente e, como se não bastasse,
comprou inserções nos horários nobres das tvs locais, “explicando” que se
tratava de “manobra política”. Não é de se estranhar que este ano ele é
candidato a prefeito de Maceió, porque ama o povo, como também não é de se
estranhar que ele tenha decidido entrar para o parlamento federal no pleito que
antecedeu o citado julgamento.
Este é o cenário (mercado, como preferem alguns) da mídia
alagoana. Na verdade, um reflexo do próprio Brasil. Abuso de
poder, descompromisso com a população, monopólio da mídia – aqui vemos,
claramente, o latifúndio em diversas faces. Enquanto isso, iniciativas que
tentam politizar e trazer à tona a verdade cruel a que somos
submetidos são rechaçadas, seja por meio de ameaças, seja proibindo de
funcionar uma rádio universitária. Não se pode ter uma rádio na universidade,
mas um político conseguir uma concessão de rádio comunitária e vender toda a
programação por R$ 100/hora pode. Como também pode ser dono de rádio, jornal e
tv ao mesmo tempo. É isso que eles chamam de “respeito ao leitor”.
Precisamos valorizar e fiscalizar a utilização dos meios de
comunicação alternativos, pois está claro que o “mercado” já enxerga nestes
mais um “nicho” de onde podem sugar ainda mais o sangue do povo. A luta pela
garantia do acesso e produção dos meios de comunicação é atual como nunca, pois
hoje a concentração dos meios se traveste, através de propriedades cruzadas e
outros artifícios e consegue manter sob seu comando toda a produção e
veiculação de informação.
Este é o nosso instrumento de luta: universalizar a
comunicação, garantir a todos o direito de comunicar, para contribuir, assim,
com a mudança da sociedade. Em tempos de neoliberalismo avançado, como o que
temos hoje, não podemos perder o foco da luta, que deve ser a construção de uma
sociedade nova, onde não haja desigualdades sociais, onde não haja concentração
de meios/renda/poder, onde o “deus-mercado” não mais seja o imperador da
sociedade, onde não seja preciso andar com medo de ser assassinado por querer
que um usineiro esteja em dia com suas atribuições fiscais.