Elvis Presley
Pablo Aluísio
O Novo James Dean
Acompanhe os primeiros anos de Elvis Aaron Presley, O rei do Rock 'n'Roll.
Conta a lenda que a primeira vez que Elvis Presley apareceu na televisão, Ed Sullivan ficou tão escandalizado com o que viu, que afirmou que Elvis jamais apareceria no seu programa. Mas, quando Elvis apareceu no Steve Allen Show, o ibope de seu concorrente subiu tanto que Sullivan resolveu voltar atrás e pagar uma nota para Ter o rei do rock em seu programa. E, para mostrar sua desaprovação, ordenou que Elvis fosse localizado somente da cintura para cima, enquanto que, fora das câmeras, Sullivan o xingava.
Noventa por cento desta fábula é ficção. Anteriormente, Sullivan não havia se dado bem com alguns rockeiros, particularmente com Bo Didley. Mas, devido ao enorme sucesso de Elvis Presley, Sullivan lhe pagou 50 mil dólares por três apresentações em seu programa. A primeira delas foi em Hollywood, no dia 9 de setembro e Elvis não foi só mostrado da cintura para cima. Esse célebre incidente, que viria simbolizar todo o moralismo dos anos 50, só aconteceu na última apresentação, e não teve nada a ver com a dignidade moral dos americanos, foi só mais um caso de auto censura, com a intenção de sugerir que "lá embaixo" Elvis estava botando para quebrar. E esse papo de que Sullivan o ficou xingando no primeiro show é totalmente inverossímil, pois o apresentador estava doente, recuperando-se de um acidente automobilístico, e quem comandou o programa naquela noite foi Charles Laughton.
Só mais uma coisa: não foi Ed Sullivan que tornou Elvis famoso, mas justamente o contrário. O programa de Sullivan, Toast of Town, era uma verdadeira porcaria, enquanto que Elvis já se transformara em um verdadeiro fenômeno nacional de que todo o país ouvia falar, graças principalmente ao rádio.
O Rock & Roll se difundiu mundialmente através do rádio. O primeiro herói do rock – que deu nome à música, estabelecendo os concertos de rock e conquistando uma ampla faixa de audiência – foi um radialista, o DJ Alan Freed. Junto com outros 1700 DJs americanos, Freed comandou o clima cultural da década de 50. A televisão que até hoje não entende o Rock, significava muito pouco para a juventude da época, pois até o advento de programas como o American Bandstand (onde os cantores dublavam seus rocks enquanto um monte de adolescentes ficava dançando ao redor ), que só foi entrar em rede nacional em 1957 a programação da TV era dedicada exclusivamente ao público adulto e infantil, ignorando completamente os adolescentes.
Pelo final de 1956 Elvis Presley era universalmente aclamado como o Rei do Rock & Roll. O rapaz que havia começado o ano como um obscuro cantor country, que era escutado através de um programa caipira transmitido de Shreveport , era agora um herói da juventude americana. Ninguém na história do Show business havia subido tão depressa. Nem mesmo os Beatles, quando comparados com ele, tiveram que batalhar bastante para atingir o estrelado.
Elvis Presley e Natalie Wood
Elvis estava no topo do mundo. Pois muito bem. Um ano antes, o mais brilhante ator jovem de Hollywood, o fascinante James Dean, havia morrido depois de bater com seu Porsche Spyder branco. Depois que "Rebelde sem causa" chegou aos cinemas, Dean virou ídolo de uma geração – e de Elvis também. Tanto que, quando foi para a cidade dos sonhos, The Pelvis estava disposto a ser um novo James Dean.
Mas Elvis era muito diferente de Jimmy Dean. Dean não tinha nenhuma intenção de ser cooptado pela Hollywood que tanto desprezava, Presley só queria ser aceito. Graças ao ator Nick Adams, de quem se tornou amigo, Elvis foi introduzido na turminha existencialista que antes rodeava James Dean: Jack Simmons, Sal Mineo e Dennis Hooper. E então Elvis se apaixonou por Debra Paget, estrelinha de seu primeiro filme.
- "Elvis era um doce, uma pessoa muito simples"- recorda-se Debra – "que gostava de montar em sua motocicleta e sair pela noite. Nunca disse isso a ninguém, mas Elvis me pediu em casamento depois das filmagens. Mas minha família não gostou da idéia"
Na ocasião em que estava cortejando Debra Paget, porém, Nick Adams apresentou-o a Natalie Wood, que então tinha 18 anos e também pertencia a ex turma de James Dean. A existencialista e jovem atriz, que tinha Dean como modelo, viu em Elvis a sua antítese. Mas, mesmo assim, ficou fascinada com sua beleza, sua boca sensual, sua doçura e mais do que tudo com seu "terrível convencionalismo".
- "Fomos até uma sorveteria tomar um sundae. Depois fomos a uma lanchonete para um sanduíche e uma coca. Ele não bebia. Ele não dizia palavrões. Ele nem fumava! Era como Ter o namorado de escola que eu nunca tive. Achava aquilo realmente fantástico!"
Outra coisa que Natalie Wood notou em Elvis foi seu fervor religioso:
- "Nunca tinha saído com alguém que fosse religioso. Elvis acreditava que tinha recebido esse seu Dom, esse seu talento, de Deus. Ele tinha de ser bom para as pessoas, senão Deus poderia lhe tirar o que lhe havia dado."
A família Presley vai a Hollywood
Antes de voltar a Memphis, Elvis convidou Natalie para conhecer sua nova casa na avenida Audubon e, em 31 de outubro, três dias depois da segunda aparição de Elvis no programa de Ed Sullivan, Natalie Wood chegava a Memphis, onde foi recebida por Nick Adams e por Elvis Presley, e escoltada através de uma multidão de fãs e caçadores de autógrafos até um Lincoln Continental branco de 12 mil dólares que Elvis dirigiu.
Quando Natalie viu as centenas de fãs em volta da casa de Elvis junto com um monte de vendedores ambulantes de cachorro quente e pipoca, ficou chocada e horrorizada. Ela vinha de um mundo onde as celebridades moravam, mas nunca havia testemunhado nada igual àquele carnaval. Quando Elvis tentou colocar o carro na garagem, foi bloqueado pelos fãs. Elvis pôs a cabeça para fora da janela do carro e disse:
- "Assim que guardar o carro eu volto para conversar com todos vocês"
- "não esqueça, você prometeu" – disseram os fãs em coro
Natalie pensou que isso era apenas uma desculpa para ele se livrar dos admiradores. Qual o quê! Assim que Elvis guardou o carro, voltou ao portão da casa, onde ficou conversando e assinando autógrafos por mais de meia hora. Depois de ciceronear seus dois convidados, pela suburbana noite de Memphis, o que incluiu uma visita ao programa de rádio de Dewey Phillips e um lanche no boteco preferido de Elvis, o trio voltou para a casa da avenida de Audubon, sempre cercados por um cortejo de automóveis. Essa rotina durou toda a semana da visita.
Em abril de 1956, depois de 84 apresentações no Louisiana Hayride, Elvis encerrou seu contrato com o programa, acertando um concerto de despedida para 15 de dezembro. Depois do natal, Elvis voltou a Hollywood para filmar Loving You e convidou seus pais para irem junto. Em toda a vida, Gladys e Vernon só haviam viajado os 250 Km de Tupelo a Memphis. Gladys estava felicíssima, e convidou um casal de amigos para lhes fazerem companhia.
Em Hollywood, os Presleys conheceram a linda atriz Joan Blackman que, aos 18 anos, era a nova amiguinha do filho. Joan concluiu que Elvis não era inocente com as mulheres, apenas tinha medo do assédio exagerado delas em cima dele. Ela era virgem e Elvis parecia contente em deixa-la nesta condição. Na verdade, Elvis tinha um certo receio de fazer sexo com uma mulher que respeitasse. De qualquer modo, seu breve romance com Joan chegou logo ao fim. Anos mais tarde Joan foi aos bastidores em Las Vegas para encontrar Elvis. Olhando-a com desdém, obviamente drogado, ele disse a atriz:
- "Você teve a sua chance !" – Esta veio a ser uma das frases padrão de Elvis em seu relacionamento com o sexo feminino.
Generosidade e exibicionismo
Quando voltou a Memphis, Elvis comprou a mansão Graceland, um rancho de 33 acres nos subúrbios de Memphis. A casa construída em 1909, há muito estava abandonada, necessitando de uma reforma completa. No verão de 1957, depois de concluir seu terceiro filme, Jailhouse Rock, Elvis encontrou Graceland toda renovada e pronta para morar. E o Rei do Rock se atirou de cabeça a todos os prazeres que encantavam seu coração de adolescente.
Um desses prazeres era a patinação. Elvis alugava o Rainbow Rolerdome, um ringue de Memphis e convidava os amigos para curtir. Quando os patins deixaram de atrai-lo, vieram os rachas de moto. A polícia de Shelby County, um condado próximo, interditava uma rodovia tarde da noite, para que Elvis e seus amigos pudessem pilotar suas possantes Harley Davidsons, a 180 Km por hora. Agora que era um astro das telas, sua paixão pelo cinema aumentou mais ainda e Elvis passou a alugar um cinema da cidade, para as suas sessões privativas. Isso deu origem a um dos primeiros rituais da corte do Rei do Rock &Roll.
Como tudo o mais que Elvis fazia para se divertir, os filmes começavam somente após a meia noite. Durante essas sessões Elvis assumia uma atitude generosa e exibicionista, não se incomodando se uma centena de fãs assistisse os filmes com ele, desde que soubesse como se comportar e lhe demonstrasse o devido respeito. Uma multidão se aglomerava diante do cinema muito antes dele chegar, e os convidados eram escolhidos a dedo pela jovem entourage do Rei.
Elvis entrava invariavelmente pela porta dos fundos e tomava seu lugar predileto na sala vazia, a umas doze fileiras da tela, no centro. A ninguém era permitido sentar-se à sua frente e a seu lado, exceto sua namorada, que ficava à sua esquerda. Do seu lado direito, uma mesinha com chocolate, Pepsi-Cola, goma de mascar e, mais tarde, pizzas e sanduíches. Uma vez que o rei estivesse entronizado, as portas se abriam e seus convidados entravam.
Elvis já curtia uma nostalgia com apenas 21 anos
Da meia noite até o amanhecer, todos os empregados do cinema se mantinham em seus postos. Qualquer convidado podia Ter seu hot dog ou seu saco de pipocas de graça, ou então mandar algum empregado buscar alguma pizza ou um chessburguer, também gratuitamente. Quando Elvis estava no banheiro, ninguém mais podia estar lá, e seu guarda costas ficava de guarda na porta. Em tudo o que acontecia, Elvis tinha controle absoluto.
Caso o filme não lhe agradasse, ele gritava para o projecionista passar outro. Mas se o filme fizesse a sua cabeça, Elvis mandava passar de novo. Uma vez ele viu Dr Fantástico, de Stanley Kubrick três vezes em seguida. Nas raras ocasiões em que assistia a algum de seus filmes, apenas a família e alguns amigos mais íntimos eram permitidos no cinema.
Apesar de Ter ainda só 21 anos, Elvis já curtia uma nostalgia. Tendo ao seu lado algum confidente, Elvis dirigia até Lauderdale Courts, passava pela Humes School ou ia até Tupelo, para mostrar como foi duro sua infância. Para não chamar a atenção, especialmente em Memphis, onde a aparição de qualquer um de seus carros provocava uma procissão atrás dele, Elvis se disfarçava com um boné de motorista e saía para suas excursões nostálgicas – à noite, é claro – dirigindo um caminhão que era usado para transportar o lixo de Graceland.
Mas o mais curioso em seu estilo de vida por esse período era o seu relacionamento com o sexo oposto. Ao ficar mundialmente famoso, Elvis passou a se comportar dentro da mais estrita moralidade. Suas aventuras amorosas em Memphis podem ser caracterizadas como "pré sexuais". Sua mais gratificante relação por este período, foi com três fanzocas ardorosas de 13 anos, que ficaram conhecidas como "as três mosqueteiras". As primeiras groupies (tietes) da história do rock.
Gloria Mowel foi quem primeiro conheceu Elvis e apresentou a suas amigas, Heidi Heissen e Frances forbes. O pai de Gloria trabalhava em uma oficina de automóveis, onde os Presleys consertavam em seus carros. Um dia, quando Vernon estava na oficina, o pai de Gloria arranjou um jeito de sua filha visitar o rei do rock. Na data marcada – 11 de outubro de 1956 – Gloria tocou a campainha da casa de Elvis, e para sua surpresa, o próprio cantor lhe abriu a porta. Na vitrola tocava "Ruby Babby", um sucesso de Johnny Moore and the Drifters. Elvis lhe ofereceu uma Pepsi e eles iniciaram uma conversa que iria se prolongar por longo cinco anos.
As Três mosqueteiras
Assim que encontrava algo de que gostasse, Elvis não abandonava mais e, quando Gloria, Heidi e Forbes conquistaram sua confiança, elas passaram a freqüentar sua casa, onde se divertiam na piscina ou então em animadas lutas de travesseiros no quarto de Elvis. Mas ele nunca ia longe demais. Gloria é quem conta:
-"A gente se tocava, lutava, ria, mas era só dizer para parar e ele ficava quietinho. Acho que se Elvis quisesse tentado mesmo, eu cederia. Mas ele tinha um ditado, que me contou certa vez: Nunca vou deflorar uma virgem. Existem muitas prostitutas por aí".
As três mosqueteiras ficavam com ele até as três, quatro horas da madrugada, e as melhores noites eram quando o quarteto fazia suas "festas do pijama"no quarto azul de Elvis. Nessas ocasiões Elvis ajudava-as com a maquiagem, beijava-as, e passava horas abraçado com elas em sua enorme cama rodeado de espelhos, em completo silêncio, e com as luzes apagadas.
"Eu queria que aquilo tudo nunca acabasse" – confessa Gloria, recordando-se daquelas noites – "quando a gente estava naquele quarto, só queríamos que o tempo parasse"
Quando ficava muito tarde, Elvis despedia-se beijando cada uma delas e mandava o gordinho Lamar Fike levá-las para casa. Mas essa ótica de nunca deflorar virgens logo seria abandonada por Elvis. Outro detalhe: embora tivesse muitas "amiguinhas", Elvis sempre tinha uma garota que desempenhava o papel de "namorada oficial". Na mesma época em que curtia as três mosqueteiras ele conheceu Anita Wood, que iria desempenhar este papel de junho de 1957 até a chegada de Priscilla a Memphis em 1962.
Anita era uma gatinha chocante, alta, de medidas perfeitas, cabelos loiros e curtos. Uma gracinha de 19 anos. A relação do casal não foi em nada diferente da que Elvis mantinha ao mesmo tempo com as três mosqueteiras. Em ambos os casos havia muita bolinação, mas nenhum sexo. Porém, mesmo não sendo pressionada a submeter-se a Elvis sexualmente, Anita não podia dizer a ninguém que ele era seu namorado, embora todo mundo soubesse, ordens do coronel Parker.
Nesta época Elvis começou a formar a "Máfia de Memphis', o grupinho de amigos do cantor que iria colocar Hollywood de cabelos em pé, pelo número de festas que iria promover na capital dos sonhos. Eles ficaram conhecidos como o grupo que realizou o maior número de festas da história da capital do cinema. A maioria delas seriam realizadas nas mansões de Elvis na Califórnia e sua principal característica era o número desproporcional de mulheres em relação ao número de homens presentes. Geralmente havia 50 mulheres para no máximo sete homens, incluindo Elvis. O rei do rock começava a entrar assim em um perigoso círculo vicioso de sexo, drogas e rock & roll, que acabou virando o lema de toda uma geração dos anos 50 e 60.
Artigo escrito por Lu Gomes

Elvis Presley Home Page (Pablo Aluísio) - reportagens e artigos - abril de 2002