Acompanhe a seguir, entrevista com Harold Bloom
(ao lado) publicada na revista Veja dia 31 de janeiro de 2001.
Leio, logo existo
O mais polêmico dos críticos literários diz por que ainda se deve ler num mundo
dominado pelas imagens (Flávio Moura)
Não falta
quem considere o americano Harold Bloom, de 70 anos, o mais importante crítico
literário em atividade. Autor de mais de vinte livros sobre literatura e
professor há mais de quarenta anos – leciona nas universidades Yale e de Nova
York – ele é, no mínimo, uma figura polêmica. Sem pruridos em atacar seus pares
acadêmicos, ele não se cansa de chamá-los de ressentidos e os acusa de estarem
matando a literatura com a mania do politicamente correto. Ferrenho defensor
dos “valores estéticos”, Bloom autoproclamou-se guardião solitário da cultura
clássica e exalta os grandes nomes da literatura mundial com uma energia
admirável. No ambicioso O cânone ocidental, livro lançado há sete anos, ele
mapeia o que há de fundamental na história da literatura do Ocidente. Com o
controverso Shakespeare – A invenção do humano, defende a tese de que seríamos
criaturas diferentes se o famoso dramaturgo inglês não houvesse existido. Agora
Bloom quer ensinar a ler. É isso que faz no livro Como e Por que Ler (Editora
Objetiva), que chega às livrarias do país nesta semana. De sua casa em New
Haven, nos Estados Unidos, ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA:
Veja – Por que ler?
Bloom – A informação está cada vez mais ao nosso alcance. Mas a sabedoria, que
é o tipo mais precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrada nos grandes
autores da literatura. Esse é o primeiro motivo por que devemos ler. O segundo
motivo é que todo bom pensamento, como já diziam os filósofos e os psicólogos,
depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar - e são os livros que
ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural. Finalmente, e este
motivo está relacionado ao anterior, eu diria que uma democracia depende de
pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler.
Veja – Como ler?
Bloom – Tente ler sem considerações políticas, compromissos ideológicos ou
preconceitos. Para o livro que estou escrevendo agora, por exemplo, estou
relendo a Divina Comédia, de Dante Alighieri, em italiano. Há certos moralismos
em Dante que me irritam.Além disso, há seu compromisso com a visão de mundo
católica, e eu não confio em nenhum tipo de religião institucionalizada. Mas,
ao lê-lo, procuro me manter aberto. O frescor da língua e a força das metáforas
me obrigam a deixar todas as minhas opiniões de lado e me render à força
daquele texto. É assim que se deve ler.
Veja – O livro Como e Por que Ler foi muito criticado na época do lançamento.
Houve que dissesse que o senhor simplificou demais a questão, outros o acusaram
de posar de guardião da “alta cultura”. Como responderia a seus críticos?
Bloom – A maior parte das críticas negativas é proveniente de acadêmicos
anglo-americanos. Somos inimigos mortais. Há 25 anos venho denunciando esse
pessoal. O ensino de literatura no mundo de língua inglesa foi para o inferno.
É dominado por ideólogos, por integrantes daquilo que eu chamo de “escola do
ressentimento”. É gente comprometida com assunto extraliterários, com mania de
desconstruir e relativizar tudo. Eles não se importam com o valor estético. É o
politicamente correto que interessa a eles. Por isso, não estou nem aí, nem
leio as críticas. Se você tenta ser independente, se não adere a nenhum tipo de
moda, se fala honestamente e emite opiniões próprias, se recusa ideologias,
inevitavelmente será atacado. É como diz o escritor americano Ralph Waldo
Emerson, um dos meus heróis: “O mundo tenta castigar os que não se conformam”.
Minha maneira de responder aos críticos é escrevendo outros livros.
Veja – Qual o papel da literatura num mundo dominado pelas mídias visuais?
Bloom – Há grandes autores, como William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Jane
Austen e Chalés Dickens, que conseguem sobreviver nas adaptações para mídias
visuais. Mas há outros, como Dante Alighieri, John Milton, James Joyce, Marcel
Proust ou Franz Kafka, cujo futuro é completamente incerto. O grande autor
português José Saramago é outro por quem eu temo. Somos amigos, escrevi um
ensaio sobre o magnífico O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Ele é dos melhores
romancistas que conheço, não deixa nada a dever aos grandes nomes da
literatura. Mas, sinceramente, acho que num mundo dominado pela imagem livros
difíceis como o dele poderão deixar de ser lidos em vinte ou trinta anos. As
crianças estão crescendo cercadas por telas. A longo prazo, não sei qual pode
ser o efeito disso sobre a capacidade das pessoas de ler para buscar não apenas
informação, mas sabedoria e autoconhecimento.
Veja – Livros como os da série Harry Potter não são uma boa porta de entrada, um
meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura?
Bloom – Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de
ler Harry Potter? Eu acho que não. E um dos piores escritores da América,
Stephen King (ele é terrível, não consigo ler nem dois parágrafos do que
escreve), confirmou minhas suspeitas numa resenha que escreveu para o jornal
The New York Times. Segundo ele, as crianças que aos 12 anos estão lendo Potter
aos 16 estarão prontas para ler os seus livros. Preciso dizer mais? Os Estados
Unidos são um país em que a televisão, o cinema, os videogames, os computadores
e Stephen King destruíram a leitura.
Veja – Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?
Bloom – Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. Ninguém,
por exemplo, “caminha” no livro. Os personagens “vão esticar as pernas”, o que
é obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim, escrito com frases
desgastadas, de segunda mão. Escrevi uma resenha para o Wall Street Journal
falando mal de Harry Potter. A polêmica foi imediata. Foram enviadas mais de
400 cartas me xingando de todos os nomes. A defesa de livros ruins como esses,
que vem de todos os lados – dos pais, das crianças, da mídia -, é muito
inquietante e nem um pouco saudável.
Veja – Em seu livro anterior, Shakespeare – A Invenção do Humano, o senhor
afirma que o dramaturgo William Shakespeare “inventou o humano”. Poderia
explicar um pouco melhor essa idéia?
Bloom – Grande parte do que hoje consideramos uma personalidade humana foi
invenção de Shakespeare. Há hábitos que desenvolvemos, como o de para de
repente e escutar a nós mesmos, que só passaram a existir depois dele. Preste
atenção na literatura anterior, em forma de verso, prosa ou teatro. Você
simplesmente não encontra monólogos interiores como os que vemos em
Shakespeare. Aquilo que gostamos de chamar de nossas “emoções” surgiram pela
primeira vez como pensamentos de Shakespeare. Nele, mais do que em qualquer
outro escritor, parece que os personagens não foram inventados. É como se eles
existissem desde sempre. Assistir a uma peça de Shakespeare na China, em termos
de identificação do público com o que se passa no palco, não é muito diferente
de assistir em Nova Iorque ou Londres.
Veja – No século XX, tornaram-se muito comuns as leituras psicanalíticas de
Shakespeare. O próprio Freud escreveu a respeito da peça Hamlet. Mas o senhor
costuma fazer pouco dessas interpretações. Por quê?
Bloom – O romântico Percy Shelley costumava dizer que o demônio deve muito ao
poeta John Milton, já que este o retratou de maneira magnífica no livro Paraíso
Perdido. Pensaríamos no demônio de maneira diferente se não fosse Milton. Acho
que o mesmo ocorre com Freud: ele deve tudo a Shakespeare. Freud é
essencialmente Shakespeare em forma de prosa. Se você ler atentamente o que ele
fala sobre complexo de Édipo, verá que no fundo não está falando de Édipo, mas
de Hamlet. Por isso defendo uma leitura shakespereana de Freud, e não uma
leitura freudiana de Shakespeare. Não podemos negar a Freud, contudo, um lugar
entre as quatro ou cinco maiores figuras intelectuais do século XX. E também
entre os maiores escritores. Ele era um ótimo ensaísta. Foi o Montaigne de
nossa era.
Veja – Num de seus livros mais famosos, A Angústia da Influência, de 1973, o
senhor dizia que, para uma geração de autores se constituir, tinha de “matar” a
anterior. Isso ainda vale para os autores contemporâneos?
Bloom – Sim. A menos, é claro, que a literatura passe por uma mudança radical,
o que por enquanto acho muito difícil. Essa mania atual de ciberliteratura,
ciberpoema, jogos verbais etc., tudo isso são erupções tardias do que os
dadaístas e surrealistas fizeram, aliás muito melhor, 100 anos atrás. Saramago,
por exemplo, parece estar sempre envolvido numa complexa competição com Eça de
Queiros e com Fernando Pessoa, os dois grandes autores portugueses que o
precederam. Ainda acho que a literatura caminha por meio de um confronto direto
com a produção da geração anterior. Isso não vai mudar. Arte é competição.
Veja – Crítica também?
Bloom – Acho que toda crítica equilibrada, mais do que competitiva, tem de ser
pessoal e excêntrica. É o que Oscar Wilde, outro de meus heróis, costumava
dizer: a crítica é a única forma civilizada de autobiografia. Não tenho pretensões
de fazer crítica científica. Gostaria muito que meus livros, lidos em conjunto,
fossem considerados minha autobiografia.
Veja – Em 1979, o senhor publicou The Flight to Lúcifer – A Gnostic Fantasy
(Vôo para Lúcifer – Uma Fantasia Gnóstica), sua única tentativa de escrever
ficção. Por que não voltou a ela?
Bloom – Foi um erro. Não devia ter publicado esse livro. Você o conhece? É uma
ficção científica na qual o protagonista, uma espécie de Prometeu, vai em busca
de seu destino num planeta chamado Lúcifer. Reli a obra numa noite dessas e vi
que ela era realmente horrível, fria, sem vida. Os personagens eram todos
sobrecarregados. Era pesado, não tinha nada da “vida local” que uma narrativa
de verdade deve ter. E aí percebi que eu não era um contador de história, que
não podia criar bons personagens. Gostaria que esse livro fosse esquecido de
vez. Todo mundo tem a chance de errar uma vez. Essa foi a minha.
Veja – Temas religiosos, como a cabala e o gnosticismo, aprecem também em seus
livros de ensaios. Onde termina o crítico e começa o místico?
Bloom – Cresci como judeu ortodoxo, mas continuo achando, e isso já irritou
muita gente, que o judaísmo ortodoxo não é mais do que uma leitura equivocada
da Bíblia hebraica, feita há 1800 anos. Foi uma forma de adequar a religião à
realidade dos judeus que viviam sob ocupação romana. Hoje não vejo por que agir
da mesma forma que naquele tempo. Considero as tradições religiosas como
produto de uma época – e a criação do universo como uma grande separação, o criador
distanciando-se irremediavelmente de suas criaturas. Até imagino, para além do
sistema solar, algo parecido com um deus de verdade. Mas ele, ou ela,
certamente não pode nos ouvir. É como diz a máxima: se as preces do homem são
uma doença da vontade, então seus credos são uma doença do intelecto.
Veja – O enfoque literário na leitura da Bíblia é mais interessante do que o
religioso?
Bloom – Sem dúvida. O texto original do que hoje chamamos de Gênesis, Êxodo e
Números é trabalho de um narrador magnífico, certamente um dos maiores
contadores de história do mundo ocidental. Aliás, em O Livro de J, observo que
o autor desses textos foi uma mulher que viveu 3 000 anos atrás, na corte do
rei Salomão, um lugar de alta cultura, ceticismo e muita sofisticação psicológica.
Pense em figuras como José, Jacó e Jeová. São todos personagens maravilhosos. E
os efeitos poéticos do texto são extraordinários, comparáveis a Píndaro. Os
profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel também eram grandes escritores, assim como
os autores do Evangelho de Marcos e do Livro de Jô. A Bíblia é uma vasta
antologia da literatura de toda uma cultura.
Veja – E hoje, há algo que preste neste filão crescente de literatura religiosa
e new age?
Bloom – Não. Não temos um grande místico. Haveria espaço para um, sem dúvida, e
até clamo por isso em meu livro Presságios do Milênio, mas não há quem se
salve. Só lixo, em qualquer língua que conheço. É preciso deixar claro que nos
últimos trinta ou quarenta anos não surgiu nenhum autor religioso com alguma
força ou originalidade.
Veja – Como o senhor situaria a literatura brasileira em relação à literatura
mundial? Que nomes destacaria?
Bloom – Comecei a estudar português não faz muito tempo, e ainda não consegui
me familiarizar direito com a língua. Não posso dizer que conheço a produção
literária contemporânea do Brasil. Quanto aos autores mais antigos, como
Machado de Assis, só agora começam a aparecer boas versões de suas obras para o
inglês. Foi por isso, também, que não o incluí em O cânone Ocidental.
Veja – No fim desse livro, o senhor faz uma longa enumeração daqueles que
seriam os autores mais importantes do Ocidente, em todas as épocas. Qual o
sentido desse tipo de lista?
Bloom – Nenhum. Fiquei muito arrependido de incluir essa lista no livro. Ele
ficaria melhor sem ela. Fiz sob protesto, por insistência do meu editor e da
agente literária, que achavam que assim o livro venderia mais. Acho perniciosas
todas as listas de “melhores livros”. São baseadas em leituras apressadas, em
premissas equivocadas e sempre acabam deixando de lado algo importante.
Portanto, sou completamente contra listas. Inclusive a minha.