Góticos

 

 

Querida Solidão

Das trevas nasce a melancolia
Da alegria nasce a agonia
Do amor surge a dor
Da ilusão decepção
Você é minha querida solidão
Você é a luz em minhas trevas
Minha querida solidão

Da vida surge a morte
Do meu amor por você
Surge a rejeição
Surge minha solidão

Só vivo para sua vida alegrar
Queria ser para você
Tudo que se possa desejar
Não queria ser para você
Tudo que se possa rejeitar

Do amor surge a dor
Do sofrimento de minha alma
Do sofrimento de meu amor
Não posso ter mais calma
Não posso viver da dor
Não posso viver sem amor
Não posso viver da dor...

 Crianças

Crianças mortas
Não sentem o gosto do amor
Nem o sentido da vida
Apenas sentem a dor
De um dia viver em rejeição
De um dia viver em solidão

Aqui as paredes tem almas
Elas me apertam
Elas me rejeitam
Crianças mortas
Loucas por amor
Pálidas de pavor
Não sentem o gosto da vida
Nem do amor
Só sabem o gosto da rejeição
E ninguém por mim sente nenhuma afeição
Solidão, solidão...

Aqui todos choram
Aqui todos me rejeitam
Aqui todos amam

Crianças mortas
Abrem-se as portas das trevas!
Crianças mortas
Pálidas como o luar
Elas só podem chorar.

 Eu não sei

Príncipe escuro da morte
Com a faca da rejeição
Você abriu em meu peito um corte
E arrancou meu coração

Eu vivo em rejeição
Eu não mereço perdão
Mas onde eu errei?
Eu não sei

A onde os cegos temem andar?
O que de você devo esperar?
Eu não sei
Mas eu nunca errei

Eu sou perfeito como a tristeza
E eu mereço perdão
Eu mereço a morte
Na vida estou entregue a sorte

Eu vivo em rejeição
Você me negou até atenção
Eu mereço perdão
Eu sou perfeito como o nada
Eu vivo lamentando o que não aconteceu
Você até se esqueceu

Príncipe escuro da rejeição
Eu apodreço em solidão
Eu vivo sem coração
Eu não sei mais amar
E da vida não posso nada esperar

Eu não sei
Onde errei
E minha tristeza ofereço a você
Que a muito em faz sofrer.

A Cachoeira

Correm sinistramente as águas... (É que um grito,
Em fúria sufocado, ecoa nas florestas)
Vão rolando em cachães, perigosas e lestas,
A espaços embatendo em blocos de granito.

Rasgando-se através de ríspidas arestas,
Num ímpeto se atira o torvelinho aflito,
E, na pertubação da altura e do conflito,
Tomba, roda espumando em contorçães funestas.

Recurvando na queda o seu dorso de prata,
Aos dardejos do sol reluz a catarata,
Em pulverizaçães rutilantes envolta.

E, do fundo do abismo, a trovejar se escuta,
Galgando o precipício, em convulsões, revolta,
A orquestração brutal da Natureza em luta!

 A estrela Vespertina

Quando, no ocaso, o derradeiro alento
Do sol se esvai, em luto sepultado,
E a divina tristeza o firmamento
Invade, - a alma se entrega ao sonho alado...

Tentamos desvendar, nesse momento,
Ao ver da estrela o brilho imaculado,
Com as antenas sutis do sentimento
O segredo do espaço inalcançado.

Mas é um sonho falaz!... E os verdes ramos
De uma velha esperança amortalhamos:
A estrela envia o seu luzir aflito,

E, trêmula, parece-nos dizer
Que ela também não pode compreender
O mistério insondável do infinito...

 Místico anoitecer

Negras e tristes, vão-se as nuvens estirando
Em luto pelo céu, no instante funerário,
Salpicadas de sangue e ouro, que expira em seu calvário.

Solene e acolhedor, austeramente brando,
Assemelha-se a um templo o infinito cenário:
Vão se acendendo, a altura espiritualizando,
Serenas, de uma em uma, as velas do sacrário.

Tudo é silêncio e paz, tudo é recolhimento...
Fulge, envolta em mistério, a cruz imaculada,
Simbolizando a fé, no altar do firmamento.

É então que a lua surge, alva, pura... e parece
Que para receber aquela hóstia sagrada
Se concentra, devota, a Natureza em prece...

O vulcão

Eleva-se à distância a audácia de seu porte
E em torno a solidão o espreita, como escrava.
Sobem nuvens, do topo, onde a boca se cava;
Súbito, eis que um tremor abala o contraforte

E rasga o solo agreste em retorcido corte.
Rompe a erupção: Alçando a crista rubra e flava,
A cratera vomita a destruição e a morte!

E o que a Terra, brutal, nas convulsões estranhas
De um século gerou, - como um parto enorme,
A catástrofe arranca ao fundo das entranhas!

...E à noite, enquanto exausta a Natureza dorme,
sobre a desolação funérea das montanhas
parece a lua o aborto ensangüentado e informe!

 

 

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