O Caso de Iyengar e Kirti

 

Um Caso de Aparição do Tipo Espectador

 

por Erlendur Haraldsson

 

Journal of the Society for Psychical Research [Vol. 54, No. 806], Janeiro de 1987

 

Tradução: Bianca P. Vasques e André Luís N. Soares

 

Sumário

 

Um caso de aparição em crise [agente enfermo ou debilitado] é relatado onde uma médica seriamente doente tem uma alucinação visual e auditiva do avô de uma jovem colega, que está presente no leito dela. Na alucinação o senhor pede à médica para dizer à sua colega para ir até sua casa imediatamente. Quando a colega telefona para casa depois de insistentes pedidos da perceptiva, ela descobre que seu avô morreu inesperadamente alguns momentos antes. As declarações feitas por diversas pessoas envolvidas neste caso são descritas e discutidas.

 

Introdução

 

Desde a publicação de Phantasms of the Living (Gurney, Myers e Podmore 1886) casos de aparições em crise têm sido de interesse considerável para pesquisadores psíquicos por causa de sua possível relevância para a questão da sobrevivência (Stevenson 1982). Vários desses casos foram publicados na literatura da parapsicologia (Myers 1903, Rhine 1957, Tyrrell 1953) e o caso a ser apresentado aqui merece um relatório publicado em razão de algumas características incomuns e do número de testemunhas (quatro) que foram envolvidas. O caso chamou minha atenção quando eu estava conduzindo uma pesquisa de visões de leito de morte na Índia em 1972 junto com Dr. Karlis Osis.

 

Quando estava entrevistando os médicos no Hospital Irwin em Delhi, uma médica interna, Senhorita (agora Dra.) Suman Kirti (mais tarde conferencista no MLB Medical College em Jhansi, Uttar Pradesh) relatou-me o caso de uma aparição em crise que aconteceu em sua presença para sua professora, Dra. Bhanu Iyengar, conferencista no Deparmento de Patologia do Maulana Azad Medical College, Delhi, no qual o Hospital Irwin está vinculado. O caso aconteceu em março ou abril de 1968.

 

Eu entrevistei a Senhorita Kirti em 10 de novembro 1972 e a Dra. Iyengar umas duas semanas depois. Elas foram entrevistadas separadamente e concordaram nos detalhes essenciais do caso, que aconteceu quatro anos antes, e que impressionou-as profundamente. Durante uma segunda visita à Índia em 1973 eu entrevistei a mãe da Dra. Iyengar, Sra. T. Iyengar. Dr. Osis juntou-se a mim naquela entrevista. A mãe de Iyengar também esteve presente quando o caso aconteceu. A avó de Kirti, Sra. Sumitra Devi Mithal, que estava envolvida no caso, mudou-se então para Calcutta e não pôde ser localizada. Eu entrevistei a mãe de Kirti, Sra. S.Jain, em sua casa em Delhi em janeiro de 1976. Um esboço deste artigo foi remetido para Iyengar e Kirti em 1980 que acrescentaram e mudaram poucas coisas que foram incorporadas ao artigo.

 

Declarações dos Informantes

 

Declarações Feitas por Kirti

 

Eu vou primeiro registrar o que a Srta. Kirti me relatou. No momento em que o caso aconteceu a Dra. Iyengar, professora e amiga pessoal de Kirti, estava hospitalizada em uma enfermaria (hospital particular) em Nova Delhi por causa de complicações surgidas depois do nascimento de seu filho (infecção severa no parto). Até ao meio-dia daquele dia Kirti trabalhou no Hospital de Irwin mas teve a tarde livre. Em vez de ir para casa como de costume, ela foi à enfermaria para passar a tarde à cabeceira de sua amiga Iyengar. A mãe de Iyengar, Sra. T. Iyengar, também estava lá. Dra. Iyengar estava muito doente, entretanto não estava em perigo de vida, mas com febre considerável; então depois de cumprimentarem-se ambas sentaram-se em silêncio ao lado da cama dela.

 

Depois de algum tempo, Iyengar de súbito virou-se bruscamente para Kirti e pediu para ela ir para casa de seus avós. Kirti morou por muito tempo com seus avós, desde que seus pais, que estavam no serviço diplomático, foram morar na África naquele tempo. Kirti respondeu que veio passar a tarde inteira com ela e se recusou a ir. Houve desentendimentos entre elas, e Iyengar continuou insistindo que Kirti deveria ir para casa ou pelo menos telefonar pra lá. Para acalmar Iyengar, umas 4:30 Kirti finalmente concordou em dar um telefonema para sua casa. Seu tio, Anand Krishna, que estava de visita, veio ao telefone e disse a ela que seu avô falecera por volta das 4 horas. Seu avô parecia ter boa saúde. Sua morte era completamente inesperada e Kirti esperarva que ele viesse pegá-la no final daquela tarde.

 

Iyengar então descreveu para as duas mulheres o seguinte incidente: enquanto ela estava deitada na cama em silêncio e sonolenta, ela de repente viu o avô de Kirti em pé na extremidade de sua cama. (Ela só viu o avô de Kirti duas ou três vezes antes, quando esbarrou com os dois a caminho do trabalho, e em uma ocasião quando ele e Kirti fizeram uma breve visita para Iyengar). Ele pareceu agitado e disse para ela: "Você não mandaria minha criança [Kirti] pra casa?". Por isso Iyengar entendeu Kirti, que morava com seus avós.

 

A primeira reação de Iyengar era que ela estava alucinanda devido a sua febre alta. Ela então rolou para o outro lado de sua cama e esperou a alucinação desaparecer. Mas o senhor apareceu novamente na frente dela e indicou com seu semblante ávido que ela devia mandar Kirti para casa. Deste modo o avô apareceu duas ou três vezes. Impressionada por esta aparição Iyengar decidiu pedir a Kirti para ir para casa. Em minhas notas na minha entrevista em 1972 com Kirti eu li que Iyengar imediatamente disse a ela sobre sua alucinação. Em resposta a minha carta em setembro de 1980 quando eu enviei a ela um esboço deste artigo, Kirti declarou, entretanto, que até um tempo depois do acontecido não sabia das visões de Iyengar, que então foram relatadas a ela pela mãe de Iyengar.

 

Declarações Feitas Por Iyengar

 

Quando eu entrevistei Iyengar ela me disse que ela tinha sido hospitalizada por 21 dias no fim de março até início de abril de 1968. Depois de dar a luz a um bebê ela desenvolveu uma infecção com febre alta e se ficou seriamente doente. Após ocorrido o incidente, Kirti permanecia no quarto do hospital de Iyengar. Ela estava de folga aquele sábado à tarde e ficou com Iyengar por causa de sua náusea. Iyengar estava deitada sonolenta em sua cama quando ela de repente viu o avô de Kirti no pé de sua cama. Ele estava dizendo: ‘Você não mandaria minha criança [Kirti] para casa?’ [suplicou]. A princípio Iyengar não disse a Kirti sobre isso, mas simplesmente a persuadiu a ir para casa de seu avô. Elas se desentenderam um pouco sobre isso, então Iyengar disse: ‘pelo menos você deve telefonar’. Isso Kirti fez mas quando ela voltou ela nos disse que seu avô tinha acabado de falecer, e então ela logo foi para casa. Seu avô tinha morrido aproximadamente há 5 ou 10 minutos. Ou na hora que Iyengar o viu.

 

Logo quando Kirti visitou Iyengar perguntou-a por que ela tinha ficado tão irritada e insistente para ela [Kirti] ir para casa. Então Iyengar disse a ela sobre sua experiência em ver seu avô.

 

O avô de Kirti realmente apareceu duas ou três vezes. Quando ele veio a primeira vez, Iyengar rolou para o outro lado da cama, mas ele também apareceu lá. Iyengar perguntou-se se estava sonhando ou tendo uma alucinação, constatou então que não era pois o viu pela terceira vez, foi quando pediu a Kirti para ir. O avô parecia muito real. A princípio Iyengar pensou que ele estava realmente lá, mas quando ela notou que Kirti e sua mãe não o viram, ela pensou que estava imaginando sua presença. Ele estava vestindo suas roupas e óculos habituais. Iyengar o viu só alguns segundos por vez. Por isso ela pensou que não era real.

 

Iyengar relatou que ela só viu o avô uma vez antes, quando ele veio pegar Kirti na casa de Iyengar. Quando o caso aconteceu Kirti era uma estudante do segundo ano de medicina.  Iyengar e Kirti só conheceram-se no hospital e se tornaram amigas íntimas. O avô de Kirti costumava ir ao hospital pegar Kirti depois do trabalho e levá-la para casa. Iyengar esperava que o avô de Kirti viesse pegá-la mais tarde na enfermaria no dia do incidente.

 

Essa foi a primeira e única vez que Iyengar teve experiência alucinatória ou qualquer experiência psíquica. Duas semanas depois deste incidente ela recuperou-se de sua enfermidade.

 

Em 1980 eu também remeti um esboço deste artigo para Dra. Iyengar, que respondeu que meu relatório sobre o incidente era correto até onde ela podia lembrar. Em resposta a uma pergunta ela escreveu que ela tinha dito a sua mãe sobre sua experiência na noite do ocorrido.

 

Declarações Feitas Por Sra. T. Iyengar

 

Sra. T. Iyengar, mãe da Dra. Iyengar, que esteve sentada com Kirti ao lado da cama de Iyengar, lembrou bem do incidente, mas não teve nenhum detalhe adicional para acrescentar.

 

Outra Evidência Pertinente

 

Como mencionado acima, a avó de Kirti, Sr. Sumitra Devi Mithal, mudou-se de Delhi quando eu quis encontrá-la durante uma visita à Índia em 1976. Todavia, consegui encontrar a mãe de Kirti, Sra. S.Jain, que me disse que Kirti escreveu para seus pais logo depois da morte de seu avô e descreveu sua experiência memorável ao lado da cama de Iyengar. Esta carta, infelizmente, não existe mais. Além disso, a avó de Kirti disse à Sra. Jain, que Kirti telefonou para ela logo depois que seu marido faleceu.

 

Discussão

 

Todos as três pessoas presentes testemunharam que a morte de avô coincidiu com a eloqüência de Iyengar em persuadir Kirti a ir para casa. O fato de Iyengar não revelar para ninguém sua experiência de aparição antes que Kirti soubesse da morte de seu avô, é o elo mais fraco no caso. Esta debilidade é mitigada pelo comportamento de Iyengar, sua mudança súbita de sonolência silenciosa para excitação e “irritação”, como Iyengar chamou isso, quando ela persuadiu Kirti para que fosse para casa, e – quando Kirti recusou – sua insistência para ela dar um telefonema para os avós dela.

 

Este caso cai na categoria rara de casos então chamados casos de espectadores (por exemplo veja Gurney et al. 1886, Vol. 2. pp. 61, 162-164, 256 e Rhine 1957 pág. 39). A característica excelente de tais casos é que a pessoa para quem o agente aparece, ou com quem o agente principalmente quer se comunicar, não vê a aparição mas um mero espectador o faz.

 

Em vez de entrar em uma discussão longa deste interessante caso – e assumindo que o caso é basicamente autêntico – eu somente assinalá-lo três características bastante incomuns. Primeiro, a experiência de aparição aconteceu para alguém que apenas conhecia o aparecido. Segundo, a sensitiva, Iyengar, pareceu agir como uma intermediária, até de bastante má vontade, entre o aparecido e Kirti. Ele queria que ela fosse para casa, nós podemos deduzir, para ajudar e consolar sua esposa. Terceiro, o fato em que o avô apareceu repetidamente (duas ou três vezes) até Iyengar acatar seus desejos, parece bastante difícil de explicar sem assumir uma ação propositada pelo aparecido.

 

Se nós pudéssemos tentar assumir o papel ativo do aparecido, poderia deduzir-se que ele usou Iyengar, que estava em um sonolento estado de febre alta, a fim de trazer sua mensagem para Kirti, talvez porque Iyengar estivesse em um estado mental que poderia facilitar a ocorrência de uma alucinação. Sendo isto é um caso verdadeiro, seria mais fácil produzir uma experiência de aparição em Iyengar que em Kirti. Sendo isto possível, este caso nos força a considerar a importância da atividade do agente em pelo menos um pouco de casos de aparições em crise.

 

Departamento da Universidade de Psicologia da Islândia Reykjavik, Islândia

 

Referências

 

Guerney, E., Myers, F. W. H., and Podmore, F. Phantasms of the Living. London: Trubner, 1886.

 

Myers, F. W. H. Human personality and its survival of bodily death. (2 vols.) London: Longmans, Green, 1903.

 

Rhine, L. E. Hallucinatory psi experiences. II. The initative of the percipient in hallucinations of the living, the dying, and the dead. JP, 1957, 21, 13-46.

 

Stevenson, I. The contribution of apparitions to the evidence for survival. JASPR, 1982, 76, 341-358.

 

Tyrrell, G. N. M. Apparitions. London: The Society for Psychical Research 1953. (Primeiramente publicado em 1943).

 

Estou em débito para com os Drs. Ian Stevenson e Karlis Osis que leram uma versão anterior deste artigo e fizeram alguns comentários úteis.

1