>> O Globo, Boa Viagem, 26 de maio de 2005
Imagens gentilmente tratadas por Sandro Machado

>> Revista Vivo, chamada de capa e matéria de cinco páginas, maio de 2005

>> Jornal Extra, chamada de capa, capa do suplemento Motor Extra, 18 de maio de 2005

>> Revista V, chamada de capa e matéria de seis páginas, abril de 2005

>> O Globo, Segundo Caderno, 18 de março de 2005

>> Revista Ocas, reportagem de capa, janeiro de 2005
>> Jornal O Dia, O Dia D, Salto Agulha, dia 4 de janeiro de 2005
>> Jornal do Brasil, Caderno B, Hildegard Angel, dia 18 de outubro de 2004
>> Jornal O Dia, O Dia D, Salto Agulha, dia 15 de novembro de 2004
>> Jornal Empregos & Oportunidades, chamada de capa, 10 a 16 de dezembro de 2004
>> Jornal Empregos & Oportunidades, Tempo Livre, 10 a 16 de dezembro de 2004
O possante dos anos dourados
Gente com menos de 30 redescobre o fusquinha,
amado desde a década de 60
Martina Rupp guarda até hoje o anúncio amarelado dos classificados; Rubens Mayaro foi buscar o seu de trem, em Edson Passos, Baixada Fluminense; Mauro Fausch-Bühler herdou o da avó; e Santiago Harte se apaixonou por suas curvas aerodinâmicas. Nossos personagens não passam dos 30 anos de idade, e são todos proprietários de simpáticos Fuscas. O carro de origem alemã foi montado pela primeira vez no Brasil em 1959, e se tornou um emblema dos anos dourados de JK. O próprio presidente desfilou orgulhosamente a bordo de um fusquinha, que se tornaria o carro mais vendido e amado do país e ano passado teve fabricada a sua última unidade, no México. Dessa safra saíram apenas 300 exemplares para o mundo inteiro, e custavam cerca de R$ 40 mil.
O carro saiu de linha, mas não perdeu a majestade. Ao contrário, voltou a fazer a cabeça da juventude, especialmente, dos modernos cariocas. São jovens que preferem dispor de algo em torno de R$ 2 mil a pedir um carrão zero ao papai. Alguns, movidos pelo status de mito do carrinho; outros porque preferem pagar o preço da independência; e uns porque se sentem mais seguros a bordo de um possante de pouco valor de mercado ao parar no sinal.
Assim, o velho e bom Fusca desfila com elegância na Avenida Atlântica, nas ladeiras de Santa Teresa, nas pistas de velocidade do Aterro do Flamengo e mesmo na noitada do Rio. A assistente de câmera Martina Rupp, 24 anos, não se incomoda nem um pouco em desembarcar de seu Fusca vermelho ano 1978 no Baixo Gávea ou na Lapa. No máximo, troca o modelito pelo bicolor amarelo e preto ano 1972, comprado pelos classificados e recém-pintado.
Há três anos, depois de dirigir um modelo cenográfico conversível no set do filme Três Marias, Martina decidiu reformar o Fusca vermelho da avó, parado por quase oito anos. Tomou gosto, e cuida dele como se fosse um Jaguar de estimação. O tal carro está equipado com uma capa de oncinha no volante, ganhou aro novo para os faróis, um ventilador e retífica do motor. E mais: a alavanca de câmbio ostenta aquela bolota de resina com a imagem de Iemanjá, que pisca quando se pisa no freio.
Ela e os amigos fusqueiros Santiago Harte, 26 anos, fotógrafo, e Pedro Sá, 26, técnico de som, fizeram a festa quando visitaram o corredor de oficinas no bairro de São Cristóvão, na semana passada.
- A gente parecia três mulheres num shopping: ''Olha isso''! Dava vontade de levar tudo - lembra a cineasta.
Santiago tem um modelo bicolor vermelho e verde, ano 1969, 1,3 mil cilindradas; e Pedro, um vermelho, herança do amigo. O presente veio com um furo no assoalho, por onde se via o asfalto da pista. O carango ganhou um trato e conseguiu rodar mil quilômetros, antes de bater o motor em uma viagem de volta de Milho Verde, no Norte de Minas Gerais. Ele admite que devia ter maneirado: pisava no acelerador a 130 km/h.
Quem ama os Fuscas segue o manual de instruções. Para ligar o carro, por exemplo, deve-se girar a chave, puxar o afogador e dar umas aceleradas até o possante esquentar. Enguiçar é de lei. Mas nada que uma empurradinha não resolva.
O carro verde-claro do artista plástico Mauro Fausch-Bühler, 26 anos, deu vexame justo na hora de ser fotografado para esta reportagem. E foi o lanterninha de um percurso do Posto 6 ao Leme. Mas o dono, orgulhoso do estofado branco, garante que no último mês cansou de cruzar a Ponte Rio-Niterói sem fazer pit stop.
Do mesmo não pode se gabar o designer Rubens Mayaro, 24 anos. Ele ficou a pé no Centro numa tarde de sábado. Numa manobra para estacionar seu Fusca amarelo na Rua Uruguaiana, a borracha da direção arrebentou. O dono bateu muita perna antes de resolver o problema. Mas geralmente as dores-de-cabeça não saem caro:
- Troquei o jogo de pastilhas de freio por R$ 52. Uma tia gastou R$ 500 no Palio dela - compara, cheio de moral.
O fotógrafo Santiago dá o seu certificado de garantia:
- Tendo gasolina e bateria, anda.
Até um simples adereço de pescoço, um cordãozinho mesmo, pode solucionar um problema mecânico. Foi essa a salvação de Martina no dia em que o cabo do acelerador do seu fusquinha vermelho arrebentou.
- O cara que veio me ajudar perguntou se eu tinha um cordão. Ele improvisou um novo cabo e rodei durante uma semana com o carro desse jeito - lembra Martina.
Para comprar seu bólido amarelo ano 1971, motor 1,5 mil cilindradas, Rubens foi de trem até Edson Passos, na Baixada. Chegou a pensar em pesquisar um pouco mais, mas preferiu voltar de Fusca a encarar os trilhos de volta. Fechou negócio em R$ 1,2 mil e enfrentou a Avenida Brasil no carrinho, que insistia em puxar a direção para o lado.
Quem tem o seu sabe que vale a pena ir aonde ele estiver. Além do prazer de bancar o descolado, o dono sentirá o gostinho da inveja dos amigos. Pois Fuscas acabam sendo o objeto de desejo da turma toda.
- Todo mundo gosta de pegar carona de fusquinha. Dá até briga, e não perde nem para carro importado - diz o estudante Rômulo Wehling, 18 anos.
Ele é um dos que disputam sua vaguinha no banco do carona do Fusca branco 1985, 1,6 mil cilindradas, equipado com vidro fumê, do estudante Rafael Szabo, 19.
Depois de ter reconquistado as ruas do Rio e de fazer bonito até em uma festa grã-fina do exclusivo Jardim Pernambuco, no Leblon - onde chegou pilotado por uma convidada lindinha - o Fusca vai voltar também às telas do cinema. Astro da Disney, na comédia Se meu Fusca falasse (Love bug, 1968), ele será protagonista de um documentário da trinca Martina, Santiago e Pedro. Eles estão planejando viajar 15 mil quilômetros pelos países do Mercosul rodando as aventuras de seus Fuscas.
Pelo visto, a estrada vai ser pequena para tanta história.
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