DONZELAS DE FINAS CANELAS
  (Trecho de uma das inúmeras viagens feitas pelo protagonista. Aqui o trem chega a uma estação que mais tarde ele conhecerá bem. Através desta página pode-se ter uma idéia do universo  mágico em que a obra se desenrola.)
  Um apito roufenho, triste e decrescente anunciava a presença da paupérrima estação de Tundaras - terra inóspita que o caixeiro tão bem conheceria mais tarde por conta de um famoso elixir produzido sob os raios da lua-nova por uma não menos afamada índia velha, conhecida por madrinha Iapoty. Ou Iaconty,  ou ainda, Iandonty. Mas, isso, nem mesmo as gerações e gerações de impotentes beneficiados pela mistura podiam afirmar com absoluta certeza, uma vez que a anciã era dona de uma pronuncia inconciliável com qualquer ouvido humano e dona de um humor tão duvidoso que - conforme juravam de pés juntos e mãos postas - o último a perguntar pela terceira vez consecutiva recebeu o elixir errado e virou uma macaquinha sagüi logo ao primeiro gole. Pior: pariu um filhotinho, pobre dele, que acabrunhado exibia na testa um notório ponto de interrogação.
   Joaquim Píncaro Sobrinho, resguardado pelo vidro da única janela inteira naquele vagão das misérias, assistiu - com a sonolência típica de quem viaja há três dias sob mormaço, apitos melancólicos e sacolejos cruéis - o surgimento das paredes decrépitas a ladear com desleixo a plataforma, não menos corroída pela mão do tempo e vapor das locomotivas. Era aquilo o que chamavam de estação: as ruínas de uma guerra secular, travada entre a indolência e o descaso.
   Em uma das extremidades, um tanto destacada da paisagem árida e desolada, estava o que seria a casa do ferroviário-chefe. Ali, na sombra precária de um telhado arrombado, havia três cadeiras empalhadas ao modo das múmias egípcias e alguns vasos com plantas nativas desprovidas de folhas em cujos galhos esturricados penduravam-se chapéus. Uma dupla de caboclos magros de pele curtida e faces encovadas revezava-se na exaustiva tarefa de molhar as paredes e o telhado com latas d´água retiradas a um poço contíguo à plataforma. Quando um chegava carregando o recipiente, seu parceiro já estava a meio caminho do poço.
   De pé, junto ao espaldar de uma das cadeiras mumificadas, sob a sombra fuzilada da varanda estava um senhor obeso de braços cruzados e portando apenas uma parda toalha de banho ao redor da cintura. Espiava a plataforma com a plácida dignidade de almirante aposentado.
   Abaixo de sua distraída ternura, na parte central da plataforma, havia três pessoas: um casal às bulhas e empurrões e um homem desnutrido, trajando um antigo quepe de fanfarra e um surrado uniforme azul com galões dourados - opacos - costurados sobre as ombreiras do paletó, ainda mais arcaico que ele próprio. Era Eufrásio Trino, único funcionário que aceitou permanecer na companhia sem salário e por amor verdadeiro, depois que a linha foi considerada improdutiva e rebaixada de categoria...
Sinopses das Obras Lancinante Agonia
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