A ESTATUÁRIA MACONDE
 

Os estudos feitos sobre o povo Maconde abrangem uma bibliografia bastante sóbria.

O Professor Jorge Dias, tem uma obra notável sobre os macondes, que constitui sem dúvida , a melhor fonte para o seu estudo etnográfico.

Sabe-se que o povo Maconde deriva de um subgrupo dos bantos orientais, os macuas, caracterizados por terem estatura média, feitio tanto ou quanto indolente e pequeno sentimento guerreiro. Estes predicados existem em grau mais atenuado nos macondes. Em compensação, possuem qualidades de decidida vocação para os trabalhos minuciosos de feição artística.

Os Macondes em Moçambique fazem parte da Circunscrição que tem o seu nome, situada na região limitada ao Norte pela fronteira da nova Tanzânia, ao Sul pelo Rio Messalo, a Leste pelas circunscrições de Tungue, Mocimboa da Praia e Mucojo e a Oeste pelo Rio Lugenda. Tão vastas terras possuem grandes e densas matas, que constituem natural proteção e contribuem para o isolamento deste povo.

Toda a zona onde habita forma um reduto que logo se evidencia para todo aquele que, viajando de avião do Sul para o norte, se acerca da extensa e vasta planície que forma a mesa do planalto. As suas povoações, os “Changos” distinguem-se das dos outros povos nativos pela disposição regular das palhotas, que ocupam vasta superfície circular, limpa de vegetação.

Vistas do alto são clareiras arejadas que se parecem com medalhões, circundados por contas, representadas pelas palhotas.

Os macondes não recebem facilmente o convívio de outros povos, mesmo dos vizinhos Macuas, de que evitam toda a sorte de cruzamentos, considerando proscrito e desprezível todo aquele que o faça.

A região planáltica em que vivem, é muito pouco acessível e está naturalmente defendida por abundante vegetação.

Por isso nunca estiveram sujeitos às invasões que todos os outros povos de Moçambique suportaram.

Tal circunstância criou nos Macondes a psicologia de invulneráveis. Os próprios Alemães, quando da Grande guerra em 1917, ao invadir o Niassa vindos do Rovuma, contornaram o Planalto, sem com eles contactar.

Data de 1913, o conhecimento e aproximação dos Portugueses com os Macondes mas só na parte Leste dos contrafortes do Planalto. D.José de Serpa Pimentel e o Capitão Costa Campos a custo os subjugaram. Mais tarde, Neutel de Abreu, conseguiu entrar no Planalto, mas para os submeter teve de usar de grande tenacidade e energia.

Deve ser posta por isso, de lado, a idéia de que se trata de gente submissa. Quem convive com o maconde, acha-o de certo modo altivo, detentor de forte e definida personalidade.

Mas o que mais impressiona são as suas qualidades artísticas. As suas obras, nomeadamente de escultura em madeira, ébano ou pau Preto, surpreendem vivamente todos, mesmo os menos entusiastas.

Trabalham com instrumentos primitivos. Manejam-nos com rapidez e precisão. Os espécimes produzidos são de inegável valor artístico. Só por falta de sensibilidade ou de educação de alguns europeus a sua arte não tem merecido a compreensão devida. Há mesmo, infelizmente, pessoas que se julgam conhecedoras e não entendem, nem apreciam esta arte. O fato em toda a parte se verifica, freqüentemente. O desdém de ontem e de hoje por certas obras dos mais celebrados gênios artísticos é um fato ainda corrente, o que só pode realmente atribuir-se a menor capacidade de percepção. Para estes casos só uma conveniente reeducação permitirá aperceber a existência do admirável mundo, que é a arte, nas suas variadas e mais expressivas modalidades.

São consideradas como das mais valiosas de toda a África. Revelam, como principal característica, uma sensibilidade humanística impressionante.

Todos os traços fisionómicos são tratados com pormenor, o que permite avaliar das extraordinárias emotivações que assistem ao artista.

Cada figura humana é facilmente identificável deste modo, permitindo distinguir a tribo ou a família a que pertence, a crença que adota, os aspectos de feiticismo que aceita, os costumes que a caracterizam, etc.

As deformações provocadas pelas incisões, a profundidade, o desenho, etc, das tatuagens são outros importantes elementos de identificação.

A mulher é representada nas esculturas macondes com denodado carinho. Também a composição dos penteados e das cabeleiras é objeto de desvelo e atenção particulares.

Mas é o caráter destacadamente humano que mais impressiona no exame do pormenor das esculturas. O estudioso encontra nelas grande número de elementos subsidiários para os seus trabalhos de etnografia. Outra característica é o equilíbrio nas proporções. As figuras humanas são as que fornecem os temas preferidos para os seus modelos.

Os animais são, na arte maconde, focados em naturais e surpreendentes atitudes.As expressões que, por exemplo, caracterizam a ferocidade do animal da selva ou a docilidade do animal doméstico, patenteiam-se ao mais rápido exame. Outros pormenores, que são do maior interesse, exigem observação atenta para os identificar.
O trabalho de talha é executado no mesmo bloco de madeira, para que o artista terá necessariamente de prever o conjunto e o pormenor da figura a apresentar.

A realidade e a fantasia dão-se as mãos, sem diminuição de nenhum dos seus valores. Não fogem às dificuldades procurando representar a vida que o movimento imprime a todas as suas figuras.

Mais do que decorativos, os objetos de arte criados pelos macondes são uma assinatura de personalidade da sua captação sensível e humana.

A influência dos europeus tem sido algumas vezes nefasta quando pretendem que o artista imite motivos destituídos de interesse, ou modelos, sem qualquer justificação meritória. Os assuntos religiosos, em geral, são exceção a esta regra, dado que contêm em si temas de sensibilidade que o espírito maconde parece entender perfeitamente.

A estatuária maconde de figuras humanas é classificada, segundo Felisberto Ferreirinha, numa palestra cultural que realizou em 1949 em Lourenço Marques, em quatro grandes grupos. Os dois primeiros incluem figuras humanas com incisões; os dois últimos, sem incisões.

No primeiro há três subdivisões. De comum entre estas, as incisões, que abrangem a fronte e as faces, em linhas quebradas, do maxilar inferior ao nariz e de todo o maxilar superior, das orelhas ao queixo. As diferenças entre os três citados são respectivamente: a deformação do lábio superior – chamada “Pelele” ( pelele ou ndona, segundo o etnógrafo Thomson), que contém um disco de madeira que se aperta numa espécie de botoeira rasgada no lábio superior; a deformação na asa esquerda do nariz; e a não existência de deformações.

No segundo grande grupo( com incisões) temos três subdivisões entre as quais há, de comum, pequenos toques sobre os temporais; as diferenças são respectivamente: a deformação do lábio superior –“pelele”, a deformação na asa esquerda do nariz e a não existência de deformações.

Nos dois últimos grandes grupos, isto é, nos que abrangem os aspectos sem incisões, temos: no primeiro grande grupo, dois subgrupos em que há de comum as deformações, e a diferencia-los, a modificação do lábio superior ou da asa esquerda do nariz.

Finalmente no ultimo grande grupo, não há incisões , nem deformações.

Os entendidos afirmam que a arte maconde não tem que recear confronto com outras similares: nada tem a aprender, mas a ensinar.

Pergunta-se: qual a origem desta arte? Provirá da arte egípcia? A hipótese é plausível.

A influência devia ter-se iniciado com as caravanas egípcias, que demandavam o Sul do Continente africano.

Quase todos os povos Bantos, de que o Maconde, como dissemos, provém, beneficiaram da cultura artística do Egipto. Sabe-se, com efeito, que, embora sem atingir a sensibilidade e o aperfeiçoamento técnico-artístico dos macondes e as características próprias que estes imprimiram à estatuária, outros povos houve que adquiriram igualmente como aquele, qualidades de sensibilidade artística.

Mencionaremos, a título de exemplo, a arte estatuária dos nativos de Moma, de Montepuez, de Mongincual, de Unango, etc, que também apresenta objetos de adorno, como colares, pulseiras, carteiras e tapeçarias, utensílios domésticos, armas, etc.

A Harmonia dos motivos ornamentais é completa, embora traduzindo temas ingênuos.

Nada deve, como dissemos, às decorações do típico europeu. Também em manifestações de origem cultural ressalta o seu poder imaginativo, a originalidade e a beleza dos seus contos e lendas, etc. A argúcia, a dissimulação, o heroísmo, o ridículo, a moral, etc, têm aqui expressões quase sublimes.
Gorongosa -  Interior da sala de recepção dos visitantes. Na montra numerosos objetos de arte nativa.

Não se pode julgar do valor da estatuária maconde pelos numerosos objetos que são vendidos ao turista, feitos em série, e que são a própria negação da arte.

Esta arte não pode ser avaliada por esses espécimes desgraciosos que não resultaram do verdadeiro espírito do povo do Planalto.

Para uma justa apreciação das qualidades dos artífices e das obras não podem ser considerados os valores menos representativos.

Generalizar certa opinião, sempre menos favorável pelo resultado de observações de casos imprecisos é correr o risco de julgar precipitada e injustamente.
A interpretação terá de incidir nos trabalhos honestos, não influenciados pelo espírito de lucro, em que o número de horas que é necessário despender para os realizar não é sequer considerado.

IRONIA

A arte é sempre uma presença do espírito

A MULHER SEGUNDO A IDADE

Conjunto precioso representando seis mulheres macondes de idades diferentes. As esculturas são talhadas em pau preto e colocadas sobre uma base em pau-rosa, formando um contraste de cor deveras interessante. O motivo também é digno de atenção no seu significado filosófico, sexual e artístico. A originalidade do tema corresponde a certa evolução social de que a influência européia não parece estranha.

VALORES PLÀSTICOS

A escultura é de todas as artes uma das mais ricas de expressividade

SEXUALIDADE

Tem algo de estranha sexualidade, embora discreta, esta escultura, cujos valores de pormenor parecem apagar-se para um maior realce do conjunto. De fato derivam as expressões menos cuidadas do rosto, da cintura, das mãos e dos pés. Há no entanto particularidades de espírito escultórico, entre as quais avultam a sensibilidade e observação apreciativa, respeitante aos dotes naturais inerentes à mulher.

RESPEITO DA MULHER

O merecimento na arte está nos seus valores de conjunto e de pormenor

MATERNIDADE

Precioso parece ser o adjetivo mais ajustado à presente escultura. Pra lá da sua apreciação artística resulta, sem dúvida em primeiro lugar, a dignidade do motivo que serviu de tema inspirador. A mulher que visivelmente contém no seio o filho prestes a nascer representa a expressão do mais sumptuoso esplendor da natureza. O homem provém, desta natureza, expoente máximo dos seus valores. A ela se subordina afinal, pois, é por designação expressa do Criador de todas as coisas o seu representante, em todas as expressões da vida material e espiritual. Terra úbere, cofre de afeição e carinho, fonte da vida, água que dessedenta as maiores necessidades humanas, a mulher tem, no entanto, como mãe, o seu maior papel na Natureza, tão importante que sem ela seria inexpressiva, apagada, morta...Acima deste aspecto fundamental, que terá de aceitar-se na sua mais importante síntese interpretativa, a figura é admirável no seu valor escultórico de conjunto e de pormenor.

Trata-se de espécime digno de figurar no mais qualificado museu etnográfico.

A ARTE DESNUDA A ALMA

A arte pela arte permite revelar todo o merecimento do autor.

ADOLESCENTE MACONDE

Para uma ajustada, embora rápida, apreciação desta escultura há que examina-la primeiramente no seu espeto geral e considerar em seguida os valores dos pormenores. Forma um todo escultórico notável, de linhas subtis de graciosidade e beleza.

As atitudes dos segmentos corporais constituem desenho perfeito e equilibrado. A linha dos ombros faz parte de uma cintura escapular irrepreensível e de expressiva naturalidade. Os menores cuidados do artista no traçado da cintura não prejudicam, antes parecem realçar, os valores anteriormente apontados.

FEMINILIDADE

Os motivos de inspiração na arte são os que andam de preferência no pensamento e no coração do homem.

PREDICADOS FEMININOS

Representação da estatuária Maconde numa das suas mais expressivas composições artísticas, eis como podemos classificar a figura, a que damos o título de Predicados Femininos. Trata-se de mais uma peça de museu, reveladora de alta sensibilidade artística e grande poder de observação. O cuidado posto em toda a obra é deveras significativo de carinhosa atenção para com a mulher, respeitada na sua dignidade e valorizada nos seus dons físicos naturais. Os pormenores fisionómicos são admiráveis de proporções e inconfundíveis na identificação dos caracteres femininos. O cabelo constitui moldura adequada. |As tatuagens não existem, na evolução natural civilizadora que as vai dispensando à mulher, em parte já convencida de que em nada elas valorizam a sua beleza. Envolve-lhe o corpo um pano artisticamente arrematado em dobras convenientes. Os olhos semicerrados talvez queiram traduzir um estado de hipnose.

LABOR DA MILHER

Ninguém reproduz condignamente o que não sente nem entende.

A MULHER E A VASILHA

Donaire, elegância, feminilidade são três predicados que se evidenciam nesta escultura, cujo remate inferior, a partir da estruturação da cintura,parece não corresponder ao cuidado posto nas atitudes e expressões da cabeça, rosto, busto e braços.

Paradoxalmente, a expressão artística informe da cintura, nádegas e pernas, aparentemente descuidada, parece realçar os predicados físicos inerentes à maternidade. A intenção do artista é a de fazer sobressair os valores que prenunciam a fecundidade e que interessam à procriação da tribo.

Apesar disso - particularidade que assiste em todos os trabalhos da arte maconde, o conjunto é belo e harmonioso. Esta característica é como que um selo que a distingue da dos outros povos, reveladora de particular sensibilidade na percepção humanística. Estamos em crer que é este o fundamento de distinção que caracteriza os espécimes macondes e que justifica a preferência dos colecionadores mais exigentes que avaramente as procuram.

ROTINA

São temas de inspiração permanente cenas da vida e representação de usos e costumes dos povos

A “MORINGA” DE IR Á ÁGUA

È fato da vida corrente da mulher nativa este de ir com o seu pote à água, a fim de satisfazer com ela as mais imperiosas necessidades domésticas;tarefa que exige por vezes grandes esforços de longas e demoradas caminhadas. O pote, por esta razão, quase faz parte da silhueta feminina. È a mulher que o fabrica e o decora caprichosamente, transformando-o num objeto de arte. O homem maconde sabe apreciar o seu trabalho, por isso o reproduz com freqüência nas suas esculturas.

AMOR DO PRÓXIMO

A arte é viva expressão do entendimento humano

CARIDADE

O interesse deste conjunto reside no seu valor artístico e no próprio significado de ação caritativa representada pelo transporte em padiola de um doente, incapaz de se mover. O escultor parece ter querido apenas focar os principais elementos da cena, sem se deter demasiado na figuração dos participantes. Não deixam estes de revelar, no entanto, particularidades de interesse, entre as quais as do doente, cujo corpo flectido traduz abatimento,desolação ou sofrimento. Os portadores mostram-se cautelosos,pouco apressados, como que medindo os passos do caminho. Tem mérito artístico o perfil do rosto do homem que vai na frente. Nos seus traços fisionômicos adivinham-se os que são peculiares ao maconde. Os braços do transportador da frente não amparam a padiola, a fim de facilitar o movimento, o que já não acontece ao da retaguarda. O fato é vulgar noutras levas, nomeadamente nas que são realizadas sobre a cabeça, tais como de lenha, vasilhas, etc..os braços movem-se soltos e descontraídos, sem se ocuparem do objeto transportado

MÁGICOS E CURANDEIROS

A arte é a linguagem dos espíritos sensíveis.

O MÁGICO E O LEÃO

O falecimento de alguém do clã exige um comportamento especial por parte dos familiares durante as cerimônias fúnebres, sob pena do morto deixar de fazer parte do mundo das sombras ou do mundo invisível. O castigo atinge a família e o clã. Na figura de um leão mítico ou de qualquer outra fera, poder-se-à encarnar a sombra ou alma desse morto, desviado da sua rota normal para o mundo das sombras e que, por isso, se vinga de quem não cumpriu o rito tradicional. Não obstante o castigo, o curandeiro interfere a favor da vitima.

A composição tem mérito escultórico. È interessante assinalar as pequenas dimensões do homem que vai ser vítima do leão, em proporção com as das restantes figuras. São manifestamente diminuídas talvez para simbolizar melhor o valor das suas culpas, das quais provém o castigo que vai ter. Pelo contrário, a autoridade do mágico avulta em expressivo tamanho, correspondente. O Leão é representado com todos os seus valores mais notáveis. A força e o vigor, adivinham-se na forte compleição do tronco e dos membros, na juba farta e no poder dos maxilares que suportam todo o peso da presa. O propósito do mágico é revelado pela sua atitude firme e decidida: rosto e braço erguidos para o leão, como a querer detê-lo. A vítima parece resignada ou simplesmente manietada pelo medo de que dela se apossou. O Homem, prestes a ser tragado pelo rei dos animais, representa um fato que não é raro na vida da selva. A interferência do mágico em querer salva-lo está no espírito fraterno do nativo, que sem deixar de atribuir ao acontecimento forte razão do destino, é o único que tem a autoridade para interferir e modificar aquele

TERNURA MATERNA

A existência só é bem vivida no contato freqüente com o mundo espiritual.

MINÚCIA E PORMENOR

È deveras notável presente trabalho de talha feito de um só bloco de madeira.A minúcia e o pormenor valoriza-o extraordinariamente. O conjunto é admirável de sensibilidade artística, revela grande poder de observação e conhecimento dos hábitos das aves. Constitui, por isso, uma escultura de exceção, que é mais um teste das grandes possibilidades escultóricas macondes

VALORES ESCULTÓRICOS

A linguagem da arte não tem nacionalidade, para a entender basta possuir o sentido humano.

A REALIDADE A PAR DA CONCEPÇÃO ARTÍSTICA

A representação dos animais, que vivem na selva, revela ajustadas proporções nas suas posições habituais, escolhidas entre as mais expressivas. Há belos pormenores de grande interesse que só profunda observação identificaria. O trabalho de talha, que é sempre feito no mesmo bloco de madeira, terá de ser concebido prevendo todo o conjunto e pormenor. A realidade dá as mãos à fantasia do artista numa ajustada e perfeita harmonia de valores.

O GIGANTE DA FLORESTA

A arte sabe exprimir com eloqüência o mais alto grau da compreensão e do espírito humanos.

ELEFANTE

Nem por ser banal a escultura fica por isso diminuída, relativamente às outras, que a arte maconde nos apresenta. As linhas do animal são traçadas com certa largueza, sem o pormenor costumado, o que de certo modo lhe diminui o valor. O conjunto, no entanto, é harmônico, de concepção singela, mas atraente.

ANIMAIS DA SELVA

Aquilo que mais impressiona ao homem a arte o pode traduzir.

REI DOS ANIMAIS

A representação é fidedigna, o seu valor artístico, indiscutível. O maior certame de escultura não a desdenharia. Simples na imitação das atitudes naturais do animal é igualmente impar nas proporções, donaire e beleza de todo que nele se retrata. Musculoso e ágil, mas também destemido e feroz, o rei da selva foi traduzido pelo artista em poucos mas felizes traços escultóricos. O maconde trabalha com facilidade o marfim, realizando obras de grande mérito. Não admira que aqui acrescente o marfim para maior beleza do trabalho e realce da figuração dos olhos e das presas do leão.

APOLOGIA DA CAÇA

Apreciar a arte é amar a Natureza que ela representa.

CAÇADOR

A figura é rica de elementos venatórios tais como arco, flechas, facas,lanças, etc.. A indumentária é simples, mas escultóricamente bem trabalhada. O jovem caçador é representado por um belo espécime maconde com seus traços fisionômicos bem característicos, tatuagens, cabeleira, penteado, etc.. è neste particular que a escultura mais se valoriza. Todo o conjunto é singularmente atraente e valioso.

È corrente entre os trabalhos artísticos macondes, ver representar as figuras humanas com as pernas semi-flectidas. O fato parece corresponder ao culto da terra, cuja expressão encontramos igualmente em dimensões dos pés, e na semelhança destes com as patas do leão (totemismo). A presente figura mostra uma evolução da antiga arte, na medida em que desaparece a grande pata do leão para ser substituída pela peanha.

RESPEITO DA MATURIDADE

Quando a vida nos reserva angústias e dores, a arte, que as traduz, alivia-nos do seu peso.

O HOMEM DO BORDÃO

Cada escultura na arte maconde é como que um retrato da vida nativa, quer se trate de simples atos quotidianos ou de certa importância, como sucede na representação de cenas do característico folclore dos macondes, da caça, das iniciações da puberdade, da tatuagem, etc..A escultura mostra-nos um maconde utilizando um bordão para os acidentes do caminho ou para defesa contra qualquer possível ataque de animal da selva. Tem aspetos dignos de menção a parte escultórica da cabeça, os pormenores do rosto e a posição dos braços e das mãos. Nem tudo parece ter merecido ao artista a mesma atenção, talvez por não estar em causa a sua representação figurativa. O merecimento do conjunto não é afetado, porém, pois tudo se harmoniza, de forma atraente e artística. A escultura maconde vem, infelizmente, rareando de ano para ano. Os escultores passaram a produzir em série logo que viram a sua apurada arte transformada em simples artigo de comércio. A qualidade deu lugar à quantidade. Pra o etnógrafo ou apenas para o colecionador consciente havia que relacionar, entre os numerosos espécimes, os que possuíram verdadeiro cunho de arte.

USOS E COSTUMES

As necessidades e preocupações que nos assistem permanentemente são o mundo em que vivemos.

FUMADOR DE RURUMA OU BÂNGUE

A atitude geral das várias partes do corpo é expressiva de naturalidade. A escultura é um exemplo de concepção harmoniosa e equilibrada. Os pormenores são assinalados no que mais interessa realçar. As tatuagens do rosto, o corte do cabelo, a feição do penteado, bem como as mãos, a posição da cabeça, do pescoço, a fisionomia, o traçado da boca, das linhas do queixo, etc, são de grande meticulosidade.

Mas há também aspectos conceptivos impressionistas, como os que se verificam nas proporções dos pés, peculiares, de resto, na moderna arte ocidental de numerosos e conceituados artistas. Os pés, que percorrem grandes distâncias em contato direto com as asperezas dos caminhos, atingem por vezes desenvolvimento desmesurado, formas deselegantes e imprecisas. Por isso o impressionismo os cria de grandes dimensões e um tanto amorfos.Toda a posição do fumador é impressionante.

ESMEROS FISIONÒMICOS

Todo o homem anseia por deixar de si algo de bom que o lembre após a morte.

MASCULINIDADE

De linhas regulares quês perfeitas, em todo os pormenores fisionômicos, esta cabeça de homem não esconde a sua masculinidade, na energia do talho do rosto, olhos, boca, nariz e maxilares. A escultura, não obstante, é um tanto estilizada pela regularidade destas linhas, o que não deixa de observar-se algumas vezes em certos tipos étnicos do povo maconde.

TATUAGENS MACONDES

Aquele que é insensível a manifestações artísticas vive no mais acanhado dos mundos materiais. 

CABEÇA DE MACONDE

O vigor dos traços fisionômicos é fielmente retratado nesta escultura, onde nada parece faltar para uma identidade completa do homem maconde. A perfeição das linhas do rosto atinge neste fidelidade belas expressões físicas, que vão para além da forma, pois permite avaliar as suas características psíquicas. São traços que traduzem determinação, firmeza na vontade, austeridade de vida, coragem e muitos outros predicados morais. A barba acrescenta algo de confirmativo à observação, mas é dispensável para a completa expressividade de tão vigorosa fisionomia.

DIGNIDADE E COMPUSTURA

O sublime no sensível tem ajustada representação na arte.

ESPÈCIMES DE UMA ARTE QUE SE IMPÕE À NOSSA ADMIRAÇÃO

A arte ocidental que pretendesse apresentar pela escultura a cabeça de Cristo ou da madona não a conceberia de forma mais digna, austera e bela.  Da realidade do fato há que concluir: Quando a sensibilidade de um povo cria artistas assim, só há que manifestar-lhes a nossa admiração e respeito. O botão de metal branco que se v~e na asa esquerda do nariz, que é um botoque, designado pelos nativos por Ncháhe – assim o afirma o etnógrafo, Prof.Jorge |Dias – è peculiar nas mulheres que, vivendo com os macondes, são de origem macua ou Angóne.

SUMPTUOSIDADE ARTÍSTICA

A arte revela o alto poder de captação dos sentidos.

SÍMBOLO DE ALTA

A austeridade na arte não diminui os valores que no mais alto grau a representam, pelo contrário, patenteia o que de mais importante nela existe. A Cabeça é a parte mais nobre do corpo humano.A fronte, as linhas gerais do rosto, a expressão dos olhos, o perfil do nariz, o recorte da boca, a comissura dos lábios, são índices do caráter, porque não dize-lo, da própria identidade da alma. O autor das esculturas parece estar ciente disso.E não satisfeito com o cuidado meticuloso com que operou, juntou-lhe convincente moldura. A dignidade foi atingida na alta expressão dos valores fisionômicos através de uma austeridade sumptuosa, de concepção inigualável.

PARALELISMO DE CONCEPÇÃO NA ARTE NATIVA CRISTÃ

A inspiração artística é sempre uma chama viva que conduz o homem para o mundo espiritual.

INFLUÊNCIA

Há paralelismo no tratamento e desenvolvimento dos motivos escultóricos que serviram de inspiração às imagens da Virgem,aqui reproduzidas. Embora de origem inteiramente diferentes, dir-se-iam realizados pelo mesmo artista. Uma, a da esquerda é maconde, a outra Iacoane, ( da região situada entre Mocuba e Mugeba). A analogia está certamente na identidade do tema tratado. Mas , para lá deste fato, verifica-se a mesma e comum austeridade de concepção e expressiva dignidade, traduzidas nas da Fé. A distingui-las há porém a estilização da escultura iacoane, menos espontâneo e original e mais clássica. Àquela identidade não é estranha, como é obvio, a influência missionária sobre os artistas.

PRESENÇA CRISTÃ

Viver da arte é viver do espírito. A Arte e a Religião andam de mãos dadas.Ambas são filhas do espírito.

MOTIVOS CRISTÃOS

A arte estatuária maconde é uma das mais expressivas e puras manifestações da visa, hábitos, predileções e sentimentos deste povo nativo. È exteriorização objetiva e exuberante, ao mesmo tempo simples e bela. Contrasta com a de muitos dos povos civilizados, eivada de cansaço, que só a falta do gênio artístico justifica.

DIGNIFICAÇÃO DO TRABALHO

A arte é a herança viva do espírito do artista.

CARREGADOR DO PLANALTO

Os diferentes elementos desta escultura não apresentam correspondência nos seus pormenores figurativos. Dificilmente poderiam ser melhores no que respeita ao talhe da cabeça, à apresentação fisionômica a às posições de atitude dos braços e das mãos. Não obstante, há certo primitivismo nas restantes partes do corpo. Merece interesse o exame do avanço dos ombros e dos braços, compensado pela ligeira flexão das pernas para a manutenção do equilíbrio do corpo., fenômenos que se verificam no transporte de objetos pesados. A flexão das pernas, que é uma atitude normal representada na estatuaria maconde , parece relacionar-se com o simbolismo totêmico. Os suspensórios utilizados no transporte e a espécie de saiote que envolve as pernas mereceram ao artista certa meticulosidade.. O valor escultórico do conjunto não deixa porém de ser notável e atraente.


Estas peças estavam no MUSEU ETNOGRÀFICO DE NAMPULA.

O museu de Nampula continha interessantes documentos que testemunhavam muitos aspectos da vida e costumes dos nativos que vivem em Moçambique. A sua Etnografia era representada, especialmente, pela estatuária maconde. Eram numerosos os objetos artísticos que neste museu se encontravam de pura inspiração nativa, poucos sendo os que resultavam da influencia da arte islâmica ou cristã. Era rica a coleção de corais e de conchas. O Conjunto, pela qualidade e quantidade, constituía um dos seus mais valiosos patrimônios. NEUTEL de ABREU, o herói de Nampula e de muitas outras façanhas gloriosas, tinha aqui recordações que bem patentiavam o apreço dos Portugueses pelas suas inesquecíveis ações. O museu foi inaugurado pelo Presidente Craveiro Lopes. Existia em edifício próprio de características monumentais. Queira Deus que esta coleção tenha permanecido no museu.

Uma iniciativa de projeção científica Internacional.

Comandante Ferreira de Almeida, antigo governador do Distrito de Moçambique e fundador do Museu Etnográfico de Nampula.


Fontes: A arte em Moçambique - Alberto F.M.Pereira - 1966
In - "Moçambique Arquivo Vivo" - grupo do MSN criado-gerido por J. M. Mesquitela & Amigos, dinâmico e em constante atualização, que merece ser visitado.
® http://groups.msn.com/mocambiquearquivovivo ¬

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                                                                        O PAU-PRETO

Dizem os especialistas que a origem da escultura em madeira, tradicional do povo maconde, originário do planalto situado em Mueda, a norte da província de Cabo Delgado, perde-se na noite dos tempos.

Os macondes atribuem a origem da humanidade ao primeiro Pai que talhou uma figura em madeira para lhe fazer companhia. O Sol deu vida a esta figura e assim surgiu a primeira Mãe.

Das antigas figuras femininas usadas com fins rituais e dos instrumentos e utensílios domésticos em pau-preto, artistas macondes em Moçambique e na Tanzania evoluiram para a representação do seu quotidiano ou dos seus mitos e crenças. Nos anos 60 o seu trabalho começou a chamar a atenção de estudiosos e a ser apreciado internacionalmente como uma forma original de Arte: a Arte Maconde. E a madeira que habitualmente está ligada à arte maconde é o pau-preto.

O pau-preto pode não ser exactamente o Ébano, mas confunde-se com este. O seu nome nas línguas de Cabo Delgado é "mpingo". O nome científico é Dalbergia melanoxylon.

A floresta de pau-preto existia em quase toda a Africa a sul do Saara mas tem vindo a diminuir substancialmente. As maiores reservas de pau-preto existem hoje em Moçambique e na vizinha Tanzania. Em Moçambique esta espécie ocorre no Niassa, Zambézia e Nampula. Mas a maior reserva está sem dúvida na província de Cabo Delgado.

O inventário nacional de 1994 estima que, da área total de floresta de Cabo Delgado - 2 945 382 hectares - 3% é constituida por Pau-preto. O volume seriam 200 000 metros cúbicos de madeira com diâmetros acima dos 25 centímetros. A árvore é de pequeno porte, com uma altura de 5 a 7 metros.

A árvore do pau-preto tem uma extraordinária importância em África, e em particular em Moçambique, do ponto de vista ecológico, cultural e económico. Produz a madeira que é provávelmente a mais cara do mundo. O seu preço é de cerca de 700 dólares americanos por tonelada.

Há quatro empresas de corte e exportação de pau-preto em Cabo Delgado. Destas, apenas duas fazem algum processamento da madeira antes de a exportar.

Destino do Pau-preto

Parte do Pau-preto cortado nas florestas moçambicanas é consumido internamente: abastece as coopeartivas de artesãos que fabricam peças, de maior ou menos valor artístico, para venda nos mercados informais ou lojas da especilidade, ou para exportação.

A rentabilidade deste artesanato e o seu rendimento para o país, está dependente da afluência de turistas. Este facto deve ser tido em conta quando se pensa por exemplo numa indústria de turismo em Cabo Delgado: para além do mar e das praias, o povo maconde e a sua arte podem ser outro atractivo turistico. Por sua vez a afluência de turistas é a única via para rentabilizar económicamente o mercado de arte e artesanato típico de Cabo Delgado.

Diz a Engenheira florestal Lidia de Brito, da UEM, cujo trabalho temos vindo a citar aqui, que "infelizmente o processamento industrial desta espécie é limitado. Assim a indústria florestal tem dado emprego a trabalhadores não especializados, nas áreas rurais onde ela se encontra. O capital produzido não é reinvestido nas comunidades locais. Isto significa que não se está a utilizar a potencialidade que a indústria florestal tem de servir como um foco de desenvolvimento rural".

Assim, o maior processamento da madeira de Pau-preto que se faz em Mocambique é através da indústria do artesanato. E entretanto, ainda segundo Lidia de Brito, "o exemplo desta situacão é o facto de dois dos distritos mais pobres de Mocambique serem Muanza (Provincia de Sofala) e Meluco (Província de Cabo Delgado), que são ambos distritos ricos em recursos florestais".

A exportacão do Pau-preto é essencialmente feita em toros, para a Europa, particularmente Alemanha e Espanha. A exportacão de Pau-preto atingiu o seu máximo entre 1984 e 1988, com cerca de 1000 toneladas ao ano. Mas a partir de 1989 foram introduzidas cotas restritivas e a média at’e 1992 passou a ser de 750 toneladas/ano. O trabalho que temos vindo a citar assinala que, a partir de 1992 a tendência parece ser de subir outra vez.

Há apenas 4 empresas autorizadas a explorar e processar Pau-preto em Cabo Delgado: a Mpingo e a Mbau, ambas em Montepuez, que exploram e processam, a Mahate, a 6 Km de Pemba que pertence à SOCIMO e tem v’arias zonas de corte na provincia e a Miti que explora em Moja e Mocímboa da Praia. Estas duas exportam a madeira em toros.

O controlo internacional

Esta espécie florestal, tão nobre e valiosa, está a tornar-se rara em Africa. Isso faz com que se desenhe no horizonte uma press~ao dos organismos internacionais para a colocar na lista das espécies protegidas, no âmbito da convencão internacional CITES (sobre o Comércio de Espécies Ameacadas de Extincão). Mocambique é subscritor desta Convencão, o que faz com que ela tenha valor de lei. Se a CITES determinar que o Pau-preto é uma espécie protegida, isso pode levar `a proibicão do seu corte e comercializacão, ou a fortes restricões.

Para evitar medidas drásticas internacionais, parece lógico que dentro do país se reforcem as medidas de controlo e proteccão, promovendo uma exploracão racional da floresta de Pau-preto. Segundo o inventário do Centro de Estudos Florestais, CEF, ela está em já em estado de degradacão em algumas áreas de Cabo Delgado.

"A solucão será um trabalho de pesquisa aplicada junto aos operadores florestais desta espécie, de forma a iniciar um programa de maneio sustentàvel, com a continuacão dos estudos de silvicultura iniciados no Niassa e em Cabo Delgado. Ao assegurar o seu uso sustentàvel, a situacão do Pau-preto podia ser revertida. Uma floresta que seja manejada de forma sustentàvel pode ser pedir a certificacão do maneio sustentàvel. Esta certificação é feita por agências credenciadas internacionalmente e pode conduzir à introdução do Selo Verde. Isto teria um efeito benéfico no preco desta espécie no mercado internacional e diminuiria o risco de ser banido o seu comércio. Esta questão é especialmente importante para o Pau-preto que é vendido na Alemanha, onde os consumidores de produtos florestais são sensíveis a questões de protecção ambiental e maneio sustentàvel das florestas tropicais e sub-tropicais. (Lídia de Brito)

Flagelo das queimadas

A ameaça mais série à floresta de Pau-preto, em Cabo Delgado, são as queimadas descontroladas.

As queimadas destróiem as árvores jovens e impedem a regeneração natural da espécie.

Mas danificam também as árvores adultas diminuindo a sua qualidade.

Uma das tragédias de Moçambique e da província de Cabo Delgado, é que ao lado da árvore mais valiosa do mundo vive a população mais pobre do mundo.

Um dos dois distritos mais pobres de Moçambique é Meluco, em Cabo Delgado. E Meluco é um dos distritos mais ricos em recursos florestais. É esta população que deve ser informada sobre a riqueza que tem na terra que é sua e sobre a maneira de proteger o que a Natureza colocou a seu lado, contra a destruição.

E a exploração sustentada da floresta tem de prever, em primeiro lugar, o benefício das comunidades locais onde ela está.

In http://www.micoa.gov.mz/MICOA/ambiente/mozambie/num29/paupreto.htm - Colaboração de Armando Silva

-No meu tempo as mulheres que não faziam tatuagem na cara não eram mulheres- (Reinata Sadimba),-mas agora se alguém fizer isso eu bato!

-A tatuagem “dinembo” ocupa a face. Circula-a, marca-a; A “ndona” (furo do lábio e da língua), afirma-a definitivamente. “Ninguém pode dizer que sou macua ou jauá”, (Reinata Sadimba)

A divulgação de Moçambique, de Cabo Delgado, de Pemba, de seu povo, de sua arte e cultura, de suas tradições e história é necessidade e dever de quem preza e vive Moçambique. Por isso agradecemos a:

Frank Arroni Ntaluma - Professor de escultura :

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Escola de escultura :

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