POESIA
A TEIA
Construí
uma teia
passo
a passo,
fio
a fio,
para
prender o rocio,
coar
os raios do sol,
vestir
de manto invisível
a
nudez da minha alma.
Atei-a
a fortes pilares
por
ténues fios de esperança.
Veio
a chuva miudinha
do
dia a dia perverso,
veio
o vento de rajada….
E
eu na teia protegida,
a
olhar, à volta, o mundo.
Mas
veio o sol inclemente
com
seu intenso calor.
E
na teia ressequida,
à
míngua, estiolada,
sucumbi….
QUE LOUCURA
Que loucura é a vida!
Turbilhão
de sensações,
de
existências
que
se estiolam
lentas,
em
inerte engano.
Vidas
tão cinzentas!
Os sonhos desfeitos dia a dia,
a
renascer límpidos
na
mesma utopia.
Que
loucura é a vida!
Onde
estamos nós?
Somos
ou não somos?
Alacres
gnomos,
nesta
imensidão,
cada
vez mais sós.
Nos
abstraímos.
Vivemos?
Não. Só existimos!
ESTAS NOITES
Estas noites
são noites de lua cheia,
de onda mansa,
maresia
e
passeios de mãos dadas
junto ao mar.
Noites de suave enleio!
Silêncio branco da neve
a recortar a montanha,
lobos, sozinhos, com cio
A cantarem ao luar,
noites de espaço aberto
vento
frio
e de lume na lareira,
café quente,
a manta a cobrir-me
o corpo
lânguido, sem canseira.
Noites de doce magia,
sonhos em asas de águia
e em voos de condor.
Gotas de fantasia
a vestirem-me o torpor.
O tempo a correr veloz.
Enleamos os segredos
em risadas cristalinas
envoltas em neblinas
dos nossos privados medos.
E nesse encantamento
somos, por um momento,
mais nós.
Não posso amar-te!
Mas és sol
do meu pensamento,
em
ti a cada momento.
Lua das frias noites,
abraço na minha solidão
de todos acompanhada,
sem norte, sem sul,
sem nada,
básicos seres
nesta imensidão
sem fim.
Meu ser no teu absorto,
ali, em êxtase, subjugado,
à espera, num soluço,
do teu beijo desejado.
Não! Não quero amar-te!
Mas a minha fantasia
segue os teus passos
no cumprir do dia a dia,
despe-te a roupa
bebe-te o prazer,
lambe-te o beijo,
colhe-te o abraço
como um pedaço
de
mim!!
A VIDA PAROU
O sol brilha cálido
lá fora.
Hoje
não o sinto!
Está tão distante
o velho que lê o jornal
junto ao quiosque.
A vida parou ontem.
Exactamente àquela hora.
Hoje é o vazio
e apesar do sol
está frio.
Vejo os outros,
longínquos,
a fruir a vida
sem tempo.
Eu estou dentro de mim,
com uma réstia de ti
no sentimento,
o teu olhar
no pensamento,
a tua imagem,
esbatida,
a cortar-me a ligação
com a vida..
CAVALGAMOS O SONHO
Espelhos de sol
no mar
a cobrir-me de um torpor
de acordar.
Tua força a desfazer
barreiras,
onda a voar
de espuma,
vento a varrer
o pensamento
no despertar
de um momento,
a preencher
sem razão alguma.
Ancorados
em coisa nenhuma
comungamos o tempo,
possuímos o infinito
com a intensidade
de um grito,
cavalgamos o sonho,
preso em nossa mão,
com a simplicidade
de um sim,
sem a amargura
de um não.
Bebemo-nos
sem esperas,
sem futuro
nem passado,
num misterioso
sonhar
deliciosamente
acordado.
NÃO DIGAS!
Não digas isso!
Não quero ouvir-te!
Mas procuro a tua verdade
mesmo queimando.
Chumbo derretido
cada palavra tua.
Vagas de dor
a cobrir-me por inteiro,
o interior esvaído,
a vida sem cor,
as lágrimas a molhar
o esforço derradeiro
de entender
aceitar,
dar-te
um resto de
mim.
E a mágoa,
esta mágoa imensa
a crescer,
a rasgar-me,
a possuir-me
numa agonia
sem fim.